segunda-feira, 29 de abril de 2013

O Grito Primal de Lennon & Yoko - Por Luiz Domingues


Nos primórdios da psicanálise, surgiram diversas ideias e escolas de pensamento correlatas, a buscar novos meios de mapeamento da psique humana e as suas respectivas técnicas terapêuticas, adequadas, caso a caso. Entre tantas derivações, eis que surgiu a a técnica conhecida como a Psicologia Gestalt, que abriu campo para outros caminhos e estudos.
Algum tempo depois, veio a Gestalt Terapia, que influenciaria um jovem psicólogo norteamericano chamado : Arthur Janov. Todavia, foi a partir de uma experiência pessoal, realizada em seu consultório, que Janov teve o insight para desenvolver uma nova técnica.
Ao observar um paciente que exprimiu a sua dor através de gritos dilacerantes, Janov chegou à conclusão que muitos traumas poderiam ser eliminados pelo expurgo visceral e que essa experiência seria a liberação dos impulsos reprimidos durante toda uma vida, cuja fonte inicial, seriam as dores adquiridas e esquecidas durante o processo do nascimento de cada pessoa. E assim, Janov prosseguiu em suas experimentações, até decidir usar oficialmente a nova terapia, que batizou como, "Primal Scream", ou "Grito Primal", na tradução em português.
Porém, o grande avanço para Arthur Janov, deu-se quando recebeu em seu consultório um casal ultra famoso no mundo Pop dos anos sessenta : John Lennon & Yoko Ono. Desde que conhecera Yoko, Lennon abriu-se como sob um caleidoscópio, para absorver diversas ideias novas e isso ficou claro em suas composições para o repertório dos Beatles, no pós-1966, fase em que a banda empreendeu uma guinada artística em sua carreira, para tornar-se de fato, revolucionária. Claro, historiadores costumam atribuir essa fase psicodélica ao uso de drogas alucinógenas, o que é verdade em termos, contudo, havia outros elementos a ser considerados.
Um deles, e que a maioria das pessoas não gosta de admitir, foi a influência de Yoko Ono. Sei que isso é polêmico ao extremo, pois a maioria esmagadora das pessoas tem a opinião de que ela influenciou Lennon de uma forma negativa e por isso ela é responsabilizada pelo fim dos Beatles. Eu excluo-me dessa maioria, pois não acredito nessa teoria e ao ir além, acho que Yoko, ao contrário, o influenciou positivamente, quando o levou ao encontro da arte avantgarde e sobretudo, ao fazê-lo ganhar consciência de que ele representava uma figura mundialmente catalisadora da atenção da juventude e portanto, teria que adotar uma postura decisiva como um artista influenciador de ideias firmes no campo sóciopolítico. E assim, ao assumir essa conduta, as suas ideias expressas dentro da carreira dos Beatles, a partir daí, passou a serem muito mais incisivas e posteriormente, em carreira solo, ele avançou ainda mais ao lançar músicas mediante um teor político, muito intenso.
Em meio à essa abertura às novas ideias, Lennon & Yoko conheceram Janov e tornaram-se seus pacientes. Impressionados com a terapia, mergulharam nessa premissa com contundência, sem receio. Nessa fase, Lennon, mesmo ainda como integrante dos Beatles, lançara álbuns solo, absolutamente experimentais, com pouca ou nenhuma linearidade musical tradicional e causou furor, para dividir a opinião dos críticos e chocar os seus fãs.
Em discos como : "Two Virgins"; Life With the Lions"; e "Wedding Album", ele e Yoko já deram amostras de que a terapia do Grito Primal estava a influenciar-lhes fortemente. Contudo, como foram álbuns totalmente desprovidos de musicalidade tradicional, apesar do furor gerado, ainda assim ficaram longe do grande público mainstream.
Contudo, foi em 1970, quando enfim lançou o que considera-se o seu primeiro álbum oficial solo de estúdio, pós-Beatles, que o Grito Primal de Arthur Janov foi revelado ao mundo. Denominado : "Plastic Ono Band", tal álbum trouxe uma coleção de canções lindíssimas, ainda que dotadas de uma carga emocional sob intensa tristeza e com a sonoridade super simples, sem arranjos sofisticados, e muito pelo contrário, a soar bruto, in natura.
 
O disco inteiro, praticamente, apresenta canções cruas e viscerais de Lennon, para tocar em feridas pessoais. E o uso e abuso de gritos extraídos das suas entranhas, faz com que o ouvinte mergulhe junto, a buscar sensações muito perturbadoras, mesmo que toda essa dor expressa, tenha uma beleza estética incrível. 

Em "God", Lennon desfila um caldeirão de insatisfações, incluso com os ex-companheiros dos Beatles e foi natural que houvesse mágoas naquele momento mediante cicatrizes abertas. É dessa música que extraiu-se a frase : "O Sonho Acabou", quando os detratores da Era Hippie usaram-na à exaustão, fora de contexto, pois não fora o foco de Lennon na música, para destruir, de fato, a ameaça civil que agigantava-se e nesses termos, o retumbante estardalhaço que o Festival de Woodstock proporcionou, deve ter sido a gota d'água para a reação usar os seus meios para destruit tudo. Outras faixas tais quais :  "Well, Well, Well"; "Isolation"; "Remember"; "I Found Out", também contribuem com essa carga forte em forma de catarse. Em "Love", Lennon demonstra que só confiava em Yoko naquele instante, e "Working Class Hero", já mostrou o crítico sóciopolítico mordaz que viria ainda mais forte nos discos posteriores de sua carreira solo.
Já em relação à música, "Mother", Lennon expôs ao mundo a sua dor por ter sido abandonado pelo seu pai e por falta de condições financeiras da mãe, ter sido entregue a uma tia, para ser criado. Nesse aspecto, sim, o Grito Primal proposto pelo Doutor Arthur Janov, foi expresso de forma contundente e certamente que impressiona a sua força dramática.
Foi até surpreendente que uma música com esse teor tão triste e a conter esses berros assustadores e carregados pela expressão da  dor, pudesse ter feito sucesso radiofônico, como música Pop e isso de fato aconteceu entre 1970 e 1971. E assim, o disco inteiro tem essa conotação em termos de catarse pessoal de Lennon. Particularmente, acho-o belíssimo e é um de meus prediletos da carreira solo dele.
Claro, com a propaganda mastodôntica gerada de uma forma espontânea, por Lennon & Yoko, o Dr. Arthur Janov com a sua terapia do "Primal Scream" ficou mundialmente famoso. Janov tornou-se como uma espécie de persona Pop também, solicitado para entrevistas na mídia mainstream e a receber pedidos para agendar consultas de outras pessoas famosas (e também de futuros famosos, pois o hoje celebrado, Steve Jobs, que na época era apenas um hippie universitário e nerd a falar sobre computadores no campus da universidade, esteve entre eles).
E o lado ruim da fama deu-se quando muitos terapeutas passaram a adotar a "Primal Scream", sem orientação direta de Janov e as autoridades que controlam a prática da psicologia, atacaram, ao não reconhecer a técnica oficialmente, e assim a tecer críticas pesadas, e por em dúvida a sua eficácia. Passada a "moda", o grito primal pôs-se a cair em esquecimento, mas Janov continua firme e forte, com 89 anos de idade (em 2013), a trabalhar normalmente em seu consultório localizado na Califórnia.
Janov escreveu muitos livros para abordar a técnica por ele desenvolvida e mesmo sem a força adquirida naquela época, com Lennon & Yoko a divulgar as suas ideias, é um profissional convicto de que a sua ferramenta terapêutica é eficaz. O único senão, é que após tanto tempo a praticá-la, a sua voz sofreu danos, com as cordas vocais a esmorecer. Todavia, mesmo sem a potência de outrora, Janov ainda acredita na força libertadora do grito e se conhecesse o Brasil e nossa cultura, certamente ficaria encantado com a expressão popular : "matando cachorro a grito"...

Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie em 2013. 

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