quarta-feira, 28 de março de 2012

A Vez da Lusofonia - Por Luiz Domingues


A julgar pelos avanços que o Brasil tem apresentado nos últimos anos, era mesmo uma questão de tempo para a nossa língua materna passar a ter a relevância internacional que sempre mereceu.


Portugal, um pequeno país em extensão territorial, mas um gigante pelo fato de ter espalhado sua língua em quase todos os continentes do planeta, vê agora seu filho maior expandir-se e espalhar a língua portuguesa, elevando-a em padrões inimagináveis, se vistos anos atrás.

É sabido, por exemplo, que muitos países sulamericanos e hispânicos, instituíram o português como matéria nas escolas de ensino fundamental, sabidamente por conta da liderança natural que o Brasil foi assumindo no cone sul e América latina em geral, desde os primórdios da instituição do Mercosul.

Atualmente, ainda mais líder, destacando-se nos "Brics" e sendo projetado por economistas como uma futura potência de primeiro mundo num futuro não muito distante, tem dado margem a uma pequena corrida internacional de interesse pelo português, nossa língua.

Segundo dados, o português é falado atualmente por cerca de 250 milhões de pessoas no planeta, contando-se apenas os nativos. É a sexta língua mais falada do mundo, já tendo superado o russo, língua de um povo muito antigo e de sólida cultura e história, por exemplo.

Contudo, alguns avanços ainda precisam ser conquistados. 

A falta de recursos nas áreas de educação e cultura internamente falando, traz também seus reflexos nessa área de expansão da língua. 

São incipientes as iniciativas em prol do português. Se existe o Instituto Camões de Lisboa e o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo (além de 22 centros de cultura lusófona espalhados pelo mundo), realmente no cômputo geral são muito pouco em prol da divulgação e propaganda de nossa língua.

Outra questão é a institucionalização do português como língua oficial da ONU. Se o russo o é, com todo o respeito e admiração por esse país e sua cultura milenar, o português precisa dessa elevação, também.

Texto publicado inicialmente no Blog Pedro da Veiga, em 2011.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Espaço Limitado - Por Luiz Domingues


O Brasil poderia ter um programa espacial mais avançado, mas por incrível que pareça não o tem, por outra razão bem diferente do que nossas deduções óbvias nos levassem a crer.


Não é pelo fator financeiro, nem pela capacitação, instalações ou entraves burocráticos (pasmem !!).


A verdadeira barreira é a questão política...
Em recentes documentos revelados, ficou claro que uma forte pressão dos norte-americanos, com direito a um embargo tecnológico, tem evitado o crescimento do Brasil nesse setor desde o início dos anos noventa, preservando assim os interesses yankees.


Numa reportagem do Jornal Folha de São Paulo, vários desses documentos foram mostrados e ficou bem clara essa pressão de nossos amigos do continente norte-americano.
Numa farta profusão de telegramas (a Folha revelou 101, no seu site), mostra-se que esse embargo ocorreu desde 1987, tendo durado seguramente até 2009.


Sob a alegação de coibir a venda de materiais que pudessem ser usados na fabricação de mísseis, os Estados Unidos usaram de todo tipo de pressão para coibir o desenvolvimento brasileiro, assim como de vários outros países.


Não foi à toa, portanto, que o envio do primeiro astronauta brasileiro ao espaço tenha ocorrido só recentemente e como consequência, ter obtido resultados pífios na praticidade da ciência, chegando a ser motivo de chacota em alguns setores, que ironizaram o fato do astronauta ter feito experiências de 5ª série, com feijõezinhos no espaço...
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2011.

sábado, 24 de março de 2012

Sunset Strip, Um Dia Intenso - Por Luiz Domingues


Um dia em Los Angeles no ano de 1972, com muitas coisas acontecendo simultaneamente e entrelaçadas por um mesmo sonho. 
Esse é o mote do filme "Sunset Strip", do diretor Adam Collis, lançado em 2000.

São várias situações aparentemente díspares entre si, mas entrelaçadas pelo sonho do Rock.

Zach (interpretado por Nick Stahl), é um jovem guitarrista que sonha com o estrelato, enquanto sobrevive de subempregos. Na base do esforço e tenacidade, consegue que sua desconhecida banda abra o show de um astro do Rock britânico, chamado Duncan (Interpretado por Tommy Flanagan ).
Duncan é um artista "cool"e tem uma veia performática que gira entre David Bowie; Jim Morrison, e Peter Gabriel. Ele tem seu público fanático e muito exigente.

Duncan tem um affair rápido com a estilista Tammy Franklin (interpretada por Anne Friel), que é dona de uma confecção onde costuma vestir astros do Rock americano, como Glen Walker (Jared Leto), famoso na cena do Country-Rock e com quem mantém um affair, também.

Apaixonado pela estilista, o fotógrafo de moda Michael Scott (Interpretado por Simon Baker), acompanha todo esse vai-e-vem de Rockers no atelier dela e tenta ajudar um amigo compositor, Felix (Interpretado por Rory Cockrane), que é depressivo e se afoga no álcool e nas drogas.


Outro amigo, é o empresário artístico Marty Shapiro (Adam Goldberg), que empresaria bandas de Soul/Funk/R'n'B. 

Completamente doido e falante, traz momentos cômicos ao filme.

Tudo acontece no espaço de 24 h de um dia em 1972.


Zach e sua banda vão abrir o grande astro britânico Duncan no Whisky a Go Go, a casa de shows tradicional na vida real.


Confusões as mais diversas acontecem durante todo o dia. 

Zach é paquerado por uma bela mulher e aceitando o convite de entrar no seu carro, vai parar numa mansão e descobre que o namorado dela é uma estrela temperamental da música folk, que o expulsa a tiros (menção à Mr. Zimmerman ?).


No atelier de Tammy, a temperatura sobe nos provadores de roupas a cada instante.
Duncan aparece com sua entourage, ostentando seu temperamento de estrela e o fotógrafo Michael Scott fica dividido entre se aproximar de Tammy, tentar ajudar seu amigo Felix e aguentar o empresário falastrão, Shapiro.
Mas o mote principal dessa balbúrdia é o jovem guitarrista Zach e seu sonho. Empunhando sua Fender Stratocaster, toca na varanda de sua casa e sempre ouve outro misterioso guitarrista tocando na vizinhança. Percebe que ele o provoca a fazer duelos guitarrísticos, mas não consegue identificar de onde ele está tocando.


Chega o momento do grande show de abertura e tudo dá errado. O som está uma droga, o público só quer saber do show do grande Duncan e o dono do Whisky a Go Go escurraça a banda do palco.
Duncan entra em cena e faz seu Art-Rock, para delírio de seus catatônicos fãs.


Scott acaba se acertando com Tammy. 

Felix desiste do suicídio romântico e Glen Walker tem uma epifania sobre o novo rumo que sua carreira vai ter.
Frustrado, Zach volta para a casa e mente ao seu vizinho, um simpático senhor idoso que fora músico nas décadas de quarenta e cinquenta, dizendo-lhe ter dado tudo certo e que um grande contrato lhe foi oferecido.


Esse é um momento pungente do filme, pois firma a questão do músico em torno de seu sonho de sucesso, na forma dessa sinergia entre dois músicos divididos por gerações diferentes, porém unidos pelo mesmo sonho.


Finalizando, Zach vai à uma lanchonete e após sair dela, ouve o misterioso som de uma guitarra ecoando num beco.


Bingo...é seu vizinho guitarrista que toca o lindo tema que sempre ouve na sua varanda ("Cannyon Song", música da The Band).


Ao se aproximar, percebe que o garçom da lanchonete é o guitarrista em questão.


Essa cena final é emblemática, pois sem pronunciar nenhuma palavra, ambos se entendem conversando com suas guitarras. É bonito vê-los tocando em duo, com os olhos brilhando e a certeza final : no Rock, o sonho nunca acaba...

Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011

sexta-feira, 23 de março de 2012

Atire a Primeira Pedra - Por Luiz Domingues



Numa guerra, não há mocinhos, nem bandidos como os filmes de Hollywood tanto disseminaram , por décadas.

Recentemente foi descortinada uma página triste da história americana, onde atrocidades cometidas por cientistas yankees, os igualaram às praticas nazistas em campos de concentração, durante a Segunda Guerra Mundial.

Documentos revelaram que entre 1946 e 1948, experimentos científicos patrocinados por uma agência de saúde subordinada ao Departamento de Saúde Norte-americano, infectou cerca de 1300 cidadãos guatamaltecos com doenças venéreas, para supostamente testar os efeitos da recém-lançada penicilina no combate às doenças sexualmente transmissíveis.


Entre outras praticas dignas de um Dr. Mengele, inocularam sífilis no globo ocular de prostitutas, estimulando-as a copular posteriormente com soldados do exército daquele país latino-americano, além de homens com deficiências físicas e mentais.

Órfãos também foram usados nos experimentos, onde o cientista responsável, um senhor chamado, Dr. John Charles Cutler, mantinha um laboratório nos moldes do usado pelo sinistro Dr. Moreau na ficção científica "A Ilha do Dr. Moreau" (Livro de H.G. Wells), que gerou três bons filmes, por sinal.

E o Dr. Cutler que antes desses documentos virem à baila, por décadas foi considerado um benfeitor da humanidade por suas descobertas no campo das DST, agora sabemos às custas de pessoas pobres de um país centro-americano, certamente tratadas como cidadãos de terceira classe.

E indo mais fundo, descobriram que antes, em 1943, já fizera vários experimentos em presidiários e adivinhem...em pessoas negras e pobres de uma penitenciária da Indiana.

Mas Mengele e Cutler não estão sozinhos na disputa pela "medalha de ouro Dr. Moreau".

Cientistas coreanos nos anos 1930, obrigaram cobaias humanas a ingerirem repolhos envenenados e através de um vidro, monitoravam "cientificamente', os vinte minutos em média que esses infelizes demoravam para morrer após violentas convulsões.


Um microbiologista japonês chamado Shiro Ishii, montou durante o período da Segunda Guerra Mundial , um laboratório ainda mais cruel que o do Dr. Cutler, num rincão asiático dominado pelo exército imperial nipônico.

Grigori Mairanovski, um cientista soviético, costumava fazer experimentos com cobaias humanas nos gulags, envenenando-os com gás C-2. Durava cerca de 15 minutos a agonia dessas pessoas, observada com afinco pelo "nobre" pesquisador. E o objetivo desse experimento era descobrir um meio do gás não deixar vestígios para legistas, e assim contribuir com a eficácia do sigilo da espionagem na Guerra Fria.

E o que dizer dos experimentos da bomba atômica ? Pergunte aos pobres moradores do Atol de Bikini ou das Ilhas Marshall, com seus casos de abortos, nascimentos prematuros, câncer tireoidiano etc.

Entre 1971 e 1989, um cientista sul-africano torturou milhares de pessoas, alegando ter encontrado a "cura" para o homossexualismo masculino e feminino. Entre seus métodos, eletrochoques e castração química.




E o projeto MK-Ultra ? 

Muito antes dos Hippies dos anos sessenta elegerem o LSD como seu combustível, sob as bênçãos de Timothy Leary, a CIA fazia experimentos desde o final dos anos 1940, mas com outros propósitos menos lúdicos. 

O objetivo era controlar a mente de super espiões, violando as normas do código de Nuremberg (quando se proibiu experimentos desse nível para efeitos militares ou de inteligência secreta ). 

E para testar tais métodos, doses cavalares de LSD eram injetadas nas cobaias e muita gente morreu de forma trágica. 

Recomendo assistir o excelente filme "The Manchurian Candidate", onde esse tema é tratado, com Frank Sinatra atuando como protagonista, e muito bem por sinal.

Encerrando : em nome da "ciência", não são apenas os pobres animais que já sofreram. E nenhuma nação está livre desse ônus, onde não existem mocinhos, só bandidos
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, e republicada posteriormente no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2011.

Rock Star - Por Luiz Domingues

A história de todo artista é quase sempre a mesma: primeiro enlouquece vendo artistas consagrados em ação; depois tenta imitá-los desesperadamente, e numa etapa mais madura, finalmente encontra seu estilo e personalidade própria.

Essa é a história do filme Rock Star, onde um aspirante a artista sai repentinamente da condição de vocalista cover de uma banda tributo, para vocalista oficial da banda que ele idolatrava.

O filme é inspirado na trajetória do vocalista Tim "Ripper" Owens, que um dia entrou para o Judas Priest, substituindo Rob Halford.


Mark Wahlberg interpreta Chris Cole, um rapaz de Pittsburgh que trabalha consertando máquinas de xerox, mas é também vocalista de uma banda cover chamada "Blood Polluttion", que faz tributo à fictícia banda "Steel Dragon". 

O ambiente é o do Heavy-Metal dos anos oitenta, com todos os exageros visuais e sonoros daquele estilo e década.
O filme começa com esses contrastes entre a vida simples em família, o trabalho maçante e as pequenas apresentações da banda cover "Blood Pollution". 

Chris Cole (Wahlberg ), parece ser o único a levar a sério sua banda cover e cobra dos companheiros a perfeição na execução das músicas do "Steel Dragon".
                          
Sua namorada, Emily Poule (Jennifer Aniston - Ex-"Friends") é a produtora da banda cover, e sua principal incentivadora.

Um dia, recebe o telefonema do guitarrista do Steel Dragon, Curt Cuddy (interpretado por Nick Catanese), e é convidado a fazer teste para entrar na banda. Em princípio não acredita, todavia era verdade...

A sequência a seguir é muito interessante, pois retrata o verdadeiro choque térmico que o personagem e a namorada sofrem ao se depararem com o mundo mainstream. A começar pela mudança de seu nome artístico, passando a se chamar simplesmente : "Izzy", doravante.

Uma das cenas que melhor retratam esse deslumbramento é quando Chris Cole/Izzy vai tirar as primeiras fotos promocionais como vocalista do "Steel Dragon" e posa rindo, pois não conseguia conter sua euforia, em meio aos companheiros experientes, todos fazendo "cara de mau".

E no primeiro show, o completo despreparo ao atuar num palco imenso, tropeçar e tomar um tombo feio, que só não arruinou tudo, porque continuou cantando, sangrando e tudo...

Assédio; festas malucas no camarim, e farras pelos hotéis, tudo é deslumbramento e excitação para Chris Cole/Izzy que agora canta na banda que antes idolatrava.

Mas as pressões também começam a miná-lo. O clima na banda é opressivo com cobranças e não há nenhum espaço para criar, apenas seguir as ordens do líder (o guitarrista Kirk Cuddy - Nick Catanese), e do empresário da banda (Mats, interpretado pelo ator britânico Timothy Spall, que fez o baterista da banda Strange Fruit, no filme Still Crazy).

Começando a virar junkie & drunkie, vai piorando sua performance e enfim percebe que tudo aquilo era uma farsa e resolve dar uma guinada na vida.

O universo do Heavy-Metal oitentista não é a minha praia, mas eu gosto bastante desse filme, por vários aspectos.

Primeiro, por discutir essa questão da idolatria sob os dois lados do mesmo espelho. E também pelas boas cenas de shows, bastidores e loucuras com festas regadas a groupies, retratando bem o clima de uma banda em seu auge de sucesso mainstream.


                                      
Uma grande ideia foi a de recrutar músicos verdadeiros dessa cena para interpretarem os músicos da banda "Steel Dragon" e também da banda cover "Blood Pollution". Dessa forma, estão ali músicos como Zakk Wylde; Jason Bonhan; Jeff Pilston; Nick Catanese; Blas Elias; e Brian Vander Ark.

E a voz de cantor de Heavy-Metal do personagem Chris Cole/Izzy, foi emprestada por dois vocalistas autênticos : Miljenko Matijevic e Jeff Scott Soto.

Dirigido por Stephen Herek e com a trilha assinada pelo guitarrista Trevor Rabin (ex-Yes, fase oitentista), numa produção de 2001.

Bom filme, podem assistir que é diversão garantida.
Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.

sábado, 17 de março de 2012

The Grapes of Wrath (As Vinhas da Ira) - Por Luiz Domingues


O escritor norte-americano John Steinbeck, lançou em 1939, um livro chamado "The Grapes of Wrath" (As Vinhas da Ira), enfocando a saga de uma família lutando para sobreviver à grande depressão americana da década de trinta.

Nessa obra, retratou de forma muito comovente os anos difíceis em que o povo americano viveu, graças ao grande crash da Bolsa de Valores de Nova York, no ano de 1929.

Como sempre, quem mais sofreu foram as camadas mais simples da população. Pequenos fazendeiros perderam suas terras (impossível quitar as hipotecas); operários se viram no olho da rua, com fábricas falidas, comerciantes em frangalhos etc etc.
Foi assim que o já consagrado diretor John Ford, levou para as telas essa saga de Steinbeck, em 1940.

A adaptação do livro para o cinema foi boa, na medida do possível onde sempre o livro tem muito mais detalhes, mas Ford foi feliz nessa adaptação do roteiro.


Contando com um elenco de ótimos atores, realizou um filme extremamente pungente, apesar da aspereza do tema e de situações dramaticamente duras, porém reais no tocante à absoluta penúria que a depressão causou ao povo americano menos favorecido.
O personagem principal se chama Tom Joad. Um homem rústico que cometeu um crime e ficou preso por muitos anos. Agora em liberdade, volta para a casa e vê a família em situação de penúria, com a pequena propriedade rural perdida, e sem perspectivas.

Sem outra alternativa, a família junta todas as suas economias e investe na compra de uma caminhão velho e se põe a caminho da Califórnia, um dos únicos, senão o único estado da federação, onde a crise estava sendo suportada, graças à riqueza das fazendas produtoras de laranja, pêssego e algodão, principalmente, e à indústria cinematográfica em expansão.

A viagem da família, cruzando vários estados a partir de Oklahoma, é muito emocionante. Sem recursos, com o desconforto de um caminhão horroroso, e quebrando pelo caminho, fome, sede e calor...

Para agravar esse sofrimento, o vovô morre na estrada, não suportando a viagem. Logo a seguir, vai embora a vovó, não aguentando a perda do marido.

À medida que avançam, vão encontrando diversas outras famílias na mesma situação miserável, lutando pela sobrevivência, vindas de outros estados e sonhando com dias melhores na ensolarada Califórnia.
Quando chegam na fronteira desse estado, já estão em meio à um inacreditável comboio de excluídos de todo o país. De fato a depressão não foi nada fácil.

O volume de migrantes famintos era tanto, que o governo estadual da Califórnia montou uma triagem policial na fronteira. Era preciso apresentar documentos comprovando residência fixa, trabalho contratado, ou uma quantia mínima de dinheiro em mãos para adentrar o território californiano.

A família de Tom Joad faz das tripas coração para poder ter essa chance e finalmente consegue uma colocação numa fazenda. 
Infelizmente, muitos inescrupulosos se aproveitavam da situação lamentável desses retirantes e lhes oferecia trabalhos em condições de quase-escravidão.

Remunerações miseráveis eram oferecidas em contratos maliciosos, onde toda a despesa de subsistência era cobrada em preços extorsivos, fazendo com que o trabalhador ficasse sempre devendo ao empregador, tornando o trabalho, escravo, veladamente.

Após muitas confusões, conseguem se livrar dessa situação e acham uma outra fazenda onde as condições de trabalho são enfim, dignas. Mas mesmo assim, tragédias com enchentes e incêndios os fazem rumar para outro destino incerto.

Num desses lugares, se envolvem com gangs de sabotadores e numa briga, ocorre um assassinato. Sem saída, a família sai em fuga, mas vendo que seriam apanhados facilmente, Tom Joad resolve fugir sozinho, dando uma chance melhor de sobrevivência à sua família.
O famoso discurso do personagem Tom Joad é de arrepiar : "Eu estarei nos cantos escuros. Estarei em todo lugar. Onde quer que olhe. Onde houver uma luta para que os famintos possam comer, eu estarei lá. Onde houver um policial surrando um sujeito, eu estarei lá. Estarei onde os homens gritam quando estão enlouquecidos. Estarei onde as crianças riem quando estão com fome e sabem que o jantar está pronto. E, quando as pessoas estiverem comendo o que plantaram e vivendo nas casas que construíram, eu também estarei lá".
O grande ator Henry Fonda interpretou Tom Joad com um olhar tão desesperançado, que realmente fica difícil imaginar outro ator nessa interpretação.

Jane Darwell; John Carradine; Russell Simpson; O.Z. Whitehead; e John Qualley, entre outros, participam desse grande filme, também.

Um filme impressionante, emocionante e histórico.
Texto inédito, elaborado para este Blog em março de 2012.

sexta-feira, 16 de março de 2012

That Thing You Do : A América Reage ! - Por Luiz Domingues



No início da década de sessenta, dois grandes movimentos musicais movimentaram a América na Era pré-psicodelia : em primeiro lugar, a British Invasion, uma onda de bandas britânicas com os Beatles na dianteira e que tomaram o país de assalto, para em seguida proporcionar a reação dos yankees, com um movimento conhecido historicamente como : "American Reaction".

É nesse contexto que o filme "That Thing You Do" atua, retratando a ascensão e decadência de uma banda fictícia da Pennsylvania, chamada "The Wonders" (daí no Brasil o filme ser conhecido como "The Wonders - O sonho não acabou").

Com roteiro e direção de Tom Hanks, o filme mostra esse ambiente americano entre 1963 e 1964, através da banda The Wonders.


Originariamente chamada "The Oneders", um confuso e dúbio trocadilho, a banda se apresentava em pequenas casas noturnas e festivais colegiais insípidos apenas, em sua cidadezinha interiorana quando às vésperas de um festival mais importante, sofrem um revés.
Com um braço quebrado, seu baterista se impossibilita de tocar e dessa forma, convidam um substituto às pressas, chamado Guy "Shades" Patterson (interpretado por Tom Everett Scott).

O destino muda a vida da banda quando durante o festival, o novo baterista imprime um andamento acelerado e muda a batida da balada insossa "That Thing You Do", transformando o arranjo da música, e assim lhe conferindo um clima empolgante de "bubblegum" à lá Beatles, arrebatando a plateia.

Com esse sucesso, passam a tocar em lugares melhores, e logo conseguem um empresário que os coloca em situações vantajosas, inclusive tratando de produzir um single, ainda que mal gravado, mas que faz enorme sucesso local.
 

Dessa forma, chamam a atenção de um empresário de maior porte que os contrata e os coloca num ritmo de ascensão rápida e segura. 

Esse empresário é Mr. White (interpretado pelo próprio Tom Hanks), nitidamente inspirado no mítico empresário dos Beatles, Brian Epstein.

É muito interessante ver a composição do personagem por Hanks nesse sentido, com os trejeitos, a maneira com que cobra posturas da banda no trajar, se portar, e lidar com todas as situações.

E na elaboração do roteiro, Hanks teve muita felicidade , pois alinhavou diversas situações engraçadas ou não (o despreparo de garotos interioranos para fazer sucesso maciço, por exemplo), que trouxe diversas matizes dos bastidores de uma banda emergente, naquele cenário da época.

A cena em que ouvem pela primeira vez a sua música tocando no rádio é belíssima. A emoção prosaica desse feito inédito para a banda, emociona.

E aí começam as excursões extenuantes pelo interior, tocando com outros artistas da gravadora e a ascensão contínua e segura da banda, até participar de um filme (numa alusão àquela safra de filmes ambientados nas praias californianas, que fizeram a fama de atores como Anette Funicello, Sandra Dee e Frankie Avalon, por exemplo, e onde sempre haviam cenas musicais desse tipo), e também ao irem se apresentar num programa de TV de repercussão nacional, que os catapulta à condição de sucesso total (alusão ao Ed Sullivan Show).

É bonito ver a música subindo nos "charts", onde se lê seu nome misturado às feras reais da época, como The Rolling Stones, por exemplo.

Mas existem conflitos também, claro.

O guitarrista/vocalista James "Jimmy" Mattingly II (interpretado por Johnathon Schaech), é temperamental e arrogante. 

Querendo se arvorar de ser o compositor da maioria das canções da banda, quer os louros da vitória só para si, além de desprezar o amor de sua linda namorada, Faye Dolan (Liv Tyler, deslumbrante como uma moça de 1964...), que por sua vez, se torna produtora da banda, e braço direito de Mr. White.

O baixista "T.B. Player" (sem nome definido no filme, apenas conhecido por esse apelido, que significa "o baixista", interpretado por Ethan Embry), não tem firmeza de propósitos e de maneira infantil, deixa a banda no auge da ascensão, para se alistar no exército...

O guitarrista solo, Leonard "Lenny" Haize ( Steve Zahn), fica embriagado e se casa, na calada da noite em Las Vegas.

Ainda tentando salvar seu investimento, o empresário Mr. White contrata um novo baixista, mas a banda já não suporta seus problemas internos e implode.

A vida é assim mesmo, pois é muito difícil para qualquer artista ter a sorte de encontrar uma porta aberta, e muito mais difícil ainda, é se manter dentro desse seleto hall do sucesso.
 

"That Thing You Do" é um filme leve e delicioso de se assistir. 

Retrata com muita felicidade esse período lindo da Era pré-psicodelia na América.

Com excelente figurino; direção de arte caprichada; e ótimas cenas de shows, o filme tem também um bom elenco (Charlize Theron participa, fazendo a namorada do baterista, no início), além, é claro, da trilha ser muito boa.

Tom Hanks, além de criar o roteiro; produzir; dirigir; e atuar, também compôs algumas canções da trilha, feito que o fez se igualar à Charles Chaplin, que costumava também acumular diversas funções em seus filmes.



Mesmo sendo a história de uma banda fictícia, "That Thing You Do" retrata de forma fidedigna o ambiente musical desse época na América, em plena reação yankee ao sucesso avassalador das bandas britânicas, com os Beatles na sua sublime comissão de frente.

Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.