domingo, 19 de maio de 2013

Paulo Vanzolini, Arte & Ciência - Por Luiz Domingues



A Trajetória de Paulo Vanzolini foi bastante profícua e marcada por um fato inusitado : ele transitou por dois mundos aparentemente díspares, e foi muito bom em ambos.

Como biólogo e zoólogo, Vanzolini foi um dos maiores especialistas em herpetologia do Brasil e reconhecido mundialmente pela excelência de suas pesquisas.

Ligado à USP e por conseguinte ao Instituto Butantã, o professor Vanzolini dedicou sua vida à pesquisa de répteis e anfíbios, tornando-se uma das maiores autoridades do assunto.
Mas havia um outro lado na personalidade do professor. Ele gostava também de poesia e música; das noitadas ao luar sob o som do violão e da sonoridade das palavras.

Dessa forma, o requisitado professor Vanzolini era também o poeta e compositor Paulo Vanzolini, de carreira solidificada e com lugar garantido no panteão dos grandes nomes da música popular brasileira.
Nascido na cidade de São Paulo, em 24 de abril de 1924, Paulo Emílio Vanzolini, foi um estudante aplicado no curso de medicina, iniciado em 1942.

Mas foi no convívio com os colegas, nos momentos extracurriculares, que a paixão pela música e poesia floresceu para ele.

Logo, destacou-se nos saraus amadores de estudantes e seu talento nato o levou para voos maiores no meio artístico
Em 1944, foi trabalhar na Rádio América de São Paulo, no programa, "Consultório Sentimental", junto à Diva do teatro, Cacilda Becker.

Suas composições começaram a chamar a atenção e logo, intérpretes o procuravam, pedindo para gravar seus sambas de letras poéticas e bem construídas.

Ainda nos anos quarenta, foi trabalhar no Museu de Zoologia da USP e iniciou ali a sua carreira vitoriosa com professor, pesquisador e mentor.
Em 1948, Vanzolini foi especializar-se e ficou três anos na prestigiosa Universidade Harvard, dos Estados Unidos.

Sempre caminhando em paralelo, a vida artística seguiu, com o lançamento de seu primeiro livro de poesias, "Lira de Paulo Vanzolini", em 1951.
Foi em 1953, que compôs uma de suas mais conhecidas músicas, "Ronda",que ganharia diversas regravações, por muitos intérpretes e inspiraria Caetano Veloso, quando este compôs "Sampa", no fim dos anos setenta.

Nesse mesmo ano de 1953, aceitou o convite para tornar-se produtor de TV, ficando responsável pelo programa de Aracy de Almeida.

Na vida acadêmica, o professor Vanzolini prosseguiu crescendo e muito. Foi histórica a sua expedição pela Amazônia, navegando cerca de 11 mil KMs pelos rios e afluentes da região, numa pesquisa gigantesca para a USP.
Tornou-se o diretor do Museu de Zoologia da USP e sob a sua direção, o Museu cresceu de 12 mil, para 170 mil espécies em seu acervo.

Foi um dos mentores da criação da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e uma de suas mais famosas pesquisas acadêmicas, foi a "Teoria dos Refúgios", onde através de seus estudos na Amazônia, corroborou e aperfeiçoou estudos de outros cientistas de universidades internacionais.
Um outro samba que caiu no gosto popular, foi "Volta por Cima". Essa expressão ficou tão famosa, que foi incluída no dicionário, como a designar o sentimento de superação, diante de dificuldades na vida.

Nos últimos tempos, Vanzolini andava triste. Primeiro, pelo avançar da idade, que cerceou a sua liberdade de frequentar as noitadas musicais que tanto amava, entre amigos.
Mas o duro golpe, foi o incêndio que destruiu grande parte do acervo do Instituto Butantã. Inconformado, Vanzolini soltou o verbo na imprensa, amargurado com a perda irreparável para a ciência brasileira, que aliás, ele fora responsável direto para a concretização desse trunfo, com seu trabalho incansável.

O professor Vanzolini ficou muito triste por esse descuido, descaso e falta de infraestrutura, típica da parte do governo.
Muito doente e idoso, Paulo Vanzolini nos deixou no dia 28 de abril de 2013, infelizmente.

Que a MPB e a ciência brasileira, consigam dar a sua "volta por cima", apesar dessa perda gigantesca.
Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, em 2013

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