domingo, 3 de junho de 2012

Babel Paulistana - Por Luiz Domingues


A vocação paulistana para abrigar estrangeiros vem de longe. O grande fluxo inicial veio evidentemente no final do século XIX, com a chegada de milhares de europeus para trabalhar nas lavouras do interior do estado.

Contudo, com a crescente industrialização da capital, milhares de estrangeiros vislumbraram melhores oportunidades trabalhando na infinidade de fábricas que aqui se instalaram.
Naturalmente os italianos tomaram de assalto a cidade, imprimindo seu sotaque de forma tão incisiva que acabaram influenciando o sotaque paulistano, de forma avassaladora. Isso explica a dificuldade paulistana em pronunciar os plurais, visto que na língua italiana, esse quesito gramatical tem diferenças em relação ao português.
Japoneses, espanhóis, portugueses, judeus, sírios, libaneses e turcos chegaram em enorme profusão, tornando a cidade mais rica com tantas culturas diferentes convivendo harmonicamente.

No final dos anos sessenta, o fluxo migratório interno que sempre foi predominantemente dominado pelos mineiros, seguido de gaúchos e paranaenses, passou a ter outro fluxo em profusão : os nordestinos.

Um recrudescimento da imigração se deu então nas décadas de setenta, oitenta e noventa, talvez destacando a chegada dos coreanos a partir de 1963, como última grande leva em profusão.
Mas os tempos são outros e com a ascensão do Brasil no cenário mundial, aliado à grande crise que Estados Unidos e Europa atravessam, uma nova e significativa onde de imigração está consolidada.

Diferente da época difícil de nossos bisavós, o novo perfil de imigração não é de camponeses com baixa qualificação profissional buscando trabalhos braçais. São executivos, geralmente recrutados por empresas que rapidamente abrem escritórios no
Brasil para operar num mercado emergente, empresários abrindo negócios aqui e muitos estudantes buscando nossas universidades.
Basta andar a pé por avenidas como Paulista, Faria Lima ou Engenheiro Luiz Berrini, para se ouvir pessoas conversando em diversas línguas estrangeiras e verifica-se esse fenômeno.
Isso sem contar os bares e restaurantes étnicos, geralmente abertos por estrangeiros das primeiras levas ainda do século XX, que agora mantidos pelos seus descendentes, recebem os compatriotas de seus antepassados, lhes servindo comida típica e o aconchego de suas pátrias de origem.


Verifico também o crescente número de hostels que estabelecem-se por todos os bairros. No meu bairro, conheço pelo menos uns dez, lotados de estrangeiros, geralmente jovens.


Segundo dados oficiais, 26 mil estrangeiros receberam vistos de trabalho no início de 2012.

Tem o outro lado também. Cresceu gigantescamente a imigração ilegal, principalmente sulamericanos que enxergam São Paulo como a nova meca das oportunidades.

Estima-se que já tenhamos cerca de 200 mil bolivianos vivendo na cidade e a imensa maioria de forma ilegal. Os famosos "coiotes" que ajudam pessoas a entrar nos Estados Unidos via México, agora trabalham por aqui também, facilitando a entrada de imigrantes desses países vizinhos.
Uma leva de peruanos e paraguaios também tem entrado com força, seguindo o êxodo boliviano. É impressionante andar pelas ruas de bairros como Pari; Brás; Canindé; e Bom Retiro, onde se veem estabelecimentos com placas em castellaño, atendendo essas comunidades de países hispânicos.
Toda essa efervescência combina com a ascensão do Brasil no cenário internacional e certamente faz da sua maior metrópole, uma cidade de oportunidades. Aliás, trata-se de um resgate da tradição paulistana de abrigar estrangeiros de toda parte do planeta.
Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, em 2012.

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