segunda-feira, 30 de abril de 2012

Zachariah, Rock no Velho Oeste - Por Luiz Domingues

Um dos filmes mais loucos produzidos no início dos anos setenta, foi "Zachariah", de 1971, sob produção e direção de George Englund.

Isso porque ele foi concebido como um western, com todos os clichês típicos desse gênero clássico, mas com a inserção de bandas de Rock elétricas do século XX, num anacronismo surreal. E como se não bastasse isso, o roteiro foi baseado no mote filosófico da obra "Siddhartha" do romancista alemão, Hermann Hesse.

Como conciliar conceitos tão díspares, e agradar a audiência ?

Nessa questão, George Englund parece não ter se preocupado, realmente.

O filme gira em torno dos personagens Zachariah (John Rubinstein, filho do pianista erudito, Arthur Rubinstein)m e Mathew (Don Johnson, muitos anos antes de ficar famoso pela série de TV, Miami Vice).


Eles são amigos e através de uma confusão gerada num saloon, Zachariah mata um homem, mesmo sendo em princípio uma novidade para ele, que era mero aspirante a pistoleiro.

Passam então a se envolver em assaltos a bancos e outras ocorrências criminosas por conta das circunstâncias. 

A gang de ladrões de bancos com a qual se associam, é simplesmente o Country Joe and the Fish, uma das bandas mais loucas da cena psicodélica dos anos sessenta.

Imagine então vê-los como bandidos do velho oeste e intercalando assaltos com shows de Rock, usando carruagens como palco e tocando instrumentos elétricos plugados em tomadas, numa época em que não existia energia elétrica...  

Outra participação Rocker é da James gang, que também aparece, capiteaneada pelo seu grande guitarrista, Joe Walsh.
O produtor do filme queria contratar o baterista do Cream, Ginger Baker, para protagonizar Zachariah, suprema loucura que o superb baterista recusou, abrindo vaga para John Rubinstein, que era ator de ofício, pelo menos.

Outra participação musical muito legal, foi do baterista Elvin Jones, que tocou na banda do saxofonista, John Coltrane, ferissima do mundo do Jazz. Elvin Jones faz um solo de bateria no filme, espetacular. 

White Lightnin', é outra banda que comparece no filme.

Num dado momento, os amigos Zachariah e Matthew se desentendem por causa de Belle Star (interpretada por Pat Quinn), uma linda mulher, e dona do bordel.  
Está armado o clima para o supremo clichê do gênero : o duelo, com todos os planos e contraplanos que se tem direito, focando dedos nos gatilhos; respiração ofegante; olhares; suor escorrendo; sol escaldante, e blocos de feno voando etc

Ah...como é bom ver um "bang-bang" na sessão coruja...

Contudo, o diretor optou por um desfecho que certamente Franco Zeffirelli teria feito, ou seja, digamos mais...esvoaçante.

A crítica caiu de pau, por considerar essa mistureba toda, uma insanidade. Nenhum crítico de cinema levou a sério.

Fãs da literatura holística de Hermann Hesse, acharam quase um escárnio atribuir "Siddartha" como influência do roteiro e Rockers preferiam ver Country Joe and the Fish, ou James Gang, tocando em palcos bem equipados, ao invés de carroças do velho oeste.


 
Pessoalmente, assisti esse filme pela primeira vez em 1979, por incrível que pareça, não num cine-clube como o Bijou, que eu frequentava nos anos setenta aqui em São Paulo, e costumava passar filmes obscuros como esse, mas na TV.

Foi exibido na extinta TV Tupi, numa semana temática de filmes sobre Rock e movimento Hippie. Ainda me lembro da resenha desdenhosa que o o jornal "Folha de São Paulo" publicou no dia dessa exibição, dizendo algo do gênero : "Bang-Bang de Hippies e pauleira numa boa, sacou" ?

Nunca mais soube de outra exibição na TV, nem mesmo em canais a cabo. 

Ainda no elenco de apoio, Dick Van Patten, e a banda New York Rock Ensemble, que aparece tocando no Cabaret de Belle Star.
Apesar de reconhecer que George Englund exagerou na salada de ideias que tentou alinhavar, o filme tem seus méritos, nem que seja pelas apresentações musicais.

A ideia de inserir conceitos dos livros de Hermann Hesse no entanto, acho que se diluiu pois o ambiente rústico do Western, não é propício para se falar em "paz & amor"; ecologia sustentável, ou vegetarianismo, holisticamente colocados na sua literatura.

Se essa foi a primeira intenção de Englund como produtor e diretor, aí sim, receio que tenha falhado.

Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Millbrook, o Mergulho de Tim Leary - Por Luiz Domingues


Em 1962, a relação do professor Timothy Leary com seu empregador, a Universidade de Harvard, atingiu níveis insustentáveis.

Em primeiro lugar, foi informado que suas pesquisas estavam investigadas pela CIA. Além disso, internamente, o corpo docente estava farto de receber reclamações de país de alunos (invariavelmente pessoas proeminentes da sociedade norte-americana e com ligações estreitas com o poder), dando queixa de que seus filhos haviam tomado doses de LSD em sala de aula, como parte dos estudos propostos nas aulas do professor Leary.


Fora isso, havia a suspeita de que muitos outros alunos que não faziam parte do grupo, estavam infiltrando-se para tomar a droga com objetivo recreativo. Cabe lembrar que nessa época, essa substância ainda não era ilegal, portanto, não cabia nenhuma intervenção policial incriminatória no caso.

E a gota d'água foi uma entrevista que Leary concedeu à revista Playboy, referindo-se ironicamente à substância que pesquisava, como "um poderoso afrodisíaco". Aproveitando-se de um sumiço de Leary no início de 1963, a universidade o demitiu, e na sua esteira, também ao professor Richard Alpert, igualmente envolvido nas experiências.

Foram ambos para o México, mas foram surpreendidos com uma sumária expulsão do país, um dos inúmeros boicotes que sofreriam dali em diante.

Foi quando surgiu a oportunidade de usarem uma mansão privada para realizarem seus experimentos, chamada "Millbrook House", de propriedade do milionário e mecenas, William Hitchcock.

Ali, Tim Leary e Richard Alpert intensificaram seus estudos e agora já profundamente influenciados em ideias alternativas, mesclando-se à luz da ciência acadêmica. 


O livro Tibetano dos Mortos habitava o imaginário dos pesquisadores (em 1964, lançaram o livro : "The Psychedelic Experience, criando paralelos entre os dois conceitos).

Leary chegou a declarar anos depois que nesse período, considerava-se "um verdadeiro antropólogo do século XXI pesquisando em meio às trevas do século XX".

Extrapolando as fronteiras da psicologia em si, acreditava estar criando ali uma espécie de novo paganismo, através da completa expansão mental.

Muitas pessoas se uniram à experiência de Millbrook, participando das sessões de estudos. Leary comandava experimentos sensoriais os mais diversos, com música; dança; meditação; observações no ambiente externo e em contato com a natureza; observação das estrelas; além de diversos rituais pagãos.

As observações de Tim Leary e Richard Alpert levavam em conta aspectos da física einsteiniana e quântica, à psicologia; redefinição de palavras (semiótica, incluso), como "neurose" em termos etologicos; relacionamento entre as alterações de espaço-tempo etc.

Segundo contou na sua autobiografia, chamada "Flashbacks", por se tratar de uma pesquisa independente, os recursos eram do próprio bolso dos pesquisadores e de pequenas doações de simpatizantes.

Muitos jornalistas, pesquisadores e artistas simpatizantes, visitaram Millbrook. 

E também uma constrangedora visita de dois representantes da FDA, a agência norte-americana de controle farmacêutico, onde se comportaram mais como capangas mafiosos fazendo ameaças, mediante bravatas.

E como capítulo final nessa estada na mansão de Millbrook, Tim Leary casou-se com a jovem Nanete Leary, numa cerimônia filmada como curta-metragem pelo excelente documentarista D.A. Pennebacker ( Monterey Pop Festival'67; Don't look back; Ziggy Stardust etc). Esse filme recebeu o título de "Wedding at Millbrook" (existe um título alternativo, chamado "You're nobody till somebody loves you").

A banda de Miles Davis (sem a presença do genial trompetista), fez a trilha sonora da festa e o jazzista superb, Charles Mingus fez um sermão sobre a instituição do matrimônio.

Esse curta-metragem chegou a ser exibido no circuito de cinemas de arte na América, e é considerado um documento muito importante da história da contracultura nos anos sessenta.
 

Dali em diante, Tim Leary seria mitificado pelos hippies, tornando-se o inimigo n°1 do governo Nixon. Angariou muita simpatia de artistas famosos, e passou por momentos de sufoco extremo, sendo perseguido e preso.

Mas são outros capítulos a serem contados numa outra ocasião...

Matéria publicada especialmente para o Blog Psychedelic Girl, e republicado no Site / Blog Orra Meu, ambas em 2011.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Compre, Compre, Compre...Carros - Por Luiz Domingues

Em qualquer turbulência econômica que esboce uma crise à vista, o governo corre para socorrer os bancos e a indústria automobilística à frente de qualquer outro setor da sociedade.

Se você for dono de uma escola, cinema ou de um mercado de bairro, é melhor que tenha suas reservas pessoais, pois não receberá ajuda para se levantar e salvar o seu empreendimento.


Dos bancos, é bem óbvio o comprometimento que políticos tem, basta pensar nas suas vultuosas campanhas eleitorais etc. Posso incluir um terceiro setor, o das grandes empreiteiras e sua assanha por obras públicas (Copa e Olimpíada à vista e tem muita obra "boa" para se pensar, não é mesmo ?).

Mas e a indústria automobilística ? A desculpa na ponta da língua de todo governante, é a questão social que se desequilibraria. Se param de fabricar, quantos empregos diretos e indiretos podem ser comprometidos ?



Quantas centenas de milhares de famílias entrariam em apuros se não se fabricassem mais automóveis ?

Isso sem contar o setor de autopeças, a colossal indústria petrolífera, os gigantes dos pneumáticos etc etc.

Será que uma redução dessa loucura de produção em massa, realmente causaria esse desequilíbrio social sempre usado como desculpa ?


E a contrapartida dessa produção absurda ? Segundo dados que li na mídia recentemente (Fonte : O Estado de São Paulo), a expectativa da indústria é vender 3,7 milhões de carros até o final de 2011.


Ora, é sabido que o trânsito está completamente caótico nas grandes e médias cidades. Os índices de poluição cada vez piores, o aumento de violência em torno dos roubos aos automóveis são alarmantes, acidentes perpetrados pelos bêbados irresponsáveis cada vez mais acentuados etc etc.

Os preços deveriam ser muito menores, proporcionais ao incentivo consumista, mas pelo contrário, são extorsivos, a começar pela absurda carga tributária.


Para manter um carro, é preciso preparar o bolso para pagar em dia as taxas. Para se manter a documentação em dia, é preciso ter uma carteira recheada.


Fora o verdadeiro gargalo de restrições : Para estacionar é preciso pagar uma fortuna, pois as prefeituras transformaram as ruas em seu estacionamento particular, com zona azul e outros dispositivos. 


A cada esquina, um agente de trânsito trabalha o dia inteiro com um grosso talão de multas, que preenche com uma volúpia sem igual. E como a ação policial deixa a desejar na questão dos assaltos, não dá para ficar sem o caríssimo seguro, não é ?

O país vai se consolidando como potência petrolífera, mas nem se cogita um repasse à população, pois o preço dos combustíveis é dos mais caros do planeta, como se não houvesse uma só gota de petróleo saída de nosso território.

E mais um dado visível e triste nessa equação viciada : investimentos em transporte público feitos a passos de tartaruga, desestimulam as pessoas a deixar de usarem seus carros particulares, não é ? 

A pessoa entra num ônibus ou vagão de metrô ultralotado, chega morta no seu local de trabalho e realmente raciocina que é melhor ficar presa no trânsito infernal, mas sentada no seu carrinho com ar condicionado e ouvindo musiquinha, a ficar espremida como uma sardinha e parada no mesmo trânsito engarrafado...

Resumo da ópera : está do jeito que eles querem ! 

Compre um carro, compre um carro e compre um carro...

Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica em 2011, e republicada no Site/Blog Orra Meu, em 2012 

sábado, 21 de abril de 2012

The Train - Por Luiz Domingues


Entre tantas atrocidades perpetradas pelos nazistas durante a segunda Guerra Mundial, existem as denúncias de pilhagens e demais crimes de natureza civil, e nada a ver com a conduta de guerra assegurada em tratados internacionais.

Nesse cenário de abusos, muito se falou do roubo de obras de arte, e é nesse contexto onde se situa o filme: "The Train", lançado em 1964.

A trama gira em torno dos momentos finais da ocupação dos nazistas na França, em 1944. É sabido na vida real, que de fato, muitos comboios de trens foram usados para a retirada de tropas, armas e munição, mas sabe-se que havia muito material roubado, também.


Dessa forma, The Train trata disso, retratando a obsessão de um oficial nazista, Coronel Von Waldhein, vivido por Paul Scofield, em fazer um trem recheado de obras de arte, escapulir o mais rápido possível da França.


A curadora do museu Jeu de Paume entra em contato rapidamente com a resistência francesa que passa a elaborar diversas ações de sabotagem, visando retardar ao máximo essa partida.


Nesse cenário, entra em cena a figura do chefe de estação, Paul Labiche, protagonizado por Burt Lancaster. Em princípio, um ferroviário rude e um pouco alheio à questão da guerra, mas que logo se inflama ao ver o maquinista Papa Boule (Michel Simon ), ser executado brutalmente após ser flagrado num ato de sabotagem.
Com Labiche assumindo o comando da locomotiva, mais ações de sabotagem vão transcorrendo até o desfecho, onde as obras são recuperadas e o oficial nazista morre após um confronto direto e eletrizante com Labiche (Lancaster), evocando westerns.

O filme era para ter sido conduzido por Arthur Penn, mas desentendimentos com os produtores promoveram uma ruptura após duas semanas de filmagens apenas e dessa forma, John Frankenheimer assumiu a direção. O nome de Arthur Penn é creditado como co-diretor, mas o trabalho foi mesmo de John Frankenheimer.


Com fotografia em preto e branco, o contraste ajudou a realçar a aspereza do ambiente da estação ferroviária, a dramaticidade da situação e de certa forma firmando um ponto de contradição com o objeto do roubo em si, com toda a beleza das obras de arte e sua profusão de cores, traços e expressões.
O fato de Burt Lancaster ser famoso por seus atributos acrobáticos, o ajudou certamente a compor o personagem que deveria ser retratado se pendurando pela locomotiva, vagões etc.

A história foi baseada em fatos reais, com a diferença de que na vida real, o trem em questão nunca saiu dos arredores de Paris, pois a resistência francesa agiu rapidamente e promoveu ações de sabotagem muito eficazes. No filme, ele foi avançando, para realçar as sabotagens com maior ênfase.


Ainda no elenco, Jeanne Moreau; Suzanne Flon; Wolfgang Preiss; Albert Rémy, e outros.


Como fã do diretor John Frankenheimer que sou, gosto muito desse filme e o recomendo, naturalmente.

Matéria publicada anteriormente na revista eletrônica Cinema Paradiso, em sua edição de n° 291, no ano de 2011.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A Place in The Sun - Por Luiz Domingues

O mote "rapaz pobre & moça rica, apaixonados" (ou vice-versa), é o moto perpétuo dos folhetins que são exibidos na TV brasileira, todas as noites há cerca de 60 anos ininterruptamente, sob a alcunha de "novelas".

Esse tema nas mãos dos produtores de TV, causa náuseasnos estômagos mais delicados, mas nas mãos de um diretor de cinema chamado George Stevens, virou arte !

Baseado no romance "An American Tragedy", de Theodore Dreiser, o filme de Stevens conta a história de um rapaz pobre e sem ambições maiores, que se envolve numa situação familiar como incauto, e não só a sua vida, mas também a de outras pessoas próximas.

Produção de 1951, denominada "A Place in the Sun" ("Um Lugar ao Sol" em português), onde Stevens explorou com maestria todo o talento do ator Montgomery Clift, salientando o contraste do rapaz pobre e tímido diante de seus parentes ricos e esnobes.

Para incrementar, explorou também o inferno do personagem, atormentado por sua origem puritana, plena de penitência e culpa. 

George Eastman (Montgomey Clift), é rapaz humilde que só pensa em arrumar um emprego fixo e além de se manter dignamente, auxiliar sua mãe, uma senhora que dedica a vida ao "Exército da Salvação", instituição de cunho evangélico, cujo mote é praticar a caridade.

Empregando-se no império industrial de seu tio milionário, George aceita passivamente ser colocado numa posição de operário simples, bem longe dos escritórios finos de seu tio e primos, membros da diretoria.

Então acaba conhecendo uma moça (Alice Tripp, interpretada pela ótima Sheeley Winters), no ambiente de trabalho, e num deslize, a engravida.

Ele poderia ter se casado e ao assumir a paternidade, seguir o rumo previsível de sua vida simples, tornando-se pai de família, trabalhando 30 anos na fábrica, e vivendo modestamente, como qualquer rapaz de sua classe social, mas outro evento mudou tudo.
Mesmo não pertencendo à classe social de seus parentes, aceitou convite para uma reunião familiar e aí...bingo, conhece Angela Vickers (Elizabeth Taylor). E convenhamos, quem não se apaixonaria pela personagem angelical, interpretada por Liz Taylor ainda com ares adolescentes ?
Que dramalhão !! 

Se o texto chegasse às mãos das emissoras de TV brasileiras, tornaria-se um melado piegas com direito à nauseabundo tema musical, e discussão certa nos salões de beleza, mas Stevens tratou de colocar essência, descartando o melado da pieguice.

E de que forma ?

Na exploração da angústia desesperada do personagem George Eastman, que só aumenta quando num acidente, vê morrer a moça que engravidara e que o pressionava a se casar com ela, já ostentando um abdômen saliente. 

Muito conveniente, não ?
Aparentemente um acidente, fica a dubiedade no ar : foi acidente mesmo ou no fundo, ele premeditou essa situação, vislumbrando livrar-se do "problema" que aniquilaria completamente seu sonho utópico de se casar com a linda moça rica ?

Esse foi de fato o grande mérito de George Stevens, pois esse enfoque no interior atormentado do personagem George Eastman, aliado à pitada de thriller psicológico, afastou o ranço folhetinesco.


E coroando a intenção, no final...bem, apesar de ser um filme lançado em 1951, não vou estragar a surpresa para os jovens que nunca o assistiram.

Eis aí um filme que eu recomendo, entre tantos da filmografia do grande diretor George Eastman.
Matéria publicada inicialmente numa comunidade "George Eastman", na extinta Rede Social Orkut, como tópico, propondo uma discussão sobre esse filme em específico, e aberto por eu mesmo, em 2010.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Two of Us, Quase a Volta - Por Luiz Domingues




Em 1976, o produtor musical, Sid Bernstein fez uma oferta pública e milionária para que os Beatles se reunissem num único concerto a ser realizado em Londres, com a renda toda revertida à caridade.

É óbvio que essa proposta jogada ao vento causou um rebuliço, com a onda de boatos correndo o mundo afora.

Separadamente, cada ex-Beatle rejeitou a proposta, mas a euforia gerada por essa expectativa foi enorme. 

Na mesma época, o programa de TV, Saturday Night Live, muito popular nos Estados Unidos, e baseado no humor, fez uma brincadeira sobre essa boataria, com o apresentador Lorne Michaels ridicularizando a proposta de milhões de dólares de Sid Bersntein e oferecendo U$ 3000, se os Beatles fossem naquela noite aos estúdios da NBV em Nova York, e tocassem ao vivo.

22 milhões de pessoas assistiam aquele programa humorístico naquela noite e o que Lorne Michaels não sonhava é que entre essas pessoas, John Lennon e Paul McCartney estavam entre elas.

Naquela noite, aproveitando a estada na cidade de New York, Paul e Linda foram visitar o casal John e Yoko, no apartamento em que viviam no Edifício Dakota.

Vendo a palhaçada na TV, cogitaram ir ao estúdio para entrar no espírito da brincadeira, mas desistiram, pois certamente causariam ainda mais especulações sobre o assunto da "volta" dos Beatles.

É baseado nesse encontro real de Lennon e McCartney, nesse dia 24 de abril de 1976, que foi produzido o filme "Two of Us", mais uma produção da VH1, em sua série, "Movies That Rock" (já comentei sobre o filme "Sweetwater, a True Rock History", anteriormente, em matéria escrita para o Blog do Juma e republicada aqui no meu Blog 1, e que foi a primeira produção cinebiográfica deles).
 

 
O filme dirigido por Michael Lindsay-Hogg, usou a licença poética mais que a realidade, explorando outros aspectos desse encontro.

Para início de conversa, suprimiu a presença das respectivas esposas, focando na ideia dos dois se encontrando após anos de separação e ressentimentos ainda presentes para ambos.

No filme, Paul resolve visitar John fortuitamente, nim day-off dos seus compromissos com o Wings (sua banda na ocasião), que excursionava e fariam shows no Madison Square Garden.

Recebido friamente por seu velho amigo de Liverpool, chega a se arrepender rapidamente por ter forçado a visita, tamanha a aspereza com a qual é recebido.

Em 1976, Lennon estava noutra...de fato, na vida real, desde a virada de 1975, ele entrou numa fase de desconstrução de si mesmo.

Queria a todo custo levar uma vida normal de um homem comum, longe de sua condição de estrela do Rock, mundialmente famoso e isolando-se no seu apartamento, estava encantado em ser apenas um "dono-de-casa", e cuidar de seu filho recém nascido.

Já McCartney, estava no auge da fama de uma segunda banda bem sucedida no pós-Beatles (Wings), e curtindo o fato dessa banda estar fazendo sucesso por seus méritos, sem usar o repertório dos Beatles para ter sucesso comercial.

No filme, o gelo vai quebrando, quando o Lennon percebe que estava sendo turrão demais e esquecendo de suas mágoas, enxerga em McCartney, o amigo adolescente com quem dividiu sonhos e expectativas por anos a fio.

Curtindo reminiscências, entram em climas muito lúdicos, como ao sair para caminhar pelo Central Park e aproveitarem para andar como pessoas comuns, entrar num café e não serem incomodados por fãs inconvenientes etc (mesmo assim, não conseguem isso, 100%, claro...).

O clima azeda quando não percebendo o limite desse resgate na amizade estremecida, Paul empolga-se e vai buscar um violão na limusine que o aguardava.

Esse é o momento do filme, onde qualquer Beatlemaníaco tem taquicardia, pois a pergunta é óbvia : será que a dupla mais bem sucedida da história do Rock, vai voltar a trabalhar junta ? Será, será ?

Mas ao voltar ao apartamento, flagra Lennon conversando com Yoko ao telefone e percebe claramente que não havia mais clima algum...

Na vida real, é sabido que após o jantar muito amistoso no sábado, McCartney voltou no domingo ao Edifício Dakota com um violão em mãos e disposto a tocar com seu amigo, mas este não o recebeu, dispensando-o pelo interfone do prédio, lhe dizendo : "não estamos mais em 1956, Paul. Se quiser me visitar, tenha a bondade de me telefonar antes, avisando-me"...
O filme foi produzido com a intenção deliberada de investir na questão da discussão do tema "amizade", sobretudo. Com isso, os produtores e o diretor não se preocuparam em retratar a história real, mas sim, criar uma história em torno desse tema.

E sendo assim, os atores não foram escolhidos por serem muito parecidos , fisicamente, porém mais pela sua capacidade de interpretar essa gama de sentimentos envolvidos no espectro da amizade.

Aidan Quinn interpretou Paul McCartney, e Jared Harris fez John Lennon.

A fotografia é muito boa, em tons pastéis, trazendo uma quase implícita melancolia, que eu diria, proposital.

Os diálogos são muito bons, com o show de sarcasmo do Lennon, que tinha de fato essa característica tipicamente britãnica em contraponto ao cartesianismo quase inconformado de McCartney, o que corresponde também à vida real. 

O filme agradou em cheio aos Beatlemaníacos, mesmo com muitas licenças poéticas e deixa no ar aquela deliciosa pergunta, nunca respondida : eles realmente poderiam ter se acertado e promovido um retorno dos Beatles, ainda que numa única noite em 1976 ?

 
Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, e republicada no Site/Blog Orra Meu, ambas em 2011.

domingo, 15 de abril de 2012

Sete Bilhões de Bocas Famintas - Por Luiz Domingues


Recentemente a mídia alardeou o nascimento de um bebê que foi arrolado como o ser humano de número sete bilhões, no planeta.
É fato concreto que a aceleração no processo demográfico, iniciou-se principalmente a partir do incremento da revolução industrial, em meados do século XVIII.

O economista britânico Thomas Malthus, desenvolveu sua famosa teoria nessa época, dando conta do crescimento geométrico da população, não acompanhar o crescimento aritmético dos recursos materiais para supri-la, em termos de comida e água potável.

Isso é o básico, claro, mas numa análise mais realista e adaptada ao século XXI, sabemos que só a comida e a bebida não suprem as necessidades de sete bilhões de pessoas.

A questão do equilíbrio econômico é muito preocupante, haja vista as convulsões sociais que temos observado (já falei sobre esse tema em matérias anteriores, como "A Ocupação dos Insatisfeitos", por exemplo).

A insatisfação pelo colapso do capitalismo está chegando no seu limite máximo de tolerância, mas a perspectiva em torno de sua eventual derrocada, é sombria, pois não se trata de derrotar Wall Street como se derrubou o comunismo simbolicamente através do muro de Berlim em 1989. Não é tão simples assim.

A grande questão é : como alimentar e hidratar sete bilhões de pessoas ? Como cuidar para que hajam meios de subsistência; empregos; sustentabilidade para esse contingente absurdo ?

Isso sem contar no bojo de necessidades a serem supridas. Além da comida e da água potável, existem as questões da moradia digna; saneamento básico; serviços públicos eficientes; diminuição dos índices poluentes; reciclagem; coibição de desperdício; saúde pública; erradicação de doenças e epidemias; lazer para não enlouquecer essa gente toda; esportes para gastarem sadiamente a energia e claro, educação, arte & cultura asseguradas...


Como garantir isso para sete bilhões de pessoas, se nunca na história da humanidade isso foi possível de ser provido e com um contingente humano muito menor (em 1959, haviam três bilhões de seres humanos respirando neste planeta...) ?

Em tempos de tantas tomadas de consciência em torno da ecologia, reciclagem e processos de sustentabilidade (sem contar na luta contra a poluição), será que ninguém coloca na pauta do dia a questão do controle da fertilidade ?

Ou seria algo politicamente incorreto de se ventilar ?

Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2011.

sábado, 14 de abril de 2012

Kim Kehl & Os Kurandeiros - Dia 14 de abril em Santo André / SP

Kim Kehl & Os Kurandeiros
Dia 14 de abril  - Sábado  - 22:00 h
Central Rock Bar
Av. José Antonio de Almeida Amazonas, 596
Santo André  -  SP
Banda de abertura : Capitão Bourbon

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Grace of my Heart - Por Luiz Domingues

No final da década de quarenta, a revista Billboard cunhou o rótulo : "Rhythm and Blues", ou  "R'n'B', para designar um novo derivado do Blues, que havia se fundido à estilos jazzisticos como Jump Blues; Swing, e Hard Bop.

No final dos anos cinquenta, o R'n'B era extremamente popular na América, alçando ao estrelato, grupos vocais negros de extrema qualidade.

Mas numa Era pré-Beatles e pré-Folk, via "Protest Songs", as gravadoras tinham o hábito de contratar compsoitores fixos, para alimentar tais grupos que nem sonhavam em compor suas próprias canções.

Inúmeros compositores talentosos começaram suas carreiras nessas condições, no fim dos anos cinquenta, caso de Carole King e Gerry Goffin, que formavam um casal.

É nesse contexto que gira a história do filme "Grace of my Heart", de Allison Anders, lançado em 1995.

Assim como "The Rose" nunca explicitou ser a biografia de Janis Joplin, "Grace of my Heart" também não se proclamou a biografia oficial de Carole King, mas as semelhanças e insinuações não dão margem de dúvida de que na verdade, é mesmo.

A personagem Edna Buxton (illeana Douglas), é uma garota rica, herdeira de um império industrial criado por seu pai, mas sonha em ser cantora. Participa de um teste numa gravadora e passa, mas logo percebem que ela também tem talento como compositora e pianista.

Então, o produtor Joel Milner (John Turturro), a contrata e sua carreira vai subindo, como compositora de sucesso. E por sugestão de Joel Milner, passa a usar o nome artístico de : Denise Waverly".
Denise envolve-se emocionalmente com outro compositor, Howard Laszatt (Eric Stoltz), e vão trabalhar juntos. Após alguns sucessos, o casamento rui pela infidelidade contumaz de Howard, e ela vai embora com a filha do casal.

Os tempos mudam e chegando a metade dos anos sessenta, a "British Invasion" praticamente sepulta a figura do compositor de aluguel nas gravadoras americanas.

Com o sucesso dos Beatles e de outras bandas americanas, a nova onda é o próprio compositor se lançar como intérprete, tocando e cantando suas próprias músicas. O mesmo estava acontecendo com os artistas da música Folk americana, com Bob Dylan na sua comissão de frente.
Denise conhece então o compositor e vocalista de uma banda de Surf-Music muito famosa, que já mergulhado na lisergia do movimento hippie, quer produzi-la, usando todo o experimentalismo típico dessa nova Era.

Eles se envolvem como casal e vão morar numa comunidade hippie. Todavia, ele exagera nas drogas alucinógenas, e num momento de insanidade, entra no mar e se afoga, sem que isso fosse um suicídio, necessariamente. 

Abalada com essa perda e com três filhos para criar, ela reencontra o seu primeiro produtor, Joel Milner, e finalmente lança seu primeiro LP, no início dos anos setenta, com lindas canções; letras expressivas; e interpretação notável...o LP se chama "Grace of my Heart", o título do filme, mas é inevitável não associá-lo à "Tapestry", o fantástico primeiro LP de Carole King, lançado em 1971.  
As coincidências com a biografia de Carole King são muitas, a começar pelo LP que citei acima. Realmente, Carole King e seu primeiro marido, Gerry Goffin, trabalharam no edifício Brill de New York, onde vários compositores ocupavam escritórios e criavam canções em expediente comercial.

O personagem Joel Milner (John Turturro), foi inspirado em dois produtores famosissimos dessa fase dos anos cinquenta, até os setenta : Phill Spector e Don Kirshner.

The Shirelles; Everly Brothers e outros grupos de R'n'B reais, foram retratados nos grupos fictícios do filme.

O personagem John Phillips (Matt Dillon), foi claramente inspirado no baixista / pianista e compositor dos Beach Boys, Brian Wilson.

Brian está vivo nos dias atuais, apesar de bastante sequelado pelo uso de drogas pesadas, mas seu irmão, Dennis Wilson (o baterista dos Beach Boys), realmente morreu afogado.

Contudo, a licença poética de ir caminhando para o mar, foi clara referência ao filme "A Star is Born", quando o personagem Norman mainer, deprimido pelo sucesso de sua mulher em detrimento de sua decadência como ator, suicida-se, entrando passivamente no mar.

A trilha de "Grace of my Heart" foi composta essencialmente por Burt Bacharah e Elvis Costello, com algum reforço de outros compositores, Joni Mitchell, por exemplo.

A produção ficou a cargo de Ruth Charny; daniel Hassid, e um certo Martin Scorsese...

Gosto do filme por acompanhar, mesmo que veladamente, três fases importantes na carreira de Carole King, com ótimos atores envolvidos; boa direção de arte, e boas canções.
Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.