quinta-feira, 7 de junho de 2012

Cinemas de Bairro em São Paulo - Por Luiz Domingues

Durante décadas, os cinemas de rua fizeram a alegria dos paulistanos, espalhados por todos os bairros da cidade.

Salas de todos os tamanhos, simples ou luxuosas, atraíam famílias inteiras, jovens e pessoas maduras; a criançada nas matinês; os casais de namorados, e sobretudo, cinéfilos inebriados pela sétima arte e seus múltiplos encantos.
Em grandes avenidas como a Santo Amaro, na zona sul e Celso Garcia, na zona leste, por exemplo, chegou uma fase em que haviam diversos, numa grande profusão de exibições para todos os gostos.

Na rua Domingos de Morais, na Vila Mariana, chegou a ter quatro; O bairro da Penha, na zona leste, mais de cinco e no Brás, pelo menos uns seis ou sete.
Santana; Ipiranga; Lapa; Perdizes; Mooca;Belenzinho; Vila Formosa; Brooklin...a lista é enorme.

E os cinemas étnicos ! O grande cineasta Carlos Reinchenbach e outros cinéfilos, eram viciados naqueles cinemas da Liberdade, que exibiam filmes japoneses sem legendas !!
De Griffith a Chaplin; Greta Garbo & Rodolfo Valentino; Aqueles westerns sensacionais do John Ford; Howard Hawks; até Sergio Leone; Épicos Bíblicos; Ben Hur correndo de bigas; os grandes musicais; Filmões de guerra; Errol Flynn lutando de capa & espada; Basil Rathbone resolvendo casos impossíveis como Sherlock Holmes...

As chanchadas brasileiras da Atlântida...Oscarito e Grande Othelo fazendo filas nas bilheterias no sábado à tarde.

As comédias malucas de Jerry Lewis; O espião britânico com licença para matar, Elvis, the Pelvis e seus filmes de roteiro único ( Elvis canta, encanta as mocinhas e briga com os caras encrenqueiros, não nessa ordem, necessariamente !)...

As matinês da criançada, com desenhos clássicos das décadas de trinta e quarenta...

Filmes de terror da Universal ou da Hammer, os maravilhosos Sci-Fi toscos da década de cinquenta...

Já pensou em sair de casa e caminhar por poucos quarteirões para passar uma noite vendo Fellini 8 & 1/2 ?

Como podem ter desaparecido de uma forma desoladora, se a paixão pelo cinema não se arrefeceu e as salas instaladas em Shopping Centers continuam lotando, a todo vapor ?
São muitas as razões e somadas, talvez desemboquem num funil, chamado "especulação imobiliária".

Culpar a popularidade da TV, como diversão de massa, certamente não convence ninguém, em princípio. Apontada como vilã , a TV pode ter feito uma certa concorrência , mas jamais poderia ser apontada como principal causadora do fenômeno, porque o prazer de ver cinema na tela grande, não se modificou com seu advento no início dos anos 1950.

Na verdade, a decadência dos cinemas de bairro, começou para valer só na segunda metade da década de setenta.
A deterioração sócio-urbana do entorno das salas, só pode ser creditada à região do centro velho e talvez do Brás e aí, o prejuízo não foi só para os cinemas, mas para todos os estabelecimentos. Além do mais, seguindo a decadência, muitas salas só adequaram-se à esse padrão e passaram a exibir filmes de sexo explícito ou produções classe "Z", de filmes de artes marciais produzidos por obscuros cineastas asiáticos.

Avanços tecnológicos são também apontados como fatores. O boom do videocassete no início dos anos oitenta, com a consequente profusão da febre das videolocadoras; A chegada do LD (que logo virou um fracasso inexplicável); A chegada da TV a cabo; Uma nova explosão com o DVD; As TV's de Plasma e LCD ; Blue Ray desbancando tudo; 3-D prometendo maravilhas esfuziantes...mas os cinemas de shopping continuam fazendo filas e as salas de cine-clubes, idem, com seu público cativo.

Dessa maneira, só podemos concluir que os fatores segurança e falta de estacionamento foram mais determinantes para essa derrocada, afastando espectadores, que passaram a sentir-se mais seguros nas salas dentro de Shoppings (e quando lembro do massacre do Shopping Morumbi em 1999, penso : "Pero no mucho"...).

Um a um foi fechando as portas e com isso, deixando um vazio onde só sobrou a saudade. A maioria virou estacionamento ou igreja evangélica e alguns chegaram a passar por um estágio como bingo, quando da explosão desses estabelecimentos, nos anos noventa.
Causou comoção (e ainda causa, por haver esperança de reversão do quadro), a desativação do histórico "Belas Artes", instalado há mais de sessenta anos na esquina da Rua da Consolação com a Av. Paulista.

O dono do imóvel, seduzido por uma oferta milionária, não quis prorrogar o contrato de aluguel e assim desalojou sem dó, o histórico cinema de seu endereço tradicional.
Cinéfilos promoveram diversas ações, apelaram ao poder público, especularam sobre o possível tombamento, mas por enquanto o imóvel está fechado, deteriorando-se de forma triste.

Particularmente, eu não sou contra os cinemas de Shopping Centers. Claro que a programação dessas salas multiplex atendem uma demanda de blockbusters e sendo assim, há pouco espaço, para não dizer nenhum, destinado à exibição de filmes não coadunados com essas produções mais populares. Todavia, existem boas salas de cinemas alternativos, onde essa produção mais diferenciada tem guarida.
Independente disso, acredito que os antigos cinemas de bairro, fazem falta, sim, pois o seu charme era indiscutível e seu valor cultural e recreativo para cada bairro, idem.

Todo bairro tem que ter sua pracinha, um parque, uma biblioteca, uma escola, um hospital e...seu cinema de rua, não acha ?
Matéria publicada no Site/Blog Orra Meu, e republicada na Revista Eletrônica Cinema Paradiso, n° 311, ambos em 2012

2 comentários:

  1. Aqui no Rio tb não é diferente Luiz! A famosa praça do centro, chamada Cinelândia, tem no nome seu passado glorioso e glamouroso, mas hoje só restou um, graças a Deus que restou!

    Achei o máximo as descrições dos filmes e as fotos que você colocou, especialmente a do filme "O mentiroso", com um banner enorme, e o antigo letreiro do belas artes, também é incrível! Devia ser maravilhoso ir ao cinema em São Paulo nesses tempos!

    ResponderExcluir
  2. Eu sei que no Rio é igual, Fernanda. Fui muitas vezes ao Bruni Copacabana, entre outros cinemas de bairro por aí. Aqui em São Paulo era a mesma coisa, com cinemas aos montes espalhados por todos os bairros.

    Que legal que curtiu a matéria !! De fato, tenho muita saudade desse tempo, onde assisti filmes maravilhosos. Realmente, o Belas Artes era um espaço incrível não só pela programação escolhida a dedo, mas pela localização estratégica, na esquina da Rua da Consolação com a Av. Paulista.

    ResponderExcluir