domingo, 17 de junho de 2012

Freaks, Um de Nós ! - Por Luiz Domingues


Em tempos de "politicamente correto", um filme como "Freaks" parece ter sido feito hoje em dia (2012), e sob encomenda.

Todavia, trata-se de uma produção de 1932, ou seja, uma época onde os conceitos e sobretudo a intenção dos produtores, eram bem diferentes.

Segundo reza a lenda, após o estrondoso sucesso de "Frankenstein" do estúdio Universal, o big boss da MGM, Irving Thalberg pediu ao produtor Willis Goldberg uma história mais horripilante ainda para superar o concorrente.
Dessa forma, eis que surge o roteiro de "Freaks" e a indicação para Tod Browning ser o seu diretor.

Não se tratava de uma história de terror, mas no imaginário e na moral vigentes no início dos anos trinta, causava repulsa, medo, asco...

E o que era afinal das contas ?
Incrível, mas se tratava de uma história ambientada num circo entre pessoas que ganhavam a vida exibindo suas deformidades físicas. 

Muito popular na América e na Europa, os "Freak Shows", misturavam atrações circenses tradicionais com a exibição de pessoas com terríveis deformações, exibidas cruelmente como aberrações, daí o nome do filme.
Na trama, descobre-se que Hans (Harry Earles), um anão, é herdeiro de uma fortuna. 

Rapidamente, a trapezista Cleopatra (Olga Baclanova), o seduz e apesar dos apelos de outra anã que percebe o ardil, ele se deixa levar pela beleza de uma "mulher normal", mostrando o quanto o preconceito era forte, minando a autoestima dessas pessoas.
Amante do gigante "Hercules" (Henry Victor),  Cleopatra fica noiva de Hans e numa festa de noivado entre os freaks, acontece uma das mais impressionantes cenas do filme, quando demonstrando união, as "aberrações" aceitam Cleopatra entre eles, entoando o côro : -"We accept you, one of us, one of us" ("Nós a aceitamos, uma de nós" !) !
Essa coro ficou tão famoso após o lançamento do filme, que virou uma febre na América, sendo entoado em toda a situação onde um grupo de pessoas quer demonstrar força, união etc. Aliás, é cantado até hoje.

Mas Cleopatra embriaga-se e entrega-se ao mostrar sua repugnância ao grupo de "aberrações", expulsando-os da mesa numa demonstração de repugnância por eles.
O final, bem...como muita gente não assistiu apesar de ser um filme de mais de 80 anos de idade, vou guardar a surpresa.

Resumindo, era para ser um filme horripilante de terror, pois assim pensavam os formadores de opinião naquela época, ou seja, pessoas com deficiências físicas sofriam esse tipo de humilhação, num padrão de crueldade e sordidez medieval e sendo assim, mostrá-las era uma oportunidade mórbida de humilhá-las publicamente.
Mas os anos passaram e os conceitos mudaram, ainda bem.

O tiro saiu pela culatra nesse sentido, porque "Freaks" virou um exemplo pungente de humanidade, solidariedade etc.
Aquelas pessoas do circo são honradas, honestas, puras de coração e a pergunta final é inevitável: quem são as verdadeiras aberrações humanas ?

Eu recomendo "Freaks", sem reservas. Para mim, a obra de Tod Browning é um libelo sobre a dignidade humana.
Resenha publicada numa comunidade Tod Browning da extinta Rede Social Orkut, em 2010.

2 comentários:

  1. Ainda não assisti mas pelo seu texto deve ser ótimo,curto de mais filmes antigos e tenho uma queda por coisas bizarras, com certeza vai me agradar rsr...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Grande Kim !

      Recomendo que assista assim que puder. Trata-se de um grande filme, cheio de significado humano. Ótimo filme de 1932.

      Obrigado por ler e comentar !!

      Excluir