sábado, 30 de março de 2013

Paths of Glory - Por Luiz Domingues



O cinema, de uma maneira geral, costuma privilegiar a II Guerra Mundial, quando produz filmes sobre guerras do Século XX.

Portanto, bem mais modesta, tanto entre os americanos, quanto europeus, é a produção enfocando a Primeira Guerra Mundial, como se esse conflito bélico terrível, que consumiu vidas, sofrimento e penúria social sem precedentes, fosse um evento menor na história.
Para início de conversa, essa guerra foi conhecida como "a guerra para acabar com todas as guerras", tamanha a amplitude de suas implicações geopolíticas.

Um exemplo raro se deu numa produção norte-americana, relativamente modesta, dirigida pelo diretor britânico, Stanley Kubrick, e lançada em 1957.
Trata-se de "Paths of Glory" (em português, "Glória Feita de Sangue"), uma história baseada em fatos reais e que representa uma mácula na história do exército francês, e indo além, uma vergonha que ultrapassa fronteiras e constrange qualquer corporação militar, seja de que nacionalidade for.

Baseado no livro homônimo, de Humphrey Cobb, de 1935, que não alcançou grande sucesso à época, seus direitos foram adquiridos nos anos cinquenta, por uma módica quantia, e havia uma explicação para essa desvalorização : além do pouco sucesso do livro, uma tentativa de adaptá-lo ao teatro, também fracassara.
Mas Kubrick comprou essa briga, e mesmo sabendo que a história era polêmica, foi até o fim, lançando-o em 1957.

A história se passa em 1916, bem no meio do período, onde a I Guerra Mundial ocorreu.

Enquanto um batalhão francês enfrenta duro embate contra os alemães no front, dois oficiais de alta patente travam um diálogo de gabinete, cujo teor o colocaria numa situação de alto risco.
O General-Chefe do Estado Maior, George Broulard (interpretado por Adolphe Menjou), um homem maquiavélico e arrogante, dá ordens para seu subordinado direto, o general de campo, Paulo Mireau (interpretado por George McReady), que tal batalhão avance imediatamente contra as forças alemãs.

Argumentando que seria uma estratégia muito arriscada pelas circunstâncias, Mireau tenta demover o comandante dessa ordem, mas este o suborna, oferecendo-lhe uma promoção.
Contaminado por essa oferta infame, Mireau vai ao front e dá a ordem do ataque, mesmo sabendo que dificilmente essa ação lograria êxito e pelo contrário, muitas vidas seriam sacrificadas inutilmente.

Mas, inebriado pelos seus interesses pessoais, ele insiste na ordem, e enfurece o coronel Dax (interpretado por Kirk Douglas), que percebe ser uma ordem descabida e sem objetivo militar, mais parecendo uma loucura suicida.
Chega o período noturno e tudo fica ainda mais perigoso e absurdo. Mireau vai se alterando, e chega a arrancar um soldado da trincheira e o jogar na mira dos alemães, para que alvejado inevitavelmente, mexa com os brios dos soldados.

É quando um batedor é enviado para análise e um outro arremessa uma granada, matando-o.
Usando esse evento para justificar o ataque, Mireau enfurece-se e ordena o avanço, mas Dax, usando do expediente do regimento interno, recusa dar ordem aos homens, e exige a ordem do Comando Maior, por escrito.

Mireau ameaça abrir fogo contra todo o batalhão, mas Dax o impede, corajosamente.
Mas o episódio chega ao conhecimento da cúpula, com o General Broulard frustrado por ter seu plano pessoal arruinado e dessa forma, não perde tempo e abre uma Corte Marcial, visando julgar e condenar à morte, todo o batalhão, por covardia e deserção.

O coronel Dax enlouquece, sentindo ser uma ação orquestrada, visando usar a vida daqueles pobres soldados, apenas como um joguete de interesse político.

Como era também um advogado na sua formação civil, ele em pessoa se oferece para defender os seus homens, na Corte Marcial.
Com muito custo, consegue reduzir a sanha de Broulard e Mireau, e num acordo, isenta o batalhão inteiro de culpa, mas três homens são escolhidos para absorver essa infâmia.


Dessa maneira, o tenente Roget (Wayne Morris), por ser comandante de um destacamento; Maurice Ferol (Timothy Carey); por ser considerado um "pária", e o recruta Arnaud (Joe Turkel), simplesmente escolhido num sorteio aleatório, são os homens levados ao tribunal.
O julgamento dessa Corte Marcial é obviamente uma farsa e Dax, mesmo usando de todos os seus recursos como advogado e indignado por ver a injustiça militar conspurcando a honra da corporação, não consegue evitar o veredicto de cartas marcadas.
Os três homens são condenados e fuzilados, a despeito de sua inocência.

Na manhã seguinte, Broulard convida Dax para um café da manhã bem indigesto.
Chegando ao gabinete do general, encontra-o com Mireau, ambos se regozijando pelo fuzilamento dos pobres inocentes.
Mas, Mireau surpreende ao dizer para Dax que vai indiciar Broulard, responsabilizando-o pela ordem do ataque suicida.
Broulard fica abalado com tal revelação, que obviamente é uma traição, e um ato de descarte.

A seguir, Mireau tenta subornar Dax, oferecendo-lhe uma promoção que o catapultaria à uma posição de destaque na cúpula do poder, no exército francês.
Dax explode, rasga o código de decoro e solta o verbo, acusando Broulard de ser um homem mesquinho, preocupado apenas em obter o poder para usufruir dele em questão pessoal, portanto, ser uma vergonha para a corporação e a pátria.

Enquanto isso, os homens daquele batalhão estão numa taverna, relaxando um pouco, depois de passarem semanas no inferno das trincheiras do front, e abalados com a Corte Marcial injusta que queria condená-los à morte e ceifou três colegas, indevidamente. E o sentimento de estarem vivos era meramente aleatório...
Na Taverna, surge uma oportunidade de relaxar, quando uma garota alemã é forçada a subir no palco e cantar, para entretê-los.

Teoricamente, ela não corria o risco de ser abusada e ferida, mas o pavor estava em seus olhos, diante daqueles homens rudes, inimigos e sedentos por uma válvula de escape, ainda mais com o elemento sexual em voga.
Acuada e muito assustada, ela não vê alternativa a não ser começar a cantar uma canção folclórica de sua terra.

Começa então, timidamente, a cantarolar "Der Treue Husar", sob os risos de escárnio e deboche, e ouvindo provocações humilhantes.

Mas algo surpreendente acontece...

Os homens começam a silenciar seus insultos e pilhérias, sendo vencidos por uma estranha emoção, que paulatinamente começa a arrebatá-los. 

Alguns mudaram o semblante, outros começaram a cantarolar a canção e subitamente, a emoção generalizou-se.

Cortes rápidos mostram rostos cansados e rudes, vertendo lágrimas, tendo dificuldade para engolir a saliva.

O motivo dessa comoção, foi o fato dessa canção ter calado fundo na honra desses homens injustiçados. A canção fala de honra, amizade e lealdade, e naquele instante, era a ferida comum à todos.
Nesse instante, o Coronel Dax observa seus homens aos prantos dentro da taverna, e orgulha-se desse sentimento espontâneo da parte deles.

Um mensageiro o aborda na porta da taverna e lhe comunica que o batalhão recebeu ordens imediatas de voltar ao front, mas o coronel Dax se compadece, e ordena que os homens tenham mais alguns minutos de relaxamento na taverna, antes de voltarem ao inferno das trincheiras.

O filme chega ao fim, sem um final feliz e deixando no espectador, o amargo da injustiça na boca, coisa difícil de digerir.
Kubrick foi hábil nesse final, usando dessa emoção para exprimir toda a indignação proposta na história, pelo ato de injustiça perpetrada pelos poderosos, por questões meramente mesquinhas.

O filme não foi um super sucesso à época, mas gerou algum desconforto.

Na Espanha, por exemplo, foi vetado pelo ditador Franco, porque foi considerado como propaganda antimilitar.

Na Alemanha, foi evitado, por poder fomentar sentimento anti-francês, e na França, gerou protestos por macular a imagem de seu exército.
Outra curiosidade, foi que Kubrick teve problemas com o ator Timothy Carey, que acabou sendo demitido antes de concluir as filmagens. Como seu personagem era importante, por interpretar um dos três condenados ao fuzilamento, a solução foi concluir as filmagens com um dublê, evitando tomadas reveladoras e certamente cortando diálogos.

Mais uma curiosidade interessante, se deu com o ator Adolphe Menjou. Kubrick queria que ele atingisse o auge da agressividade para uma cena de grande relevância dramática. Menjou era um ótimo ator, e interpretava profissionalmente, mas Kubrick queria algo a mais.
Dessa forma, usou uma estratégia perigosa, mas que revelou-se eficaz. Na manhã onde deveria filmar tal cena, Kubrick o obrigou a fazer mais de 20 takes da mesma cena, cobrando-lhe mais convicção na interpretação.

Profundamente irritado, Menjou enlouqueceu no set, quando Kubrick anunciou que não haveria pausa para o almoço, até que se terminasse a filmagem dessa cena.
Aos berros, Menjou deu um chilique no set e calmamente Kubrick ouviu os xingamentos e o convidou a fazer uma última tentativa. 

Com essa raiva à tona, Menjou interpretou exatamente como Kubrick esperava, e todos foram almoçar felizes, pela missão cumprida...


Outro fato interessante, a garota alemã que interpretou a assustada cantora na taverna, se chamava Christiane Harlan. Nos créditos do filme, ela apareceu com um nome artístico, Susanne Christian. Essa atriz, casou-se na vida real com Kubrick, e foi sua esposa até o seu falecimento, em 1999. Hoje, cuida do acervo do falecido marido, sendo curadora da exposição sensacional, onde exibe-se grande parte de sua memorabilia.

Eis um raro filme ambientado na I Guerra Mundial, que vai além do conflito em si, e versa sobre a injustiça; honra; companheirismo; lealdade etc.
Não é o melhor filme da carreira de Stanley Kubrick, certamente, mas eu o considero um grande trabalho.

E a cena final, é primorosa. Difícil não se emocionar com o efeito da canção sobre os soldados.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A Liberdade e o Sol Nascente - Por Luiz Domingues


O Japão é o chamado país do Sol nascente. Sua tradição e cultura são admiráveis sob todos os aspectos e as qualidades advindas de tais traços, influenciaram diversas outras culturas do planeta.

A partir de 1908, quando o primeiro navio lotado de imigrantes japoneses atracou no porto de Santos, nunca mais fomos os mesmos, no melhor sentido do termo, pois a extraordinária cultura nipônica veio para ficar e nos trazer inúmeras lições, ao agregar-se à nossa.
Espalhando-se principalmente pelo interior de São Paulo e do norte do Paraná, os primeiros imigrantes vieram para trabalhar na lavoura, inicialmente.

Todavia, não demorou muito e a crescente industrialização da cidade de São Paulo, os atraiu em grande número, também.
Com esse enorme contingente chegando, misturaram-se aos italianos, portugueses, espanhóis e sírios/libaneses, colônias que já eram muito numerosas na cidade.

Claro, com um pouco mais de dificuldade de adaptação, devido à língua e cultura muito diferentes, mas ganhando espaço a cada dia.

Com o avançar do tempo, algumas associações culturais abriram, exibindo filmes japoneses, especificamente dirigidos à colônia, sem a preocupação de terem legendas em português.
O bairro da Liberdade, próximo ao centro da cidade de São Paulo, foi tornando-se um reduto natural dos nipônicos e seguindo a tendência crescente de lojas e restaurantes típicos ali abertos, tais centros culturais foram sendo abertos, com enorme sucesso para a colônia.

Quando a II Guerra Mundial eclodiu, tempos difíceis para a colônia, chegaram. Enquanto o governo Vargas flertou com o Eixo, mal disfarçando a simpatia por Hitler, Mussolini e Cia., tudo ia bem para os imigrantes japoneses, mas com a adesão aos aliados e o pacto de mútua ajuda com Roosevelt, Vargas fechou a cara para os alemães, italianos e japoneses.
Sendo assim, proibiu-se a exibição de filmes japoneses em tais salas, frustrando o público que tinha nelas, um contato direto com sua terra natal.

Com o fim da guerra, contudo, mesmo timidamente, as exibições foram voltando e a partir dos anos cinquenta, e atravessando boa parte da década de sessenta, chegaram ao seu apogeu, pois nessa altura, filmes de alto teor artístico também começaram a fazer parte da programação, além dos filmes populares.

Abriram-se então cinemas propriamente ditos, com estrutura adequada, a partir da inauguração do Cine Niterói, em 1953.
Isso chamou a atenção dos cinéfilos paulistanos e virou coqueluche nessas duas décadas, ver filmes de grandes diretores japoneses, como Akira Kurosawa; Shohei Imamura; Kenji Mizoguchi; Masaki Kobayashi; Yasujiro Ozu; Mikio Naruze; Heinosuke Gosho, entre outros.
Cineastas como Carlos Reichenbach e Walter Hugo Khoury, tornaram-se frequentadores assíduos de tais salas, fascinados pelo cinema japonês clássico e de vanguarda.


Lembro-me de ter lido uma entrevista de Reichenbach nos anos noventa, onde ele descreveu essa experiência, inclusive contando como a ausência de legendas, naturalmente um empecilho nesse caso, não os desestimulava a assistir e gostarem muito desse contato com essa escola de cinema extraordinária



O Cine Niterói, era uma das principais salas, mas também fizeram história, os cines Nikkatsu; Jóia, e Nippon.

Acaba de ser lançado um livro sensacional, contando toda a história desses cinemas nipônicos de São Paulo.

Trata-se de "Cinema Japonês na Liberdade", do antropólogo Alexandre Kishimoto.
Através de uma extraordinária pesquisa iniciada como material de sua tese na USP, Kishimoto reuniu elementos para lançar esse livro, uma joia rara para a história do cinema paulistano.

Recomendo a aquisição e leitura, sem pestanejar.
Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu e republicada na Revista Cinema Paradiso, em sua edição de n° 331, ambas em 2013.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Minha Fase na Patrulha do Espaço : Resgate das Próprias Raízes da Banda - Por Luiz Domingues


A Patrulha do Espaço foi fundada em 1977, e seu primeiro Concerto foi em grande estilo :em setembro, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, num Festival de Rock Latinoamericano, onde artistas brasileiros e argentinos dividiram o palco num show que entrou para a história do Rock Brasileiro.

É bem verdade que Arnaldo Baptista havia insinuado a criação da banda anteriormente, com a formação da "Space Patrol" em 1974, junto ao Zé Brasil, este, futuro líder do "Apokalypsis".
Mas como a banda não teve continuidade e tendo ficado circunscrita a poucas apresentações, é essa formação de 1977, considerada como o ponto inicial da Patrulha do Espaço, formalmente.

Em sua primeira formação, contava com Arnaldo Baptista nos teclados e voz; Rolando Castello Junior na bateria; Osvaldo "Cokinho" Gennari no baixo, e John Flavin, na guitarra.

Nesses tempos setentistas, toda a orientação artística ainda era calcada na sonoridade 60/70, sob influências óbvias e muito boas, naturalmente.

Arnaldo deixou a nave ainda em 1978, mas o Junior não esmoreceu e assumiu a cabine de piloto.
Saiu também o guitarrista John Flavin, e com Eduardo "Dudu" Chermont assumindo as seis cordas, a Patrulha estabeleceu-se como power-trio, avançando por 1979 e 1980, alheia à fase terrível de derrocada do Rock brasileiro, sob ventos tenebrosos que sopravam da Europa, anunciando tempos difíceis para quem gostava da sonoridade e estética cultural/comportamental das décadas de 1960 e 1970.
Em 1980, lançou com muita ousadia, um LP independente, que era um escândalo para a época, pois a pressão das gravadoras era massacrante e um ato desses era considerado uma rebeldia inadmissível, gerando até boatos sobre elas, gravadoras, buscarem elementos jurídicos para impedirem o lançamento de artistas independentes.

Sai o baixista Cokinho e entra Sergio Santana em seu lugar, dando prosseguimento ao trabalho.


Heroicamente, fazendo das tripas coração, o trio lança mais três discos e tem uma chance de ouro ao abrir os três shows do Van Halen em São Paulo, no início de 1983.

Abro um parênteses para destacar que quando iniciei minhas atividades com "A Chave do Sol", conheci o Junior ainda na metade de 1982.

No primeiro show da Chave do Sol, o Junior emprestou-nos um pedaço do equipamento de P.A. da Patrulha do Espaço, para que pudéssemos nos apresentar com qualidade.
Assisti dois desses concertos do Van Halen e a abertura da Patrulha do Espaço foi muito boa nas duas ocasiões, arrancando aplausos da plateia de 12 mil pessoas aproximadamente, em cada noite.
Em julho de 1983, A Chave do Sol realizou o show de abertura da Patrulha do Espaço num clube em Limeira, interior de São Paulo. Ficamos encantados e gratos pela oportunidade de podermos tocar para 3500 pessoas, naquela noite gelada de inverno.
Infelizmente, no final de 1984, A Patrulha do Espaço teve um rompimento com a sua formação estável, perdendo o ótimo guitarrista, Dudu Chermont.

Mas o Junior sempre foi um abnegado e não deixando a peteca cair, engendrou um novo álbum, trazendo da Argentina, Pappo Napolitano, um dos maiores guitarristas do Rock latinoamericano, e assim, em 1985, lança um novo disco, dando mostras de que a nave permaneceria em voo regular.
Infelizmente, a meu ver, apesar de contar com um guitarrista monstruoso, a banda enveredou por um caminho espinhoso ao tentar adequar-se ao mercado de metade dos anos oitenta, e esse disco de 1985, tem esse espírito mezzo Heavy-Metal, que desaponta-me, como fã.

E assim, a banda deu uma esmorecida, e só no final dos anos oitenta, voltou com força e estilo.
Recrutaram Rubens Gióia, meu ex-companheiro de "A Chave do Sol" e como trio, resgatando a sonoridade clássica, pareciam estar voltando ao seu voo seguro, quando um duro golpe aconteceu, com o falecimento prematuro do baixista Sergio Santana.

Sem forças para continuar, Junior ainda tentou fazer uma nova formação em 1992, e assim lançou um LP, denominado "Primus Inter Pares", homenageando o baixista Sergio Santana.
Contando com Rubens Gióia, Junior recrutou o vocalista Percy Weiss; o excelente baixista Renê Seabra, e mais um guitarrista, o jovem Xando Zupo, que anos mais tarde viria a se tornar meu companheiro no "Pedra".

O disco é muito bem tocado, mas peca por dois aspectos, em minha opinião : 

1) Tem arranjos puxados para o Heavy-Metal oitentista, demais para o meu gosto e; 

2) Tem poucas músicas inéditas, com a maioria, composta por regravações do próprio material da Patrulha, requentando-o e maltratando-o, no sentido estético.

Depois disso, o Junior armou formações sazonais para shows, mas só em 1999 surgiu uma oportunidade de dignificar para valer, o valor dessa nave.

Eu entro aí, nessa história.

Mas devo retroceder um pouco para o leitor entender o contexto em eu que estava antes. 


Em 1996, eu estava no "Pitbulls on Crack", uma banda de Indie Rock, basicamente, mas que tinha uma forte influência do Glitter Rock setentista.

Eu já vinha há anos ensaiando me reaproximar enfim da sonoridade e estética que tanto amo, ou seja, a das décadas de sessenta e setenta.
E o CD que lançamos em 1996, trazia em seu aparato mercadológico, toda uma aura sessenta-setentista, muito em função da pressão que exerci nas reuniões de brainstorm com a banda e os marqueteiros da gravadora Primal/Velas.

Mas apesar disso, o "Pitbulls on Crack" não era a plataforma adequada para eu exercer esse resgate que ansiava, em sua totalidade.

Por isso, apesar de ser muito amigo dos companheiros, saí da banda e fui me empenhar em buscar esse sonho.
Parecia uma coisa insana sair de uma banda que tinha gravadora, vídeo clips, execução radiofônica e um nome sedimentado no underground após cinco anos e meio de trabalho, mas eu precisava buscar essa raiz primordial que me motivara a ingressar na música e havia perdido, desde os anos setenta.

Formei assim o "Sidharta", com o então adolescente Rodrigo Hid, que conhecera por ser guitarrista da banda de um aluno meu, desde 1993.

O "Sidharta" nasceu desse embrião inicial, com o forte propósito de criar uma estética artística totalmente calcada em ícones sessenta-setentistas.
Queríamos buscar a atmosfera de outrora, não só na sonoridade das músicas, mas evocando vestuário; cenários; ambientações etc etc.

Avançamos por 1998, trabalhando fortemente nesse sentido, e após a saída do guitarrista Deca (depois disso tornou-se membro do "Baranga"), que seria membro também, convidamos outro jovem multi instrumentista e ultra talentoso membro, chamado Marcello Schevano.
Com a presença de José Luiz Dinola, meu velho companheiro de "A Chave do Sol", na bateria e vocais, fechamos nesse quarteto, e por um ano ensaiamos, compondo 22 músicas.

No início de 1999, o José Luiz resolveu não prosseguir e decidimos então procurar um baterista que vibrasse nessa onda retrô, integralmente.
Convidamos assim, o baterista Rolando Castello Junior, com direito à uma armadilha que não cabe contar aqui, mas eu já contei na minha autobiografia (história disponível em detalhes nos meus Blogs 2 e 3), e o Junior também já contou na visão dele, nas páginas do "Dossiê Vvolume 4", CD que contém a história da Patrulha contada por ele em punho, através dos respectivos encartes dos 4 volumes lançados, e há a perspectiva de lançar-se um eventual volume 5.

Então ele aceitou a briga, mas dissuadiu-nos a usar o nome "Sidharta", fazendo-nos acreditar que seria muito mais fácil nos lançarmos como "Patrulha do Espaço", a entrarmos no mercado com uma banda zero km, em termos de nome.

Claro, fazia sentido...
Em março de 1999, começamos a ensaiar e incorporamos quase todo o repertório do "Sidharta" como material novo da Patrulha do Espaço, mesclando-o ao repertório clássico da banda.

O Junior adorou a proposta e foram momentos de muita alegria para mim, pois além de eu estar trabalhando em prol do meu sonho rocker 60/70, alegrava-me ser um agente no resgate da própria banda em favor de suas raízes.


Era um prazer estar colaborando para a Patrulha voltar às suas origens e logo de cara, o fato de Rodrigo Hid e Marcello Schevano serem ambos guitarristas e tecladistas, proporcionou à Patrulha, a oportunidade de resgatar o repertório da época do Arnaldo Baptista, material que a banda não tocava desde 1978, quando da saída do próprio Arnaldo.
E logo no primeiro show, surpreendemos os fãs que estavam acostumados aos últimos tempos da Patrulha com o som pesado que faziam há anos, tocando um repertório de clássicos da banda, à moda original, sem ranços oitentistas, resgatamos uma aura hippie, há muito perdida.

As músicas novas agradaram em cheio; a possibilidade de tocar várias da época do Arnaldo, idem.

Mas não era só isso...
Os shows pareciam um túnel do tempo, com detalhes que passamos a adotar e que encantavam o público de observação mais arguta.
Para início de conversa, nossos shows tinham o odor dos incensos. Resgatamos com força esse hábito há muito esquecido no Rock brasileiro, e quando o público entrava no ambiente onde tocaríamos, não importando se era uma casa noturna, salão ou teatro, queimávamos dúzias de incensos.
Mesmo lutando contra a falta de recursos para fazermos produções sofisticadas, nos esmerávamos em compor cenários, verdadeiras tendas hippies que muito lembrava a atmosfera de shows nos lendários auditórios Fillmore e Winterland.

Usamos projeção de bolhas psicodélicas, ainda que primitivamente, por falta de recursos melhores; caprichávamos no figurino "hippie Chic", tínhamos flores sempre que possível...
Pequenos detalhes cênicos também faziam parte de nossos esforços. Ornamentos em cima dos amplificadores, pelos cantos do palco e sobre teclados e praticável de bateria, iam de estátuas de Deuses orientais à um porta-retrato com a foto de Timothy Leary; castiçal de velas à echarpes de seda, jogadas, e até um boneco de um ET em tamanho natural, foi usado certa vez, causando um efeito visual chamativo.

Eram tempos anacrônicos e indiferentes à essa estética, e nem sempre o público entendia sequer o significado de tudo isso.
Lembro-me por exemplo de um programa de TV ao vivo, onde a despreparada apresentadora achou engraçado o porta-retrato com a imagem de Tim Leary em cima do órgão Hammond, e inquiriu-me a respeito, mas simplesmente ignorou a minha explicação...

Enfrentamos públicos alheios, e às vezes até hostis...

Lembro-me de um show em 2001, para uma grande multidão, onde as principais atrações eram duas bandas : uma famosa nos anos oitenta, e outra que era a crista da onda no início dos anos 2000, e tinha estética agressiva e portanto antagônica aos nossos ideais. Dessas de moleques de bermudas, som agressivo e letras recheadas de palavrões...

Quando subimos ao palco, ouvimos vários insultos do público dessa tal banda, e bastava olhar para eles e ter a certeza de que nunca ouviram falar de Beatles; Jimi Hendrix; Janis Joplin...

Mas, tivemos também momentos de enorme satisfação. Foram várias vezes que tivemos a surpresa agradável de ter público antenado.
Em muitas cidades interioranas de São Paulo e principalmente nos três estados do Sul do país, encontramos plateias extremamente jovens, com a garotada vibrando como se vivesse em 1968, ansiando por aquela sonoridade e reconhecendo todo o nosso esforço em reproduzir essa atmosfera mágica, em todos os sentidos.

Não foram poucas as vezes onde saí do palco profundamente emocionado com a recepção de um público muito jovem e querendo viver esse sonho, como se estivessem vivendo a época, de fato.

E assim, gravamos três discos de estúdio ("Chronophagia", em 2000; ".ComPacto", em 2003; e "Missão na Área 13", em 2004). 

Houve também no meio do caminho, o lançamento da coletânea,"Dossiê Volume 4"(em 2001), onde o Junior estava contando toda a história da banda, tendo lançado os três primeiros volumes anteriormente e nesse n° 4, há o início da história da formação de 1999, comigo e os talentosos Hid e Schevanno.

E, mesmo quando essa formação desmanchou-se em 2004, ainda houve um lançamento póstumo, com "Capturados ao Vivo no CCSP", em 2005, um CD ao vivo, obtido de shows realizados em 2004, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), nos estertores dessa formação.

A nave da Patrulha prosseguiu com formações improvisadas, mas mantendo-se no ar, até chegar na formação atual, onde lançou no ano passado (2012), um novo CD de inéditas, denominado "Dormindo em Cama de Pregos".
É uma boa e sólida formação e conta com um jovem guitarrista, um desses caras sensacionais que vibravam o sonho 60/70 e que conhecemos na estrada em 2001, chamado Danilo Zanite.

Que siga em frente com muita sorte, mantendo a chama do Rock, acesa.
De minha parte, foi assim a minha participação entre 1999 e 2004, onde apesar das dificuldades, exerci o sonho e me senti numa banda de Rock à moda antiga, cercado de ícones contraculturais que amo, fazendo uma música carregada de "Boas Vibrações Aquarianas"...

Só faltou tocar no auditório Fillmore, mas ainda tenho esperança de ter esse prazer quase messiânico...
Matéria publicada anteriormente no Blog Limonada Hippie e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2013