sábado, 27 de agosto de 2016

Programa Ensaio (MPB Especial) / TV Cultura - Por Luiz Domingues



Recentemente (abril de 2016), o produtor de TV, Fernando Faro faleceu e causou comoção no meio.


Figura muito importante, foi criador de uma série de programas em diversas emissoras da TV brasileira, desde os anos sessenta, e não era talentoso apenas como produtor, mas foi um grande redator, graças à um talento ímpar para escrever.
Falo sobre uma de suas criações, e que extrapolando as  fronteiras de uma simples atração televisiva, é considerado um marco e para muitos, tem o peso de uma verdadeira enciclopédia para a Música Popular Brasileira.
Refiro-me ao programa “Ensaio”, que desde 1969, retratou a arte de centenas de compositores, cantores e instrumentistas da MPB de todas as vertentes imagináveis.


Digo isso, pelo volume impressionante de artistas que passaram por tal atração televisiva, mas sobretudo pela qualidade desse elenco.
Fernando Faro o concebeu para ser um misto de entrevista e apresentação do artista enfocado, mas com características muito peculiares.


Para início de conversa, utilizando um enquadramento de câmeras muito intimista, usando bastante close-up. Com isso, sua intenção era retratar o artista de uma forma muito íntima, buscando o máximo de sua expressividade natural, suas nuances faciais e até o suor a lhe escorrer pelas  têmporas  durante sua performance musical.


Se fosse um instrumentista, além disso, os movimentos das mãos a tocar, também como elemento “verdade” nessa equação.
O uso de pouca luz, estourando contraste e explorando sombreamentos, também fazia do programa algo muito particular a explorar a imagem do artista nua e crua, sem artificialismos.


Sobre as entrevistas, a ideia era manter a mesma postura de enquadramento, fazendo com que o foco nunca saísse do artista, mesmo quando ficava em silêncio, ouvindo a pergunta do interlocutor.
Para realçar tal efeito, o entrevistador (geralmente o próprio Fernando Faro), ficava inteiramente  fora de foco, e sua voz não era ouvida com clareza pelo público, pois seu microfone era diminuído na edição de áudio do programa, de forma proposital, e com isso, a impressão que se passava ao telespectador era que o artista falava de sua carreira; obra e assuntos paralelos, de uma forma muito espontânea, como se estivesse falando sozinho, pensando alto...


Tal característica deu ao programa um caráter quase didático, daí a importância que ganhou ao longo dos anos, ao ponto de tornar-se uma referência para estudiosos de diversas áreas, buscando em suas edições, informações sobre os artistas retratados, com a força de um documento muito rico.


Sobre o programa em si, ele foi criado em 1969, e colocado no ar inicialmente na TV Tupi de São Paulo, onde Fernando Faro estava na ocasião, e lá ficou até 1971.
Mas em 1972, Fernando transferiu-se para a TV Cultura e levou seu programa para ser exibido ali, porém enfrentou um problema. Como a TV Tupi havia registrado o nome “Ensaio”, ele foi obrigado a rebatizá-lo, com o título de “MPB Especial”.


E assim foi sendo exibido e arregimentando muitos fãs, apesar da audiência modesta da TV Cultura em relação à concorrência das emissoras comerciais e detentoras de orçamentos muitíssimo maiores.


Nessa fase na TV Cultura, o MPB Especial durou até 1975.


Somente quando a TV Tupi decretou falência e saiu do ar, em 1980, Fernando pode recuperar o nome “Ensaio”, novamente mas só a partir de 1990, o colocou no ar novamente com seu nome original, na TV Cultura, usando-o doravante, até os dias atuais.
Ali, desfilaram nomes de diversas vertentes da MPB. Muitos já partiram para o “lado de lá”, inclusive.


Em alguns casos, artistas que não alcançaram popularidade muito grande, tiveram em suas participações  no “Ensaio”, oportunidade única de terem um material registrando um pouco de sua obra em vídeo.
Veja acima a edição do programa Ensaio, com Elis Regina, em 1973

Muitas edições se tornaram icônicas, caso da participação de Elis Regina em 1973, por exemplo.


Mas a lista é gigantesca e entre o Ensaio e o MPB Especial, que é a mesma coisa com outro nome, muitas edições se tornaram históricas.
Muitas delas estão disponíveis no You Tube, e enumerá-las todas produziria um arrolamento enorme.  


Só para citar alguns : Adoniram Barbosa; Demônios da Garôa; Geraldo Filme; Paulinho da Viola; Clementina de Jesus; Cartola; Gonzaguinha; Raimundo Fagner; Caetano Veloso; Gilberto Gil etc etc etc
Entre tantas criações geniais do Fernando Faro, e a maioria delas ligadas à música, creio que o “Ensaio” foi sem dúvida uma das principais.
Seu legado tem peso enciclopédico para a MPB. A intenção do título “Ensaio” era retratar o artista de forma despojada, quase como se num ensaio propriamente dito.


Mas ouso dizer que ganhou uma conotação extra, no outro sentido da própria palavra, ou seja, trata-se de um verdadeiro “ensaio”, no sentido que lhe é atribuído no dicionário como : “atribuição crítica sobre as propriedades, a qualidade ou a maneira de usar algo; teste, experimento.  Ensaio é um texto literário breve, situado entre o poético e o didático, expondo ideias, críticas e reflexões éticas e filosóficas a respeito de certo tema. É menos formal e mais flexível 
que o tratado”...


Pois é, Faro legou-nos um “ensaio” sobre a MPB, para não dizer que foi um “tratado”...
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, em 2016.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A Hard Day's Night, o Filme - Por Luiz Domingues



Em 1963, os Beatles estavam a todo vapor usufruindo de sua fama que mal dava seus primeiros passos, mas já demonstrava que seria algo fora do comum.


Por volta de outubro desse ano, uma proposta, em meio a tantas outras esfuziantes, chegou à mesa de seu empresário, o astuto Brian Epstein, e veio a calhar para estimular ainda mais o sucesso da banda. Era da parte do famoso estúdio de cinema, United Artists, dos Estados Unidos, propondo a produção de um filme com os rapazes.
                      O empresário dos Beatles, Brian Epstein

Isso aconteceu quatro meses antes da 1ª excursão que Epstein estava programando para os rapazes na América, além da aparição que estava sendo agendada no programa de variedades de Ed Sullivan, um comunicador norteamericano mega popular, cuja audiência era mastodôntica, assistido por milhões de famílias naquele país, todos os domingos.


Sendo assim, se o Reino Unido já vivia a histeria da Beatlemania e isso estava espalhando-se rapidamente pelo restante da Europa, com tais ações sendo marcadas na América, faltava um triz para a banda estourar mundialmente, e de fato, foi o que ocorreu a seguir.
Claro que Epstein aceitou a proposta e rapidamente a produção foi sendo alinhavada a toque de caixa.


Há de se considerar que viviam a loucura das turnês exaustivas, nadando de braçada no sucesso em clima de avalanche e o tempo todo intercalando a maratona de shows e viagens, com os trabalhos de estúdio, visto que naqueles primeiros instantes lançavam músicas novas a cada dois ou três meses, visto ser estratégia das gravadoras na época, lançar singles sistematicamente entre os LP’s oficiais, alimentando o mercado sempre com novidades, além de manter a banda na briga pelos “charts” (paradas de sucessos), das músicas mais executadas nas rádios e discos mais vendidos.
Mas jovens que eram, acumular filmagens em meio à esse frenesi, não era nada demais e assim, a nova missão estava aceita.

Sobre a produção, a United Artists sabia que lidava com artistas britânicos e a dinâmica tinha que ser outra, diferente do espírito yankee. Foram sábios portanto, a reunir produtores associados e escolher um diretor acostumado a lidar com a fleuma britânica.


Para início de conversa, havia um representante da United Artists para o Reino Unido, chamado George Orstein, que rapidamente incumbiu o produtor Walter Shenson de encabeçar o trabalho. Shenson era bastante experiente em fazer essa ponte entre britânicos e norteamericanos, tendo vendido anteriormente produções do Reino Unido à América.
O diretor norteamericano, mas muito atuante na Inglaterra nas décadas de 1950 e 1960, Richard Lester

Foi Shenson inclusive que abordou e negociou com o empresário dos Beatles, Epstein, e inteligentemente deu espaço para que este e os próprios componentes da banda pudessem opinar sobre a produção e até sugerir nomes para compor a equipe de trabalho.

Foi aí que chegou-se ao nome de Richard Lester, um diretor norteamericano, mas que já estava radicado na Inglaterra desde a metade dos anos cinquenta e havia feito vários trabalhos na terra da Rainha.


Por que Lester ? 


Os quatro Beatles adoravam uma série de TV, cujo diretor era Lester e que se chamava “The Goon Show”, que era uma comédia tipicamente britânica, com humor sarcástico e que tinha entre seus protagonistas, o genial Peter Sellers. Tal programa era na verdade uma adaptação do que já faziam no rádio, portanto, era mega popular na Inglaterra, há muitos anos.

O elenco de comediantes do programa The Goon Show, que migrou da Rádio (BBC), para a TV. Peter Sellers é o que está na parte de cima da foto
 
John Lennon, principalmente, adorava os “Goonies” e muito do seu temperamento ácido, com humor sarcástico, tinha muito a ver com o tipo de humor que ali se praticava, aliás, tipo de humor bem britânico. Para muitos críticos, os “Goonies” são pais do Monty Phyton, a genial trupe de humor britânica que explodiria no final dos anos sessenta.
Enfim, Lennon e seus companheiros curtiram a ideia de ter Richard Lester na direção e assim ele foi contratado.


Outra figura chave nessa produção, foi Alun Owen, que tornou-se o roteirista do filme. Epstein e os rapazes também o sugeriram por sua fama de conhecer bem o espírito britânico e especificamente a alma de Liverpool, cidade deles.


Filmes com astros do Rock ou com motivações Rockers, não eram novidade em 1963/1964, mas havia a preocupação em não copiar o modelo, principalmente dos filmes de Elvis Presley, visto serem motivações completamente diferentes e um fato era cabal, Elvis havia adquirido com a prática, traquejo de ator e os quatro Beatles nem cogitavam tentar aventurar-se nesse campo.


Portanto, surgiu a ideia de fazer um filme que fosse camuflado como documentário, misturando ficção, com atores de apoio e ao mesmo tempo retratando a rotina dos artistas, em meio aos seus compromissos habituais com gravações, shows ao vivo e intervenções de divulgação, notadamente programas de TV.
Outra questão importante, explorar ao máximo a histeria que se formava ao redor dos rapazes, não só retratando a Beatlemania pelo seu aspecto positivo do sucesso galopante, mas também o lado ruim disso, com o aspecto humano sendo sacrificado, visto que não podiam mais andar na rua livremente, sem que houvesse uma convulsão frenética por conta de fãs ensandecidas, sendo uma espécie de preço caro que a fama lhes cobrava.


As filmagens ocorreram entre março e abril de 1964, ou seja, logo após voltarem consagrados da América e aumentando sua fama ainda mais, numa proporção inimaginável. Foram seis semanas de filmagens e intercalando com os shows que não paravam, inclusive com escala em Paris. 

Usaram os estúdios Twickenwam de Londres (onde inúmeros filmes famosos do cinema britânico foram feitos), além de locações de rua, que imagino, devem ter sido dificílimas pela questão da fama dos Beatles e já li declarações de Richard Lester dizendo que adorava aquela balburdia para trabalhar. 
Sobre o filme em si, o roteiro é bem simples. Mostra os Beatles saindo de Liverpool para Londres, usando trem, e na capital inglesa, o objetivo era a participação da banda tocando ao vivo num programa de TV. Ou seja, nada muito diferente da rotina dos rapazes, enfrentando o cotidiano massacrante de um artista em franca ascensão na carreira.


O toque de confusão a justificar o filme como metade ficção e não apenas um documentário realista, ficou calcado nas “gags” de humor perpetradas pelas situações criadas ao longo desse dia longo, que culminaria na noite dura de um dia difícil (A Hard Day’s Night)...
Portanto, a ideia dos rapazes correndo para fugir de multidões de fãs, não era nada diferente da vida normal que estavam tendo e as inúmeras situações bizarras que enfrentavam para driblar a perseguição, eram hilárias é bem verdade, mas também tratavam-se de artifícios que usavam para tal finalidade na vida real.


Dessa forma, sair e entrar em carros freneticamente para despistar as meninas tresloucadas ou usar disfarces bizarros, fazia parte da rotina na vida real deles naquele instante, mas tornaram-se ótimas ideias para se usar no filme, no melhor sentido do humor pastelão. Há quem diga que lembra o estilo de humor dos primórdios do cinema mudo e tem um certo sentido nisso.

Logo que chegam ao trem, são muitas as cenas ambientadas nas cabines, carro restaurante etc. Ali, com menos ação e mais diálogos, o efeito “Goonies” se faz presente, com piadas sarcásticas, mostrando os rapazes como jovens irreverentes, mas com uma certa altivez, um deboche a la Oscar Wilde, digamos assim.


Estão acompanhados de dois assessores, um “roadie”(para quem não sabe, “roadie” é a designação para funcionários que trabalham para artistas musicais e que cuidam de seus instrumentos e equipamentos), interpretado por Norman Rossington; e um produtor de TV, interpretado por Victor Spinneti. O ator Kenneth Haigh fez o produtor do programa onde os Beatles se apresentam ao final da película.
Paul McCartney e o ator Wilfred Bambell, que interpretou seu avô trapaceiro no filme

Mas o personagem mais maluco nesse elenco de apoio, foi o do ator, Wilfred Bambell, que fez o suposto avô de Paul McCartney, que viajou junto à banda e tratou de criar confusões múltiplas ao longo da jornada, reforçando em muito o sentido de humor no filme.
Logo no trem eles tocam, como a simular um ensaio otimizando o tempo perdido sobre os trilhos. Ali justificando o mote primordial do filme, os Beatles atacam com “I Shoud Have no Better”.
No trem, algumas fãs estão presentes, e entre elas, Patricia Boyd, conhecida pelo apelido Patty, que dois anos depois  casaria-se com George Harrison. Em sua homenagem, Harrison comporia anos depois, uma das mais lindas canções dos Beatles, “Something”.
 
Outra curiosidade nas cenas do filme, um jovem adolescente ali atuando como figurante desconhecido, se tornaria alguns anos depois, um dos bateristas mais sensacionais do Rock britânico, um certo Phil Collins, baterista do Genesis, uma das maiores bandas de Rock progressivo dos anos setenta e que também ficaria famoso nos anos oitenta, por se lançar como cantor pop em carreira solo de muito sucesso.

Confusões em quartos de hotéis; o avô de Paul McCartney “causando”em rodadas de carteados e os Beatles tocam “Don’t Bother Me”, significativo ao dizer que “não me aborreça”, quando milhões de pessoas corriam atrás deles para lhes arrancar as vestes...e também “All my Loving”. Daí em diante participam de um cocktail de “press conference”, uma das obrigações mais massacrantes que músicos tem que enfrentar quando ficam famosos, ou seja, as famosas “coletivas de imprensa”.


Nesse aspecto, Richard Lester foi esperto ao dar vazão aos sarcasmos propostos pelo roteirista Alun Owen, e num ritmo ágil e inovador para a época, editou os quatro Beatles respondendo perguntas maçantes dos jornalistas, de forma desconcertante. São famosas as frases que depois do filme, se tornaram jargões entre os Beatlemaníacos. Por exemplo, quando perguntam à George Harrison sobre como qualificaria seu corte de cabelo (e o comprimento dos cabelos era algo que chocava a sociedade da época, acostumada com o padrão militarizado dos cortes curtos para homens, desde meados do século XIX), e este lhe responde cinicamente : “Arthur”.


Outra boa, foi quando perguntam à John Lennon como ele viu os Estados Unidos e ele responde, virei à direita depois de passar a Groelândia...
E talvez a mais famosa, embora quem não seja britânico e não conheça a cultura Rocker, não a entenda plenamente. Uma repórter pergunta para Ringo Starr se ele se considerava um Mod ou um Rocker e ele responde de forma bizarra, “Sou um Mocker”, misturando os dois conceitos. Explicando rapidamente, a Inglaterra vivia o auge do movimento “Mod” naquele instante. Em linhas gerais, sem alongar-me, os Mods eram jovens ultra nacionalistas que odiavam os Rockers, a quem acusavam de serem “americanizados”. Portanto, só curtiam bandas britânicas e tinham seu modo de se vestir e portar baseados nesse nacionalismo exacerbado. 


Tocam “If I Fell” no estúdio de TV e mais confusões vão sendo geradas nos bastidores, principalmente pelo avô de Paul.
Quando soa “Can’t Buy me Love”, uma sucessão de cenas com os quatro fazendo maluquices ao ar livre, tornaram-se icônicas nos anos sessenta. Muitas bandas repetiram tal tipo de cena em promos feitos para a TV. Vistas com rigor, mostram bastante ingenuidade aos olhos atuais, mas, pensando que foram concebidas há mais de cinquenta anos atrás, dá-se o desconto devido de ser uma outra época. 

 
George Harrison é confundido com um ator nos bastidores e todos brincam com barbas postiças e figurinos que acham nos camarins, denotando uma molecagem irreverente para os padrões da época. Enquanto isso, o ardiloso “avô” de Paul acha material fotográfico da banda e passa a falsificar autógrafos dos componentes da banda, com o intuito de vendê-los mais caros do que o normal aos fãs. Ronaldo Golias na pele do personagem “Bronco Dinossauro” teria feito o mesmo, certamente.


Tocam “And I Love Her”, uma balada belíssima e sim, com uma latinidade explícita, sendo quase um bolero.
Quando chegam ao estúdio novamente, um grupo de dança ensaia uma coreografia ao som de “I’m Happy Just to Dance With You”, numa versão jazzística e orquestrada, que surpreende pela beleza. Mal haviam iniciado escalada de sucesso e já eram referência para rearranjos interessantes de suas canções por parte de outros músicos...e isso era só o começo.
Uma cena que eu adoro, é a escapada de Ringo Starr, ao se disfarçar e andar incólume pelas ruas. Chega a ser poético e ouso dizer, parecem cenas de filmes do diretor Tony Richardson, a retratar o cotidiano de personagens simples do povo, a dita classe operária, aqueles ingleses mais rudes, trabalhadores de fábricas, com sotaque cockney, vida dura e cuja única diversão além das bebedeiras, é frequentar estádios de futebol aos domingos e cantar “You’ll Never Walk Alone”, mesmo se seu time estiver perdendo o jogo.


Ringo brinca com moleques de rua, joga pedras no rio, deita e fica olhando a paisagem...caramba, um Beatle humano, igualzinho a qualquer um de nós, grande “Ringão”, nosso amigo...
Claro, a cena se prolonga e para voltar o ritmo de humor e frenesi, Ringo se mete em confusão e vai preso. Hilário o policial anotando numa caderneta as supostas esquisitices que observou no narigudo cabeludo.


Nesse ínterim, o avô de Paul é preso na mesma delegacia, acusado de vender material de propaganda da banda com falsos autógrafos, o que era verdade, visto ser um velhinho larápio.
Se achavam haver influência de filmes mudos das décadas de dez e vinte, agora isso escancara-se, com os demais Beatles invadindo a delegacia para libertar Ringo e o avô, desesperados pois estava em cima da hora para a apresentação derradeira da noite na TV, desta feita com público. Essa cena lembra muito “Comedy Capers”.
Dali em diante, os Beatles tocam várias canções e Richard Lester soube captar as expressões das fãs, quase histéricas, significando sua leitura labial a pronunciar com volúpia assustadora os nomes dos quatro membros da banda. Chega a ser impressionante notar tal frenesi que inclusive foi muito comentado por críticos na época, em resenhas publicadas nos principais jornais britânicos. No “set list” desse momento do filme, executam “Tell me Why”, If I Fell (desta vez mais eletrizada com guitarras); “I Should Have Know Better (de novo, também); She Loves You e “A Hard Day’s Night” fecha a sequência e o filme.


Gosto bastante da fotografia em PB (assinada por Gilbert Taylor), com bastante contraste. É muito “sixties”, tem a ver com o então “novo” cinema  britânico que já citei anteriormente quando falei de Tony Richardson e tem a ver também com a Nouvelle Vague francesa, sem dúvida alguma.
Falando das músicas em si, o som dessa fase dos Beatles era permeado pelo Rock’n Roll em estado bruto e com total influência do Rock cinquentista americano e daí, vinha por tabela a raiz do Blues, naturalmente. Mas havia também muita influência do R’n’B, também americanizado, além de ritmos britânicos como Jambalaya e Skiffle, bem populares nos anos cinquenta na Inglaterra e que certamente os influenciaram. Doses generosas de música Folk em geral e o cancioneiro britânico e europeu também faziam parte dessa receita, além de uma surpreendente latinidade de viés sulamericano, visto haver uma pitada de bolero nesse bolo.


E para fechar, o Pop Rock típico dessa metade de década de sessenta era chamado de “Bubblegum”, ou seja, música com refrães “pegajosos” que literalmente eram concebidas para grudarem na memória das pessoas, provocando-lhes vontade de cantarola-las, assovia-las etc. E nesse quesito, os Beatles tiveram a felicidade de criar músicas muito eficazes nessa fase inicial da carreira, ajudando a alavancar sua fama. Sem esse impulso inicial tão certeiro, talvez sem a fama que ganharam, não houvessem tido a oportunidade de ter a segunda fase na carreira, quando após 1966 tornaram-se também artistas muito mais profundos e legaram-nos uma obra mais robusta, com consistência suficiente para eternizá-los na história do Rock e da música em geral.

Sobre essa última música e que tem título homônimo ao filme, foi através de uma inspiração de Ringo Starr que surgiu a ideia primordial para a canção e creio, definiu o mote para o filme. De fato, “a noite de um dia duro” caiu como uma luva para roteirizar um filme permeado por um dia inteiro na rotina dos Beatles, e com muita ação, música e humor.
E foi providencial também, pois até surgir a canção, a ideia era que o filme se chamasse “Beatlemania”. Não teria sido uma má ideia em princípio, mas acredito que “A Hard Day’s Night caiu bem melhor, dando-lhe um sentido mais artístico e tirando o aspecto meramente documental que o outro título poderia sugerir.


Então, quando o filme foi lançado em Londres, em julho de 1964, foi um estouro tão grande, que só fez aumentar a avalanche que a banda já causava pela explosão radiofônica de suas músicas, o barulho da imprensa, a gritaria das fãs etc etc.
Seis canções foram compostas especialmente para o filme, mas para rechear o LP, outras foram inclusas, e assim, o LP “A Hard Day’s Night extrapolou a ideia de ser uma trilha de filme apenas, entrando para a discografia da banda como um álbum oficial.
O lançamento do filme foi um estrondo em Londres, com a avant première tendo a princesa Margaret na plateia.


Em Liverpool, a cidade dos rapazes, cem mil pessoas fizeram um cortejo até o aeroporto para recebê-los, além da homenagem oficial prestada pelo prefeito da cidade.


1964 e boom !! 
Os Beatles não eram mais objeto da Beatlemania só entre os jovens ingleses, mas eram fenômeno mundial consolidado e o filme foi apenas mais uma pedra de gelo a descer montanha abaixo, porque a avalanche tinha várias motivações para ter ocorrido e não uma só.

Um ano depois, e a parceria entre Beatles e Richard Lester seria feliz mais uma vez, mas essa outra história eu conto em outra resenha. 


Logo mais, falo sobre uma situação de perigo em que eles se envolveram, quando soltaram o grito de...Socorro !!