segunda-feira, 29 de abril de 2013

O Grito Primal de Lennon & Yoko - Por Luiz Domingues


Nos primórdios da psicanálise, surgiram diversas ideias e escolas de pensamento correlatas, buscando novos meios de mapeamento da psique humana e suas respectivas técnicas terapêuticas, adequadas, caso a caso.

Entre tantas deduções, surgiu a Psicologia Gestalt, que abriu campo para outros caminhos e estudos.
Algum tempo depois, veio a Gestalt Terapia, que influenciaria um jovem psicólogo norte-americano chamado, Arthur Janov.

Mas foi a partir de uma experiência própria em seu consultório, que Janov teria o insight para desenvolver uma nova técnica.
Vendo um paciente exprimindo sua dor através de gritos dilacerantes, chegou à conclusão que muitos traumas poderiam ser eliminados pelo expurgo visceral e que essa experiência seria a liberação de impulsos reprimidos durante toda uma vida, cuja fonte inicial, seriam as dores adquiridas e esquecidas durante o processo do nascimento das pessoas.

E assim, Janov prosseguiu em suas experimentações, até decidir usar oficialmente a nova terapia, que batizou como "Primal Scream", ou "Grito Primal", na tradução em português.
Mas o grande pulo do gato para Arthur Janov, deu-se quando recebeu no seu consultório um casal ultra famoso no mundo pop dos anos sessenta : John Lennon & Yoko Ono.

Desde que conhecera Yoko, Lennon abriu-se como num caleidoscópio, para absorver diversas ideias novas e isso ficou claro em suas composições para o repertório dos Beatles, no pós-1966.

Claro, historiadores costumam atribuir essa fase psicodélica ao uso de drogas alucinógenas, o que é verdade, contudo, haviam outros elementos a serem considerados.
Um deles, e que a maioria das pessoas não gosta de admitir, foi a influência de Yoko Ono. Sei que isso é polêmico ao extremo, pois a maioria esmagadora das pessoas tem a opinião de que ela "virou a cabeça" dele, negativamente e por isso ela é responsabilizada pelo fim dos Beatles.

Eu me excluo dessa maioria, pois não acredito nessa teoria e indo além, acho que Yoko, ao contrário, o influenciou positivamente, levando-o de encontro à arte avant-garde e sobretudo fazendo-o se conscientizar de que era uma figura mundialmente catalisadora da atenção da juventude e portanto, tinha um papel decisivo como um artista de ideias firmes no campo sócio-político.

E assumindo esse papel, suas ideias nos Beatles a partir daí, passaram a ser muito mais incisivas e na carreira solo, ele "chutaria o balde", lançando músicas de teor político, muito intensas.
Em meio à essa abertura às novas ideias, Lennon & Yoko conheceram Janov e tornaram-se seus pacientes.

Impressionados com a terapia, jogaram-se nela com contundência, sem medo.

Nessa fase, Lennon mesmo ainda como integrante dos Beatles, lança álbuns solo, absolutamente experimentais, com pouca ou nenhuma linearidade musical tradicional e causa furor, dividindo os críticos e chocando os fãs.
Em "Two Virgins"; Life With the Lions"; e "Wedding Album", ele e Yoko já davam mostras de que a terapia do Grito Primal estava influenciando-lhes fortemente.

Contudo, como eram álbuns totalmente desprovidos de musicalidade tradicional, apesar do furor, ainda assim ficaram longe do grande público mainstream.
Mas foi em 1970, quando enfim lançou o que se considera seu primeiro álbum, pós-Beatles, que o Grito Primal de Arthur Janov foi revelado ao mundo. Denominado "Plastic Ono Band", trazia uma coleção de canções lindíssimas, ainda que com carga emocional de muita tristeza e sob sonoridade super simples, sem arranjos sofisticados, muito pelo contrário.


 
O disco inteiro, praticamente, traz canções cruas e viscerais de Lennon, tocando em feridas pessoais. E o uso e abuso de gritos extraídos das entranhas, faz com que o ouvinte mergulhe junto, buscando sensações muito perturbadoras, mesmo que toda essa dor expressa, tenha beleza estética incrível. 

Em "God", Lennon desfila um caldeirão de insatisfações, incluso com os ex-companheiros dos Beatles e era natural que houvessem mágoas naquele momento de cicatrizes abertas.

É dessa música que extraiu-se a frase : "O Sonho Acabou", onde os detratores da Era Hippie a usaram à exaustão, fora de contexto, pois não era o foco de Lennon na música, para destruir, de fato, a ameaça civil que se agigantava e o Festival de Woodstock deve ter sido a gota d'água para a turma de Nixon & Cia.

"Well, Well, Well"; "Isolation"; "Remember"; "I Found Out", também trazem essa carga.

Em "Love", Lennon demonstra que só confiava em Yoko naquele instante, e "Working Class Hero", já mostrava o crítico sócio / político mordaz que viria forte nos discos posteriores.
Em "Mother", Lennon expôs ao mundo sua dor por ter sido abandonado pelo pai e por falta de condições financeiras da mãe, ter sido entregue à uma tia, para ser criado.

Aí, sim, o Grito Primal proposto pelo Doutor Arthur Janov, foi expresso de forma contundente.
Era até surpreendente que uma música com esse teor tão triste e contendo esses berros assustadores e carregados de pura dor, pudesse ter feito sucesso radiofônico, como música pop e isso aconteceu entre 1970/1971.

E assim, o disco inteiro tem essa conotação de catarse pessoal de Lennon.

Particularmente, acho-o belíssimo e é um de meus prediletos da carreira solo dele.
Claro, com a propaganda de Lennon & Yoko, Arthur Janov e sua terapia do "Primal Scream" ficaram mundialmente famosos.

Janov virou uma espécie de persona pop também, solicitado para entrevistas e recebendo pedidos de consultas de outras pessoas famosas (e também de futuros famosos, pois Steve Jobs, que na época era apenas um hippie nerd da universidade, esteve entre eles).
E o lado ruim da fama se deu quando muitos terapeutas passaram a adotar a "Primal Scream", sem orientação direta de Janov e as autoridades da psicologia caíram em cima, não reconhecendo a técnica oficialmente, e tecendo críticas pesadas, pondo em dúvida sua eficácia.

Passada a "moda", o grito primal foi caindo em esquecimento, mas Janov continua firme e forte, com 89 anos de idade em 2013 e trabalhando normalmente em seu consultório na Califórnia.
Escreveu muitos livros abordando a técnica por ele desenvolvida e mesmo sem a força adquirida naquela época, com Lennon & Yoko divulgando suas ideias, é um profissional convicto de que sua ferramenta terapêutica é eficaz.

O único senão, é que após tanto tempo praticando, sua voz sofreu danos, com as cordas vocais esmorecendo.

Todavia, mesmo sem a potência de outrora, Janov ainda acredita na força libertadora do grito e se conhecesse o Brasil e nossa cultura, certamente ficaria encantado com a expressão popular : "Matando cachorro a grito"...

Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie em 2013. 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Escuridão Vergonhosa - Por Luiz Domingues





Sabemos que um dos fatores básicos da cidadania, é a iluminação pública de qualidade. 

Fator primordial de segurança, uma boa iluminação inibe as ações de criminosos; propicia melhor orientação no trânsito; auxilia pessoas a buscarem endereços com clareza e dá aspecto de ordem à urbe.
Num país de dimensões continentais como é o Brasil, considerando o potencial energético natural, via hidroelétricas ou pela captação por fontes mais modernas e ecológicas, tais como energia solar e eólica, é inadmissível que hajam "apagões" por via de regra.

Fora esses Black-outs, é notória a precariedade do serviço de iluminação pública adequada nas cidades brasileiras.
Se olharmos o mapa mundi noturno pelo Google, verificamos que nos Estados Unidos, a visão noturna vista do espaço, mostra um país quase completamente inteiro iluminado, com um brilho incrível.

Na Europa, o mesmo fenômeno ocorre nos países do oeste, com diferença significativa em relação aos países do leste.

Na Ásia, o Japão impressiona pelo brilho intenso enquanto China e Coréia do Sul começam a ter o mesmo padrão, diferenciando-se de outros países mais pobres.

No Oriente Médio, dá para ver um ponto de luz mais forte, onde supõe-se ser Dubai e outros , demonstrando outras cidades ricas, fora Israel , naturalmente.

Na Oceania, a Austrália destaca-se, certamente. Na África, e nas Américas Central e do Sul, infelizmente o panorama é inverso.

São pequenos pontos de luz, em meio às trevas quase predominantes...
No caso específico do Brasil, somente São Paulo e Rio de Janeiro apresentam manchas iluminadas significativas. Em segunda instância, vê-se claramente as principais capitais estaduais, mas bem mais apagadas, e no continente, só Buenos Aires tem aspecto semelhante, fora a Cidade do México (embora na América do Norte), e vizinha do super iluminado Estados Unidos da América.

São Paulo é considerada uma das maiores manchas de luz do planeta, mais pelo seu tamanho descomunal, fazendo com que essa extensão territorial urbana imensa, gere luz suficiente para ser vista do espaço.

Contudo, fora os bairros nobres, e as grandes avenidas que os servem, a iluminação paulistana deixa muito a desejar
Se na Av. Paulista, verifica-se iluminação de primeiro mundo e isso ocorra em outras avenidas tais como a Rebouças; Faria Lima; Luiz Carlos Berrini, e outras poucas, na periferia, a situação é muito diferente, com absoluta precariedade.

O mesmo ocorre no Rio, com poucas vias realmente iluminadas, como deve ser, circunscritas ao bairros nobres da zona sul,  relegando os bairros suburbanos, à escuridão.
Infelizmente, o mesmo padrão segue nas outras capitais e cidades interioranas de grande, médio e pequeno porte.

Descaso, má vontade política, corrupção...bem, estamos cansados de saber as razões.

Tornar esse serviço público essencial, padronizado, é viável, tecnicamente falando.
Colocar toda a fiação no subterrâneo, é caro, mas o custo-benefício dessa operação vale a pena, na ponta do lápis.

Trocar as velhas lâmpadas de vapor de mercúrio, pelas de sódio ou mesmo de vapor metálico, em toda a parte e não só nos bairros nobres, se faz mister.

Um serviço rápido de manutenção, não deixando pontos escuros por mais de um dia, quando danificadas, é obviamente um direito do cidadão e obrigação do estado.
O uso de baterias nos semáforos, evitando o caos no trânsito em momentos de interrupção de energia, é uma medida óbvia.

Enfim, investir em iluminação pública de alto padrão, é muito importante para o crescimento da qualidade de vida do cidadão.
Está na hora dos senhores prefeitos (iluminação pública é atribuição municipal, portanto, cobre de seu prefeito !), mudarem seu discurso carcomido e apresentarem metas nesse setor.

E também não adianta ficar com raiva dos argentinos, quando ironizam nossas cidades, apelidando-as de "boites", de tão escuras que são, pois eles falam mal com razão, infelizmente...
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2013

sábado, 20 de abril de 2013

A Estação da Luz - Por Luiz Domingues


Quem me conhece bem, sabe que a minha trajetória musical nem sempre permeou-se pelo som que eu realmente queria fazer. 

Mas sem divagações, apenas abro esse preâmbulo para esclarecer que eu iniciei minha carreira em 1976, portanto, no início de um declínio acentuado para a estética artística que gostava e daí, atravessei os anos oitenta e noventa, fazendo o melhor que podia, mas vivendo em meio à estéticas antagônicas e de certa forma hostis ás coisas que amo.

Em 1997, resolvi dar uma guinada na carreira e fundei uma banda 100% calcada na estética sessenta/setenta e fui atrás do meu sonho, mesmo cônscio de que seria um trabalho anacrônico.

Desse esforço, essa banda acabou fundindo-se à outra que já tinha um nome solidificado na história do Rock brasileiro e com esse material retrô de muita qualidade, gravamos cinco discos e fizemos inúmeros shows.
Excursionando pelo interior de São Paulo e pelos três estados do Sul, principalmente, conhecemos muitos jovens que encantavam-se por essa estética resgatada. Eram ecos Woodstockianos, alimentados por jovens que nasceram muitos anos depois dessa Era Aquariana do Rock.

Nesses termos, conhecemos jovens músicos e muitas vezes, tivemos o prazer de ter nossos shows abertos por bandas jovens, dessa característica.

Entre tantas (muito bacanas) , conhecemos uma de São José Rio Preto, em 2001, que abriu nosso show em Mirassol, uma cidade vizinha, e que se chamava "Hare".
Lembro-me de ter ficado muito impressionado com esse trio, que tinha um som bastante influenciado por Power-Trios clássicos como "Cream"; "West, Bruce and Laing"; "Jimi Hendrix Experience" entre outros.

Com visual de Rockers sessenta-setentistas, os caras vibravam nessa egrégora, e eu fiquei muito contente por conhecê-los e fiquei amigo principalmente do baterista, Junior Muelas.
Em outras ocasiões, encontramos com o "Hare" novamente, mas a banda passou por uma turbulência e encerrou atividades.

Rapidamente, o baterista Junior Muelas uniu-se à outros músicos e formou uma nova banda, chamada "Freak".

Acompanhei os esforços iniciais do "Freak", que chegou a gravar uma fita demo, com algumas músicas.
Mas os ventos não sopraram favoravelmente e a banda não teve a continuidade que esperávamos.

Já passava da metade da década inicial do novo século e o Junior Muelas contou-me que estava com um novo projeto.

Seria uma banda de formação maior, com uma abrangência sonora de horizonte mais largo, abraçando também a psicodelia sessentista e flertando com o Rock progressivo.
Batizada de "A Estação da Luz", mergulhava fundo no sonho hippie perdido, evocando sonoridades e estética visual-comportamental, fidedigna à época.
Mesmo sem conhecer o trabalho, já encantei-me com a perspectiva, pela estética, mas também por saber que Junior Muelas havia arregimentado um time de primeira qualidade. 

Sendo ele um exímio baterista, ao contar com o baixo de Sandro Delgado (Ex- Hare) e a guitarra de Christiano Carvalho, dois excelentes instrumentistas, a qualidade estava assegurada.
Mas indo além, haveria também a presença de Alberto Sabella, um tecladista à moda antiga, ou seja, um verdadeiro piloto dos teclados, capaz de compor, arranjar e executar com maestria, diversos teclados, com timbres retrô fidedignos, mesmo porque, ao contrário dos tecladistas modernos, ele raramente usa simuladores, mas dá-se ao luxo de tocar em teclados vintage.

Fora o fato de que é um multi-instrumentista, com domínio perfeito de bateria e baixo, também...

O percussionista Daniel Verlotta também foi incorporado e ficou responsável pelo molho extra, proporcionado pelas congas e afins
Para os vocais, Muelas recrutou um casal. Renata Ortunho e Fernando Martins comandariam as vozes, fora os demais que contribuiriam (e bem), com os backing vocais.
Lembro-me de Muelas me dizendo que com essa dupla, tinham em mãos um verdadeiro "Jefferson Airplane", fazendo alusão à presença de Grace Slick e Marty Balin, o casal de vocalistas dessa grande banda psicodélica americana.

Algum tempo depois, fiquei sabendo que estavam gravando uma primeira demo-tape e logo a seguir, saiu o primeiro vídeo-clip oficial. 

Fiquei encantado com a estética que simulava os antigos promos do programa "Beat Club". A banda tocando e no Chroma Key, cores ultra psicodélicas.

Era a música "Par Perfeito", trazendo ecos dos "Beatles", "Mutantes", "Jefferson Airplane", "Iron Butterfly" e outras influências sessentistas adoráveis.

A banda passou por uma reformulação a seguir. Saiu o baixista Sandro Delgado e foi substituído por Vagner Siqueira (ex-Freak). Vagner é um excepcional baixista e encaixou-se como uma luva na banda.
Saíram também o vocalista Fernando Martins e o percussionista Daniel Verlotta e dessa forma, a banda optou por não substituí-los, tornando-se doravante, um quinteto.

Mais enxuta, não perdeu qualidade, de forma alguma, pois Renata Ortunho garantiu-se como frontwoman, e a rapaziada segurou o rojão dos backing vocais, direitinho.

Em 2009, minha banda, "Pedra", foi tocar em dois shows no interior de São Paulo e tivemos o prazer de dividir ambos, com "A Estação da Luz".

Foram duas agradáveis noites, uma em São José do Rio Preto e outra em Ribeirão Preto.

Foi como estar em 1968, e dividir a noite com o "Grateful Dead" no Fillmore West, tamanha a vibe legal no palco, coxia e no camarim.
Shows e mais shows pelo interior de São Paulo, Minas e Paraná, foram sedimentando a banda, mas um dos seus grandes momentos aconteceu em Santa Catarina, onde fizeram enorme sucesso no Festival Psicodália.
O grande público mainstream talvez não saiba, mas esse festival anual reúne no interior de Santa Catarina, um enorme público de jovens sedentos por som 60/70 e muitas bandas dessas características se apresentam lá, perante até 15 mil neo-hippies, evocando Woodstock em pleno século XXI.
Em 2012, finalmente saiu o primeiro CD oficial da banda. Com o apoio do selo carioca, "Som Interior" (da gravadora Renaissance, do farejador de talentos, Claudio Fonzi), a bolacha física pode ser adquirida nos shows da banda, em seu site e lojas descoladas do circuito São Paulo-Rio.

Com capa muito caprichada e qualidade sonora muito boa, "A Estação da Luz" apresenta nove faixas de muita inspiração, com absoluta fidedignidade de timbres vintage; arranjos elaborados; harmonias vocais sofisticadas e performance instrumental de cada membro, excelente.


Logo na primeira faixa, a banda demonstra ter influências muito nobres. É claro na música "Desconforto", a influência do "Som Imaginário", "Som Nosso de Cada Dia" e "Mutantes". A condução do piano elétrico de Sabella é magnífica. Os vocais ultra-sessentistas, lembram Marcos Valle em sua fase Soul e o solo de Christiano Carvalho, apesar de curto, é de rasgar o verbo.

A seguir, ouvimos "O Fim". 

Trata-se de uma "Beatle song", com uma belíssima melodia. Sabella e Carvalho fazem um belo trabalho de contraponto de teclados e guitarra. Sobra feeling numa canção que apresenta uma vocalização final que gruda na cabeça, e lembra muito o trabalho de bandas como "Small Faces"; "The Associaton"; "The Kinks", além do "Uriah Heep".


A terceira faixa, "Siga o Sol", é bem setentista. Tem nítida influência do trabalho dos "Mutantes" na sua fase Prog, além de "O Terço"; "A Bolha" etc. A linha de baixo de Vagner Siqueira chama a atenção pela sua beleza, além da vocalização de Renata Ortunho. Gosto muito do caráter quase de mantra, num looping hipnótico, sob o som do órgão Hammond, evocando o "Pink Floyd".
"Desespero" fala sobre desencontros sentimentais, envolta numa harmonia belíssima de teor melancólica. O peso dos teclados exerce uma dramaticidade que lembra-me muito o estilo do Ken Hensley e o slide mesclado ao wah-wah, que Carvalho criou, ficou incrível.

"Esperto ao Contrário", certamente tem influência dos "Mutantes". Com clima de Vaudeville, é cantada por Sabella em sua parte A. Os teclados passeiam por timbres dignos do Billy Preston e a condução de Muelas à bateria é sensacional.

A sexta faixa, "Tempo Estranho", é uma verdadeira ode ao Rock Brasileiro dos anos sessenta e setenta. A letra da música é toda costurada para enumerar o nome de várias bandas dessas décadas e a sonoridade, além de trazer a influência óbvia dos "Mutantes", tem bastante do "Clube da Esquina", também. Gosto muito da participação do Carvalho, com dedilhados limpos, mesclados ao uso de caixa leslie em outros momentos.
"Reta Tangente", é mais uma bonita balada com sabor sixtie. É como pegar um disco antigo da Gal Costa e suspirar ao constatar como era legal...

O solo de Carvalho lembra George Harrison em seus melhores momentos, além do órgão Hammond dar um peso incrível à canção, em seu momento mais agudo.

"Canção para um amigo", apresenta uma melodia muito elaborada, sob a ação de um piano elétrico lúgubre, ao estilo do "Led Zeppelin" em "No Quarter". Timbres de Moog e Theremin, trazem elementos psicodélicos muito interessantes, e na parte mais pesada da música, a harmonia lembrou-me o "Procol Harum", incluso o ótimo uso de clavinete na parte final.
Encerra o disco, a ótima "Par Perfeito". Com um mellotron que lembra bastante os "Beatles" em "Strawberry Fields Forever", a música parece ser uma balada, mas logo a seguir seu rítmo muda, e com muita vibração, a banda entra numa jam, com destaque para a cozinha espetacular de Muelas e Siqueira. O refrão pesado, que lembra o "Deep Purple" em seus melhores momentos, cresce e emociona.

Olhando o vídeo dessa música no You Tube, vi vários comentários efusivos, e um que se não era irônico, talvez tenha sido infeliz na sua formulação. O sujeito dizia algo do tipo : "Faltou o Lennon, mas não era mesmo Strawberry Fields Forever..."
Pegando esse gancho, a proposta de "A Estação da Luz" é ser mesmo uma banda retrô, sem preocupações com os modismos do mainstream.

Se por um lado é uma aposta arriscadíssima e quase um haraquiri mercadológico, por outro, eu vejo com extrema simpatia que exista uma banda dessas no panorama artístico, pois o que se vê no mainstream é tenebroso e anacronismo à parte, o pessoal da "Estação" dá um show de musicalidade; inspiração; execução e nos timbres em que investem, passando como um rolo compressor sobre qualquer banda moderninha, dessas que a crítica adora "hypar".
Recomendo a audição desse trabalho e certamente assisti-los ao vivo, pois a competência dessa turma, é de 100%.

Visite o site deles :

http://www.aestacaodaluz.com.br/


quarta-feira, 17 de abril de 2013

TV Record, Padrão de Excelência nas Décadas de 1950 e 1960 - Por Luiz Domingues

A TV Record de São Paulo, foi fundada oficialmente em 27 de setembro de 1953, tendo como seu patrono, o empresário Paulo Machado de Carvalho.
Era a terceira emissora de TV criada na praça de São Paulo, tornando-se a nova concorrente das duas emissoras já existentes : TV Tupi (1950) e TV Paulista (1952).

Entrou no mercado com muita determinação, querendo fazer uma TV de qualidade, com programação bastante eclética e apuro técnico de ótimo padrão, considerando-se os investimentos iniciais com equipamentos de ponta para os padrões da época, fora as instalações e contratação de técnicos e artistas.

Se por um lado, a TV Tupi já estava sedimentada e apoiada pelo poder de fogo dos Diários Associados, do empresário Assis Chateaubriand, a outra concorrente, a TV Paulista, tinha parcos recursos, mas fazia das tripas coração, usando de muita criatividade e na base do improviso, tinha uma interessante grade, com boas atrações.
Portanto, a TV Record entrou no ar, sob uma certa pressão, sabendo que precisava trabalhar firme, para vencer seus concorrentes, e claro, isso era o início de uma sadia disputa, engrandecendo a TV brasileira.

No dia da inauguração, o primeiro programa foi um musical, conduzido por Sandra Amaral e Hélio Ansaldo.
Talvez fosse um prenúncio do quanto a música seria bem tratada nessa emissora, nos anos vindouros.
Mas os esportes também se revelariam muito importantes nessa emissora. Sem dúvida, com Paulo Machado de Carvalho como dono e mentor, não poderia ser diferente e para quem não sabe, ele foi o chefe da delegação brasileira nas vitoriosas campanhas nas Copas do Mundo de 1958 e 1962 e sua biografia já foi enfocada, por mim no Site/Blog Orra Meu e republicado aqui em meu Blog 1.
Na primeira foto, José Geraldo de Almeida, e a segunda é do grande Raul Tabajara, e esta foto foi um oferecimento de seu filho, Emílio, que gentilmente cedeu-me esse material de seu acervo familiar

Segundo consta, a primeira "Mesa Redonda", protagonizada por jornalistas esportivos, analisando o futebol, foi criada na TV Record, em 1954, com a liderança de José Geraldo de Almeida e Raul Tabajara.
Na linha infantil, o palhaço Arrelia (o grande Waldemar Seyssel), e Pimentinha, colocaram seu famoso "Circo do Arrelia" no ar, alegrando as crianças nas manhãs de domingo.
O humorista Manoel de Nóbrega, trouxe seu programa radiofônico, "Praça da Alegria", fazendo enorme sucesso na linha do humor popular.

Ainda nos anos cinquenta e atravessando os anos sessenta, tornou-se praxe da TV Record, trazer artistas internacionais de destaque e transmitir seus shows. Esse padrão de qualidade musical tornou-se a marca registrada da simpática emissora e entre tantos astros, destacaram-se Charles Aznavour; Louis Armstrong; Bill Halley and His Comets; Ray Charles; Nat King Cole; Marlene Dietrich, Sarah Vaughan etc.
Um programa que também fez história, foi o "Show do Dia 7", apresentado pelo jornalista Blota Junior, era uma revista diversificada, com música; sketches de humor e teatro; entrevistas de personalidades e outras variedades, apresentado uma vez por mês, com pompa e circunstância, sempre no dia 7, numa agenda móvel, privilegiando o número da estação em São Paulo.

Houve época onde as manhãs de domingo mobilizavam a cidade inteira. Era a época da Grande Gincana Record, uma espécie de reality show pré-histórico, com equipes formadas pelos bairros da cidade, enfrentando-se em torno de uma série de provas.

Outro programa que mexia com os brios cívicos da criançada e adolescentes, era o Festival de fanfarras escolares, onde os colégios públicos e particulares se esmeravam para causar boa impressão, em desfiles transmitidos ao vivo, direto do Vale do Anhangabaú.

Um comunicador vindo do rádio, chamado Abelardo Barbosa, iniciou uma bela trajetória quando estreou "A Hora do Chacrinha", na emissora paulista.
Outro programa infantil que teve enorme sucesso nos anos sessenta, foi "Pullman Jr.", obviamente patrocinado por essa indústria panificadora.

A linha de desenhos animados estrangeiros, era a da melhor safra, popularizando em larga escala as produções dos estúdios Hanna-Barbera.
Com a condução da então mocinha, Cidinha Campos, e de Durval de Souza, esse programa durou 16 anos no ar, encantando as crianças e formando uma geração de consumidores de pães e bolos e a inevitável mania de colecionar os talheres de plástico coloridos das embalagens (quem foi criança na década de sessenta, sabe do que falo...).

Mas foi no campo da música que a Record teve seus melhores momentos, nessas décadas de ouro de sua história.

Muitos programas sensacionais foram criados e entraram para a história não só da televisão brasileira, mas da música.
Por exemplo, "O Fino da Bossa", onde a fina flor da MPB se apresentou e como se não bastassem essas aparições sensacionais, o casal de apresentadores era formado por Elis Regina e Jair Rodrigues.

E muitos outros programas foram surgindo : "Essa Noite se Improvisa"; "Alianças para o Sucesso"; "Caras e Coroas"; "Guerra é Guerra"; "Show em Si...Monal"; "Corte Rayol Show", "A Hora do Bolinha" etc.

Outro programa, centrando o foco na Velha Guarda da MPB, chamava-se "Bossaudade". Com Elizete Cardoso e Ciro Monteiro como apresentadores, era um espaço muito bacana para artistas veteranos, atingindo um público mais velho.
E o contraponto foi um estouro, virando até um movimento estético / comportamental. Extrapolando as expectativas mais otimistas de seus produtores, a "Jovem Guarda" tornou-se um fenômeno, gerando um glamour enorme e abrindo o caminho para outras plataformas de receitas, onde o incipiente marketing começou a ser exercido.
Como se não bastasse esse frenesi nas ditas "jovens tardes de domingo", a TV Record mergulhou forte no universo dos festivais de MPB.
A repercussão histórica de seus festivais, revelando ao grande público, artistas que instantaneamente se tornaram ídolos da nova MPB, inspirou outras emissoras a criarem seus respectivos festivais, e quem ganhou com isso, foi a música popular brasileira.

No campo da polêmica, a TV Record criou "Quem Tem Medo da Verdade ?", para combater o "Pinga-Fogo", da concorrente TV Tupi.
Extremamente tenso e polêmico, tinha o objetivo de sabatinar personalidades de diversas áreas da sociedade, mas geralmente centrando em artistas, numa fórmula de inquisição agressiva.

Entrou para a história, como uma espécie de julgamento moral, muito pesado, portanto polêmico. "Zé do Caixão"; Grande Otelo; Roberto Carlos, e outras personalidades, foram "julgadas" sob clima tenso, e até mal educado, causando um desconforto, mas que agradava o público, exatamente por isso...

Na linha de filmes e séries internacionais, a Record chegou num ponto de ter as melhores opções do mercado.


A grades vespertina e noturna, eram recheadas das melhores produções internacionais, e houve um momento onde inovou, trazendo atores internacionais para entrevistas, promovendo séries de sucesso. Causou furor, por exemplo, quando o ator Jonathan Harris, que interpretava o sensacional Dr. Smith, da série "Lost in Space" ("Perdidos no Espaço"), sentou-se no famoso sofá da entrevistadora Hebe Camargo, e conheceu seu dublador brasileiro, o saudoso e genial ator, Borges de Barros.
Outro programa na linha de humorismo que entrou para a história, foi "A Família Trapo". Seguindo a linha de um teatro ao vivo, mostrava a vida de uma família completamente maluca. Com texto escrito por Jô Soares e Carlos Alberto de Nóbrega, era hilário e marcou época.
No campo da dramaturgia, a Record também teve atuação de destaque, embora nunca tenha sido o seu carro chefe. Entre pequenas produções de sitcom, encenações teatrais adaptadas e novelas, propriamente ditas, a TV Record teve sua colaboração, também.

Mas então, os anos de ouro da TV Record estavam encerrando-se. Vítima de um incêndio jamais explicado adequadamente, a TV Record teve um prejuízo muito além do financeiro.
O início dos anos setenta marcou os primeiros anos de dificuldade e decadência.

Com a ascensão meteórica da TV Globo, e a sedimentação da TV Bandeirantes, a TV Record já não conseguia manter o padrão de excelência dos anos anteriores e modestamente, foi caindo.

Já sem a possibilidade de manter uma grade de programas musicais com aquela qualidade de outrora, já não conseguia ter um departamento de jornalismo e esportes competitivo. Tampouco conseguia comprar as melhores séries e desenhos animados e sua dramaturgia não conseguia mais acompanhar o nível da TV Globo, e nem mesmo da TV Tupi.
Arrastando-se, viveu de lampejos de criatividade, contentando-se em ser a quarta, às vezes quinta emissora no ranking de audiência, perdendo muitas vezes para a TV Gazeta, e também para a estatal, TV Cultura.

Nos anos oitenta, boatos sobre sua precariedade financeira davam a entender que poderia fechar as portas a qualquer instante.

Sem saída, a família Machado de Carvalho não teve outra alternativa e no início dos anos noventa, teve que vender a emissora para um grupo religioso que a domina desde então.

Mas os anos de ouro da emissora ficaram mesmo nas décadas de 1950 e 1960, sob a condução de Paulo Machado de Carvalho, sem dúvida, como emissora laica, sem vínculos religiosos.

Eu tenho algumas ligações pessoais com a TV Record.

Em 1970, eu tinha dez de idade e meu pai conheceu uma pessoa envolvida na produção de shows e dramaturgia da TV Record. Segundo ela, estavam procurando crianças da minha faixa etária, para participar do programa do ator/cantor/comediante, Moacyr Franco.
Era o final do ano de 1970 e lá fui eu participar do programa Moacyr Franco Show, gravado no palco do Teatro Paramount.

Era um sketche de humor, onde ele interpretava um de seus personagens famosos, um mendigo. Um grupo de crianças precisava interpretar seus filhos, e a atuação era bem simples, com as crianças precisando fingir euforia ao receber presentes de natal do pai, e depois ficarem tristes quando o dono da loja lhes retirava os embrulhos, alegando que o pai não poderia pagar por eles.
Era na verdade um sketche meio chapliniano, pois o elemento da tristeza pela dificuldade sócio / financeira, se fazia presente, emocionando, ou pelo menos, tentando...

Nessa atuação, estive acompanhado de um primo meu, pois meu pai acabou arrumando vaga para mais um menino.

O pessoal da produção gostou de nós como "atores", e nos convidou para atuar em mais programa, na semana seguinte. Meu primo adoeceu, e perdeu a chance, mas eu fui.
Desta feita, participaríamos de um número musical. A ideia era cantar junto com o Moacyr Franco, em volta de um piano.

A canção, só fomos aprender quinze minutos antes do programa iniciar-se. Era uma balada melodramática com sabor brega, bem no estilo do Moacyr (reconheço que ele canta bem, mas seu espectro sempre foi o popularesco, na base da "cafonalha").
Foi constrangedor para eu e para a maioria das crianças, meninos e meninas perdidos, sem saber o que fazer diante de uma canção que não conhecíamos.

Mas, curti muito os bastidores do teatro, com a coxia cheia de figurantes; dançarinas e técnicos em frenesi; parecendo uma balbúrdia, com tudo sendo improvisado longe dos olhos da plateia.

Apesar dessa atuação apagada (confesso, sem conhecer a música, fingi estar cantando na maior parte do tempo e mal consegui sorrir para os meus pais que estavam num camarote bem perto do palco, tamanho o meu constrangimento...), recebi o convite para fazer teste para atuar como ator mirim numa novela que entraria no ar, em 1971.


Era uma adaptação do texto " O Príncipe e o Mendigo", e os jovens atores Kadu Moliterno e Nádia Lippi, seriam os protagonistas. Cheguei a receber um script para decorar, mas desisti da empreitada, pois atuar como ator, definitivamente não era a minha.

Muitos anos depois, tive novos contatos com a Record, mas aí atuando na minha área, a música. Entre 1984 e 1986, participei de programas, atuando com duas bandas onde atuei naquela década : A Chave do Sol e Língua de Trapo.
Lembro-me de atuações em programas femininos verspertinos, fazendo as indefectíveis "dublagens" e uma atuação, num programa chamado "Frente Jovem", gravado no Palácio das Convenções do Anhembi, onde A Chave do Sol atuou junto aos Engenheiros do Hawaí; Hanoi-Hanoi, e pasmem...Menudo...mas essa história eu conto posteriormente, na plataforma correta (está publicada com detalhes nos meus Blogs 2 e 3).

Em suma, a TV Record teve sua importância fundamental na história da TV brasileira e fez muito pela cultura, em seus anos de ouro.


Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, em 2013