terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Almost Famous, paixão pelo Rock - Parte 2 - Por Luiz Domingues

Conforme disse na primeira parte desta matéria sobre Almost Famous, as referências ao Rock sessenta-setentista são inúmeras nesse filme.

Logo no começo, quando a irmã do personagem William Miller (Patrick Fugit), Anita Miller (Zooey Deschanel) sai de casa abruptamente, para ir morar com seu namorado, deixa ao irmãozinho sua coleção de discos de vinil. 

É muito lúdica essa cena, com o garoto manuseando as capas (uma sucessão de capas de discos clássicos que arrancavam assovios nas sessões de cinema onde o filme era exibido) e vendo o recado manuscrito dela, o aconselhando a ouvir "Tommy" do The Who com uma vela acesa e prestando atenção na história dessa ópera-Rock, que conta a saga do menino cego, surdo e mudo que enxerga a luz dentro de seu interior. E o garoto William acha efetivamente essa luz, ao se apaixonar pelo Rock.

Na cena do avião que entra em turbulência perigosamente com a banda inteira fazendo confissões uns aos outros (e as mais terríveis), o personagem Russell Hammond cantarola um trecho da música "Peggy Sue". 

Isso é uma referência mórbida ao guitarrista, cantor e compositor Buddy Holly, astro do Rock cinquentista, que morreu num trágico acidente de avião, no dia 3 de fevereiro de 1957. Nesse acidente, dois outros artistas famosos também morreram, Big Bopper e Ritchie Valens (Autor de "La Bamba"). 

Curiosamente, esse tipo de brincadeira também foi usada morbidamente pelo tecladista da banda "Mamonas Assassinas" durante uma reportagem da MTV, na véspera do acidente em que morreu, junto a seus companheiros. Cantou "Peggy Sue" ao entrar num jatinho, fazendo menção à Buddy Holly, sem imaginar que estava muito próximo do mesmo destino.

E a piada em torno das revelações bombásticas que cada membro do Stillwater fez aos demais na iminência da morte, realmente aconteceu e teria ocorrido com o The Who. É uma das mais hilárias cenas do filme.
A cena onde William Miller assiste entediado uma aula em sua High School, enquanto desenha nomes e logotipos de bandas de Rock é significativa. 

Lembro-me de ter ouvido o guitarrista Eddie Van Halen ter dito certa vez que o motivo do logo de sua banda, Van Halen, ser extremamente fácil de ser desenhado, era para que garotos pudessem desenhá-lo nos cadernos, carteiras e calças, com uma simples caneta esferográfica, pois todo mundo fazia isso nas escolas do mundo inteiro e gerava publicidade espontânea. Ele tem razão, como eu mesmo atesto ter feito isso na minha adolescência na década de setenta.

Na festa particular, onde o guitarrista ficou doido com um ácido, e subiu ao telhado se achando um "Deus Dourado"("I'm Golden God" !!), diz-se à boca pequena que isso teria ocorrido com o guitarrista do Led Zeppelin, Jimmy Page...
"Penny Lane", a groupie interpretada pela atriz Kate Hudson, realmente existiu. Ela é a mãe da atriz Liv Tyler, fruto de sua união com o vocalista do Aerosmith, Steven Tyler.

E "Penny Lane", é um apelido baseado numa música dos Beatles, com esse nome. Kate Hudson não deve ter tido nenhuma dificuldade para elaborar seu personagem, pois na vida real foi casada com o vocalista do Black Crowes, Chris Robinson e estava habituada com o camarim de uma banda de Rock setentista, visto que o Black Crowes surgiu no final dos anos oitenta , mas com a proposta de resgatar valores setentistas no Rock.

O crítico musical Lester Bangs, interpretado pelo ator Phillip Seymour Hoffman, realmente existiu e foi de fato, um dos maiores críticos de Rock dos Estados Unidos. Era polêmico e geralmente se envolvia em confusões, colecionando desafetos. Faleceu em 1982. 



Peter Frampton faz pequenas participações como ator, além de ter colaborado na trilha, tocando as partes de guitarra do personagem Russell Hammond ( Billy Crudup),tendo assessorado Cameron Crowe nas partes de shows ao vivo e ensinado o ator Billy Crudup.

Ele interpreta o empresário da banda britânica Humble Pie, onde na vida real, tocou por muitos anos, antes de partir para a carreira solo. 

Numa cena, está chegando a um hotel em New York, onde David Bowie está acabando de chegar, e causando rebuliço entre fãs que o seguiam.
 

E numa outra cena mais emblemática, ele participa de um jogo de poker, cuja aposta são as groupies do Stillwater, como se essas moças fossem suas escravas sexuais. Esse jogo realmente aconteceu e o verdadeiro empresário do Humble Pie, participou.

No filme, o jovem jornalista William Miller acompanha a turnê de uma banda fictícia ( Stillwater), mas na vida real, o jovem Cameron Crowe acompanhou o Led Zeppelin que excursionava pelos Estados Unidos em 1973, promovendo o LP Houses of the Holy e daí extraindo cenas do seu filme lançado posteriormente, The Song Remains the Same.

Um fã enlouquecido do Led Zeppelin que viaja pelo país todo seguindo a banda, aparece o tempo todo, cruzando o caminho do personagem William Miller. Esse doido realmente existiu, conforme Robert Plant teria contado à Cameron Crowe.

O Stillwater foi inventado por Cameron, absorvendo histórias de três bandas que ele adora na vida real : Led Zeppelin, Allman Brothers e Lynyrd Skynyrd.

Na cena em que Willian Miller conversa ao telefone com Lester Bangs, ele olha para a parede onde está afixado um poster do Stillwater. Essa foto promocional da banda foi tirada inspirada na contra-capa do LP duplo ao vivo, "At Fillmore East", do Allman Brothers Band. 

A personagem Penny Lane foi baseada na groupie Bebe Buel.

Assim, o vocalista do Stillwater se chama Jeff Bebe, para fazer essa referência (interpretado pelo ator Jason Lee (vários filmes, incluso com o Cameron Crowe na direção, como "Vanilla Sky", por exemplo, e famoso também pela série de TV, "My Name is Earl").

Almost Famous é um dos melhores filmes baseados no Rock, misturando várias passagens verdadeiras da biografia de diversos astros reais.

Venceu o Oscar de 2001 por melhor roteiro original e diversos outros prêmios internacionais importantes.

Tem excelente trilha, fotografia, direção de arte e figurinos. Boas interpretações de atores e um grande mérito raro no cinema, ao retratar a história pessoal do próprio diretor numa outra atividade e de forma precoce, que aliás realizou muito bem, como crítico de Rock na sua vida real.
Texto publicado com exclusividade no Blog do Juma, inicialmente em 2011.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Almost Famous, Paixão pelo Rock - Parte 1 - Por Luiz Domingues


Cameron Crowe nasceu em 1957 e quando tinha 15 anos de idade, estava arrebatado pelo Rock. 

Com um talento nato de jornalista e ótimo texto, passou a escrever resenhas de shows e lançamentos de discos para o jornal San Diego Union. Não demorou muito e estava sendo sondado pela Revista Rolling Stone, uma das maiores especializadas em música na América.

Daí, deslanchou fazendo resenhas espetaculares das maiores bandas americanas e britânicas da década de setenta, acompanhando turnês, assistindo shows e estabelecendo amizade com diversos Rock Stars.
Tanto que acabou se casando com Nancy Wilson, vocalista e guitarrista do Heart, em 1986, e se divorciando em 2010.

Mas o Rock não era sua única paixão e paralelo à carreira de crítico especializado, escrevia roteiros para cinema. 


Dessa maneira, de um roteiro seu, foi produzida a comédia "Picardias Estudantis" (Fast Times at Ridgemont High), em 1982.

Colaborando com outros projetos, foi se embrenhando no mundo do cinema e não demorou a se tornar diretor e iniciar sua carreira.

E assim, vieram seus primeiros trabalhos, "Say Anything" (Diga o que quiserem); "Singles" (Vida de Solteiro); este ambientado em Seattle na época do Grunge, e tendo o Pearl Jam verdadeiro como banda fictícia, onde o personagem de Matt Dillon fazia um Rocker, e "Jerry Maguire" (Jerry Maguire, a grande virada), onde começou sua parceria com Tom Cruise.

Mas foi em 2000, que ele resolveu contar sua própria história, como crítico de Rock precoce, aproveitando para acrescentar diversas passagens que grandes artistas haviam lhe contado em entrevistas. E dessa colcha de retalhos recheada de histórias deliciosas do Rock setentista, nasceu "Almost Famous" (Quase famosos).
O personagem William Miller (Patrick Fugit), é a representação do jovem Cameron.

Precoce, escreve artigos e resenhas para o jornal local e conhece o crítico Lester Bangs, mito do jornalismo-Rock americano.

Ele se afeiçoa ao garoto e lhe dá diversas dicas. Melhorando ainda mais sua escrita, recebe o convite inusitado do editor da Rolling Stone para acompanhar a turnê de uma banda emergente, chamada "Stillwater".


Então, faz o primeiro contato com a banda durante um concerto deles em 1973, abrindo para o Black Sabbath, numa arena lotada.
O contato de bastidores o enlouquece ainda mais, principalmente quando conhece a groupie, "Penny Lane"(Kate Hudson). 

O filme segue com a banda inicialmente não acreditando ser aquele garoto imberbe, um jornalista da revista Rolling Stone, mas finalmente aceito, passa a viajar com a banda, observando e anotando tudo.
Aí começa a grande viagem do espectador ao universo do Rock setentista, e entre passagens hilárias, outras dramáticas, viaja junto da banda "Stillwater", vendo seus sonhos; alegrias;brigas; decepções e fraquezas, sendo desveladas enquanto trabalham para chegar ao estrelato. 

À medida que a turnê segue, o jovem jornalista se vê envolto aos seus conflitos pessoais também.

Sua mãe o deixou ir sob protesto e o atormenta com telefonemas e recados contrangedores (Elaine Miller, interpretada por Frances McDormand.

O Editor da Rolling Stone não o conhece pessoalmente, e não sabe que ele é apenas um adolescente.

Nessa altura, William está apaixonado pela groupie Penny Lane, que percebe, mas ela por sua vez está se engraçando com o guitarrista do Stillwater, Russell Hammond (Billy Crudup). 

Para quem conhece a história do Rock sessenta-setentista, as referências são tantas que caberiam numa matéria a parte.

Portanto, convido-os a lerem a segunda parte desta matéria sobre Almost Famous, onde falo exclusivamente dessas particularidades.

Encerrando, digo que o filme teve uma direção de arte brilhante. Quem viveu o Rock dos anos setenta, vai assistir o filme com lágrimas nos olhos, e quem nasceu depois, vai sonhar.
 
A reconstituição de época é incrível. A base dos diálogos e pesquisa, perfeitas, pois era o métier real do jovem Camerom Crowe, portanto, suas memórias pessoais.
Na trilha sonora, vários clássicos do Rock, mais a música composta pela entãoesposa de Cameron, Nancy Wilson, e Peter Frampton, um dos melhores amigos de Cameron e que foi assessor dos atores que representaram os músicos da banda Stillwater, nas partes musicais e de comportamento.

Ele pessoalmente deu aulas de guitarra para o ator Billy Crudup.

As cenas de shows do Stillwater são curtas, mas muito emocionantes. Cameron quis centrar o filme nos bastidores e não nas performances musicais em si.

Um filme brilhante, retratando a magia do Rock setentista, e que eu recomendo ver, e rever.

Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Reforma Benéfica ou Maléfica ? - Por Luiz Domingues

É sabido por todos nós brasileiros, que recentemente

ocorreram modificações no código penal do nosso país.


Os juristas alegaram que essas medidas representam um

avanço para a sociedade, visto que crimes de menor monta,

passam a ter penas pecuniárias ou alternativas, fazendo

com que o sistema penitenciário se desafogue.


Mas será que essas modificações atendem aos anseios da

sociedade?


Pois é bastante discutível. 


Se temos já historicamente uma sensação de impunidade 

pairando no ar, o que dizer de uma

nova lei que promova mais frouxidão ainda ?


Esse processo arrecadatório em torno das fianças ?


Claro que esse dinheiro será empregado em questões sociais

importantes, é o que se alega, e o que esperamos, mas

convenhamos, quem realmente nos garante isso?


Há transparência nas finanças públicas ou não vemos

diariamente exemplos de escândalos de corrupção ?


Os holofotes da mídia sempre estão focados nos desmandos

do governo federal, mas pipocam numa frequência

avassaladora, escândalos em prefeituras de cidades

pequenas do interior. 


Prefeitos, secretários e vereadores

 saindo algemados para as delegacias locais, incluso

"primeiras-Damas", que comandam verdadeiras máfias de

desvio de verbas para merenda escolar, e outras

necessidades sociais de seus municípios. 


Portanto, que

destino terá mesmo essa nova receita que criaram ?
Outro aspecto preocupante é o da sinalização que essas

modificações podem criar na percepção dos bandidos.



Formo uma quadrilha, e mediante uma fiança não sou

preso ? 


Cometo um crime e se minha pena não for maior de

quatro anos, não preciso entrar na reclusão ?


Isso é realmente bom para a sociedade, cada vez mais

amedrontada ? 


A sociedade não está presa dentro de casas cada vez

mais munidas de dispositivos de segurança, e assistindo

esses programas policiais dantescos da TV aberta, que só

servem para difundir mais medo, e insegurança no cidadão

de bem (aliás, uma boa pergunta: Incutir medo dá

audiência, não é ? E anunciar tais dispositivos de segurança

, também não rende um bom dinheiro para essa gente da

TV ? 

Sob o manto hipócrita da "prestação de serviços", a

verdade é que lucram e muito com o medo coletivo...) ?


E outra questão obscura: O sistema penitenciário está

sobrecarregado? 


Não há mais vagas ? 

O pessoal dos Direitos Humanos, reivindica tratamento 

melhor aos infratores?


Então a solução é abrandar a Lei, e não prender tanta

 gente... que alívio para os senhores governadores, não é?


Ao invés de gastarem verba com mais presídios, funcionários e equipamentos, podem fazer suas tão

queridas obras eleitoreiras, mais agradáveis aos olhos de

seus "marketeiros", e o povo que conviva com mais bandidos

soltos na rua.


E olhem que nem toquei na questão dos famigerados

indultos, onde invariavelmente, se reforçam os quadros da

bandidagem solta por aí.



Matéria publicada inicialmente no Blog Pedro da Veiga, em

2011.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

12 Angry Men (Doze Homens e uma Sentença) - Por Luiz Domingues


Sendo um profissional com origem na televisão, Sidney Lumet não poderia ter tido um debut melhor no cinema, quando lançou "12 Angry Men",em 1957.
 

Tratando-se mesmo de uma adaptação de um teleplay, Lumet conseguiu transpor para a tela grande com maestria, um espetacular thriller psicológico e claustrofóbico, onde 12 jurados se reúnem numa sala reservada de um tribunal de justiça, para decidir sobre a absolvição ou culpa de um réu, acusado de assassinato.
A ação se passa o tempo todo dentro dessa sala e a divergência de opiniões e sobretudo as motivações entre os jurados dão a dramaticidade para o filme.
 
Investindo em diálogos absolutamente bem engendrados e um time de atores espetacular, Lumet fez um filme que surpreende exatamente por ter o efeito contrário que se pudesse supor que teria.
Sim, pois o que se espera de um filme centrado numa ação claustrofóbica de uma sala de jurados, onde 12 homens vão decidir um veredicto ? Naturalmente, um filme entediante, arrastado, que tende a não deixar o espectador focado, não é ?
 

Ao contrário, o filme é eletrizante do começo ao final, com os diálogos mordazes e a exploração de cada personagem entre os jurados, em suas nuances psicológicas.
 

E aí brilha o roteiro, a condução magistral de Sidney Lumet e também a dramaticidade imposta pelo elenco de atores.
Sem a intenção de contar o filme em minúcias, digo apenas que a história é centrada no momento em que os jurados se reúnem na sala reservada para decidir o veredicto de um réu acusado de assassinato.
 

As provas são muito contundentes contra o réu e o promotor praticamente deixou clara a culpa dele.
 

Dessa forma, alguns jurados mal entram na sala e já declaram sua decisão pessoal. Alguns com ética, pensando na melhor resolução da justiça, outros por pura mesquinharia, pois querem se livrar disso e voltar para a casa a tempo de não perder o futebol na TV.
 

Naquele instante inicial a determinação era de culpa, sem dúvida. Numa primeira avaliação, a contagem pró condenação deu 11 a 1.
Mas esse sujeito que votou contra, semeou uma dúvida, e para desespero dos afoitos, prorrogou a decisão final.
 

Momentos tensos seguem-se e um a um vai mudando de opinião diante da argumentação do homem do voto contra.
 
Henry Fonda, um ator considerado fleumático em Hollywood, interpretou esse homem que semeou a dúvida entre os jurados. Não poderia ter sido uma escolha mais sábia de Lumet.
 

Ed Begley; Jack Warden; Lee J.Cobb; Martin Balsam; Jack Klugman; E.G. Marshall; John Fiedler; Edward Binns; Joseph Sweeney; George Voskovek; e Robert Webber, são os demais jurados.

E a cena final é emblemática: saindo do fórum, amanhecendo após uma madrugada de tensa batalha verbal, cada jurado sai para um lado, sem falar um com o outro, revelando destinos diferentes após estarem juntos numa difícil decisão a ser tomada coletivamente.

Texto publicado no tópico "12 Angry Men", aberto por eu mesmo, na comunidade "Sidney Lumet" da extinta social Orkut, em 2010.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

The Rose, Cinebiografia Velada de Janis Joplin - Por Luiz Domingues


No final dos anos setenta, o ambiente não era nada propício para se realçar valores sessentistas. 

A Disco Music comandava as ações do lado de cá do Atlântico, convidando a juventude a se domesticar, cortar o cabelo e dançar, dançar e dançar, abrindo caminho para a geração yuppie que estava brotando. 

Do outro lado do Atlântico, o Punk-Rock propunha uma bomba atômica niilista arrasadora para varrer do mapa os valores da década de sessenta, e seu prolongamento seria lógico no decorrer dos primeiros anos da década seguinte.

Nesse ambiente desfavorável, foi lançado "Hair" em 1979 (escrevi sobre "Hair" no blog do Juma anteriormente, e está republicado aqui, logicamente, também, basta procurar no arquivo do blog para ler), diluindo o impacto da peça de mais de dez anos antes, e no mesmo ano, outra produção anacrônica foi preparada para chegar às telas em 1980, chamada "The Rose".


A ideia original seria uma cinebiografia da cantora Janis Joplin. Tanto é verdade, que o título original sugerido seria : "Pearl", apelido emblemático da genial cantora texana.
Mas a família de Janis Joplin vetou a ideia e temendo o inevitável processo dos pais e irmã dela, os produtores optaram por estabelecer modificações no roteiro, e deixar tudo velado.


Dessa forma, "The Rose" retratava a vida de uma Rock Star, lidando com sua rotina de sucesso, compromissos e excessos extra-palco, valorizando a trilogia sexo; drogas & Rock'n Roll.

Ainda destaco no elenco, o bom ator britânico Alan Bates, fazendo o empresário explorador, Rudge Campbell, e Harry Dean Scanton, fazendo o compositor country, Billy Ray, que protagoniza uma das mais fortes cenas do filme, humilhando "The Rose", o que a derruba emocionalmente ainda mais.                                                                                                       
O filme acompanha os últimos momentos da vida de "The Rose". 

Seus shows lotados de fãs apaixonados, e sobretudo a pressão gananciosa de seu empresário que faz vistas grossas à necessidade dela de desacelerar o ritmo, pois estava nitidamente esgotada física e emocionalmente, portanto à beira de um colapso nervoso.

Nesse momento, conhece por acaso um ex-combatente do Vietnã e passa a carregá-lo para dentro da turnê, exibindo-o como seu amante, mais para irritar seu empresário, que fareja problemas nessa atitude. Só que o cara tem uma índole boa e percebe que a cantora está à beira de uma crise nervosa séria, com risco de vida inclusive e passa a cuidar dela com carinho.

E é nesse ponto que as semelhanças com a vida de Janis Joplin se acentuam. Essa carência afetiva absurda que sente por não ter tido respaldo da família; baixa autoestima por se sentir feia e ridicularizada no ambiente escolar; sentir-se sugada pela fama, se afundando nas drogas e bebida para suportar essa pressão etc etc.
 

Retratando a personagem dessa forma, ficava claro ao público que se tratava de Janis Joplin, mas não havia como a família se queixar na justiça, pois era outro nome e uma suposta personagem, meramente fictícia.
 

Com essa ação velada, os produtores driblaram a família de Janis Joplin e puderam contar sua história, ainda que com muitas licenças poéticas e modificações.

No tocante ao filme em si, aonde era quase indisfarçável a semelhança com a vida real de Janis Joplin, ficou por conta da cena inicial que na verdade é um flashforward do final, com uma balada melancólica (e linda) ao fundo, enquanto o pai de "The Rose" abre a garagem da sua residência para mostrar que apesar da mágoa da filha em não ter seu apoio explícito, ele a acompanhava e se orgulhava dela, tamanha a quantidade de recortes de matérias de jornais e revistas que ornavam as paredes...exatamente como no documentário "Janis", onde sob o som de "Me and Bob Mcgee", o público mareja os olhos vendo as fotos de Janis Joplin.

Outra passagem semelhante à vida de Janis Joplin se dá no concerto onde "The Rose" se apresentará em sua pequena cidade natal. 


Não foi bem assim no caso de Janis Joplin, mas ela, na vida real fez questão de comparecer à uma convenção de ex-alunos de sua High-School de Port Arthur, sua cidade natal no Texas, já muito famosa, para buscar sua espécie de autoafirmação em confronto com os traumas do passado. No filme, ela faz o concerto no estádio de futebol americano da sua escola, e em péssimas condições de saúde, tem um colapso e morre no palco.

O filme tem cenas muito interessantes. 


As de shows ao vivo, são muito boas e o grande mérito do diretor Mark Rydell foi ter contratado uma atriz que realmente era cantora de carreira, também. 

Bette Midler não interpreta uma cantora de Rock, mas a encarna com total desenvoltura. Dona de excelente presença de palco e uma voz privilegiada, canta e convence como "The Rose".
 

Se a sua carreira musical não atingia o público rocker anteriormente, após o filme, despertou tal interesse, mas ela nunca esboçou vontade de mudar o seu direcionamento musical, e continuou no seu espectro de público mais conservador, brigando no mercado com concorrentes como Barbra Streisand, por exemplo. 

E no cinema, infelizmente nunca repetiu o mesmo sucesso, mais se dedicando a comédias, assim como na TV, com participações em sitcoms.

A banda de "The Rose" no filme, também era formada por músicos reais, e o destaque fica para o excelente guitarrista Steve Hunter. 

Ex-guitarrista do Frost, banda que abria os shows do Grand Funk entre 1970/1971, tocou também na banda de apoio de Lou Reed, posteriormente. 

E em 1975, ao lado do outro guitarrista do Frost, Dick Wagner, foi acompanhar Alice Cooper, que acabara de dissolver sua banda clássica, para renovado, lançar o LP "Welcome to My Nightmare", desse mesmo ano.
 

Com Hunter no comando, o diretor Mark Rydell teve a assessoria necessária para retratar uma banda de rock de forma muito fidedigna.
Responsável pelos arranjos e direção musical, Hunter brilha no filme, com seus solos cheios de influência do Hard-Rock típico de Detroit.

Músicas como "Whose side are you on"; Midnight in Memphis"; "Sold my soul to Rock'n Roll" ; "Stay with me"; "Let me call you Sweetheart", e "The Rose", entre outras, valem cada segundo do filme. 


E destaco também o tema instrumental "Camellia", um riff composto por Steve Hunter, que é de uma beleza incrível. Com esse tema, "The Rose" chega ao palco de helicóptero no seu último concerto. Impossível não se emocionar. 

O filme teve várias indicações ao Oscar, mas acabou não faturando nada. Venceu outros prêmios como o Globo de Ouro, Bafta e Cesar.
 

Bette Midler como atriz; Frederic Forrest como ator coadjuvante (fazendo o amante fortuito, Houston Dyer); melhor trilha; melhor montagem etc.
 

Bem recebido pela crítica, que bateu na tecla de ser a biografia velada de Janis Joplin, o filme teve boa bilheteria, inclusive no Brasil, apesar de ser uma época desfavorável para esse enfoque (1980).
                                                                  
Vale rever, e para quem ainda não viu, deixo a minha recomendação !
Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.