quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Godspell, a Esperança ! - Por Luiz Domingues

         

Stephen Schwartz era um jovem universitário no final da década de sessenta, quando resolveu fazer sua tese de doutorado na universidade, na forma de um libreto operístico, inspirado nas parábolas de Jesus Cristo, segundo o evangelho de São Mateus.
 

Associando-se ao compositor John Michael Tebelak, criaram as canções do musical "Godspell".

A concepção do musical foca nas parábolas de Jesus (algumas também tiradas do Evangelho segundo São Lucas), e dá pequena ênfase à paixão de Cristo, ao contrário de Jesus Christ Superstar, agradando mais ao público protestante, daí o sucesso maior nos Estados Unidos.

A ideia original era fazer um musical de roupagem pop e meio na estética Hippie, mas nem tanto quanto Jesus Christ Superstar. 


A concepção de mesclar isso às tradições do teatro Clown, também acabou virando marca do musical. As canções se dividem entre o pop urbano, folk, vaudeville e o gospel.

A primeira apresentação foi amadorística, encenada por alunos da Carnegie Mellon University em 1970, mas logo em seguida foi montada no circuito off-Broadway (La Mama Experimental Theatre Club), estreando em fevereiro de 1971.


Dali para chegar à Broadway, foi bem rápido e logo seus direitos já haviam sido vendidos para o cinema. Paul Shaffer, o exímio tecladista do talk show de David Letterman, era o tecladista da banda original na Broadway.

A estrutura no libreto original, era de uma trupe de teatro que seguia um chamado divino para encenar essas passagens de Jesus através de suas parábolas. Jesus era retratado como um clown/hippie com referências pop, como a camiseta de Superman que usa em seu figurino e seus apóstolos acompanhando essa estética.

A mais famosa canção do espetáculo, "Day by Day", virou um hit pop, chegando ao n° 13 do hit parade da Billboard.


E teve regravações, como por exemplo do quinteto soul/R'n'B, The Fifth Dimension (que gravara canções do musical "Hair" também, anos antes), Cilla Black e outros.
No cinema, o filme foi lançado em março de 1973, sob a direção de David Greene ("Inherit the Wind", "Bella Mafia" etc ), e produção de Edgar Lansbury (irmão da atriz Angela Lansbury, veterana dos anos 1930/1940).

Quanto ao roteiro, logo na primeira cena, pessoas comuns ouvem o chamado de um João Baptista hippie, e largam seus afazeres para serem batizados num chafariz.

Jesus aparece e após o batismo, começa a sua pregação, com coreografias  bem elaboradas e sob as músicas bem compostas do musical.

Dali em diante, uma New York completamente vazia se torna o cenário para a atuação da trupe de clows. Para quem conhece bem a Big Apple, é muito legal ver diversos pontos tradicionais da cidade como locação do filme.

Chama muito a atenção a cena filmada de helicóptero, onde uma coreografia foi realizada sob o teto do World Trade Center, pouco antes de sua inauguração oficial. É uma cena de tirar o fôlego, e ganhou dramaticidade não imaginada em 1973, quando nem no pior pesadelo, se pudesse imaginar que as duas torres ruiriam em 2001.


Victor Garber interpretou Jesus no filme, e ele era do elenco canadense que interpretava no teatro. David Haskel fez o papel duplo de João Baptista/Judas Iscariotes.

Garber acabou se tornando mais um ator de TV, mas sem grande destaque. É rosto conhecido em papéis secundários nos seriados, mas seu último trabalho mais significativo foi como "Jack Bristow", pai da protagonista "Sidney Bristow"(Jennifer Garner), no seriado "Alias" de 2001, e primeiro grande sucesso do produtor JJ Abrams, o criador de Lost e Fringe.

No Brasil, o ator/produtor Altair Lima, que produziu e encenou "Hair", comprou a briga, e montou Godspell em São Paulo no ano de 1973, com Antonio Fagundes interpretando Jesus, e sua então esposa, Clarice Abujamra assinando a coreografia. 


A montagem no Rio de Janeiro foi em 1974, no Circo Botafogo, com Zezé Motta, Wolf Maia, Lucélia Santos e Kadú Moliterno entre outros atores.

Minha lembrança pessoal com Godspell foi ver um resumo da encenação na TV, num programa cafonérrimo da extinta TV Tupi, chamado "Clube dos Artistas". 

Após a exibição, a preocupação dos apresentadores Ayrton e Lolita Rodrigues era questionar Fagundes e demais atores, sobre imbecilidades a respeito de seu figurino...
E vi o filme pela primeira vez na TV, numa madrugada, ainda nos anos setenta, no bom tempo em que a TV brasileira mantinha uma grade de cinema de muita qualidade. Mas isso é assunto para outro dia.

Godspell não tem o soco no estômago que "Hair" proporcionava, nem a mesma contundência de "Jesus Christ Superstar", mas trata-se de um bom musical, com canções notáveis como "Day by Day", "Prepare Ye the Way of the Lord", "God Save the People", "All for the Best", e para não dizer que não provocou nenhuma controvérsia, a música "Turn bacK, O Man" gerou protestos de religiosos mais fundamentalistas, que não se conformaram com a ideia de Jesus dentro de um cabaret, sendo "cantado" por uma prostituta.

Curiosamente, é uma de minhas canções prediletas de Godspell, com sua estética Vaudeville, piano swingado e malandro, ao melhor estilo New Orleans, naquele clima de saloon do velho oeste.
Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma em 2011, e republicada no Blog Pedro da Veiga, no mesmo ano.

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