sábado, 2 de fevereiro de 2013

O Caso dos Irmãos Naves - Por Luiz Domingues





Luiz Sérgio Person havia lançado o excepcional, "São Paulo S/A", que chamou a atenção da crítica e público cinéfilo brasileiro, de uma forma muito positiva. 

Pois logo no segundo trabalho, comprovou seu talento, com m filme impressionante, baseado em fatos reais. 

Com "O Caso dos Irmãos Naves", Person conseguiu não só manter a excelente impressão causada com o trabalho anterior, como sedimentar a sua condição de cineasta de grande porte no panorama do cinema brasileiro.


A história é chocante e o grande desafio de Person foi mostrar essa arbitrariedade, sem no entanto recorrer aos efeitos apelativos de um melodrama, tampouco fazer da obra, um panfleto meramente ideológico 


Com extrema felicidade, Person conduziu o filme com a tensão no limite, sem jamais usar qualquer sinal, mínimo que fosse, de pieguice, e convenhamos, isso seria muito natural de acontecer nas mãos de um diretor menos atento.

A história dos irmãos naves é considerada como o maior caso de erro jurídico do Brasil.


Portanto, uma história forte, com direito à um festival  de arbitrariedades cometidas. 


Sebastião e Joaquim Naves, eram dois irmãos de uma família humilde de Araguarí, Minas Gerais. Pequenos agricultores, ganhavam a vida com muito trabalho árduo e poucos recursos. 

Por volta de 1937, fizeram sociedade com um primo de ambos, chamado Benedito Pereira Caetano.


Infelizmente, Benedito não tinha uma conduta reta como a de seus primos e graças à má administração do investimento, envolveu-os numa dívida além de suas possibilidades de honrá-la. 


Numa noite, sorrateiramente fugiu levando todo o dinheiro que os primos dispunham e que serviria para amortizar a dívida. 


Desesperados, foram à polícia denunciar o ato de Benedito, mas por azar, o delegado da cidade substituído por um tenente da polícia que veio de Belo Horizonte, nomeado graças às mudanças estratégicas de comando que a ditadura Vargas realizou por todo o país, no ritmo do Estado Novo.


Esse tenente, chamado Chico Vieira, era um homem truculento, arbitrário, sem nenhum pudor de abusar de seu poder e dando um novo rumo ao caso, cismou que os irmãos Naves mentiam, e que haviam na verdade matado primo deles, Benedito, para se apoderarem do dinheiro, sem pagar a dívida, num crime premeditado. 


Com o poder nas mãos, prendeu os irmãos, e passou a torturá-los barbaramente, a fim de obter uma confissão mentirosa de ambos. 

Sádico ao extremo, usou todo o seu repertório abjeto, tornando a vida dos irmãos, um inferno. 


Os irmãos, atônitos com essa injustiça, negavam-se a assinar uma confissão, pois não se conformavam com tal acusação absurda. 

Mas era tarde demais para o tenente Chico, pois sabia nesse processo que havia se iniciado, não cabia reconhecer o erro e pedir desculpas depois de tantas torturas. 


Sendo assim, resolveu ir até o fim, levando-os ao estado de verdadeiros farrapos humanos, a fim de que assinassem e sua tese fosse comprovada, dando-lhe a moral, perante a sociedade local.

Mas os irmãos, mesmo sofrendo de uma forma absurda, não desistiam de sustentar a tese de sua inocência.


Cada vez mais irritado, o truculento tenente Chico vai às raias da loucura, e passa a perseguir os familiares dos Naves.  

Prende e tortura a mãe idosa de ambos, à sua frente, mas a própria senhora suplica que seus filhos não confessem...


Não satisfeito, prende as esposas de ambos e as estupra, agride e humilha-as. 

É marcado um julgamento para 1938, onde o tenente passa por cima da Lei, e fala mais que o promotor público, intimidando a todos no tribunal.  

Com muito esforço, a família recorre ao advogado, João Alamy Filho, que usa todas as provas e testemunhas possíveis, mesmo sendo também ameaçado. 


O primeiro julgamento é anulado por falta de decoro no tribunal.

Um novo julgamento é marcado a seguir, e o advogado consegue provar a inocência dos irmãos Naves. No júri popular, vencem por 6 votos a 1, e os irmãos são absolvidos da acusação. 

Contudo, vivia-se um estado de exceção com a ditadura Vargas, alegando-se que inocência só poderia ser aceita sob unanimidade. 


Sendo assim, os irmãos Naves são condenados a 25 anos e meio de prisão, cada um. 

Posteriormente houve uma redução para 16 anos e quando completaram 8 anos e 3 meses de prisão, foram libertados por "bom comportamento". 


Joaquim Naves não teve muito tempo para aproveitar a liberdade, contudo, pois três meses mais tarde, morreu pois tinha a saúde seriamente comprometida pelas torturas que recebeu entre 1937 e 1938. 

Sebastião todavia, passou a procurar indícios do primo desaparecido, a fim de provar a sua inocência e de seu falecido irmão, porém só em 1953, descobriu Benedito em Nova Ponte, também interior de Minas.


Alegando nunca ter sabido desse imbróglio todo, Benedito não esboçou vontade de esclarecer nada, mas Sebastião levou a polícia até ele.


Num golpe fortuito do destino, um acidente automobilístico ceifou a vida de Benedito quando se dirigia à delegacia para esclarecimentos, mas estava caracterizada toda a farsa que destruiu a vida dos irmãos Naves.  

Ainda sobrou uma longa jornada burocrática e jurídica até 1960, quando o advogado da família, João Alamy Filho, conseguisse enfim, uma indenização do estado para amenizar o sofrimento dos Naves.


Sebastião teve enfim mais quatro anos de vida com relativa tranquilidade. 
João Alamy Filho escreveu um livro revelando ao Brasil, essa história aviltante e Person o adaptou ao cinema, em 1967.
Juca de Oliveira interpretou Sebastião Naves e Raul Cortez interpretou Joaquim Naves.

Lélia Abramo, fez Ana Naves, a mãe de ambos. E John Herbert, foi o advogado João Alamy Filho.

O tenente Chico foi interpretado por Anselmo Duarte, com uma contundência impressionante.

Anselmo sempre atuou com ator até então, fazendo galãs principalmente, em sua carreira pregressa, mas na pele do truculento Chico, teve uma atuação espetacular, talvez sua melhor, em toda a carreira.

Person explorou muito bem a questão da arbitrariedade, poder desmesurado e inebriante que obscurece a razão de um homem comum.
O contraponto da injustiça, também funcionou esplendidamente, com os atores citados tendo atuações muito comoventes.

Mais que suscitar a pena, Person conseguiu extrair dos atores, a possibilidade de provocar o nó na garganta, que acompanha o espectador até o final.

Não dá para deixar de observar que todo esse clima tinha uma segunda leitura em 1967. 
Vivendo um período difícil, o Brasil também estava sendo amordaçado e dessa forma, o filme de Person acaba ganhando essa conotação metafórica com a situação política à época de seu lançamento. 

Isso remete à uma questão : como esse filme, com esse  teor, passou pela censura ferrenha à época ? 
E indo além : de forma inacreditável, houve um lançamento na TV ainda em 1967, num exemplo raríssimo de simultaneidade com as salas de cinema, para os padrões dessa época.


Portanto, cabe a estupefação, pois como pode ter passado na TV, com aquelas cenas de tortura horríveis, perpetradas arbitrariamente por uma autoridade policial ?

Bem, eu tinha apenas sete anos de idade, assisti o filme na íntegra e mesmo diante da minha ingenuidade infantil fiquei fortemente impressionado. 

Com o estômago revirado, mas arrebatado pelo filme tornei-me fã do Person.
"O Caso dos Irmãos Naves" é um filme que causa desconforto, não vou negar, mas trata-se de uma obra de uma contundência tremenda.

Não dá para assistir na "sessão da tarde", comendo pipocas, mas sim, precisando de clima e de um estado de espírito propício.

Todavia, recomendo-o com entusiasmo.
 

10 comentários:

  1. Já havia lido sobre esse caso, mas não tive coragem de assistir ao filme apesar do Person e de todos os grandes atores que fazem parte dessa obra. Admiro a coragem e dignidade de todos eles, tanto os que a viveram quanto os que a retrataram. Aos torturadores o covardes, nosso eterno desprezo e horror.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tata :

      Antes de mais nada, lhe agradeço por ter lido e comentado.

      De fato, o filme choca e amplifica-se a indignação ao sabernos que se trata de uma história real.

      Gostei de sua observação : É mesmo coisa de covardes, o uso da arbitrariedade típica de fascistas, que merecem só desprezo !!

      Excluir
  2. Nossa,show de horror mas como toda história arbitrária deve ser denunciada, contada e retratada!!! O filme e o livro foram fiéis a história!!!! Além dessa constelação de atores de primeira linha ainda temos a a Cacilda Lanuza que me remete aos especiais da TV Cultura e as novelas da Tupi. E a Marina Person depois fez um documentário chamado PERSON falando sobre o pai já que ela só tinha 6 anos quando ele morreu. Mais um filme pra minha lista contada por Luiz Domingues. Vc nunca pensou em ser um contador de histórias????

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Exatamente, Silvana !

      E só não citei a Cacilda Lanuza porque ela não teve um grande papel no filme, apesar de suas cenas serem fortes, como a esposa violentada de um dos irmãos Naves, abusada pela truculência policial.

      De fato, era figura carimbada nas novelas da TV Tupi, nos anos sessenta e setenta.

      Verdade !! O documentário da Marina Person sobre seu pai, é muito bom.

      Pode assistir esse filme, pois é revoltante pela história, mas incrível como obra de arte.

      Contador de histórias ? Mas já não cumpro essa função com o Blog ?? Ha ha ha...adorei !

      Excluir
    2. Que estória triste Luiz! Na época da ditadura, muitos inocentes pagaram com a própria vida. Essa foi uma das estórias que ficaram conhecidas. Muito bom o cineasta Luiz Sérgio Person, ter divulgado através do filme a vida dessa família. Os atores, ele escolheu muito bem! Todos ótimos! Não dá para assistir esse filme, sem que choremos. Cenas fortíssimas! Mas recomendo.
      Parabéns pelo texto e ilustrações!
      Você é muito bom em tudo que divulga.

      Excluir
  3. Pois é, Bete...

    Essa história dos irmãos Naves foi considerada como o maior caso de erro do judiciário brasileiro.

    O Person foi corajoso em fazer o filme e foi impressionante o fato da censura da ditadura ter deixado passar, pois o caso era uma metáfora clara à própria situação do Brasil, sob a truculência e com o salvo-conduto do AI-5.

    O filme é muito forte e de fato, precisa ter estômago forte para encará-lo.

    Muito grato por ler e comentar !!

    ResponderExcluir
  4. Vc cumpre brilhantemente a função de contador de histórias!!!! Por falar nisso vc já viu esse filme "O Contador de Histórias"????

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que elogio bacana, Silvana ! Tomo-o comno um incentivo para prosseguir !

      Não me lembro de ter visto o filme que citou. Dê mais detalhes, por favor.

      Obrigado !!

      Excluir
  5. É a história de um menino pobre criado na FEBEM dos 6 aos 13 ou seja, ele sai de lá analfabeto até conhecer uma francesa que o cria e ambos vão viver na França e lá ele consegue terminar seus estudos é quando retorna à Febém, como educador, e inicia sua história com outras crianças e adolescentes que ele vai adotando e criando uma família numerosa, com vinte filhos adotivos, alguns, como ele, ditos irrecuperáveis. É uma história verídica e começa nos anos 70, por aí acho que vc já vai gostar porque ele vira literalmente um contador de histórias como você Luiz Domingues!!!1

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Interessante, Silvana !

      Vou dar uma pesquisada nisso, posteriormente.

      Agradeço o esclarecimento e mais uma manifestação de apoio ao meu Blog !!

      Abraço !

      Excluir