sábado, 8 de fevereiro de 2014

Manual do Candidato a Pop Star, de Ronaldo Estevam - Por Luiz Domingues


Quando Andy Warhol profetizou que no futuro as pessoas seriam famosas por 15 minutos, parecia só uma frase de efeito, um aforismo performático tão somente.

Contudo, com o avançar do tempo fomos verificando que tal profecia concretizava-se e agora, em plena era das redes sociais e reality shows imbecis na TV, está comprovada a tese de Warhol e indo além, acho que 15 minutos virou uma eternidade para um "hype", que na verdade, deve durar muito menos.


Ser "famoso" para que, exatamente ? Fora a óbvia expansão elástica do Ego, claro que existe o interesse financeiro por trás. "Famoso" atrai oportunidade de ganhar dinheiro, devem pensar esses milhões de pessoas que sonham ficarem confinadas numa casa transparente dessas por aí.

Mas há décadas atrás, ser famoso era só um termômetro do quanto a sua capacidade criativa era admirada.


Não dava para ser famoso na música, se o artista em questão não fosse realmente bom. Isso valia para o teatro; a literatura; cinema; artes plásticas etc etc.

E mesmo assim, haviam os casos de reconhecimento somente no pós morte. Van Gogh e Beethoven são exemplos clássicos de artistas geniais que não usufruíram de sua arte, e sua obra só foi ser reconhecida bem além de suas próprias vidas.


Um leitor desavisado, portanto, se apanhar nas mãos um livro com o título de "Manual do Candidato a Pop Star", poderá surpreender-se se antes de abri-lo, formatar um preconceito baseado simplesmente no que a fama representa nos dias atuais.

Nesses termos, é capaz de achar que seu autor dá dicas para aspirantes a fama, como postarem vídeos idiotas na internet visando a fama instantânea, ou mesmo a "capacitação" para preencher os requisitos que se espera de um "brother" de Reality show de TV...


Mas aí é que está o pulo do gato de Ronaldo Estevam, o autor desse livro, pois o manual na verdade, dá muitas dicas valiosas para quem sonha com o estrelato no mundo musical, mas todas norteadas por valores que os buscadores de fama da atualidade fogem, tal qual o vampiro foge do crucifixo...trabalho; estudo; dedicação; suor; paciência; resignação; tenacidade...e aí, vão encarar, brothers and sisters ??

"Manual do Candidato a Pop Star", é apresentado com bastante bom humor ao leitor, como se fosse de fato uma apostila destinada ao aspirante, mas ao invés de ser um texto maçante, daqueles extraídos de um powerpoint corporativo, é na verdade a autobiografia do próprio autor, onde através de sua experiência adquirida no mundo da música e também da produção audiovisual, além da pedagogia da arte, vai pontuando tal vivência de forma a cada final de capítulo, traçando um resumo, e como tais questões passadas no capítulo servem, didaticamente ao leitor aspirante.

Dessa forma, com bastante inteligência, criou na sua própria autobiografia, uma segunda leitura, onde didaticamente demonstra com bastante naturalidade, erros e acertos para quem sonha com um lugar ao sol na música mainstream.

E não economizou nessa perspectiva, pois sua autobiografia foi fundo, contando aspectos de sua infância, seus pais e irmãos; todo o período escolar com seus conflitos, bullyings inerentes e descoberta da sexualidade; o aprendizado de instrumentos musicais, primeiras bandas e festivais escolares etc.

Passou pela inevitável zona de conflito onde a sociedade nos afunila com a questão da escolha de uma profissão, mercado de trabalho e todo o massacre socioeconômico decorrente.


E aí, talvez na parte onde mais as dicas são valiosas para quem realmente mergulha no mundo da música, fala sobre todas as dificuldades para se formar uma banda; caçar oportunidades de gravação; como expandir uma agenda de apresentações; atrair os holofotes da mídia, e a atenção de um empresário/manager com contatos e influência etc.

E para tanto, a questão gravar, lançar, divulgar e distribuir, um álbum e o quanto as barreiras burocráticas e sobretudo financeiras, são gigantescas...

Então, o leitor aspirante percebe que o artista é quase um personagem de videogame, pois a a cada vitória obtida, a nova fase a ser enfrentada torna-se mais difícil, como se fosse proposital essa dinâmica e certamente tal modelo deve ter sido criado por um criptonazista sádico e completamente louco, pois o que o artista tem que enfrentar, não é brincadeira...

Sabe aquela frase de efeito, "ter que matar um leão por dia" ? Pois é, o aspirante ao estrelato no Brasil passa o dia matando vários, não um só.


Desse jeito, o livro mostra toda a dificuldade que é lançar disco independente e no caso do Ronaldo, fazendo das tripas coração para gravar em estúdio de alto padrão, gastar para fazer um lay-out de capa bacana, material de divulgação, sessão de fotos, vídeo-clips etc etc.

Inevitavelmente, o livro chega num ponto onde o aspirante toma consciência que a música mainstream é toda manipulada. Para entrar de fato nessa 1ª divisão de elite, não basta ganhar a "série B", com dignidade, através de seu suor e talento dentro de campo, mas contar com a sorte de alguém lá do "tapetão", cismar contigo, positivamente, e te convidar a fazer parte do esquema.

Mas geralmente o grupo é fechado e isso raramente acontece. O normal é você ficar estigmatizado a vida toda por ser um aspirante das divisões inferiores e isso por si só, já é a garantia que não merece o "green card"...

Então, o autor não desanima ninguém, apesar da constatação, mas pelo contrário, exorta o aspirante a prosseguir, pois se venceu todas as etapas e ainda assim não conseguiu emplacar música para ser tema de novela das 8, tampouco está agendado para aparecer no "Faustão", é porque ama a música e enxerga nela, outros propósitos.


Sendo assim, conseguiu sua fama, numa escala bem menor que os padrões mínimos que os marqueteiros acham relevantes, mas teus poucos fãs te respeitam, adoram o que você cria, e isso para sempre, ou seja, você venceu...

Muito provavelmente você não aparecerá nos sites de fofocas da internet, mas não se desespere, pois o Scott Joplin; Zequinha de Abreu; Peter Hammill; Mahler, e tantos outros artistas geniais, são desconhecidos dessa gente que adora citar ex-participantes de reality shows, que ficaram famosos, mas...exatamente por não criarem absolutamente nada de relevante para a arte & cultura, portanto ficamos quites.




Ronaldo Estevam tem muitos discos lançados. Já foi componente de duas bandas de Rock com carreiras interessantes (Modelo T e Picles), e atualmente trabalha com a boa banda pop, Rony Barba & Mari Lu.

Tem também uma prolífica carreira solo, com muitos discos lançados, e chama-me a atenção a sua versatilidade musical, pois cada álbum seu tem uma personalidade diferente, denotando boas influências musicais, mas sobretudo pela capacidade de expressá-las camaleonicamente, pode se dizer. Já ouvi trabalhos de intensa proximidade com o Rock Progressivo sofisticado; psicodelia flutuante, Folk e MPB bossanovista, e muito bem executada, com harmonizações e execução primorosa ao violão.

Multi instrumentista, toca guitarra; baixo; bateria, e teclados muito bem, mas no violão, tem um caso particular de maior afinidade, muito provavelmente por ter sido seu pai, um grande músico também.

Desde muito cedo, encarou a atividade de professor de violão e com essa bagagem, montou sua escola, que é referência, chamada "Violão & Cia". Não obstante todo esse talento musical, onde é claro, existem agregadas as nuances de cantor; compositor; letrista e arranjador/produtor, também estudou artes dramáticas no EAD da USP, e é um ator profissional tarimbado.
Esse lado ator o empurrou para o cinema, onde tornou-se diretor e produtor de cinema, documentários e audiovisual em geral, inclusive lhe possibilitando a criação de diversos clips para as suas bandas, onde atuou/atua.

Portanto, com toda essa bagagem acumulada, Ronaldo Estevam foi muito feliz ao lançar sua autobiografia em livro, aproveitando o ensejo para imprimir essa sacada de esmiuçar em vários aspectos, todas as facetas do mundo da música, para quem sonha um dia, "chegar lá".


Claro que tem alguns momentos mais pesados na narrativa e não poderia deixar de ser, em se tratando de uma autobiografia sem maquiagens, onde o autor não teve receio de expor fatos desagradáveis também.

Todavia, o bom humor permeia a obra e portanto, a leitura é agradável, e tem até momentos engraçados.


No meu caso, ao lê-lo, tive vários momentos onde deparei com pessoas citadas que também conheço e algumas inclusive, nefastas, dessas que costumam usar terno risca de giz, falar com sotaque italiano bem forte e mandar cortar a cabeça de cavalos por aí...se não entendeu o que eu disse por ser muito metafórico, recomendo assistir o filme "The Godfather" ("O Poderoso Chefão"), e você vai me entender...

Encerrando, recomendo a leitura de "Manual do Candidato a Pop Star", uma leitura rápida, agradável e permeada por dicas pedagógicas para aspirantes, com muito bom humor, ainda que as coisas ali arroladas como matéria didática, digamos assim, sejam verdadeiras.

O livro se encontra por aí nas boas livrarias, além de ser também vendido no formato E-book. No endereço abaixo, você pode compra-lo:


www.ronaldoestevam.com.br

Para fazer contato com o Ronaldo Estevam, busque-o no seu site : 

www.clicfolio.com/violaoecia 

No livro, tem muitos links anotados para ouvir os trabalhos musicais dele e assistir vídeos das suas bandas e seus trabalhos como ator e diretor de cinema. Mas em linhas gerais, é fácil achá-lo nas buscas, bastando digitar "Ronaldo Estevam" no Google, que logo aparecem vários links para pesquisa.

6 comentários:

  1. Grande Luiz! Muito obrigado pela excelente matéria!
    Passando aos leitores o meu site onde pode ser encontrado o livro por quem tiver o interesse em ler: www.ronaldoestevam.com.br
    Abraço!
    Ronaldo Estevam

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    1. Opa, que legal que gostou, Ronaldo !

      Bacana o adendo sobre o site. Vou editar na matéria.

      Parabéns pelo livro !!

      Abraço !

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  2. Outro dia o Pena Schmidt escreveu sobre reputação. Acho que é o princípio de tudo no meio social: você ser respeitado e reconhecido como indivíduo, como pessoa, como artista. A falta disso implica no efêmero, ilusório "sucesso". A existência não pressupõe o dito cujo ou a fama, mas já é um bom caminho para a Paz de Espírito ... hehehe.

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    1. Sensacional a sua participação, Zé Brasil. O que vale é a dignidade e a consciência do artista. Fama pela fama é vazia, e esfarela como o pó, não temos dúvida.

      Reputação fica para sempre, como marca indelével. Muito bom !

      Grato por ler e comentar com essa riqueza de pensamento !

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