quarta-feira, 31 de julho de 2013

Greves, Protestos & Manifestações - Por Luiz Domingues

Parto do pressuposto de que não existe um regime sócio-político perfeito e que portanto, atenda à todas as necessidades, desejos e interesses de todos os cidadãos, simultaneamente.

E isso é óbvio sinal de que a diversidade humana é enorme, e nessa complexidade, é praticamente impossível haver um modo de gerenciamento público, que contente a todos os interesses. 
Posta essa colocação, que soa óbvia, mas nem todo mundo leva em consideração quando quer expor seus motivos pessoais, sigo em frente, para falar sobre algo que reputo um direito sagrado do cidadão : reivindicar.

É muito natural e salutar dentro de um regime democrático de direito, que o cidadão seja ouvido em suas reivindicações. 

Onde o poder público pode gerenciar, e isso interfere na vida do cidadão comum, é claro que se trata de um direito deste, reclamar de algo que o afeta negativamente, e reivindicar melhorias e providências sobre aspectos que estão ruins e carecem de melhorias.

Portanto, o cidadão tem o direito de reclamar, de querer ser ouvido, de reivindicar.  
Disso não tenho dúvida e de forma alguma quero ser mal interpretado, deixando claro que sou absolutamente contra medidas proibitivas de tais manifestações populares; contra o cerceamento do livre arbítrio; dos abusos contra os direitos civis e sendo assim, denotando atitudes ditatoriais abomináveis da parte de quem detém o poder público.

Contudo, na questão das greves, passeatas, manifestações e protestos públicos, por exemplo, temos observado uma profusão de equívocos, nesse sentido.

No caso das greves de categorias profissionais, por exemplo, é inacreditável que em pleno século XXI, tenhamos práticas truculentas e muito equivocadas, no sentido de não exercer pressão à quem deveria ser exercida.

Um exemplo ?

Se funcionários do transporte público, entram em greve, o objetivo é pressionar o prefeito e/ou o governador, mandatários responsáveis por tal serviço público. 
Porém, quem na prática, é que se prejudica, quando ônibus, trens de subúrbio ou metrô paralisam, por seus funcionários cruzarem os braços ?

O transtorno causado quando uma só categoria dessas para, é enorme e muitas vezes, tais greves se multiplicam, numa ação viral que estrangula as cidades, notadamente os grandes centros, causando um sofrimento gigantesco para milhões de pessoas.

Nesse caso, a pergunta é : Não existe uma maneira mais civilizada de se pressionar quem de fato querem pressionar, para que atendam suas reivindicações ?  


É necessário prejudicar milhões de pessoas para de uma forma muito indireta, isso gere um certo prejuízo à imagem de tal mandatário ?

A existência da "greve branca", onde por exemplo se abririam as catracas sem cobrança de bilhetes, daria um efeito forte sobre o governo, sem no entanto prejudicar as pessoas comuns. O transporte seria feito normalmente, sem incomodar ninguém, a não ser os políticos governantes.

Sei que nesse caso, existem mecanismos jurídicos e marotos (ah...as brechas da Lei..."), onde esse tipo de greve é coibida com a ameaça de exoneração sumária, daí o medo de fazer tal tipo de protesto.

Nesse caso, onde está a visão dessa gente, que não briga por mudanças jurídicas ? Infelizmente, optam por fazer greves antipáticas, que mais atingem o cidadão comum. 
Em relação à passeatas, tornou-se lugar comum tomar as pistas da Av. Paulista, em São Paulo (uso São Paulo como exemplo, por ser minha cidade, mas vale para qualquer cidade, incluso interioranas).

Se toda a categoria profissional e defensores de causas, as mais diversas, se sentem no direito de paralisar a avenida todo dia, pergunto-me : e o meu direito de ir e vir?

Devo agrupar pessoas incomodadas com as passeatas diárias, que fecham o caminho, e organizar uma passeata para protestar contra as passeatas ? 
Fico pensando em como se sente uma pessoa infartada dentro de uma ambulância, a caminho de um hospital (e na região da Av. Paulista existem mais de dez, importantes e enormes), quando a ambulância para, porque os defensores de uma causa qualquer, estão bloqueando-a.

Não dá para fazer a manifestação numa pista só, deixando as demais para o trânsito fluir, ainda que já prejudicado ? É tudo ou nada para essa gente ?

Outra questão : Muitas vezes, independente do protesto ser válido ou não (acredite, tem muita gente que se engaja em causas não fidedignas, sem checar fontes e comprando ideologias vazias como uma bexiga furada), existem as inevitáveis infiltrações. 
Vamos supor que a causa seja nobre e o comando da organização do protesto esteja imbuído dos mais sérios propósitos nesse sentido. Eles mobilizam os militantes da causa, preparam seus cartazes, faixas, flyers, levam megafone e instrumentos de percussão, ensaiam palavras de ordem e instruem os participantes a não provocarem pessoas comuns, não causarem nenhum ato de vandalismo etc etc.

Mas aí, tudo sai de controle, quando um bando de maus intencionados se infiltra e começam a vandalizar, arrumarem brigas, provocar pessoas comuns, praticarem saques no comércio e afrontar autoridades.

Para onde vai a imagem do seu protesto, outrora autodenominado "pacífico" ?

Tudo foge ao controle e nossa polícia, que ainda tem fortes ranços da ditadura militar (até quando, hein ??), reage com a sua costumeira truculência e prepotência.

É o que temos observado nessa recente onda de protestos que tem acontecido em diversas cidades, com São Paulo e Rio, chamando mais a atenção da mídia pelo seu gigantismo (mas não se enganem, pois tem acontecido em cidades interioranas e com grande truculência).

Reivindicar melhores condições de transporte e tarifas mais baixas, acho legítimo, mas nesse caso, todo esse barulho com muita gente ferida gravemente, fora as depredações inadmissíveis, perde muito de seu sentido cívico, quando é manipulado por forças obscuras que só querem "causar" ou desgastar a imagem do partido A ou B. 
Não seria o caso de promover um protesto branco, sem truculência, mas contundente, agindo fortemente nas redes sociais e por exemplo, confrontando os números apresentados pelos governantes e empresários do setor de transportes ?

Algum desses vândalos que vão às ruas munidos de coquetéis Molotov e usam máscaras para não serem reconhecidos, teve acesso às planilhas de custos do transporte público ? 
Mas mesmo assim, salta-me aos olhos o oportunismo dessas manifestações truculentas, deixando claro que são motivadas por outros interesses e com o objetivo de "causar", para usar uma gíria moderna.

O mesmo em relação aos protestos contra as falcatruas perpetradas por governantes em relação à realização da Copa do Mundo e Olimpíadas no Brasil. 
Ora, claro que os absurdos cometidos com o dinheiro público e ações correlatas, prejudicando pessoas humildes (recomendo assistir o documentário "A Caminho da Copa", disponível no You Tube), são abomináveis e precisam ser denunciados com veemência, mas fica a pergunta : desde 2007, sabemos que o Brasil sediaria a Copa e que falcatruas seriam cometidas, portanto, qual o sentido de promover uma manifestação na porta do Estádio Mané Garrincha, em Brasília, no dia do jogo inaugural da Copa das Confederações, em pleno 2013 ??

Ora, que adianta apavorar pessoas inocentes que estavam ali para assistir a cerimônia e o jogo da seleção brasileira ? 

Isso é forma inteligente de protestar ?

E outra, agora ? Esperaram sete anos para reagir contra a roubalheira que esses eventos propiciam nos cofres públicos ? 

Sei que não é só pelos 20 centavos, como virou moda dizer. O saco do povo estourou e revelou a insatisfação acumulada por décadas e por inúmeras razões, mas ainda penso que a mobilização para reivindicar tem que ter inteligência, foco e logística.

Sou totalmente favorável à uma reforma ampla. Urge a reforma tributária, que é a meu ver, o foco número um na pauta.
Acabar com esse vilipêndio à carne do povo, que é cruelmente esfacelada por impostos insuportáveis e com a infame contrapartida do retorno insignificante de benefícios públicos, se faz mister.

A vergonhosa política oficial de não investimentos em transportes públicos de qualidade, para satisfazer a sanha da indústria automobilística e petrolífera, é outra prioridade urgentíssima.

A radical mudança do planejamento, onde saúde, infraestrutura e educação, sejam prioritárias, como única maneira de catalputar o país ao primeiro mundo, sem dúvida.

A reforma política coibindo a infame mordomia que os parlamentares e membros do executivo gozam, ás custas do cofre público.

Sou a favor da extinção da "Voz do Brasil" obrigatória nas estações de rádio.

Qual o sentido de ser obrigatório em pleno século XXI, com internet, TV a cabo e telefonia móvel ?

Quem quiser acompanhar os trabalhos do executivo, legislativo e judiciário, tem plenos canais para fazê-lo, sem a necessidade desse antipático e ditatorial programinha dos anos trinta.

Pela ampla reforma da Lei eleitoral, com a extinção do voto obrigatório.

Pelo fim do serviço militar obrigatório, imediatamente, pois servir as forças armadas tem que ser um direito e nunca uma obrigação.

Pela reforma do código civil e criminal, acabando com as abomináveis "brechas jurídicas".

Reforma total do sistema penitenciário, uma falida e insalubre forma de lidar com os condenados da justiça, onde não se recupera ninguém para a sociedade.

Fim da militarização da polícia. A polícia tem que ser o braço amigo da sociedade e este modelo que temos é de uma polícia mal preparada, carrancuda e com ranços da ditadura, insuportáveis.

Pelo investimento maciço na infraestrutura, acabando com o atraso colonial que ainda persiste.

Pela simplificação total da burocracia, que esmaga o cidadão comum e inibe o empreendedorismo dos empresários, do micro ao mega empresário.

Pela sustentabilidade, pela ecologia, pela cidadania...

Pela limpeza, pelo respeito mútuo, pela pacificação no trânsito...

Pela cultura, pela arte...

Enfim, sou a favor da reforma total do país, mas ainda assim, penso que há maneiras e maneiras de se protestar.

Em suma : Protestar, reivindicar e reclamar, são direitos do cidadão, mas há formas de se fazer ouvir, sem prejudicar as pessoas erradas, que invariavelmente pagam o pato...
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2013.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Walter Hugo Khouri - Por Luiz Domingues

      
Se há uma coisa que abomino no campo da arte, é o patrulhamento ideológico, cerceando, inquirindo e tentando manipular a seu bel prazer, o engajamento ou não, de um artista e sua obra, dentro de seus padrões políticos.

Muitos artistas passaram por esse tipo de pressão desagradável em suas respectivas carreiras, e o cineasta paulistano Walter Hugo Khouri, foi um deles. 

Nascido na cidade de São Paulo, no ano de 1929, era filho de libanês, uma das colônias mais numerosas e produtivas da cidade, e geralmente engajados no comércio de tecidos, roupas e armarinhos em geral.

Já na adolescência, Walter ingressou na USP para cursar filosofia, mas abandonou o curso dois anos depois, arrebatado pelo cinema, por onde enveredou.

Em seu primeiro filme como diretor, iniciou filmagens em 1951, mas só foi concluído em 1953, devido à uma série de adversidades.
Nesse ínterim, trabalhou como assistente de Lima Barreto, no grande sucesso da Vera Cruz, "O Cangaceiro". 
Curiosamente, grande parte do maquinário da Vera Cruz, que fecharia as portas tempos depois, seria adquirido por ele, impulsionando sua determinação de fazer cinema de forma independente, como cineastas europeus contemporâneos seus, e com os quais, ficaria muito identificado, positiva e negativamente, conforme o enfoque dado.

Finalmente em 1954, seu primeiro longa ficou pronto. Em "O Gigante de Pedra", a crítica foi impiedosa, insistindo em criticar os defeitos técnicos, atribuindo-lhes ao fato de Khouri não contar com o apoio de um estúdio.

Esse tipo de preconceito me faz lembrar do final dos anos setenta, onde começaram a pipocar os primeiros lançamentos de discos independentes e as grandes gravadoras tentavam fazer lobby, espalhando boatos maledicentes, dando conta de que músicos não contratados por elas, eram amadores, para desmoralizar artistas independentes.

Mas outras pessoas o atacaram por outro motivo. Em meio aos primeiros sinais de um proto-Cinema Novo que surgia, na cabeça de tais críticos, Khouri deveria usar a precariedade de uma produção tosca, para que tais "defeitos especiais" soassem como trunfo proposital, no sentido de fazer um cinema crítico da miséria brasileira.

Tal pensamento radical permeou o Cinema Novo, que solidificaria-se a seguir. Glauber Rocha que o diga com a sua "estética da fome". 
Mas Khouri não tinha essa intenção, e a denúncia social não fazia parte de seus planos como criador, e na verdade, sua visão era muito mais intimista, buscando meandros psicológicos, psicanalíticos, existencialistas, e sob a sofisticação de um entendimento através das artes plásticas, música e literatura, entre outros ícones que lhe interessavam.

Buscando essa profundidade, seus filmes foram achando tal caminho cada vez mais e quanto mais mergulhava nesse espectro, mais pauladas levava de críticos e até de colegas que o acusavam de ser "alienado", fazendo um cinema hermético em meio às favelas & mazelas com as quais enxergavam o Brasil. 
Logo no segundo filme, "O Estranho Encontro", de 1958, essa veia psicológica fortíssima, tornou-se sua marca registrada que imprimiria por toda a carreira.

Nesse filme, a exploração de climas sutis de cunho psicológico, vividos  pelos cinco personagens, deu margem a mais ataques dos detratores, acusando-o de fazer um cinema alheio aos signos tropicais do nosso país e portanto, alienante por isso e pela falta de engajamento político ideológico.

Na época, certos críticos chegaram a acusá-lo de ser um mero imitador de cineastas existencialistas europeus e japoneses.

Particularmente, acho um absurdo tal colocação, tanto pelo aspecto político, quanto pelo artístico.

A seguir, lança dois filmes : "Fronteiras do Inferno" (1958) e "Na Garganta do Diabo" (1960). Nesses trabalhos, alguém enfim percebe que ele era ótimo e deixando de lado a crítica preconceituosa, é ressaltada a sua qualidade como diretor de atores, extraindo ao máximo a potencialidade de um ator, em obras onde a expressão mais aprofundada era fundamental. 
De fato, olhando a obra inteira, Khouri realmente foi muito bom nesse quesito e de minha parte, posso trazer uma referência minha, que talvez nem fosse a dele, comparando-o ao diretor norte-americano, George Cukor, notadamente um mestre em dirigir, principalmente as atrizes. E portanto, enxergo essa similaridade de Cukor com Khouri, pois o paulistano tinha um apreço também pelas personagens femininas.

Antes que me corrijam, não acho que Hitchcock (que também tinha esse cuidado com as mulheres), fosse igual, pois nesse caso, o inglês cultivava uma espécie de fixação, num enfoque um pouco diferente. 
A seguir, Khouri lançou "A Ilha", em 1963. Na prática, seguia a ideia de "O Estranho Encontro", com personagens isolados e vivendo uma catarse psicológica.

Mas foi em 1964, que Khouri lançou um de seus maiores êxitos. "Noite Vazia" é um filme sensacional, que não me canso de assistir.
Mostrando o vazio existencial de dois hedonistas numa noitada, Khouri foi muito feliz em trabalhar com contrastes.

Em meio ao frenesi da noite paulistana, esses dois homens buscam o prazer de bar em bar, até que acabam contratando duas prostitutas. 
O vazio deles as contamina também, e dentro desse aspecto, num filme de longos enquadramentos e pouco diálogo, diz muito ao espectador.

Falei em êxito, mas no sentido artístico, porque o cinema de Khouri nunca foi popular. 

Alheio à situação política tensa em que o Brasil se colocou, numa virada à direita naquele ano, seus detratores confundiram o teor existencialista com a futilidade burguesa, ainda que houvesse um fundo de verdade nessa premissa.

É certamente, a despeito dessas críticas da parte de radicais, um dos meus filmes prediletos de sua filmografia.

Alheio aos seus perseguidores, Khouri prosseguiu criando de forma prolífica. 
"Corpo Ardente" veio a seguir, quase simultaneamente a um episódio do longa coletivo "As Cariocas". Uma curiosa visão de um cineasta paulistano sobre o Rio.

Em "As Amorosas", Khouri deu ares de cunho político, mas não necessariamente da forma como lhe cobravam. Como um crítico de tudo e de todos, o personagem vivido pelo ator Paulo José, circula entre estudantes da USP politizados, hippies e freaks da São Paulo de 1967.

Para os ligados em música e contracultura, esse filme tem uma incursão dos Mutantes, ainda numa fase incipiente da carreira, tocando ao vivo na Galeria Metrópole, da avenida São Luiz, no centro de São Paulo.

Nessa cena, vemos o artista plástico Antonio Peticov, entre outros avant-garde de sua época, em meio à um bando de hippies.
De certa forma, Khouri reproduziu o mesmo que Michelangelo Antonioni houvera feito um ano antes em Londres, ao filmar o personagem protagonista de seu "Blow up", entrando num clube e assistindo os "Yardbirds" tocando ao vivo, com direito a vermos o guitarrista Jeff Beck, quebrar sua guitarra de forma ensandecida, no meio da performance...coincidência ?

Com o avançar da década de setenta, Khouri manteve seu cinema fiel aos seus ideais, mas é nítida a carga maior de erotização de seus filmes, doravante.

Alguns críticos observam que ele aproximou-se de cineastas da chamada "Boca do Lixo', de São Paulo, onde se concentrava a produção mais acintosa de filmes que passaram à história, conhecidos como "pornochanchadas". 
Claro, no caso de Khouri, longe da tosquice de tais produções, mesmo quando exagerou um pouquinho além da conta, em um ou outro filme (talvez em "Amor, Estranho Amor" de 1982 , ou "Eu", de 1986).

E mesmo no seu filme dessa fase, mais identificado com tal prática, "Convite ao Prazer", de 1980, apesar das várias cenas de sexo inseridas, acho-o um de seus melhores trabalhos, justamente por exprimir o vazio hedonista, expresso na busca do prazer pelo prazer. 

Sim, "Convite ao Prazer" parece ser uma continuação de "Noite Vazia", mas com um enfoque um pouco diferente.

Outros filmes muito centrados nessa carga psicológica com fatores sexuais recônditos, se revelam em "As Deusas", "As Filhas do Fogo", "Eros, o Deus do Amor", "Forever" (esse muito curioso, falado em inglês, com muitos atores brasileiros testando seu aprendizado de cursinhos, e a presença do ator ítalo-americano, Ben Gazarra). 
 Destaco também : "O Último Êxtase"; "O Anjo da Noite"; "O Desejo"; "Paixão e Sombras"; "Amor Voraz" etc etc.

Khouri tinha certos ícones pessoais que o acompanharam em quase toda a sua obra. Por exemplo, a questão de sua predileção pelas artes plásticas.

Seja no cenário, seja no figurino, sempre se destaca tal referência nos seus filmes. No mínimo, de forma fortuita, a câmera vai passar por uma poltrona, mesa ou estante de livros e René Magritte vai aparecer, nem que seja por um livro com suas ilustrações, ali colocado, en passant.

Outra predileção sua e sempre presente nos filmes é o Jazz...
Alguém vai estar escutando um vinil, ou mesmo vai chegar numa festa, e uma banda estará tocando ao vivo. 
E na questão técnica, Khouri primou pelos enquadramentos longos, sem pressa alguma em fazer cortes. Daí muitos críticos o acharem parecido com Ingmar Bergman, pelas longas cenas de câmera parada e atores mudos, apenas expressando-se facialmente.

No cômputo geral, Khouri fez um cinema sofisticado a meu ver, incompreendido por muitos, e maltratado indevidamente pelos patrulheiros ideológicos. 
Nesse aspecto, louvo, além de sua qualidade artística, a coragem de seguir em frente, mesmo sendo vilipendiado. 

E uma última observação : Talvez o cinema de Khouri não seja tipicamente brasileiro. Sua obra nunca teve essa preocupação e de fato, seu foco era o ser humano, mais do que o folclore nacional.

Contudo, ao contrário dos patrulheiros ideológicos, não vejo mal algum nisso, e nunca acreditei que fosse imprescindível para um artista brasileiro, colocar uma cesta de frutas na cabeça para se impor (e deixo claro : gosto da Carmem Miranda, não pense que não !) .
Um livro que eu recomendo sem reservas, e que analisa a profundidade filosófica na obra de Walter Hugo Khouri, se chama : "O Equilíbrio das Estrelas", de autoria do professor de cinema, da Universidade Anhembi-Morumbi, Renato Luiz Pucci Jr.

Nele, toda a obra de Khoury é esmiuçada por esse olhar muito profundo, e certamente que os filmes de Khouri, tem essa característica forte em seu âmago.

Voltando a falar do Khouri, acho perfeitamente legítimo que um artista se expresse da forma como bem entender, sem prender-se à ufanismos descabidos.

E foi o caso de Walter Hugo Khouri, que fez seu cinema, sem essa preocupação em especial.
Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, em 2013.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Caos Portuário - Por Luiz Domingues

          
O Brasil entrou numa fase de prosperidade sem precedentes em sua história, quando deu seu primeiro passo nesse sentido ainda nos anos noventa, controlando a infame inflação que o assolava há décadas.

Claro, não podemos deixar de considerar que aspectos políticos contribuíram nesse sentido. O simples fato de voltar a promover eleições presidenciais livres, fora importante cinco anos antes, apesar do povo ter se deixado levar por falsa propaganda e ter eleito um candidato inadequado.

Ok, democracia é assim mesmo, demora muito para maturar e segue a toada da tentativa e erro.

Mas sem dúvida que esses fatores foram importantes para que já na segunda metade dos anos 2000, sinais animadores deixassem o país visível aos olhos do mundo.

Atravessando a grande crise de 2008, "quase" incólume, o Brasil virou a "bola da vez" em muitos aspectos, da política sócio-financeira aos índices de progresso, em vários níveis.

Só que nos seus meandros, o Brasil progressista que passou a encantar o mundo pelo seu salto rumo ao primeiro mundo, escondia de si mesmo, outra realidade.

A absoluta falta de infraestrutura em setores vitais da economia, revelava-se diametralmente oposta à euforia gerada pelos observadores internacionais.

Só quando a proximidade de grandes eventos de âmbito mundiais avistaram-se, foi que perceberam que portos e aeroportos brasileiros, são de quinta categoria, entre outras coisas.

No tocante aos portos em específico, a situação é dramática e faz tempo.

O assunto só veio à baila neste momento, por dois motivos :

1) A proximidade da Copa do Mundo e Olimpíadas e;

2) A visão estarrecedora da gigantesca fila de caminhões parados no porto de Santos, revelando a falta de organização e por conseguinte, a enorme quantidade de dinheiro jogado no lixo, e outra montanha que se deixa de ganhar, por tal ineficiência.

Qual a razão, ou razões para essa situação ter chegado nesse ponto vergonhoso ?

Bem, são muitas as razões, mas o fator burocrático, é um dos maiores vilões nesse sentido.

Um exemplo ? 

Quando um contêiner chega ao porto para exportação, contendo commodities, por exemplo, não consegue embarcar rumo ao seu destino, em menos de 13 dias.
 
O motivo ?  Burocracia massacrante, onde é preciso apresentar cerca de 200 documentos (pasmem !!), para a liberação e alguns desses, são conflitantes entre si, deixando o exportador completamente louco.

Em Cingapura, esse trâmite burocrático leva um dia e nos Estados Unidos, dois...

Então, some-se à esse fato, que o processo inverso também é infernal, ou seja, navios estrangeiros que aqui chegam, podem ficar até 15 dias esperando autorização para atracar...

Isso espelha bem o caos que essa logística ou anti logística, causa ao país.

Fora essa questão, observa-se também a falta de investimentos na modernização dos portos. Com espaço físico reduzido, ineficiente conexão ferroviária e pátios de estacionamentos minúsculos, não é de se estranhar que filas inacreditáveis de caminhões fechem, literalmente, as estradas que dão acesso ao cais.

Outro fator surpreendente e inadmissível num mundo moderno e informatizado, é que 90% dessa burocracia ou "burrocracia", como queiram, esbarra na falta de comunicação "on line" entre órgãos reguladores e fiscalizadores.

Como aspirar estar no primeiro mundo, sem repartições públicas 100% informatizadas e com funcionários bem treinados e motivados ?

Não é óbvio que a morosidade seja medieval, sem tais providências ?

A lição é muito clara : Estar entre as maiores potências econômicas do planeta é motivo de orgulho, mas investir em infraestrutura é vital para que de fato possamos ser considerados um país de 1° Mundo.

E por enquanto, o Brasil parece ainda estar no tempo do Império, em muitos aspectos.

Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2013.