sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Márcia Cardeal no Rítmo de Zás-Trás - Por Luiz Domingues


A TV Paulista foi a segunda emissora a ser fundada em São Paulo e teve uma existência profícua, até ser comprada pelo jornalista /empresário, Roberto Marinho em 1965, e tornar-se a Rede Globo de São Paulo.
 
Em seu tempo pré-Globo, a TV Paulista fez história, concorrendo com muita dignidade com seus pares à época, as TV's Tupi, Excelsior e Record.

Entre tantas atrações ali criadas, na linha dos programas infantis, a "Sessão Zás-Trás", criada em 1955, faz cinquentões e sessentões de hoje em dia, marejarem seus olhos, de saudade.

Inicialmente, era apresentada por Gisleine Marilda Roque; Délio Santos; Marco Antonio e Henrique Ogalla.
No início dos anos sessenta, passou a ser apresentado por Márcia Cardeal, uma adolescente carismática e que engatilhava paralelamente, carreira como atriz, realizando diversas montagens teatrais significativas.

É para muitos, considerada a melhor fase do programa, muito em questão do carisma de Márcia, que rapidamente tornou-se ídolo das crianças da época.
O programa era muito simples em sua produção.

Ainda contando com parcos recursos técnicos e vivendo em plena época de uma ingenuidade generalizada na sociedade, limitava-se a concentrar um grupo de crianças diariamente no estúdio, geralmente com uma ou mais aniversariantes e criando um clima de festa prosaica, Márcia intercalava pequenas entrevistas pueris com a petizada, aos desenhos animados e seriados, predominantemente estrangeiros.
Com o passar do tempo, mudanças foram sendo introduzidas e com os avanços da tecnologia, passou a ser apresentado também no Rio de Janeiro.

Novos agregados foram ingressando como personagens fixos.
Pequenas gags de clowns, aulas de trabalhos manuais e mini gincanas com brincadeiras, passaram a animar as crianças.

Mario Lucio de Freitas; Tio Molina, e Ayres Campos reforçavam o time de Márcia Cardeal nessa segunda metade da década de sessenta.

Mas, o histórico canal 5 de São Paulo havia-se tornado "TV Globo", desde 1965, e assim, Roberto Marinho preferiu transferir o núcleo da produção de "Zás-Trás" para o Rio, em 1969.
Com essa mudança, o "Zás-Trás" perdeu o carisma de Márcia Cardeal e mesmo melhorando a sua produção, foi perdendo audiência.
Apesar de contar com a apresentação do ex-lutador de Luta Livre, Ted Boy Marino (que havia se tornado um ator, atuando em programas humorísticos e filmes, notadamente no embrionário grupo de humor, "Os Trapalhões", ainda sem esse nome, ao lado de Renato Aragão e Dedé Santana), o programa entrou em declínio.

Com baixa audiência, a "Sessão Zás-Trás" saiu do ar em 1970, voltando com reformulações em 1972, mas durou poucos meses, pois uma revolução no mundo dos programas infantis, a atropelou.
Em outubro de 1972, Roberto Marinho deu fim à histórica "Sessão Zás-Trás", colocando no ar uma atração internacional consagrada e que revolucionaria os programas infantis, chamado "Vila Sésamo" ("Sesamo Street"), com uma nova abordagem pedagógica e direcionada à crianças pequenas.

Fica a saudade para quem foi criança na metade dos anos cinquenta, até o fim dos anos sessenta, de Márcia Cardeal e seu carisma, apresentando a "Sessão Zás-Trás".
Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2013

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Viagem aos Seios de Duília - Por Luiz Domingues


Para os não muito familiarizados com a história do cinema brasileiro, um filme com o título "Viagem aos Seios de Duília", pode remeter à ideia de se tratar de uma pornochanchada dos anos setenta, mas na verdade, passa longe dessa classificação...
 
Pior ainda seria imaginar tratar-se de um nome de banda "indie", dessas que certos críticos empertigados adoram incensar, mas cujo hype não dura mais que quinze minutos, e convenhamos, é até demais, na maioria das vezes.

Carlos Hugo Christensen, era um cineasta argentino que radicou-se no Brasil no final dos anos cinquenta e aqui montou uma bela carreira, na verdade dando continuidade ao bom trabalho que realizara em seu país, anteriormente.
Em 1964, baseando-se num conto de Aníbal Machado, realizou "Viagem aos Seios de Duília", um filme que capturou algo além da sensibilidade expressa no conto, buscando no retrato de um homem amargurado, um estrato pungente sobre a questão do tempo perdido.

O homem em questão, é José Maria (interpretado por Rodolfo Mayer). Um funcionário público austero e vivendo seus últimos dias na repartição federal, a um passo da aposentadoria compulsória.
Sua vida resumiu-se a cumprir suas obrigações profissionais e manter-se modestamente, sem maiores ambições.

Solteiro, vive aparentemente sob resignação a respeito de sua solidão contumaz, sem contudo que isso significasse uma misoginia assumida.

Durante os anos que se passaram, nutriu aqui e ali, vontade de se aproximar de uma mulher e ter enfim uma companheira que lhe abrisse a oportunidade de constituir família e ter a vida igual à de seus colegas de repartição, mas algo internamente o segurava ao passado longínquo de sua adolescência vivida num remoto rincão do interior do país.
Uma festa é improvisada no seu último dia de trabalho na repartição, mas seus vínculos eram meramente formais e não há grande comoção.

Durante 36 anos, José Maria apenas chegava, batia o ponto, trabalhava, dizia "até amanhã" e saia, numa rotina mecânica, entediante.

Um pequeno gesto de uma colega de trabalho, parece ter outro significado, todavia.
Adélia (Natália Timberg), entrega-lhe um presente de despedida, que num vislumbre efêmero, lhe parece uma abertura para uma aproximação, mas...era só um ato de coleguismo profissional e José Maria vai para a casa frustrado mais uma vez.

Sem a rotina de trabalho, José Maria vai rapidamente entrando num desespero. Ficar o dia inteiro de pijamas dentro de casa, lhe trouxe a perspectiva de confrontar o enorme vazio de sua vida.

Passa por momentos angustiantes sem a distração que o trabalho burocrático lhe proporcionava.

Agora ele é uma peça fora da engrenagem, sem utilidade alguma para o sistema e só lhe resta esperar a morte sentado, em sua modesta residência.
Toma uma atitude quando percebe que definhará, ao aceitar o convite de um colega para visitar um "Night-Club", que naquela época era popularmente chamado de "inferninho"...

Sem nenhum traquejo para frequentar tais lugares, só atrapalha as paqueras do colega, pois nem sabe lidar com as mulheres, ainda mais sendo mais jovens e ele, um defasado senhor fora de moda.

O que fazer para dar um sentido à vida, doravante ?
Foi quando mediante uma epifania, começou a lembrar-se de um tempo onde teve um amor correspondido, ou pelo menos ele interpretara dessa forma.
Em suas remotas lembranças, havia uma garota por quem se apaixonara. Eram muito jovens e infelizmente as suas juras de amor esbarravam no fato concreto de que não tinham independência, tampouco maturidade suficiente para assumirem uma relação estável.

Mas era um sentimento puro, verdadeiro e muito intenso. Tão forte, que criou uma raiz, perdurando ao longo hiato criado pela separação inevitável.

Ele não teve alternativa, tendo que deixar a cidadezinha onde viviam e foi batalhar pela sua subsistência no Rio de Janeiro.
E preocupado em manter-se, seu sonho foi esmagado pela realidade, embotando-se.

Sendo obrigado a viver nessa rotina que o limitou, foi envelhecendo e aceitando o fato de que Duília fora apenas uma paixão juvenil.

Mas a vida passou, José Maria nunca conseguiu relacionar-se com outra mulher e agora, estava aposentado numa casa suburbana e vazia.

Num ímpeto incomum aos seus padrões recatados, toma a decisão de lutar pelo seu amor juvenil.
Uma imagem nunca lhe saíra da cabeça nesses anos todos : Duília, num ato de amor impensável para o início do século XX, numa pequenina cidade interiorana, mostrara-lhe os seios.

Em seu imaginário, fora a vivência mais erótica de sua vida e agora ele daria tudo para resgatar esse amor.
Como estaria Duília ? Poderia estar viúva, quem sabe ? Ou até mesmo ter ficado solteira como ele e nesses termos, essa seria a oportunidade de ser feliz, enfim.

Em sua mente, esse pensamento começa a ficar obsessivo. Duília e sua beleza infanto-juvenil; as juras de amor; o contato físico pudico daquela época e a explosão erótica, da visão de seus seios nus.

Martelando em sua cabeça, essa imagem lhe dá o ímpeto que jamais tivera em toda a sua vida subserviente : Nada o impede de ir à sua cidade natal e procurar por Duília !

Nessa parte do filme, é incrível a condução de Carlos Hugo Christensen. A viagem é retratada como uma saga épica, porque o é assim para José Maria, embora seja ao espectador, uma viagem triste, morosa e plena de dificuldades.
Nessa ambiguidade, Christensen nos comove, pois José Maria faz das tripas coração para poder chegar. Usando vários meios de transporte, pois não havia acesso direto para um lugar tão longe do Rio de Janeiro, José Maria vai pulsando junto com as adversidades, num rítmo que nos faz crer que ele finalmente encontrou a força dentro de si.

Sensacional é a trilha incidental, onde nesse percurso sofrido, o barulho do vento que lhe sopra, parece verbalizar o nome "Duília", literalmente.
Uma genial sacada de Christensen, que parece evocar algo fantasmagórico, talvez um "banshee" irlandês no meio da terra vermelha, em pleno "interiorzão brasuca".

Finalmente José Maria chega à Pouso Triste, a remota cidadezinha.

Nada mudou naquele lugar, parado no tempo e no espaço. O coração pulsa cada vez mais rápido, a garganta asfixia-se, o suor lhe umedece as têmporas...

O encontro acontece...

José Maria encontra-se com Duília, mas o encontro é um momento constrangedor para ambos.
Foi-se o viço da juventude, mas muito pior que os sinais do tempo que ambos ostentam, é a constatação de que 40 anos constituíram a aniquilação do sentimento de outrora.

Num vislumbre da realidade, desmorona-se a expectativa de José Maria ao deparar-se com o fato de que aquele momento pueril de 40 anos atrás, jamais se repetiria.
Vidas separadas e construídas sob outros parâmetros, faziam daquele fugaz momento sensual do passado, apenas a lembrança de uma chama, com a durabilidade de um palito de fósforo aceso.

Um diálogo formal sobre o casamento de Duília (interpretada por Licia Magna, quando mais velha), filhos e netos, encerra melancolicamente para José Maria, a sua última esperança de ser feliz.

Mesmo assim, um ato impensado dá a entender que Duília vai ceder, mas fora apenas um ímpeto, imediatamente sufocado pelo recato.
Seguem-se planos oníricos, evocando lembranças do passado e o elo com a tormenta da realidade, tratou de nunca deixar acontecer de fato, a consumação da paixão.

Frustração... uma vida desperdiçada e irremediavelmente perdida para a melancolia atroz.

A única perspectiva é a sobrevivência burocrática, até onde o fluxo da vida determinar que José Maria tome a última xícara de café de sua existência.

É triste, sem dúvida, mas como obra de arte é dilacerante, arrancando das entranhas do personagem, facetas do ser humano que não gostamos, mas que existem, infelizmente.
Rodolfo Mayer era um ator veterano, egresso do teatro e das radionovelas, com poucas, mas boas participações nos primórdios do cinema brasileiro, desde a década de trinta. Com o advento da TV, atuou bastante em novelas, principalmente nos anos sessenta e setenta, quando ficou mais famoso, naturalmente.

Nesse filme, teve atuação excelente, trazendo com sua bagagem, uma dramaticidade exemplar. Mesmo com Orígenes Lessa sendo responsável pelos diálogos (o que foi um luxo para a produção desse filme), Mayer não apoiou-se somente no bom script que tinha às mãos, tampouco na segurança de Carlos Hugo Christensen como diretor. Foi além e compôs o personagem José Maria, com expressões físicas que dizem muito ao espectador da obra.

É infelizmente uma obra circunscrita à um fechado mundo de fãs e talvez seja difícil de se achar na internet, mas já foi exibido com regularidade no Canal Brasil, anos atrás (nada contra a grade atual - 2013 - cheia de programas, mas confesso que gostava mais quando exibia predominantemente filmes clássicos e obscuros, brasileiros).


Recomendo essa obra do Carlos Hugo Christensen, pois enxergo nela uma das mais contundentes experiências do cinema brasileiro, em exprimir sentimentos viscerais.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O País do Futuro, Segundo Stefan Zweig - Por Luiz Domingues



A expressão : "O Brasil é o país do futuro", vem sido usada há décadas.

Usada de todas as formas e sob todas as circunstâncias, pode ser encarada de várias formas, num enorme leque de conotações, que vão da ironia ao extremo otimismo.

Atribui-se a criação dessa expressão à um intelectual austríaco de origem judaica, chamado Stefan Zweig, que passou seus últimos dias aqui, encantado com o potencial que enxergou, há mais de 70 anos atrás.

Stefan Zweig nasceu em Viena, no ano de 1881, filho e neto de ricos banqueiros da Boêmia. Nesses termos, teve uma educação refinada e desde cedo foi preparado para assumir as instituições financeiras da família ao lado de seu irmão, mas a vida intelectual o cooptou antes.

Mesmo sendo uma família judia, segundo Zweig, a religião não era seguida à risca das tradições e ele mesmo chegou a afirmar que ser judeu era algo meramente ocasional em seu Lar.

Estudou filosofia na Universidade de Viena e obteve seu doutorado em 1904, defendo a tese "A Filosofia de Hyppolyte Taine".

Mas mesmo antes da graduação e doutorado, já havia publicado seu primeiro livro de poemas ("Silbern Saiten", "Cordas de Prata" em português), em 1902.
Especializando-se em literatura inglesa e francesa, traduziu vários autores para o alemão (Keats; Baudelaire; Morris; Yeats; Verlaine, entre outros).

Era amigo pessoal de artistas e intelectuais tais como Rimbaud; Romain Rolland; Rainer Maria Rilke; Thomas Mann, e Sigmund Freud, entre outros.

Em 1912, duas peças teatrais de sua autoria fizerem sucesso ("A Metamorfose da Comédia" e "A Mansão à Beira-Mar"), com encenações concorridas em Viena.
Começa então a se interessar pelo cinema com muito entusiasmo, também. Chega a escrever muitos roteiros e até Roberto Rossellini chegou a filmar um roteiro seu ("O Medo", de 1954, anos após sua morte).

Começa a primeira guerra mundial e inflamado pelo sentimento nacionalista que assolou a Alemanha e a Áustria, apoiou o estado germânico, mas logo a seguir passou a ter outra visão da guerra, tornando-se um pacifista ferrenho, doravante.

Casou-se em 1915 com a escritora Friderick Von Winsternitz a após o término da I Guerra, viveu momento de intensa produção literária, lançando livros de poesias, traduções de outros autores e muitas biografias de personalidades como Maria Antonieta; Fouché; Dostoievski; Dickens; Balzac; Nietzsche; Tolstoi; Stendhal etc.
Passa a lançar também romances e ensaios, a partir dos anos vinte. São famosas as obras como : "Amok" (1922); "Angústia" (1925), e "Confusão de Sentimentos" (1927), influenciadas pela psicanálise, que seu amigo Sigmund Freud, tanto conversou a respeito, certamente.

Separado de sua primeira esposa, une-se desta feita com sua secretária, Charlotte Elizabeth Altmann, apelidada de "Lotte" entre seus familiares.

Com a ascensão do partido nacional socialista ao poder na Alemanha, Zweig sentiu-se inseguro para continuar vivendo na Áustria e às pressas, mesmo antes das primeiras hostilidades antissemitas terem início, mudou-se com "Lotte" para a Inglaterra, no ano de 1934.
Sua ideia era viver numa pacata cidadezinha medieval, chamada Bath, mas suas atividades intelectuais faziam com que passasse o maior tempo em Londres.

Quando a II Guerra eclodiu, percebeu que mesmo tendo a Inglaterra, a mais poderosa força armada para enfrentar os nazistas na Europa, havia perigo iminente e dessa maneira, fogem para Nova York, onde sentiriam-se mais seguros.
Em 1940, vem pela primeira vez ao Brasil. Sua visita é para palestrar em universidades. Fica encantado com a Bahia, onde vislumbra um paraíso alheio à guerra e lhe impressiona como as pessoas nativas são felizes com tão poucos recursos.

E nessa primeira viagem, conclui com entusiasmo um ensaio, onde coloca o título de "Brasil, o País do Futuro".  


Sua presença é celebrada pelos intelectuais brasileiros, mas setores do governo mal disfarçam a insatisfação pela presença de um intelectual judeu e antinazista. Fato, o governo Vargas flertava com simpatia pelo Eixo e só mudou a orientação por outros fatores e interesses, unindo-se aos Aliados nos estertores do conflito.

Cada vez mais impressionado com os avanços dos nazistas, inflamava-se em discursos antinazistas, onde questionava abertamente as intenções racistas de Hitler e fazendo o contraponto, achava que o Brasil era o exemplo da nova civilização a ser seguido, via miscigenação total de raças e não a aniquilação de raças ditas inferiores, num falso esforço de apuro genético, que era a proposta dos nazistas.

Encantado com essa perspectiva, resolve estabelecer residência no Brasil, comprando uma casa na cidade de Petrópolis, região serrana do estado do Rio.

Morando em Petrópolis, Stefan Zweig escreve mais algumas obras ("O Jogador de Xadrez"; "O Mundo de Ontem", que ficou inacabado e "O Mundo que eu Vivi", onde descreve suas impressões sobre a I Guerra Mundial).

Mas as notícias vindas da Europa não eram nada boas em 1942, e Zweig entrou num processo de depressão acentuado, perdendo as esperanças diante dos avanços nazi-fascistas.
E sendo assim, decide dar cabo à própria vida, de comum acordo com sua companheira, "Lotte".
 

Deixa uma carta explicando os seus motivos :  

Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. 

Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. 

Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite.
 

Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes.
 

Stefan Zweig

O casal foi enterrado no cemitério municipal de Petrópolis,e sua residência hoje em dia é um Centro Cultural com seu nome, Stefan Zweig.

Décadas após, em 2002, o cineasta paranaense, Sylvio Back, realizou um filme chamado "Lost Zweig, baseado na biografia de Stefan Zweig, escrito por Alberto Dines, denominado : "A Morte no Paraíso".

O próprio Sylvio Back já havia lançado um documentário sobre o casal Zweig anteriormente, e que lhe serviu de base, além do livro de Alberto Dines, naturalmente.

Uso político à parte, a expressão cunhada por Stefan Zweig, "O Brasil é o País do Futuro", finalmente mostra-se como uma perspectiva concreta nos dias atuais, e não como uma utopia,sujeita ao escárnio da parte dos pessimistas de plantão.

Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2013.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

E se os Beatles Tivessem Gravado "Asa Branca" ? - Por Luiz Domingues



Na década de sessenta, não havia artista mais famoso no mundo do que os Beatles. O quarteto de Liverpool era referência máxima no Rock e ultrapassava seus limites, sendo mito da música mundial.

A partir de 1966, dando uma guinada histórica na carreira, abriram-se à todo tipo de experimentalismo em sua música, deixando o estilo simples da primeira fase da carreira, e passando a dar arranjos suntuosos para as suas músicas.

Não só pela grandiosidade, mas pela loucura explícita de incluir instrumentos étnicos, os mais inusitados.

Nesse aspecto, quem trouxe a sonoridade indiana para o som dos Beatles, foi o guitarrista George Harrison.
Profundamente impressionado com a cultura indiana, tratou de estudar cítara com o mestre Ravi Shankar e claro, com o peso de sua fama, tornou o mestre das ragas, uma celebridade pop, com a possibilidade inusitada dele, Shankar, apresentar-se em festivais de Rock no ocidente (Monterey Pop de 1967; Woodstock em 1969 e Concert for Bangladesh, em 1971, só para citar os maiores), fora turnês individuais para um público jovem e hippie, que passou a idolatrá-lo.

E dentro da obra dos Beatles, Harrison acabou contribuindo com algumas canções de roupagem tipicamente indiana, tocando cítara e trazendo músicos indianos como convidados para executar Tabla,Tamboura e outros instrumentos típicos.

A primeira inserção de uma canção de estilo indiano nos discos dos Beatles foi "Norwegian Wood", do LP "Rubber Soul", lançado em 1966 (Segunda faixa do lado "A", no antigo disco de vinil), mas ainda mesclando o padrão de uma canção pop, com o acréscimo de uma cítara em meio aos instrumentos tradicionais do ocidente.


"Love You To", terceira faixa do LP "Revolver", de 1966, também, , foi no entanto, a primeira inteiramente concebida na estética e sonoridade da cultura indiana.

Já mergulhando na fase psicodélica da banda, "Love You To" trazia a sonoridade da Índia, in natura.

No LP seguinte, "Sgt° Peppers Lonely Hearts Club Band", Harrison contribuiu com "Within' You, Without You", ainda mais radical e belíssima.

Outras bandas britânicas embarcaram na tendência.

Brian Jones, o saudoso e genial guitarrista dos Rolling Stones, tratou de familiarizar-se também com a cítara e na faixa "Paint in Black", faz lindos fraseados na cítara durante essa música, por exemplo.

Quando saiu o próximo trabalho dos Beatles, "White Album", o LP duplo de 1968, Harrison, não incluiu nenhuma composição sua de estilo indiano, mas um pouco adiante, saiu uma música nova como "single" (compacto), chamada "The Inner Light".

Era mais um exemplo de canção de estilo indiano, com a letra falando sobre espiritualidade, como sugere o seu título ("A Luz Interna").

Enquanto isso, no Brasil, um comunicador muito perspicaz e conhecido por ser um tremendo marqueteiro, muito tempo antes desse tipo de ação ser valorizada, teve uma ideia insólita.

Era Carlos Imperial, o sujeito.

Radialista; apresentador de TV; simulacro de ator e compositor Sazonal.

Nessa época, 1968, Imperial tinha o programa : "Os Brotos no 13", da TV Rio, quando soltou uma notícia bombástica : a música "Blackbird", contida no então último LP dos Beatles (O disco duplo, "White Album"), tinha influência do baião, e o quarteto de Liverpool estava interessado em regravar "Asa Branca" !!
Claro, a notícia espalhou-se rapidamente e Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, os autores da clássica canção, foram procurados para expressarem suas opiniões a respeito.

O grande Gonzaga, andava numa fase de baixa na carreira e resmungava contra os cabeludos na música, deixando sempre farpas de ressentimento com o fato da juventude estar numa outra faixa de interesse, e sua sanfona não estar fazendo mais parte desse rol.
Mas quando o boato espalhou- e a imprensa o procurou para repercutir a notícia, Gonzaga que sempre foi muito inteligente, aproveitou o momento para dar sobrevida à carreira e afinal de contas, não fora ele o autor da mentira...

E assim, disse nas páginas da Revista "Veja", que achava que os cabeludos ingleses tinham tudo para gravar bem a música, dando-lhe roupagem moderna etc etc. 
E os boatos não paravam. Dizia-se que ganharia um adiantamento de 50 mil dólares, uma fortuna naquela época, fora os direitos autorais, que seriam mastodônticos em termos de repercussão, na mãos dos Beatles.

Da parte dos Beatles, seja em seu escritório ou na gravadora, ninguém sabia de nada. Paul McCartney certa vez declarou que havia uma certa influência da Bossa Nova na música "The Fool on the Hill", única coisa que conhecia vagamente a respeito da música brasileira.

Muita gente no Brasil, defendia a ideia de que o Rock internacional e o baião eram parecidos. Carlos Imperial, o autor intelectual dessa mentira sobre os Beatles regravarem "Asa Branca", era um dos que batiam nessa tecla da semelhança.  

Objeto de estudos dos musicólogos, sem dúvida que há um fundo de verdade nessa afirmativa.
Num esforço de síntese, digo que se somos latinos e colonizados pelos portugueses, é óbvio que a cultura ibérica (Portugal e Espanha), sofreu brutal influência da cultura moura, afinal de contas, os árabes dominaram a península ibérica por séculos.

Na Espanha ficaram ainda mais, mas mesmo com o Infante Dom Henrique os tendo expulsado de Portugal bem antes, a influência estava amalgamada.
Portanto, quando o Brasil foi colonizado, a música portuguesa e seu folclore que aqui chegou, tinha muito da cultura do Oriente Médio.

Este por sua vez também era influenciado pela cultura da Ásia. E quando se ouve a música do Oriente Médio, é nítida a influência indiana, também. 
Portanto, não é de se admirar que muito da musicalidade do baião; xote; xaxado e outros ritmos do nordeste brasileiro, possam ter semelhanças com o Rock internacional, visto que este é influenciado por diversas correntes do Folk europeu e daí, terem raízes semelhantes.

Voltando à mentira marqueteira de Imperial, o desfecho foi confessado pelo "velho Lua", numa entrevista ao jornal "Pasquim", em 1971, quando afirmou que graças ao boato, gravou muitos programas de TV; concedeu entrevistas e vendeu muitos shows.
Indo além, dizia que fora tudo isso, essa história costumava render muitas risadas, sempre que se encontrava com Carlos Imperial.
Os Beatles nunca gravaram "Asa Branca", mas o cantor Demis Rousso, ex-vocalista / baixista da banda de Rock grega, "Aphrodite's Child (que aliás eu gosto muito e recomendo), a gravou em sua carreira solo, com o singelo título em inglês de  : "White Wings".


Portanto, quem disse que um Rocker não gravou o Gonzagão ??

Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie e posteriormente republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2013.