sexta-feira, 1 de junho de 2012

Sem Lenço, Nem Documento, Mas Com O Sol nas Bancas de Revistas - Por Luiz Domingues




Foram naquelas noites de outubro de 1967, que o mítico Festival de MPB da TV Record deu abertura para que a explosão tropicalista desse seus primeiros sinais de vida, através de Gilberto Gil e Caetano Veloso, principalmente.
Especificamente Caetano, defendeu a música "Alegria, Alegria", chocando puristas, retrógrados & caretas de plantão, evocando em sua letra, imagens que remetiam à uma nova ordem poética para uma letra musical. Entre tantas colagens de Art-Pop, num famoso trecho diz : "O Sol se reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas...

E noutro trecho, diz : "O Sol nas bancas de Revista..."

Essa referência de duplo sentido, fazia menção à existência do jornal alternativo, "O Sol".
Lançado em setembro de 1967, como uma experiência de Jornal-escola, pelo jornalista Reynaldo Jardim, tinha como objetivo inicial recrutar estudantes universitários dos cursos de ciências sociais, história, letras e comunicação.

Mas o que era para ser algo meramente estudantil, ganhou rapidamente uma proporção enorme, angariando simpatia de jornalistas tarimbados, escritores, músicos, cineastas, gente do meio teatral e claro, os universitários.
Evidentemente que a época efervescente era muito propícia para tal ebulição consagradora. Com a ditadura de 1964 começando a endurecer para valer, Guerra fria pegando fogo (com o perdão do trocadilho infame), corrida espacial, movimento Hippie, Festivais de MPB polemizando posições políticas, Guerra do Vietnam...ufa...nada melhor que estar na década de sessenta para fazer todo o sentido.

Gente de peso do jornalismo se tornou colaborador. Heitor Carlos Cony, Ziraldo, Zuenir Ventura, Arnaldo Jabor etc. Fora Chico Buarque, Ruy Castro, Hugo Carvana, Bete Faria, Ítala Nandi e Gilberto Gil que também estiveram em suas páginas.
Para se ter ideia de sua ousadia editorial, quando a imprensa mainstream anunciou a morte de Che Guevara, O Sol colocou em sua manchete :
"Che Guevara pode estar vivo". Lançava dúvida sobre o ocorrido, ou ironizava os reaças de plantão ?

Em seu auge, chegou a emplacar 70 mil exemplares diários, um número impressionante para o que era para ser apenas um jornal laboratório para estudantes.

Em suas páginas, O Sol tratava de cultura, política e atualidades, sobretudo.
Com a chegada do AI-5, os tempos de chumbo chegaram com tudo e a iluminação libertária proporcionada pelos raios do Sol apagou-se, lamentavelmente.

De suas cinzas nasceu "O Pasquim", criado por ex-membros de O Sol e certamente deu continuidade à proposta.
Lançado em 2006, o documentário "O Sol, Caminhando contra o Vento" conta essa trajetória bonita. Dirigido por Tetê Moraes e Martha Alencar, teve rápida temporada no circuito alternativo de cine-clubes e exibição no Canal Brasil, da TV a cabo.


Recomendo assisti-lo, pois é um documento raro sobre essa trajetória curta, porém marcante desse periódico alternativo.
Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2012.

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