sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Viagem aos Seios de Duília - Por Luiz Domingues


Para os não muito familiarizados com a história do cinema brasileiro, um filme com o título "Viagem aos Seios de Duília", pode remeter à ideia de se tratar de uma pornochanchada dos anos setenta, mas na verdade, passa longe dessa classificação...
 
Pior ainda seria imaginar tratar-se de um nome de banda "indie", dessas que certos críticos empertigados adoram incensar, mas cujo hype não dura mais que quinze minutos, e convenhamos, é até demais, na maioria das vezes.

Carlos Hugo Christensen, era um cineasta argentino que radicou-se no Brasil no final dos anos cinquenta e aqui montou uma bela carreira, na verdade dando continuidade ao bom trabalho que realizara em seu país, anteriormente.
Em 1964, baseando-se num conto de Aníbal Machado, realizou "Viagem aos Seios de Duília", um filme que capturou algo além da sensibilidade expressa no conto, buscando no retrato de um homem amargurado, um estrato pungente sobre a questão do tempo perdido.

O homem em questão, é José Maria (interpretado por Rodolfo Mayer). Um funcionário público austero e vivendo seus últimos dias na repartição federal, a um passo da aposentadoria compulsória.
Sua vida resumiu-se a cumprir suas obrigações profissionais e manter-se modestamente, sem maiores ambições.

Solteiro, vive aparentemente sob resignação a respeito de sua solidão contumaz, sem contudo que isso significasse uma misoginia assumida.

Durante os anos que se passaram, nutriu aqui e ali, vontade de se aproximar de uma mulher e ter enfim uma companheira que lhe abrisse a oportunidade de constituir família e ter a vida igual à de seus colegas de repartição, mas algo internamente o segurava ao passado longínquo de sua adolescência vivida num remoto rincão do interior do país.
Uma festa é improvisada no seu último dia de trabalho na repartição, mas seus vínculos eram meramente formais e não há grande comoção.

Durante 36 anos, José Maria apenas chegava, batia o ponto, trabalhava, dizia "até amanhã" e saia, numa rotina mecânica, entediante.

Um pequeno gesto de uma colega de trabalho, parece ter outro significado, todavia.
Adélia (Natália Timberg), entrega-lhe um presente de despedida, que num vislumbre efêmero, lhe parece uma abertura para uma aproximação, mas...era só um ato de coleguismo profissional e José Maria vai para a casa frustrado mais uma vez.

Sem a rotina de trabalho, José Maria vai rapidamente entrando num desespero. Ficar o dia inteiro de pijamas dentro de casa, lhe trouxe a perspectiva de confrontar o enorme vazio de sua vida.

Passa por momentos angustiantes sem a distração que o trabalho burocrático lhe proporcionava.

Agora ele é uma peça fora da engrenagem, sem utilidade alguma para o sistema e só lhe resta esperar a morte sentado, em sua modesta residência.
Toma uma atitude quando percebe que definhará, ao aceitar o convite de um colega para visitar um "Night-Club", que naquela época era popularmente chamado de "inferninho"...

Sem nenhum traquejo para frequentar tais lugares, só atrapalha as paqueras do colega, pois nem sabe lidar com as mulheres, ainda mais sendo mais jovens e ele, um defasado senhor fora de moda.

O que fazer para dar um sentido à vida, doravante ?
Foi quando mediante uma epifania, começou a lembrar-se de um tempo onde teve um amor correspondido, ou pelo menos ele interpretara dessa forma.
Em suas remotas lembranças, havia uma garota por quem se apaixonara. Eram muito jovens e infelizmente as suas juras de amor esbarravam no fato concreto de que não tinham independência, tampouco maturidade suficiente para assumirem uma relação estável.

Mas era um sentimento puro, verdadeiro e muito intenso. Tão forte, que criou uma raiz, perdurando ao longo hiato criado pela separação inevitável.

Ele não teve alternativa, tendo que deixar a cidadezinha onde viviam e foi batalhar pela sua subsistência no Rio de Janeiro.
E preocupado em manter-se, seu sonho foi esmagado pela realidade, embotando-se.

Sendo obrigado a viver nessa rotina que o limitou, foi envelhecendo e aceitando o fato de que Duília fora apenas uma paixão juvenil.

Mas a vida passou, José Maria nunca conseguiu relacionar-se com outra mulher e agora, estava aposentado numa casa suburbana e vazia.

Num ímpeto incomum aos seus padrões recatados, toma a decisão de lutar pelo seu amor juvenil.
Uma imagem nunca lhe saíra da cabeça nesses anos todos : Duília, num ato de amor impensável para o início do século XX, numa pequenina cidade interiorana, mostrara-lhe os seios.

Em seu imaginário, fora a vivência mais erótica de sua vida e agora ele daria tudo para resgatar esse amor.
Como estaria Duília ? Poderia estar viúva, quem sabe ? Ou até mesmo ter ficado solteira como ele e nesses termos, essa seria a oportunidade de ser feliz, enfim.

Em sua mente, esse pensamento começa a ficar obsessivo. Duília e sua beleza infanto-juvenil; as juras de amor; o contato físico pudico daquela época e a explosão erótica, da visão de seus seios nus.

Martelando em sua cabeça, essa imagem lhe dá o ímpeto que jamais tivera em toda a sua vida subserviente : Nada o impede de ir à sua cidade natal e procurar por Duília !

Nessa parte do filme, é incrível a condução de Carlos Hugo Christensen. A viagem é retratada como uma saga épica, porque o é assim para José Maria, embora seja ao espectador, uma viagem triste, morosa e plena de dificuldades.
Nessa ambiguidade, Christensen nos comove, pois José Maria faz das tripas coração para poder chegar. Usando vários meios de transporte, pois não havia acesso direto para um lugar tão longe do Rio de Janeiro, José Maria vai pulsando junto com as adversidades, num rítmo que nos faz crer que ele finalmente encontrou a força dentro de si.

Sensacional é a trilha incidental, onde nesse percurso sofrido, o barulho do vento que lhe sopra, parece verbalizar o nome "Duília", literalmente.
Uma genial sacada de Christensen, que parece evocar algo fantasmagórico, talvez um "banshee" irlandês no meio da terra vermelha, em pleno "interiorzão brasuca".

Finalmente José Maria chega à Pouso Triste, a remota cidadezinha.

Nada mudou naquele lugar, parado no tempo e no espaço. O coração pulsa cada vez mais rápido, a garganta asfixia-se, o suor lhe umedece as têmporas...

O encontro acontece...

José Maria encontra-se com Duília, mas o encontro é um momento constrangedor para ambos.
Foi-se o viço da juventude, mas muito pior que os sinais do tempo que ambos ostentam, é a constatação de que 40 anos constituíram a aniquilação do sentimento de outrora.

Num vislumbre da realidade, desmorona-se a expectativa de José Maria ao deparar-se com o fato de que aquele momento pueril de 40 anos atrás, jamais se repetiria.
Vidas separadas e construídas sob outros parâmetros, faziam daquele fugaz momento sensual do passado, apenas a lembrança de uma chama, com a durabilidade de um palito de fósforo aceso.

Um diálogo formal sobre o casamento de Duília (interpretada por Licia Magna, quando mais velha), filhos e netos, encerra melancolicamente para José Maria, a sua última esperança de ser feliz.

Mesmo assim, um ato impensado dá a entender que Duília vai ceder, mas fora apenas um ímpeto, imediatamente sufocado pelo recato.
Seguem-se planos oníricos, evocando lembranças do passado e o elo com a tormenta da realidade, tratou de nunca deixar acontecer de fato, a consumação da paixão.

Frustração... uma vida desperdiçada e irremediavelmente perdida para a melancolia atroz.

A única perspectiva é a sobrevivência burocrática, até onde o fluxo da vida determinar que José Maria tome a última xícara de café de sua existência.

É triste, sem dúvida, mas como obra de arte é dilacerante, arrancando das entranhas do personagem, facetas do ser humano que não gostamos, mas que existem, infelizmente.
Rodolfo Mayer era um ator veterano, egresso do teatro e das radionovelas, com poucas, mas boas participações nos primórdios do cinema brasileiro, desde a década de trinta. Com o advento da TV, atuou bastante em novelas, principalmente nos anos sessenta e setenta, quando ficou mais famoso, naturalmente.

Nesse filme, teve atuação excelente, trazendo com sua bagagem, uma dramaticidade exemplar. Mesmo com Orígenes Lessa sendo responsável pelos diálogos (o que foi um luxo para a produção desse filme), Mayer não apoiou-se somente no bom script que tinha às mãos, tampouco na segurança de Carlos Hugo Christensen como diretor. Foi além e compôs o personagem José Maria, com expressões físicas que dizem muito ao espectador da obra.

É infelizmente uma obra circunscrita à um fechado mundo de fãs e talvez seja difícil de se achar na internet, mas já foi exibido com regularidade no Canal Brasil, anos atrás (nada contra a grade atual - 2013 - cheia de programas, mas confesso que gostava mais quando exibia predominantemente filmes clássicos e obscuros, brasileiros).


Recomendo essa obra do Carlos Hugo Christensen, pois enxergo nela uma das mais contundentes experiências do cinema brasileiro, em exprimir sentimentos viscerais.

10 comentários:

  1. Oi, Luiz

    Assisti ao filme há muitos anos.
    Que belo artigo você fez sobre o filme. É isso mesmo!
    Também concordo que o Canal Brasil deveria passar mais os filmes clássicos brasileiros.
    Parabéns!

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    1. Oi, Janete !

      Agradeço muito a sua leitura e participação, postando um comentário.

      Muito bacana saber que apreciou o artigo. Eu considero esse filme, um dos mais impressionantes sobre a amargura humana, diante da perda de uma vida.

      Verdade, entendo que a famíla Farias teve que adotar nova estratégia para o Canal Brasil se tornar sustentável, financeiramente, mas tenho saudade do tempo em que só passava filmes em sua grade.

      Abraço e muito obrigado !!

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  2. Onrigada Luiz por compartilhar seus links. Esse filme deve ser apaixonante e muito triste. Fiquei curiosa para assisti-lo. Vendo as fotos e lendo a matéria, me lembrei de um filme que muito me marcou.("O VENTO LEVOU"). Acho que era esse o nome do filme.
    Aprendi mais um pouco do nosso cinema.
    abraço!

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    1. Eu é que lhe agradeço, Bete, por estar sempre lendo e opinando.

      O filme que enfoquei, é excepcional e vale muito a pena ser visto com bastante atenção. É triste, mas traz uma mensagem forte sobre aproveitarmos cada segundo da vida, para não nos amargurarmos na velhice,com arrependimentos por termos sido omissos na juventude.

      Obrigado por ler, comentar e elogiar !

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  3. Que filme lindo! Que texto maravilhoso!

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    1. Fiquei muito feliz por sua manifestação de agrado ao filme e à resenha !

      Visite sempre o Blog, tenho outras resenhas de filmes brasileiros e internacionais, também.

      Grande abraço !!

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  4. Acabei de assistir o filme no Canal Brasil (11/03/2017). Adorei o filme, gostei também de ver. a passagem se Jose Maria por Curvelo, minha cidade natal. O que minha intriga é Pouso Triste, é um local real? e qual cidade seria hoje?

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    1. Que maravilha que o Canal Brasil promoveu mais uma recente (março de 2017), exibição desse grande filme. Ao que consta, a cidade de "Pouso Triste" é fictícia. Em pesquisa no Google, só há referências à tal cidade por conta do filme / livro e registra-se a existência uma fazenda, também com esse nome e igualmente localizada em Minas. Bacana o personagem passar por Curvelo, sua cidade natal, uma lembrança a mais em sua percepção, nessa obra.

      Muito grato por visitar-me novamente !!

      Abraço !!

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  5. Filme exibido agora há pouco no Cine Brasil, sabia, claro, tratar-se de obra interessante de nossa literatura e com direção de um diretor pouco prestigiado mas competente, o C. H. Christensen. Gostei. A acrescentar ao belo comentário o quanto a história acentua a diferença comportamental em poucas décadas. Nos dias de hoje, seria impensável um desfecho no qual os personagens se sentissem tão pouco à vontade com a passagem do tempo e tão represados em seus desejos. No entanto, o comum na ocasião era exatamente o que foi mostrado, mais ainda pela influência dos costumes do interior do Brasil. Enfim, um fiel retrato do comportamento humano num certo tempo e num certo espaço. Eu também recomendo.

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    1. Olá, José Carlos !

      Antes de mais nada, estou muito feliz por sua visita e postagem de comentário em meu Blog. Sobre o filme, o comentário que você acrescentou foi ótimo. De fato, é notório o choque de diferenças comportamentais que observamos numa obra com tantas décadas de defasagem em relação a esta atualidade. Verdade absoluta, naquela época, as pessoas tendiam a envelhecer precocemente por uma série de motivos culturais que extrapolavam em muito o envelhecimento corpóreo. A atitude mental das pessoas favorecia esse tipo de marginalização, fazendo com que as pessoas em geral sentissem-se inativas precocemente, e o filme expressa isso claramente. O filme desnuda bem como a dita terceira idade era marginalizada e antecipada, privando as pessoas de uma vida social mais intensa e até da vida emotiva, sexual etc etc. De fato, um retrato de como a sociedade brasileira e em geral eu diria, enxergava a vida útil das pessoas, ou seja, muito mais curta do que hoje em dia.

      Foi um prazer receber sua visita e ótimo comentário !! Volte sempre, por favor !!

      Grande abraço !!

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