sexta-feira, 28 de setembro de 2012

The Doors, O Rei Lagarto Revivido nos Anos Noventa - Por Luiz Domingues


É inegável que a banda californiana "The Doors", foi uma das principais de toda a história do Rock.
 
Se a sonoridade da banda tinha suas particularidades interessantes ( o fato de não ter um baixista na formação; a presença de um guitarrista com estilo "bluesy", e sobretudo pela criatividade do tecladista Ray Manzarek, que não era nenhum virtuose ao instrumento, mas muito inventivo), é quase impossível negar que a força motriz da banda estava no carisma de seu vocalista. E da substância de suas letras escritas sob a lisergia sessentista, e também pela erudição espontânea que Jim Morrison tinha por apreciar poetas franceses malditos.
E as performances ao vivo, claro. Entraram para a história as performances alucinadas de Morrison, causando frenesi entre os fãs e muitas confusões com autoridades, gerando prisões, perseguições etc.

Oliver Stone tinha na cabeça a ideia de produzir um longa, contando a biografia dos Doors, há muitos anos.
Mas diversas inviabilizações prejudicaram seu intento, até que finalmente em 1990, vislumbrou a possibilidade, com o sinal verde dos produtores.

Tanto demorou, que anos antes, pensava fortemente no ator John Travolta para interpretar Jim Morrison. Com o passar dos anos, Travolta nem tinha mais o porte físico esperado para encarar esse personagem.
Surge então a figura de Val Kilmer, um jovem ator revelado nos anos 1980.

Segundo se disse à boca pequena, Kilmer teria trabalhado fortemente nos bastidores para convencer Oliver Stone a contratá-lo.
Numa dessas investidas, chegou a deixar uma fita demo com diversas canções dos Doors, com a voz dele inserida, para impressionar Stone.

E deve ter impressionado, não só pelo dote vocal, mas pelo esforço em decorar letras e nuances de interpretação do Morrison.
O filme abre com uma licença poética sobre a infância de Jim Morrison, evocando a importância do xamanismo em sua formação pessoal.

Corta para o início dos Doors, com seus membros se conhecendo no ambiente estudantil da universidade da Califórnia, e também usa de romantismo para mostrar o início da relação de Jim Morrison com sua namorada e fiel escudeira, Pamela Courson (interpretada por Meg Ryan, ainda muito linda, mas nitidamente um pouco além da idade para o papel, mesmo bem auxiliada pelos esforços da produção com maquiagem, fotografia e enquadramentos).
Seguem-se os primeiros shows do The Doors ainda como ilustres desconhecidos, mas já chamando a atenção pelos temas fortes das letras, e a loucura cênica de Morrison.

E o primeiro contato com o produtor Paul A.Rothchild (interpretado pelo ator Michael Wincott), que os catapultou ao sucesso etc.
Mais licenças poéticas se misturam à histórias verdadeiras da banda. O encontro com Andy Warhol, e a cena clássica de Morrison sendo flagrado pela namorada com a vocalista do Velvet Underground (Nico), dentro de um elevador, por exemplo (verdade, mas meio distorcida).
Que Morrison enlouqueceu e causou muitos problemas à banda, com atrasos, faltas injustificáveis e sobretudo confusões em lugares públicos e mesmo nos shows, não resta dúvida, e que o diga o baterista John Densmore (interpretado no filme pelo ator Kevin Dillon), que quase surtava de ódio com tais mancadas.
Mas muita gente reclama que o filme tornou-se inverossímel com tantas licenças. E o engraçado é que existem insatisfações para todos os lados.

Por exemplo, Ray Manzarek, o tecladista dos Doors (que no filme foi interpretado por Kyle MacLachlan), foi convidado para ser consultor do Oliver Stone na parte musical, mas recusou-se terminantemente. E quando o filme foi lançado, caiu de pau publicamente, taxando-o de desastroso.

Por outro lado, o guitarrista Robby Krieger ( interpretado no filme por Frank Whaley), aceitou fazer essa consultoria...vai entender !!
Rumores também correram, dando conta que a família de Morrison só aprovou o roteiro após cortar diversos itens que Oliver Stone teve que abrir mão. Se filmasse cenas que consideraram pesadas, ameaçavam processar a produção.

Por outro lado, Manzarek que já estava insatisfeito pela parte musical, também disse que o filme era adocicado, e que não correspondia em nada à biografia verdadeira da banda.
A questão da fotógrafa Patricia Kennealy (interpretada no filme por Kathleen Quinlan), também merece cuidados ao ser analisada. De fato ela era adepta de práticas sado-masoquistas, e praticava bruxaria, mas no filme a atmosfera quase demoníaca que Oliver Stone imprimiu, pareceu um pouco caricata.

A desconstrução do mito por ele mesmo, contudo, foi bem retratada, com Morrison engordando propositalmente para chocar as fãs que o tinham como um mito sexual, e deve ter dado trabalho à produção e sobretudo ao ator Val Kilmer.

Para as cenas onde Morrison estava muito louco, viajando com drogas alucinógenas, o ator Val Kilmer usou uma lente de contato com pupilas dilatadas. Isso acabou gerando uma febre após o lançamento do filme, com muita gente querendo usá-las no cotidiano (Erasmo de Rotterdam nunca poderia supor que no século XX, o "Elogio à Loucura" teria outra contação...).
Aliás, cabe colocar que justificando o título que criei para esta matéria, The Doors, o filme, gerou um novo séquito de fãs para a banda no início dos anos noventa.

The Doors voltou a ser uma banda popular após o lançamento do filme, colocando seus discos nos charts de mais vendidos, gerando publicações, vendas de vídeos de shows, aparições de TV e outras imagens.
Junto com o grunge de Seattle, e o Guns'n Roses que dominavam as atenções dos jovens naquele início de anos noventa, The Doors parecia uma banda viva e em plena atividade, tamanho o interesse que despertou na molecada.

Tanto que a rede de boatarias comeu solta, dando conta que eles voltariam oficialmente, e com Val Kilmer assumindo os vocais !!
De fato, ele cantou com sua própria voz, muitos trechos de apresentações ao vivo, mas não tinha nenhum cabimento achar que ele largaria sua própria identidade como ator, para viver na vida real uma reencarnação de Jim Morrison...
Cabe a menção honrosa da participação de John Densmore, o verdadeiro baterista dos Doors, numa singela ponta, onde interpreta um técnico de som num estúdio, gravando declamações de poesia de Jim Morrison.

O final do filme é triste, claro, mas acredito que Oliver Stone acertou o tom sem exageros ao mostrar os últimos suspiros de Morrison numa noite em Paris, e apesar de um tanto mórbido, o passeio da câmera pelas tumbas de tantos artistas famosos no cemitério de Père-Lachaise, culminando na de Jim, ficou digna, mostrando que ele repousou ao lado de diversos gênios da música e literatura.
Entre entusiastas e detratores do filme, eu me posiciono no centro. Não acho um primor irretocável, mas também não o considero um desastre.

Para quem não conhece a biografia do The Doors com precisão, é uma boa maneira para iniciar-se nessa matéria, sem dúvida um dos mais belos capítulos da história do Rock mundial.
E sem dúvida, uma homenagem ao seu vocalista, Jim Morrison, um dos mais carismáticos de todos os tempos. O grande poeta, xamã e Rei Lagarto.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Celular e Volante não Combinam ! - Por Luiz Domingues


Basta sair de sua casa e logo que vai atravessar a primeira rua, passa um carro à sua frente, com o motorista dirigindo afoitamente com uma só mão, preocupado em segurar um indefectível telefone celular.

Anda mais um pouco e passa outro e depois outro, outro...
Basta observar nos cruzamentos das grandes avenidas e o fenômeno se repete, aliás, multiplica-se.

Essa compulsão em falar o tempo todo ao celular parece não passar de uma mania. O argumento de que importantes recados não podem esperar de forma alguma, é estapafúrdio no sentido simples de que a humanidade viveu sem esse recurso, por milhares de anos e por que só a partir dos anos noventa, isso se tornaria uma necessidade premente ?
Com a sofisticação cada vez maior dos celulares, o rol de distrações aumentou muito. Agora é comum ver motoristas participando de chats na internet; disparando torpedos; consultando o Google, ou procurando vídeos no You Tube...em suma : fazem tudo, menos prestar atenção no trânsito, e sobretudo na condução de seu veículo.

Vamos aos fatos : as informações que você processa ao dirigir e usar o celular, vão simultaneamente ao tálamo para serem processadas.
O próximo passo é serem filtradas no lobo frontal, onde uma das duas será priorizada. A seguir, o córtex cerebral vai decidir só por uma, e a outra ação é relegada a segundo plano. Se a prioridade é o que faz ao celular, sua percepção ao dirigir, é reduzida drasticamente.

Isso sem contar certas nuances de cunho psicológico, que muito contribuem como agravantes. Não é raro ver pessoas enfurecidas ao volante, por estarem brigando com alguém ao telefone. Imagine você recebendo uma bronca de seu chefe; brigando com sua mulher; ou recebendo uma notícia de falecimento de um ente querido. Isso altera sua pressão sanguínea ou não ?
Sei que falei de situações extremas, mas mesmo se estiver numa conversa amena sobre a última rodada do brasileirão, ou criticando a última medida do ministro da fazenda, esse uso de celular ao volante é inconveniente.

Estou cansado de ver motoristas conduzindo o veículo em zigue-zague, não usando a seta para conversões e o pior, desrespeitando a mais básica das regras de trânsito, ao não parar nos semáforos vermelhos. Pobres pedestres que já sofrem para atravessar as ruas, com o costumeiro desrespeito de motociclistas e ciclistas nesse quesito.
O assunto é preocupante e ganha ares epidêmicos no sentido de que o Hospital das Clínicas de São Paulo está abrindo um departamento especial para tratar desse novo distúrbio, a compulsão em dirigir e usar o celular simultaneamente.

Uma frase dita pelo jornalista norte-americano William Powers sobre esse assunto, cabe bem para fazer o leitor pensar : "Sacrificar a vida para ler uma mensagem, vale a pena" ?
Matéria publicada anteriormente no Blog Planet Polêmica e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2012

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Blindagem Excessiva - Por Luiz Domingues

O futebol é o mais popular esporte do planeta, por vários fatores. Um dos deles, sem dúvida, é o fato de ter regras extremamente simples, que são assimiladas por crianças.
 
Com exceção da regra do impedimento, ou "off-side", que sucinta certas indagações e gera polêmica quase sempre, é tudo muito simples.

Mesmo assim, seguindo o exemplo de outros esportes de regras mais confusas, a questão da arbitragem foi ganhando contornos de disciplina rígida, ao longo dos tempos.

Visando tornar as decisões dos árbitros irrevogáveis e sobretudo pensando na integridade moral e física dos mesmos, os órgãos controladores do futebol foram engessando cada vez mais a figura do árbitro (e de seus auxiliares, também), de forma militarizada, outorgando-lhe status hierárquico de comando, não aceitando insubordinações de forma alguma por parte da "baixa casta", formada pelos jogadores.
Em primeira instância, fazia sentido dar esse poder todo ao árbitro. De fato, sem esse cuidado, estaria indefeso em meio às pressões de 22 jogadores em campo, mais 14 sentados nos dois bancos de reservas e respectivas comissões técnicas de cada time.

Seria temerário demais não ter essa regulamentação que o protegesse de toda forma de protestos, quiçá agressões físicas em toda jogada polêmica onde um time se sentisse prejudicado por sua decisão.

Todavia, temos observado algumas distorções nessa regulamentação.
O primeiro ponto é óbvio : o árbitro também é um ser humano. Portanto, está passível de cometer erros, e no caso específico da arbitragem, o futebol pode apresentar situações dúbias, onde erros crassos são cometidos a todo instante.

O segundo ponto, é que por ser humano também, tem emoções e toda gama de precipitações psicológicas inerentes à qualquer um.
E o terceiro ponto parece crucial nesse tabuleiro : toda a estrutura do futebol é profissional e envolve negócios de milhões de reais, dólares e euros, mas o único setor que permanece amador nessa cadeia bilionária, é a arbitragem.
Então, por mais apaixonado que o sujeito seja pela sua nobre atividade, ele é a autoridade máxima naqueles 90 minutos, decidindo o futuro de centenas de pessoas que dependem daquele resultado diretamente, por estarem envolvidas profissionalmente ali (fora os milhões que frustram-se indiretamente, os ditos torcedores), mas ele volta para a casa com um pequeno cachet no bolso (nem tão módico assim...), e no dia seguinte vai trabalhar no seu escritório; clínica; comércio; repartição pública...

Com essa completa falta de compromisso com a estrutura monstruosa que envolve o futebol, política e financeiramente falando, ele simplesmente toca a sua vida sem perder o sono com eventuais prejuízos causados por seus erros terríveis, e só volta a pensar no futebol no próximo jogo.
Profissionalizá-los, seria a melhor medida para que se dedicassem em horário integral à sua capacitação, e não ficando restritos a cursinhos de fim de semana, num primeiro momento de sua preparação para a função. E posteriormente, responsabilizados por seus atos, de forma funcional.

Fora tudo isso, como ser humano ele está sujeito às intempéries de seu ego e daí, todo esse poder inebria, em muitos casos.
O excesso de blindagem que recebem os torna muitas vezes, prepotentes, arrogantes...e tal como imperadores romanos tresloucados, sentem-se poderosos ao advertir atletas; expulsá-los; humilhá-los publicamente, e se for um clássico televisionado então...
A Fifa reluta em usar a tecnologia para auxiliar os árbitros em jogadas polêmicas. Dá-se um desconto enorme para o lado humano deles, em ter que decidir numa fração de segundos um lance duvidoso que todos vemos claramente, mediante infinitas repetições de vídeo-tape das transmissões da TV.

Mas por outro lado, se é notoriamente difícil para um ser humano, mesmo capacitado para a função, tomar uma decisão dessas em segundos, por que a Fifa não adequa à arbitragem ao século XXI, e não usa enfim a tecnologia em casos duvidosos ?
E isso evitaria a enorme insatisfação de quem é prejudicado decisivamente numa partida, amargando maus resultados que geram consequentes prejuízos financeiros enormes aos clubes.
E estabeleceria uma relação mais humana entre árbitros e jogadores, evitando assim essas manifestações de extrema prepotência de árbitros que se julgam Deuses inatingíveis, tendo o poder da vida e da morte no uso de seus malfadados cartões amarelo e vermelho distribuídos à esmo, fora as súmulas onde só as suas palavras são levadas em consideração nos tribunais esportivos.

Respeito à autoridade do árbitro, sim, mas intransigência exercida mediante uma couraça de aço, não !

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Roberto Piva, Beatnick da Paulicéia - Por Luiz Domingues


Mesmo numa época onde as comunicações deixavam a desejar no quesito velocidade, podemos afirmar que o movimento Beatnick não chegou com grande atraso à terra tupiniquim.

E dessa forma, a literatura libertária produzida por escritores como Jack Kerouac; Allen Ginsberg; William Burroughs, entre outros, espalhou-se quase simultaneamente entre alguns jovens paulistanos, produzindo uma vontade imediata de extravasarem no papel a sua veia literária.
Roberto Piva foi um deles.

Nascido em São Paulo, em 25 de setembro de 1937, Roberto Piva teve outras influências marcantes na sua juventude, além da Beat Generation, que mescladas, imprimiram-lhe uma sólida base.



A começar pelo Marquês de Sade, que certamente lhe apontou a trilha do erotismo, e passando aos malditos da literatura francesa oitocentista, com Rimbaud e Baudelaire na cabeceira.



O teatro de Antonin Artaud e o cinema de Pier Paolo Pasolini, também lhe impressionaram fortemente, sem dúvida e tudo condimentado devidamente pela poesia de Álvaro de Azevedo e Jorge de Lima.


Sem contar que era um dos maiores especialistas em Dante Alighieri, cuja obra estudou à exaustão, no Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro.

Também entusiasta do surrealismo, foi um dos poucos (ao lado de Claudio Willer e Sérgio Lima) a serem resenhados pela revista francesa "La Breché Action Surrealisté", editada por André Breton.

Com tudo isso reverberando fortemente na cabeça, é evidente que o impacto da literatura Beat imprimiu-lhe a dose final para formatar sua obra contundente.
 

Sua primeira obra publicada foi na antologia de novos poetas, "Antologia dos Novíssimos", de 1961 (Editora Massao Ohno).

Mas foi em seu livro "Paranoia", de 1963, que ganhou o destaque que o tornou verdadeiramente conhecido e respeitado.

A riqueza de suas múltiplas influências certamente lhe abriu um diferencial em relação ao modus operandi dos poetas Beat americanos. Ao invés de seguir a marca registrada das impressões colhidas nas ditas "Road Trips", Piva concentrava-se nas imagens paulistanas. Sua viagem era pelas ruas da Pauliceia e o encontro com seus meandros, submundos e tipos.



De certa forma redescobrindo São Paulo após Mário de Andrade já ter passado por essa epifania nos anos vinte, Piva agora a via pelas lentes do movimento Beat, com muito Jazz, anfetaminas e sexualidade lasciva.



E assim, evoca "locomotivas uivantes", "cadillacs sem sangue" e "a garoa cinza que engrossa num céu de cimento"...

As portas da percepção escancaram-se através dos Beatnicks, antecipando a lisergia contracultural dos Hippies que viriam a seguir.
Seguiu-se "Piazzas" (1964); "Abra os Olhos e diga Ah !" (1975); "Coxas" (1979), e "20 Poemas com Brócoli" (1981), entre outras obras significativas.


Tornando-se admirado pelas gerações posteriores, protagonizou diversos encontros literários, saraus e palestras, sempre animadas pela sua declamação inflamada.

Nos seus últimos dias, mostrou interesse pelo tema do xamanismo.

Roberto Piva nos deixou em 3 de julho de 2010, abrindo uma lacuna difícil de ser preenchida na literatura paulista e brasileira.

Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2012

sábado, 15 de setembro de 2012

The Wiz, Tinha Black Music no Reino de Oz ! - Por Luiz Domingues


Conhece aquela brincadeira do telefone ?

Você contava um fato à uma criança, que repassava à outra e assim sucessivamente, até que a última lhe contava o que você mesmo iniciou, e você verificava que a história estava completamente diferente...

Em relação ao filme "The Wiz", lançado em 1978, parece que o seu resultado de crítica e público foi motivado por alguma coisa nesse sentido da brincadeira que citei acima.

Na sua raiz inicial, tudo começou com a criação de um escritor fantástico chamado Lyman Frank Baum, um norte-americano que viveu entre 1856 e 1919.

Dono de uma imaginação fértil e estudioso de ocultismo (foi um dos primeiros membros da Sociedade Teosófica americana, vinculada à famosa Sociedade Teosófica de Londres, Inglaterra).

Autor de vários livros retratando universos mágicos e fantásticos, criou um que se tornaria um best-seller, chamado "The Wizard of Oz" ("O Mágico de Oz").
Sucesso absoluto, gerou outros livros ambientados no Reino de Oz e assim foi transposto para o cinema em 1939, gerando um sucesso retumbante e inquestionável, fazendo dele, um filme cult.

Nos anos setenta, Charlie Smalls adaptou a história para o universo afro-americano, transformando em espetáculo musical para o teatro, e foi um sucesso essa versão chamada "The Wiz".
Com boas canções e uma excelente produção, a peça musical fez bastante sucesso na Broadway, e outros teatros por onde excursionou.

Impressionado pelo sucesso na Broadway, a Motown, mítica gravadora especializada em Black Music, comprou os direitos da peça e bancou a sua adaptação para o cinema.
Logo de cara, gerou controvérsia a mão de ferro em querer Diana Ross a todo custo para interpretar o papel de "Dorothy". No livro de L. Frank Baum, Dorothy é uma menina adolescente, e assim, muitos anos depois quando foi adaptado ao cinema, escalaram a adolescente Judy Garland para interpretar Dorothy, com sucesso retumbante.

Agora, nessa versão black para o cinema, Diana Ross convenceria como Dorothy, aos 33 anos de idade ?

Como se tratava da versão, da versão da versão...bem, licença poética era o que não faltava nessa versão cinematográfica.
O objetivo de Barry Gordon , o Big Boss da gravadora era prestigiar ao máximo o seu cast musical e dessa forma, nada o demoveu de sua insistência, e Diana Ross interpretou Dorothy numa condição digamos, "madura".
E Michael Jackson, já se descolando da famosa (e ótima) banda que tinha com seus irmãos, o Jackson Five, foi escalado para fazer o espantalho.


Ted Ross fez o leão covarde, e Nipsey Russell, o homem de lata.



Richard Pryor interpretou o mágico de Oz.

Tinha tudo para dar certo. 


Um ótimo elenco (apesar da dúvida de Diana Ross por estar madura demais para o papel), um diretor do quilate de Sidney Lumet, roteiro por Joel Schumacher, e garantia de uma trilha espetacular, com o melhor do Soul e do R'n'B, vindo dos músicos vinculados à gravadora Motown.

Mas como se diz popularmente, a maionese desandou completamente...

A história ambientada no Harlen novaiorquino, parecia uma imitação barata de "Godspell", com o figurino, coreografias e ambientações em externas, muito semelhante à esse musical filmado em 1973.
A música não deslancha. Na abertura, você se anima achando que vai ouvir Soul Music de alta qualidade, mas vai se decepcionando à medida que depara-se com arranjos pop e pasteurizados, deixando toda a tradição da velha Motown para trás em busca de uma sonoridade "moderna" de final de anos setenta, que deixa muito a desejar.
E o pior de tudo, da história original do Mágico de Oz, não sobrou quase nada, assassinado pela licença poética extrema que se chegasse aos ouvidos do escritor L. Frank Baum, dentro da brincadeira do telefone que citei no início da matéria, sua reação seria : "mas eu não escrevi isso"...