quinta-feira, 31 de maio de 2012

Painéis da São Paulo Antiga - Por Luiz Domingues



Espalhados por vários pontos da capital paulista, grandes painéis chamam a atenção pela beleza artística e sobretudo pelo caráter nostálgico de retratar a São Paulo de décadas atrás.

São paisagens urbanas, com cenas do cotidiano das décadas de 1910 a 1960, principalmente, do século passado.
Tratam-se de painéis de grandes dimensões, com a mescla da arte tradicional e o grafite urbano.

Geralmente inspiradas em fotos antigas e em preto e branco, respeitando a impressão causada pela foto, mas em alguns casos coloridas , usando a imaginação do artista.

E de quem estou falando, afinal ?

É de Eduardo Kobra, paulistano de 36 anos de idade, fortemente influenciado pela arte urbana do grafite e admirador confesso do artista novaiorquino, Eric Grohe.
A Obra de Kobra encanta pelo detalhismo, beleza estética e certamente pelo fator resgate, trazendo uma rara memória paulistana, pois é mesmo difícil a preservação do ambiente urbano numa megalópole como São Paulo, onde a especulação imobiliária, invariavelmente é desumana.

Um dos mais lindos painéis, ao meu ver, está na Av. 23 de maio, na altura do Viaduto Tutóia, onde uma São Paulo dos anos vinte, fica observando o caos do gigantesco fluxo de automóveis da São Paulo atual.
Eduardo Kobra, tem o seu estúdio próprio (Studio Kobra) e a este projeto em específico, dá o nome de "Muro das Memórias".

Eis aí um exemplo de como o grafite pode ser artístico, belo e promotor de uma memória raramente evocada do paulistano por sua própria cidade.
Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2012.

The Rutles, Tudo o que Você Precisa é Dinheiro - Por Luiz Domingues



O típico beatlemaníaco, sabe de cor todas as passagens da carreira dos Beatles. Todas as fases, fatos polêmicos, coisas que chocaram a mídia e claro, as músicas, álbuns, fotos e filmes.
E foi brincando com toda essa memória que Eric Idle, componente do grupo teatral de humor, Monty Phyton e Neil Innes, ex-membro da banda satírica "Bonzo Dog Doo Dah Band", dos anos sessenta, criaram o grosso dos Sketches, que se transformaram num filme, lançado na BBC, em 1978.
Acompanhados de Ricky Fataar e John Halsey, formaram uma banda paródia dos Beatles, criando canções muito parecidas, mas ligeiramente diferentes das músicas do Fab Four, o suficiente para lembrarem de pronto as originais e causarem uma estranheza sutil em suas diferenciações, tornando-as hilárias.

E os personagens também adotam essa dualidade entre o real e o irreal, pois os quatro personificam os quatro Beatles, mas ostentam nomes e personalidades levemente adulterados. 
Você bate o olho e sabe que os estão parodiando, mas a sutil diferença causa um efeito ainda mais engraçado do que se simplesmente os imitassem, ipsis litteris.

E lá se vão as gags absurdas ao longo de pouco mais de uma hora de exibição. Satirizam todas as passagens da carreira da banda, com um humor sarcástico, típico britânico, beirando o humor negro. 
As músicas são hilárias e as capas de discos, recriações perfeitas e debochadas do material dos Beatles.

Nada escapa..."All You Need is Cash", a fase de terninhos e as tours malucas; a fase Hippie; a morte de Brian Epstein (o empresário dos Beatles que morreu em 1967); o envolvimento com um guru indiano; o dia em que Lennon encontrou Yoko Ono (retratada como uma nazista e não nipônica) etc etc. 
E como os quatro Beatles reagiram à essa palhaçada demolidora ?

Bem, George Harrison não só aprovou, como ajudou financeiramente, e atuou no filme (pouco tempo depois, Harrison criaria uma produtora de cinema, que trabalhou formalmente com o grupo de teatro e humor, Monty Phyton, e outros artistas britânicos, a "Handmade Films"). 

Ele fez o papel de um jornalista que fazia uma reportagem explicando os motivos pelos quais a Apple, empresa criada pelos Beatles, entrara em decadência graças à roubalheira desenfreada de seus funcionários, visto que nenhum dos quatro, apesar de donos, mal sabiam o que acontecia com seus subordinados (aliás, uma verdade). 

É uma das cenas mais engraçadas, onde o repórter (Harrison), entrevista o assessor de imprensa dos "Rutles" (Michael Palin, também membro do Monty Phyton e aqui encarnando Derek Taylor, o verdadeiro porta-voz dos Beatles).

Enquanto o assessor fala naquele empolado sotaque britânico "posh" (o sotaque da aristocracia, ou seja, como a Rainha e sua turma falam), "que nada de errado está acontecendo na empresa", vários funcionários passam por trás, carregando móveis; utensílios e até um vaso sanitário sai nas mãos de um gatuno...

John Lennon recebeu a cópia antes do lançamento e recusou-se a devolvê-la, de tanto que a curtiu.
Ringo Starr declarou que curtiu as cenas alegres, mas sentiu tristeza em alguns momentos.

E finalmente Paul McCartney, foi o que mais se mostrou arredio. Estava lançando o álbum "London Town", da sua então nova banda, "Wings", e nessa fase, esforçava-se a não citar, nem mesmo tocar músicas dos Beatles nos shows. Segundo Eric Idle, que o encontrou num jantar, Paul se mostrou bastante frio e evitou tocar no assunto. 
O último empresário da banda, o americano Allen Klein, é retratado como um tirano (e era mesmo...), de forma hilária por John Belushi.

Assim como o The Monkees, o The Rutles acabou se tornando uma banda verdadeira e lançou discos, fez shows etc.

Mick Jagger e Ron Wood fazem pontas muito engraçadas e a ex-esposa de Mick Jagger; Bianca Jagger, interpreta a esposa de "DIrk", interpretado por Eric Idle, o Paul McCartney parodiado.

E o que dizer de Ricky Fataar ?

O ator que interpretou o falso Harrison, tem as feições de um indiano e nada poderia retratar a personalidade de harrison de uma melhor forma. 
Fataar é na verdade sul-africano, porém descendente de malaios. Tocou muitos anos numa banda local chamada "The Flames, e numa ocasião onde abriram o The Beach Boys, encantaram Carl Wilson, que os levou para a América e lhes arrumou gravadora.

"The Flames fez relativo sucesso e muito bom guitarrista que é, tocou várias vezes ao vivo com os Beach Boys, substituindo Carl Wilson sempre que este adoecia.

E John Halsey, que interpretou "Barry", o falso Ringo Starr, é músico também. Ele tocou numa banda chamada"Felder's Orioles", nos anos sessenta e chegou a excursionar como baterista da banda de Joe Cocker, nos anos setenta.
Ao contrário de "This is Sinal Tap", que satiriza o Rock como um todo através da banda Spinal Tap, The Rutles tem um alvo único : The Beatles.

Claro, beatlemaníacos mais radicais, não gostaram muito. Mas eu recomendo com louvor, pois é uma sátira hilária e não fere meus sentimentos em relação aos Beatles, banda de cabeceira. 
Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2012

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Seconds, Uma Nova Vida - Por Luiz Domingues

E se pudéssemos adquirir uma nova identidade no decorrer da vida, com fisionomia, documentos, atividade profissional e relacionamentos sociais completamente diferentes dos nossos ?

E foi nessa fantasia que o diretor John Frankenheimer baseou-se para criar "Seconds", seu longa de 1966.

A estória começa com o personagem Arthur Hamilton (John Randolph), um homem de meia-idade, rico, porém completamente insatisfeito com sua vida.

Tudo muda quando é abordado por um amigo que julgava falecido há tempos e que lhe propõe uma mudança radical de vida.

É levado então à uma instalação secreta, laconicamente denominada : "A Empresa" .

Em meio à diversas pessoas na mesma expectativa, é confinado com o intuito se preparar para uma mudança radical de vida.
Numa entrevista com um misterioso homem chamado de "Sr. Ruby", aceita as regras dessa mudança, assumindo o compromisso de esquecer-se de sua família e identidade antiga.
 

Um incêndio é forjado para que um cadáver de outra pessoa seja colocado no local, e assim, Arthur Hamilton fosse declarado morto oficialmente, enquanto ele se submete à uma radical cirurgia, onde rejuvenescido e com nova fisionomia, surge Tony Wilson (doravante interpretado por Rock Hudson).

Tony Wilson tem uma nova vida. Agora é um artista plástico que mora em Malibu, California. Leva uma vida excitante como artista celebrado e namora Salome Jens (Nora Marcus), uma mulher jovem e muito bonita.

Mas aos poucos, o remorso por ter abandonado sua vida verdadeira, começa a ecoar dentro de si.
 

Numa festa, se excede na bebida e fala sobre sua vida pregressa. É advertido por agentes de "A Empresa"e fica sob suspeita.

Não suportando viver essa mentira, vai visitar sua ex-esposa, alegando ser um amigo do falecido marido (ele mesmo) e após quebrar essa norma de sigilo, é recolhido às instalações da misteriosa organização.

Ele reencontra o amigo que o levou pela primeira vez nessa organização e ambos pleiteiam uma terceira identidade.

O final, não é feliz, pois o destino de ambos, insubordinados, é o de morrer para que seus cadáveres sejam usados como causa mortis de outros clientes que irão "renascer".



O filme é sombrio, com esplêndida fotografia preto e branco de James Wong Howe e é reconhecido pelos críticos como um Sci-Fi que se mistura ao Thriller. Elementos dessas duas escolas, mesclam-se à psicodelia em voga na época, além de uma certa dose de terror, via influência da produtora britânica Hammer e dos filmes de Roger Corman.


A cena da cirurgia plástica de Arthur Hamilton/Tony Wilson (John Randolph/ Rock Hudson) teve takes de uma cirurgia de rinoplastia real. John Frankenheimer realizou pessoalmente esses takes e segundo relatos, desmaiou , não suportando presenciá-la.

Outra curiosidade interessante é que "Seconds" trouxe em seu elenco, três atores que haviam sido banidos de Hollywood por conta da perseguição macarthista. Jeff Corey (Mr. Ruby), Will Geer (The Old Man) e John Randolph (Arthur Hamilton). Informalmente, Frankenheimer dizia que eles eram os "renascidos da vida real", justificando a metáfora do filme.


Diz-se à boca pequena, que essa é a melhor atuação da carreira de Rock Hudson, um ator muito contestado pelos críticos.
                       O grande diretor, John Frankenheimer

Matéria publicada inicialmente na Revista Eletrônica Cinema Paradiso, em sua edição de n° 301, no ano de 2011.

Spinal Tap, Brincadeira Com Fundo de Verdade... - Por Luiz Domingues


E se juntássemos todas as histórias bizarras que acontecem nos bastidores das bandas de Rock reais e as filmássemos com uma banda fictícia, simulando um documentário sério, será que os Rockers ficariam ofendidos ?

Esse deve ter sido o questionamento feito pelo diretor/ator/produtor Rob Reiner na reunião com os produtores, tentando convence-los a realizar "This is Spinal Tap" (no Brasil, recebeu o nome de "Spinal Tap, o Ocaso de uma Lenda"), um dos mais hilários filmes sobre o universo do Rock.

Lançado em 1984, simula um documentário, acompanhando a trajetória da banda Hard-Heavy, "Spinal Tap", entrevistando seus membros e mostrando bastidores de shows, gravações, viagens e compromissos sociais da banda.

A quantidade de casos engraçados é tão grande, que se torna inevitável pensarmos que não foram meras criações de gags humorísticas, mas casos retratados de diversas bandas reais, em situações bizarras, constrangedoras, ridículas...
O núcleo principal da banda gira em torno dos guitarristas David St. Hubbins e Nigel Tufnel (interpretados pelos atores Michael McKean e Christopher Guest) e o baixista, Derek Smalls (interpretado pelo ator, Harry Shearer).

Os três atores sabiam tocar e cantar, portanto, as cenas ao vivo, apesar de hilárias, tem esse caráter fidedigno no tocante à maneira de empunhar e digitar guitarras e baixo.

As piadas são inúmeras. Não contarei todas para não estragar a surpresa de quem nunca assistiu, contudo, cito algumas :

1) O guitarrista Nigel Tufnel vai fazer um solo triunfal e vai envergando suas costas, fazendo uma tremenda pose de Rock Star..., mas se desequilibra e não consegue voltar ! Desesperado, pede ajuda aos roadies que não entendem o que ele quer, no meio daquela zoeira ensurdecedora...
2) Vão tocar numa grande arena e o camarim é tão longe e labiríntico, que simplesmente não acham o caminho para o palco !

3) O divulgador da gravadora marca uma tarde de autógrafos na mais badalada loja de discos de uma cidade americana. Só esquece de divulgar o evento...ficam horas dentro da loja vazia, com canetas à mão.

4) Numa época de vacas magras, o empresário marca um show num clube frequentado por pessoas da terceira idade. Logo na primeira música, causam constrangimento pelo teor da letra, com fortes citações sexuais.

5) Numa ruptura, a banda perde o guitarrista Nigel e o baixista resolve mudar o direcionamento artístico do repertório, anunciando que agora farão um som experimental ao invés do Hard-Heavy dos discos anteriores. Tocam diante de um minguado público o seu novo e completamente esquisito som. Um fã fica o show inteiro com o polegar virado para baixo em sinal de protesto.
6) Resolvem fazer um cenário hollywoodiano, com as pedras de Stonehenge no palco. Só que o encomendam para o cenógrafo, numa escala reduzida. Quando o cenário desce com a banda já em ação, tem o tamanho de um tabuleiro de xadrez ! Para salvar a situação (salvar ??), contratam anões vestidos de druidas, para dançar em volta da mini Stonehenge...
E acreditem, tem muito mais, assistam que vale a pena.

Piada em cima da piada, alguns críticos nem perceberam que era uma comédia e caíram de pau, criticando-o como se fosse um documentário de uma banda real !! 


Um determinado crítico chegou a escrever : "Contratem um cinegrafista decente para retratar a banda, pelo amor de Deus !"

O tecladista da primeira formação do "Yes", Tony Kaye, chegou a fazer teste para ser tecladista do "Spinal Tap" no filme. Ele só não ficou, pois recebeu o convite para fazer parte da formação da volta do "Yes", nos anos oitenta.
 

Confidencialmente revelou que o convite o salvou do "mico".

Muitos Rockers que o assistiram, acharam graça e revelaram ter passado por situações semelhantes na vida real. Entre eles, Robert Plant, Ozzy Osbourne e Dee Snider, que confessaram terem se perdido em caminhos escuros para chegar ao palco.

Outros, no entanto, ficaram atônitos e declaradamente disseram não ter gostado da gozação. Eddie Van Halen por exemplo, não deu uma risada durante a exibição e ao final, disse que se via ali naquelas situações.

O mesmo ocorreu com Steven Tyler, que segundo o guitarrista Brad Whitford, ficou deprimido no cinema e só disse laconicamente que aquilo não tinha graça alguma.
Diversão garantida, "This is Spinal Tap" é uma grande brincadeira com o Rock. Acredito que todas as situações ali retratadas são reais. Qual músico não tem um caso desses para contar ?

Eu mesmo tenho vários, como por exemplo na banda em que tocava nos anos oitenta, durante um show em São Caetano do Sul/SP , em um ginásio com 2000 pessoas na plateia, errei uma marcação de palco onde sabia que ocorreria uma explosão de pólvora que enfatizava um momento de uma música. Me distraí por um segundo e fiquei perto...

Só me lembro da cara desesperada do baterista da minha banda, olhando-me com o fogo chamuscando minha longa cabeleira...
Consegui apagar rápido, a música nem parou e só me lembro de ter ficado com marcas de pólvora pelo rosto. Tive meu dia de Spinal Tap...
Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2012.
 

terça-feira, 29 de maio de 2012

Preocupação Ecológica ou Outros Interesses ? - Por Luiz Domingues


Desde janeiro de 2012, entrou em vigor em São Paulo, uma nova Lei que proibiu o uso de sacolas plásticas em supermercados. A Lei já estava vigorando em Belo Horizonte, alguns meses antes.

Numa primeira análise, parece uma medida de intenções ecológicas. Como discordar de uma ação desse nível, visto que numa conta grosseira, estima-se que só na cidade de São Paulo, 600 milhões de sacolinhas plásticas eram consumidas mensalmente ?

O grande problema do uso de tais materiais plásticos, era que as pessoas acostumaram-se ao longo dos anos, a usarem-nas com uma segunda função caseira, além do transporte das compras do mercado para casa. Ou seja, passaram a armazenar o lixo doméstico visando entregá-lo para a coleta.

Dessa forma, em dias chuvosos, esses pacotes mal acondicionados e soltos pelas ruas, passaram a entupir bueiros e bocas-de-lobo e logicamente tornaram-se os vilões das enchentes constantes.

Isso sem contar as explicações biológicas plausíveis sobre o tempo absurdo que demoram para serem absorvidas pela natureza. Argumento inquestionável.
 

Assim, como não se engajar nessa nova determinação, não é mesmo ?




Mas, antes que aceitemos passivamente a suposta preocupação ecológica de nossos mandatários, faz-se necessária uma reflexão.

As sacolas demoram a se biodegradar, enchem bueiros etc. Ora, e se as pessoas parassem de jogar lixo nas ruas, isso não ajudaria ? E se a prefeitura fosse 100 % eficaz na limpeza dos bueiros e na coleta de lixo, não ajudaria ? E se o lixo ao invés de jogado em aterros fétidos, fosse incinerado e usassem sua combustão para obter gás, não seria uma medida ecológica (e bem vinda como economia) ?

Ao invés de proibir as sacolas, pura e simplesmente, não seria muito mais produtivo num médio e longo prazo, investir pesado em educação ambiental nas escolas, formando os cidadãos do futuro ?

Aí eu me lembro que outros tipos de sacolas, retornáveis ou não, são sugeridas pelas autoridades. Ora, alguém fabrica esse tipo de material "recomendado", não é verdade ?

Isso me faz lembrar da Lei de obrigatoriedade do Kit de primeiros socorros, anos atrás, lembra-se ? Certos fabricantes desse tipo de estojinho, enriqueceram da noite para o dia. Coincidência, quero crer.

A Lei que baniu os Out-Doors de São Paulo foi muito elogiada, anos atrás, também, lembra-se ? Quem não gostou de ver São Paulo muito menos poluída ? Super bacana...mas o que será que aconteceu com as empresas que viviam desse tipo de mídia comercial ?


Então, amigos, o questionamento é esse : O poder público parece preferir medidas bombásticas e antipaticamente invasivas, mas na prática, pouco se esforça para solucionar os grandes desafios dos desgastes urbanos.

Que todo mundo tem que colaborar na coleta e na separação do material reciclável, não tenho nenhuma dúvida. Particularmente, faço-o com prazer. Mas e o poder público, o que faz, exatamente ?


Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2012.

A Perda da Identidade - Por Luiz Domingues



Um dos primeiros atos de hostilidade dentro da polarização entre as frentes ideológicas de direita e esquerda, foi sem dúvida a Guerra Civil Espanhola.

Milhares de idealistas, oriundos de 54 países diferentes, se alinharam nas Brigadas Internacionais para enfrentar as forças do general Francisco Franco, que por sua vez tinha apoio de Adolph Hitler, inclusive com colaboração militar.

Batalhas duríssimas foram travadas nos fronts de Madrid; Jarama; Guadalajara; Brunete; Teruel; Ebro; Albacete; Valencia etc.
Com a força militar nazista apoiando, ficou mesmo difícil para os brigadistas, e Franco triunfou, deixando a Espanha por décadas estagnada numa ditadura que lhe custou permanecer na retaguarda, relegada à um patamar de inferioridade em relação à outras nações europeias, assim como Portugal, com o poder de Salazar.
E o que aconteceu com esses brigadistas que lutaram movidos por seus ideais socialistas ?

Fora os que tombaram nos campos de batalha, os que foram capturados, foram levados para campos de concentração na própria Espanha em princípio e também na França.

Com o início da II Guerra Mundial, muitos foram deslocados para a Alemanha e redistribuídos para os campos de concentração nazistas, onde evidentemente foram exterminados.

Mas, uma situação inusitada se criou, pois muitos deles que escaparam, perderam sua condição de cidadãos e foram condenados a viverem na clandestinidade, assumindo falsas identidades, pois tornaram-se apátridas e personas não gratas em diversos países do mundo.

Obviamente não era possível viver na Espanha, Alemanha, Itália, Áustria e na Checoslováquia, dominada por nazifascistas.

Mas por incrível que pareça, não encontraram apoio em países alinhados com o bloco soviético.

Eram recusados na Romênia; Bulgária; Iugoslávia; Hungria, e na própria União Soviética, onde passaram a ser considerados como pessoas "não confiáveis".

O mesmo conceito lhes era imputado nos Estados Unidos, França, Inglaterra e Irlanda.
Restava-lhes alternativas de segundo e terceiro escalão, mas mesmo assim, ficou difícil. O Brasil de Vargas flertava com Hitler e Mussolini e só alinhou-se aos aliados na parte final da Guerra, praticamente. A Argentina também tinha simpatia pelo Eixo.

Muitos acabaram se aliando enfim à resistência francesa e sua experiência foi fundamental para minar os nazistas.

Mas muitos perderam a identidade, tornando-se apátridas, rejeitados e considerados "mercenários", acusação esta, ultrajante, por sinal.

A coragem desses idealistas em se alistarem numa causa que só lhes dizia respeito sob o ponto de vista teórico, é admirável. Mas fica também uma dúvida pairando no ar : Valeu mesmo a pena ter se engajado numa luta desse porte, numa terra estrangeira e ter como resultado prático toda essa perda pessoal ?

Venceu a direita, perdeu a esquerda...alguns anos depois Franco morreu sem deixar saudade a não ser para seus correligionários, e a Espanha voltou a crescer e tirar o atraso cultural. Do outro lado, todo esse sacrifício para manter e impor os ideais de Karl Marx aos vizinhos, esvaneceu-se, culminando num muro derrubado, escancarando o fracasso dessa "igualdade" forjada à forceps.

Na falta de um sistema político e sócio-econômico realmente justo e bem organizado, visando o bem estar e com oportunidades para todos, nem o capitalismo, tampouco o comunismo deram respostas aceitáveis à humanidade.

Sendo assim, qual a luta que realmente merece ser travada ?



Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2012.