segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Head, a Lisergia dos Monkees - Por Luiz Domingues


Em 1968, a sitcom "The Monkees" foi cancelada, apesar da enorme popularidade, pois os produtores se cansaram das reivindicações dos quatro atores. 

Por que ? 

Pois a série fora criada para retratar uma banda fictícia de Rock e para tanto contrataram quatro atores com alguma musicalidade, claro, mas a ideia era usar as canções criadas por compositores de aluguel e músicos de estúdio para gravá-las.

Só que o sucesso fugiu ao controle de todos e criou entre os quatro atores, o sentimento de que poderiam mesmo ser uma banda, compor e seguir carreira na música por seus próprios méritos.

Dessa forma, o clima ficou insustentável, motivando o cancelamento da série (infelizmente, pois era absolutamente hilária). 


Posso afirmar até exagerando, que The Monkees era uma espécie de The Marx Brothers, ambientado na loucura do Rock sessentista).

Passando a compor e cuidar de seus próprios discos, ficaram no entanto sem o veículo da TV, e então surgiu a ideia de produzirem um longa-metragem.


Nessa altura, estavam muito enturmados com a fina flor do Rock e do cinema alternativo e amparados pela fama incontestável alcançada na TV, rapidamente captaram recursos e atraíram dois doidos de carteirinha para o projeto: Jack Nicholson e Bob Rafelson.

Após reuniões a seis "heads", fizeram um "brainstorm", e saiu o roteiro. Muito mais anárquico do que era na série da TV, as referências eram múltiplas: Surrealismo, dadaísmo, lisergia, non-sense e psicodelia total.

Um fato curioso aconteceu no primeiro dia de filmagens: os quatro membros do The Monkees iniciaram uma greve ao saberem que não poderiam ter seu crédito no roteiro por motivos sindicais, mas Jack Nicholson os convenceu a não tumultuarem a filmagem, e no dia seguinte estavam prontos para atuar no set.
Então, ficou definida a autoria do roteiro para Bob Rafelson e Jack Nicholson, com Rafelson dirigindo. Além das composições da banda, Carole King e Harry Nilsson compareceram como compositores convidados e com Ken Thorne compondo e regendo a música orquestral e incidental (fez o mesmo no filme "Help", dos Beatles ).

Atores convidados apareceram, tais como Victor Mature, o veterano ator das décadas de 1940 e 1950 e acusado de ser o maior canastrão de Hollywood (eu não concordo com essa pecha); Anette Funicello (atriz muito famosa por ser protagonista de uma longa série de filmes ambientados nas praias da California, no início dos anos sessenta, comédias musicais leves, sobretudo); Abraham Sofaer (veterano ator muito famoso por atuar em filmes de aventuras infanto-juvenis  e com muitas atuações em séries de TV, sobretudo as produzidas por Irwin Allen, como Lost in Space e The Time Tunnel, por exemplo ); Timothy Carey, ator visceral com bons trabalhos realizados com o diretor britânico Stanley Kubrick (The Killing, Path of Glory), e outros.
 
Além de uma aparição louquíssima de Frank Zappa, de terno e gravata, puxando uma vaca por uma coleira...
Musicalmente os Monkees haviam evoluído muito. Essa loucura psicodélica lhes fez bem, mas lamentavelmente estavam entre a cruz e a espada no mercado.
Isso porque seu público que era infantojuvenil e predominantemente feminino, não gostou desse som "cabeça", e o público rocker, também não, pelo preconceito em torno da banda fake que eram na TV, torcendo o nariz para eles.

Eu particularmente acho um bom trabalho, e certamente um amadurecimento da banda.

O filme foi lançado em 6 de novembro de 1968 nos Estados Unidos e foi mal nas resenhas da maioria dos críticos, mas o jornalista Leonard Maltin acabou enaltecendo ao escrever: "Deliciosamente sem enredo, mas vale a pena ver" . 

Acho "Head" um momento de autoafirmação dos Monkees como banda real e não fictícia, e o filme, apesar de ser aparentemente sem roteiro como sugeriu o crítico Leonard Maltin, um grande momento da psicodelia americana sessentista, com sua colagem de loucuras lisérgicas esparramando pelo celuloide.
Texto publicado inicialmente no Blog do Juma, em 2011.

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