sábado, 29 de março de 2014

TV 2 Pop Show / Som Pop - Por Luiz Domingues

Em 1974, a Rede Globo lançou o programa "Sábado Som", causando furor, por trazer tapes de apresentações ao vivo dos melhores nomes do Rock internacional dos anos sessenta e setenta, no frescor de sua contemporaneidade.

Por ter uma audiência esmagadora em rede nacional, obscureceu um outro programa que tinha os mesmos moldes, contudo, por ser uma produção bem mais modesta, da TV Cultura de São Paulo, e que na verdade, já estava no ar, bem antes, e estrutura & hype à parte, tinha o mesmo valor, artística e culturalmente falando.

Refiro-me ao "TV 2 Pop Show", que era exibido pela TV Cultura de São Paulo, com retransmissão para diversas TV's Educativas da maioria dos estados brasileiros.


O começo dessa produção, foi bastante ocasional e reforça assim, o conceito de que se por um lado havia um caráter prosaico na TV brasileira (apesar de que este veículo já existisse há mais de 20 anos no início dos anos setenta), por outro, há de se destacar a criatividade e a obstinação de profissionais muito dedicados, que proporcionaram a sua existência.

Foi o caso de um funcionário da TV Cultura, que fortuitamente interessou-se em usar trechos de apresentações ao vivo de artistas internacionais, com a edição de animações muito simples, mas eficazes para a época, visando ocupar uma lacuna na programação.


O funcionário, chamava-se Luiz Fernando Maglioca, que ingressara naquela estação estatal, em 1969, como estagiário e recém formado da ECA (escola de Comunicações e artes, da Universidade de São Paulo, USP).

A TV Cultura tinha em seus primórdios, uma imagem sisuda na área da música, passando a imagem de só difundir a música erudita.


Uma única aproximação com o público mais jovem, havia se dado em 1969, com o programa "Jovem Urgente", que levou artistas do Rock Brasileiro de então, como Mutantes e Novos Baianos, por exemplo, e que era conduzido pelo psiquiatra Paulo Gaudêncio, num formato parecido com o que Serginho Groismann vem fazendo há anos, só que sem a mesma estrutura, e muito mais contido, certamente.

Nele, o psiquiatra propunha discussões sobre temas ousados para a época, tais como gravidez na adolescência, virgindade, homossexualismo, música e rebeldia etc. Claro, durou muito pouco, pois irritou profundamente os militares da ditadura, e ainda mais numa TV estatal com o governador- fantoche de ocasião, a serviço deles...

Só no avançar dos anos setenta, surgiu essa nova oportunidade, mas como já salientei, de forma ocasional.

Portanto, esse tapa-buraco na programação, sem nome definido ainda, causou espanto, mas simultaneamente, gerou uma reação inesperada para a diretoria da emissora, pois uma semana depois, naquele horário em que passara as inesperadas performances musicais de artistas como Joe Cocker; Rita Coolidge, e Carole King, entre outros, telefonemas bombardearam a TV Cultura, com telespectadores querendo saber por que o "programa" não fora ao ar, novamente.

Então, ficou claro que um interessante caminho novo estava se abrindo, fazendo com que nascesse então, a ideia de aquela iniciativa tornaria-se de fato, um programa oficial na grade daquela emissora.

Essa primeira exibição fortuita foi ao ar no sábado, dia 14 de abril de 1972, portanto, dois anos antes da Globo lançar o seu "Sábado Som".

Recebendo o nome de "TV 2 Pop Show", mostrava basicamente músicas extraídas de documentários, recortadas, e alguns "promos" (a encarnação anterior dos vídeo clips).


Com o tempo, o programa foi ganhando mais sofisticação. Sem um apresentador formal, usava locução em off e quadros, falando sobre álbuns recém lançados, com a exibição de suas respectivas capas.

O "Sábado Som" atropelou-o, literalmente, mas sem abalar-se, o "TV 2 Pop Show" prosseguiu e foi melhorando sempre.

Já na metade dos anos setenta, tinha uma audiência significativa, que lhe deu a resistência que o "Sábado Som" da Globo não teve; sobreviveu ao "Rock Concert", que a própria Globo lançou em 1977, e aos similares da TV Bandeirantes, como "Balanço" e "In Concert".

Ainda nos anos setenta, passou a exibir quadros ditos "especiais", onde apresentava blocos dedicados à uma banda em específico, intercalando com informações biográficas dos artistas enfocados, curiosidades e discografia.

Numa mudança de nome, buscando repaginação, passou a ser conhecido como "Som Pop", e com esse nome, atravessou os anos oitenta, sendo uma das principais, senão a maior referência de Rock e música Pop em geral, na TV brasileira.


Especiais produzidos pelo próprio programa, eram a novidade no início da década de oitenta. Lembro-me bem de ver bandas setentistas como o Made in Brazil e a Patrulha do Espaço, tocando ao vivo no teatro Franco Zampari, de propriedade da TV Cultura, em especiais que ocuparam o espaço integral daquela atração, o que como músico, particularmente achava uma oportunidade incrível para o fomento do Rock nacional.

Na metade dos anos oitenta, um novo apresentador ocupou a ancoragem do programa. Com Paulinho "Heavy" Toledo (vocalista da banda Inox, na ocasião), no comando, a programação pendeu mais para o som pesado, mudando um pouco o direcionamento imediatamente anterior, quando o Pop oitentista dominava as atenções.


Uma nova troca de apresentadores e Kid Vinil puxou de novo a corda para o Pop, e com o verniz do Pós-Punk e derivados, na sua na orientação estética.

Com a chegada dos anos noventa, o velho Som Pop mostrava-se cansado e não suportou a concorrência da MTV, uma estação inteiramente dedicada à música e dessa forma, foi perdendo o seu gás, até sair de cena.

Particularmente, acho que o TV 2 Pop Show / Som Pop, foi muito importante, em vários aspectos.


Numa época onde a informação era cerceada por motivações políticas, e os meios eram escassos pelas dificuldades tecnológicas da época, é claro que um programa dessa natureza era um oásis.

Outro aspecto importante, dá margem à curiosa constatação de que existiu sobre o paradoxo, pois ao mesmo tempo que era produzido por uma rede estatal, podemos analisar que o fato de não haver a mesma pressão por audiência e inerente captura de recursos publicitários que existem nas Redes de TV comerciais, também estava sob o fogo cruzado dos interesses políticos, visto que principalmente nos anos setenta, um programa deliberadamente "jovem", incomodava os setores retrógrados da ditadura.

Nesse caso, mais um ponto para ele, que teve uma longevidade impressionante (16 anos no ar !), e marcou história na TV e no mundo musical.

Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2014

terça-feira, 25 de março de 2014

Plínio Marcos, o Teatro Nu e Cru de um Funileiro... - Por Luiz Domingues

Nascido em Santos, no ano de 1935, Plínio Marcos era um menino simples, filho de uma família humilde de trabalhadores.

Canhoto, foi obrigado a desenvolver a habilidade da escrita como destro, numa típica arbitrariedade do sistema educacional antigo, e sua pedagogia de total insensibilidade.

Acuado com isso, apresentava profundo desinteresse pela vida escolar e postergou ao máximo a conclusão do curso primário de então, o que equivale hoje em dia a menos da metade do ensino fundamental.


Preocupado, seu pai esforçou-se para encaminhar o adolescente Plínio na vida, à uma profissão cabível mesmo com esse baixo nível educacional e dessa forma, muitos empregos sucederam-se na vida dele.

De vendedor de livros espíritas a aprendiz de encanador, Plínio encarou várias tarefas díspares entre si, mas pareceu ter se adaptado mesmo na profissão de funileiro.


Cabe explicar que essa expressão tem nomes diferentes em certas regiões do Brasil, e aqui em São Paulo, falamos "funileiro", designando o profissional que faz reparos na lataria de veículos, portanto trabalhando numa "funilaria". No Rio de Janeiro, por exemplo, a mesma função recebe o nome de "lanterneiro", que trabalha na "lanternagem".

O jovem Plínio realmente se empolgou com a profissão que lhe dava prazer, mas concomitantemente, duas outras atividades lúdicas lhe despertavam a atenção.

A primeira, o futebol. Jogando na várzea de Santos, foi incentivado por colegas a fazer testes na base da Portuguesa Santista e Jabaquara, dois clubes tradicionais na cidade de Santos, mas muito aquém da fama do Santos FC, o clube mais popular do município e dessa forma, julgou ter mais chances de passar nas peneiras, em clubes de menor porte.


E de fato, Plínio foi aprovado e jogou nas categorias de base da Portuguesa Santista, e diziam que era um bom jogador, com condições de se tornar profissional, mas a outra atividade que mencionei acima, parecia estar lhe trazendo outras oportunidades.

Ocorre que Plínio se interessara pelo Circo. Em princípio por motivos não artísticos, pois pleiteava namorar uma menina cuja família era de artistas circences.


Uma vez inserido nesse seio familiar, ofereceu-se para atuar como palhaço e demonstrou traquejo nas apresentações.

Dali em diante, criou o personagem "Frajola" e atuou em vários outros circos de Santos, viajando a seguir, para todo o estado de São Paulo.

Ainda nos anos cinquenta, tal palhaço foi parar na TV 5, emissora de Santos, fazendo grande sucesso entre o público infantil e teve e a sorte de cruzar no caminho de Patrícia Galvão, a Pagú, tremenda figura mítica da cultura paulista, que se encantou com o talento do rapazinho e o convidou para atuar na peça "Pluft, o Fantasminha", em 1958.

Dali em diante, o mosquito do teatro o mordera, e apaixonando-se, passou a ler os grandes textos clássicos do gênero, enriquecendo sua cultura de forma contundente, com Pagú o incentivando como madrinha.

Atuando em várias montagens teatrais, refinou sua veia como ator, e arguto, toda a sua pesquisa bibliográfica começava a render frutos, aventurando-se a escrever, preparando assim o despertar do dramaturgo que viria a se tornar.

Bem no final dos anos cinquenta, Plínio ficou escandalizado com um caso policial que repercutira fortemente na imprensa santista. Era o caso de um menino que fora preso por uma acusação injusta e encarcerado em meio à bandidos perigosos, fora abusado sexualmente de forma violenta e quando finalmente foi libertado, arquitetou um plano de vingança para assassinar o seus estupradores.


Nascia então, "Barrela", um texto fortíssimo e que chocou profundamente pela extrema rudeza do tema, assim como o linguajar recheado de palavrões e gírias dos malandros das ruas, sendo perseguida pela polícia, que buscou os trâmites jurídicos para proibí-la.

Não fosse a intervenção da própria Pagú, procurando a interferência de Paschoal Carlos Magno, iminência parda do governo JK e homem muito ligado à cultura e ao teatro em particular, a peça teria sido banida sumariamente.

Liberada oficialmente, continuou chocando a opinião pública e de certa forma, choca até hoje, apesar de tantas décadas depois.


A repercussão foi enorme e subiu à cabeça do jovem Plínio. Com críticas saindo em jornais o comparando a Nelson Rodrigues e até alguns mais afoitos arriscando chamá-lo de "gênio", sentiu-se impelido a escrever rapidamente um segundo espetáculo, mas sem nenhuma ideia forte na manga, escreveu uma peça insípida, chamada "Os Fantoches (Chapéu sobre Paralelepípedo para alguém chutar)". Anos depois ele a reescreveria sob o título : "Jornada de um imbecil até o entendimento"

No dia seguinte à estreia dessa nova peça, uma crítica arrasadora foi publicada no jornal "A Tribuna de Santos", assinada pela própria Pagú, que antes o incentivava, e a manchete era : "Esse analfabeto esperava outro milagre de Circo..."

Não se intimidando com o revés, mudou-se para São Paulo em 1960 e continuou escrevendo e se envolvendo no metier teatral, agora buscando voos maiores, na capital.


Mas num primeiro instante, sem meios de sustentar-se com o teatro, encarou sem frescuras o trabalho de camelô nas ruas, vendendo bugigangas diversas.

Finalmente enturmou-se com o meio teatral e emendou trabalhos como ator, sendo dirigido por gente do quilate de Ziembinski e contracenado com uma Diva absoluta como Cacilda Becker, que aliás, tornou-se muito sua amiga, doravante.

E por ser absolutamente simples, Plínio cativava os colegas pela sua total ausência de estrelismo. Era pau para toda a obra e mesmo sendo um ator que evoluía a cada dia e reconhecido como um autor de potencial enorme, não se fazia de rogado e se precisasse de alguém para trabalhar na bilheteria, ou como contra regra, o Plínio estava sempre pronto para ajudar.


Crescendo no meio, surgiu a oportunidade e aceitou o convite para atuar na produção da "TV de Vanguarda" da TV Tupi.

Tudo sugeria uma progressão na carreira, mas Plínio se viu em apuros novamente, quando a peça que reescrevera, sob o novo título de "Jornada de um imbecil até o entendimento", fora vetada pela censura da ditadura.

Nesses termos, coincidindo com sua saída da TV Tupi, ficou sem meios de ganhar dinheiro e sem nenhuma cerimônia, voltou às ruas para trabalhar como camelô. Até álbum de figurinhas vendia na sua barraquinha improvisada.

Aliás, sua saída da TV Tupi era bem suspeita. Rumores davam conta de que haviam lhe puxado o tapete, por ser considerado um simpatizante da esquerda e dessa forma, os "reaças" de plantão da emissora do indiozinho, trataram de marginalizar o suposto "vermelhinho desbocado"...


Alheio às perseguições e a luta pela sobrevivência nas ruas, continuou escrevendo e dirigindo a sua metralhadora ácida, retratando a sociedade em suas mazelas.

"Dois Perdidos numa noite suja", "Navalha na carne", "Quando as máquinas param", "Homens de papel"...e sua fama cresceu avassaladoramente.

E como a censura liberou-as ?


Provavelmente os senhores censores não "pescaram" nenhum conteúdo "subversivo" em tais textos e mesmo a ala retrógada que pegava no pé na questão dos "maus costumes" parece não ter se incomodado com os palavrões inerentes.

Cacilda Becker declarou publicamente que Plínio era um homem que só usava palavrões em seu vocabulário cotidiano, mas mesmo assim, conseguia ser genial em seu uso nos textos; Roberto Freire o chamou de "gênio"; Walmor Chagas só o elogiava com muita eloquência e bingo, a fama estava consolidada.


Em 1968, Plínio voltou à TV Tupi e como ator, participou de um momento revolucionário na TV. Atuando em "Beto Rockfeller", uma novela que ousou, inovou e quebrou paradigmas, Plínio fazia um personagem secundário, mas que ficou muito querido do público.

Era "Vitório", o melhor amigo do personagem fanfarrão, Beto (Luis Gustavo) e conhecedor portanto das falcatruas que ele perpetrava para inserir-se na alta sociedade e tentar aplicar golpes nos milionários.


Prosaico ao extremo, era um humilde mecânico numa pequena oficina de bairro e vivia o dia inteiro sujo de graxa e falando com um exagerado sotaque paulistano, ultra italianado da Mooca, tradicional bairro dominado por italianos na capital paulista.

Claro que caiu nas graças do povo e como interpretação, não deve ter exigido nenhum esforço maior de laboratório para a criação do personagem, pois era quase uma representação de si mesmo, com macacão de trabalho, sujo de graxa e com aquela verborragia mega popular. Talvez tenha sofrido só um pouco para coibir os palavrões, mas se Dercy Gonçalves conseguia nas novelas e filmes, Plínio também podia...


A novela foi um estouro por apresentar muitas novidades, tais como : uma trilha sonora criada a dedo e com exclusividade, diálogos mais modernos, ala jovem, enquadramentos, cenários, figurinos e sobretudo, por quebrar o ranço que as novelas tinham até então, imitando o formato do folhetim das novelas mexicanas e cubanas.

Um filme com os personagens de Beto Rockfeller e Vitório foi realizado em 1970. Tinha o mesmo mote da novela, mas sem repetir outros personagens. Confesso que gosto bastante dele, embora reconheça que tenha ficado aquém da força que a novela teve. Em 1973, uma nova novela tentou repetir o sucesso, com o nome de "A Volta de Beto Rockfeller" Beto e Vitório estavam lá, mas a novela fracassou, não tendo nem 10% do élan que a original de 1968 teve.

Nessa altura, tinha também um envolvimento com a música, pois escrevera espetáculos musicais enfocando o samba e o carnaval. Anos depois, em 1974, um curioso LP foi lançado sob o título de "Plínio Marcos em Prosa e Samba", com a presença de Geraldo Filme, famoso sambista paulistano

Mas 1968 chegou, com o famigerado AI-5 como presente de natal indigesto e a censura voltou a pegar no pé de Plínio.

Até cerco militar na porta de teatros foi montado para impedir a encenação de suas peças e tudo ficou difícil, novamente.

Daí em diante, foram muitas viagens à Brasília para tentar convencer a "intelligentzia" a liberar os espetáculos.


Plínio certa vez citou um desses diálogos com tais burraldos que serviam a ditadura :
- "Por que minhas peças estão censuradas" ? 
- "Porque suas peças são pornográficas e subversivas"
- "Mas por que são pornográficas e subversivas" ?
- "São pornográficas porque tem palavrão e subversivas por que você sabe que não pode escrever palavrão e escreve"...

Para Plínio, o palavrão era a linguagem das ruas. Era o que ouvia nas oficinas mecânicas, salões de barbearia, botecos, na cadeira do engraxate e entre os carregadores do mercado municipal...

Acuado diante da intransigência dos reacionários, bandeou-se para a literatura. Talvez se escrevesse livros, não fosse tão perseguido.


Além do traquejo como dramaturgo, Plínio era um jornalista prático, pois escrevia colunas em vários jornais, desde 1968 e escrever era mesmo o seu forte.

Então, como escritor, lançou trabalhos interessantes. Como romances ou livros de poesia, Plínio foi driblando a censura e o preconceito, mas acima de tudo, sobrevivendo.

Lançou livros como "Querô - Uma Reportagem Maldita"; "Histórias das Quebradas do Mundaréu"; "Inútil Canto e Inútil Canto pelos Anjos Caídos"; "Oração para um pé-de-chinelo"; "Prisioneiros de uma canção" etc etc.


Aliás, sem nenhum pudor, vendendo-os como camelô em porta de teatros e shows musicais. Eu mesmo o vi fazendo isso muitas vezes na porta do Centro Cultural São Paulo, e mesmo sem nunca abordá-lo diretamente, admirava a sua absoluta falta de estrelismo, mesmo sendo um grande artista. Outros em seu lugar se recusavam a trafegar em veículos que não fossem limusines, mas o Plínio estava ali na sua barraquinha firme e forte, munido de seu inseparável cetro, sua marca registrada enquanto persona performática.

Surpreendendo sempre, eis que surgiu o boato nos anos noventa : Plínio marcos agora dava consultas de Tarô.


Era verdade, mas o que ninguém sabia, era que o envolvimento dele com essa escola mística, vinha de longe. Plínio estudava os arcanos maiores e menores, desde o seu tempo de circo.

Tanto que chegou a escrever uma peça, "Madame Blavatsky", inspirado na grande musa da Teosofia, provando que seu conhecimento sobre o tema, não era de ocasião.

E nos anos noventa lançou o curso de tarô : "O uso mágico da palavra". Por conta disso, deu inúmeras palestras, workshops e oficinas. Lembro-me de vê-lo inclusive na TV, em programas de variedades e talk-shows, falando a respeito.

Plínio Marcos nos deixou em 1999, vítima de um derrame cerebral.


Recomendo visita ao site oficial de Plínio Marcos, mantido pelos seus filhos, com um cuidado exemplar. É muito completo e dignifica a memória do artista criativo que ele foi. Baseei-me nele para a minha pesquisa :

http://www.pliniomarcos.com/index2.htm

Foi incompreendido por muitos, mas a verdade é uma só : foi um tremendo artista de uma multiplicidade total e a despeito de muitos o execrarem, chamando-o de analfabeto e desbocado, fez mais pela cultura do que esses detratores.

Nada mau para quem só concluiu o curso primário e a cada dez palavras que pronunciava, dez eram palavrões...


Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, em 2014.

sábado, 22 de março de 2014

Buzina, um Tormento a Mais... - Por Luiz Domingues

Muito se fala sobre o caos dos engarrafamentos gigantescos no trânsito e também sobre o impacto ambiental negativo que a brutal emissão de poluentes causa, inevitavelmente.

Fala-se muito também (e com toda a razão), sobre as questões que envolvem a condução dos veículos, principalmente a absurda quantidade de irresponsáveis que dirigem embriagados, fora os transgressores, que não respeitam as regras básicas do trânsito.

Hoje trago como tema, um outro transtorno pouco citado, mas tão nocivo quanto os demais, que arrolei acima : os excessos cometidos pelo uso equivocado da buzina...


Parece uma piada, se formos considerar como fato isolado, mas a realidade é outra, se levarmos em conta os milhões de neuróticos transitando por aí e fazendo o pior uso possível do instrumento.

Numa rápida constatação, é triste verificar que as pessoas em geral tem a ideia errônea de que a buzina tem a mesma função de uma campainha ou telefone. Para tais pessoas que usam a buzina com essa função, fica a advertência de que estão equivocadas, pois é evidente que a buzina não foi instalada nos automóveis, com essa finalidade.

Pior, é achar que ela tem o poder de intimidação, como se fosse uma palavra de ordem e imposição de uma pessoa sobre a outra, denotando a prepotência de quem se acha poderoso dentro de sua "arma" ambulante.

Existe também o uso pela euforia. Usam a buzina como se fosse a melhor maneira de extravasar momentos de alegrias pessoais. Geralmente associa-se o uso indiscriminado da buzina, para comemorar conquistas esportivas, notadamente de clubes de futebol, e inevitavelmente nos vem o clichê à cabeça : imagine na Copa...


Carreatas de cunho político, religioso e de motivações menos cotadas, também colaboram bastante nessa poluição sonora.

A buzina como instrumento de galanteio, é outra modalidade bastante acessada. Chamar a atenção das mulheres, usando a buzina, é prática comum.

Como instrumento de impaciência, é então uma das maneiras mais comuns de pressionar outros motoristas. O semáforo ainda está na cor amarela e o cidadão colocado atrás, já aperta seu instrumento com saúde, exigindo a arrancada de quem ainda espera o sinal verde. 


No período noturno, avançando pela madrugada, a insegurança pública é a desculpa para não se respeitar os semáforos e aí, mesmo que haja perigo de colisão ou atropelamento, você é advertido com bastante veemência, pelos motoristas ao seu redor, para não parar, desrespeitando os sinais.

É o tal negócio : se para, enfrenta a fúria do motorista que acha que você o "atrapalha", mas também corre o risco da abordagem de bandidos. Contudo, muito provavelmente a multa chegará em sua casa pela infração, se houver câmera...


A questão da "Lei do Silêncio" é uma regra pouco respeitada. Buzinas usadas sem parcimônia, agressivamente, ou por autênticos idiotas ébrios, ecoam pelas madrugadas, pouco se importando com a perturbação do sono das pessoas e diga-se de passagem, muito pelo contrário, o objetivo é azucrinar, mesmo...

Hospitais; casas de repouso de idosos; clínicas; creches, & berçários; velório...nada disso importa aos energúmenos de plantão, se resolvem apertar a buzina em seus respectivos volantes.


No texto da Lei, é clara a atribuição da buzina. Basta ler o artigo 41 do Código Brasileiro de Trânsito.

Ela é um item de segurança, que serve para advertir outro motorista ou pedestres, sobre  a iminência de um acidente, ou para anunciar uma ultrapassagem, no caso de um ambiente pouco sinalizado, caso de pequenas estradas vicinais, por exemplo. Somente isso...


E mesmo assim, o uso é recomendado com certa "suavidade", dando toques rápidos e na menor quantidade possível, muito diferente das animalescas buzinadas com o punho apertando o volante com bastante ênfase, como geralmente observamos nas ruas.

Diante de tantas irregularidades, parece que o melhor caminho é o educacional, mas receio que o trabalho só surta efeito a médio-longo prazo, se começarmos a educar as crianças com noções de cidadania, respeito e civilidade, pois quanto aos buzinadores "grandinhos', parece que não tem mais jeito...



Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica em 2014

sexta-feira, 14 de março de 2014

Evitar a Escassez é o Desafio - Por Luiz Domingues

Já faz tempo, se comenta na mídia sobre a dramática diminuição dos recursos naturais hídricos.

Não obstante o fato da população mundial aumentar em progressão geométrica, na via inversa, os esforços das máquinas governamentais para equilibrar essa equação pênsil, não logram êxito, pela brutal demanda e muitas vezes por negligência e interesses escusos, mesmo.


Como se não bastassem esses fatores, devemos considerar também a questão do calor escaldante. Muito se fala sobre o aquecimento global via camada de ozônio e fenômenos como "El Niño", embora correntes da ciência discordem e acusem certos coleguinhas de exagerar nessa perspectiva, para favorecer certos governantes que lucrariam com tal ideia sendo disseminada.

Como leigo da ciência e cidadão comum, portanto longe da realidade dos bastidores da política, não descarto nenhuma hipótese, mas constato pessoalmente : a cada ano, a sensação de calor parece mais forte e o inverno não é mais rigoroso como em décadas passadas, pelo menos onde nasci, cresci e moro, São Paulo.


Diante de tal quadro, é público e notório que a matemática caminha para o quadro do colapso total e resta-nos apenas saber quando ocorrerá.

Campanhas publicitárias governamentais já nem fazem efeito mais.


As pessoas parecem não sensibilizarem-se com tal questão, por mais tétrica que seja a perspectiva mostrada em tal propaganda e pior, parecem achar que exageram ou que se trata de uma "mentira".

O fato, é que ao pagar a conta da água, o cidadão comum pensa que a tarifa é alta por questão simples de cupidez de lucros (claro que tem um elemento de verdade nisso, também), e ao pagar, sente-se no direito de gastar o quanto quiser, de forma indiscriminada, como se fosse um bem de consumo oriundo de fonte inesgotável.


E não é assim que funciona, infelizmente.

O desperdício é total, em todos os setores. É rara a empresa, indústria, comércio ou organização de serviços que tem plano de metas para a economia de água, bem estruturado.


O próprio governo, que sabe melhor do que ninguém da situação, muitas vezes dá mau exemplo, mesmo reconhecendo que é quase impossível controlar uma máquina mastodôntica com milhares de funcionários etc.

Mas "mea culpa, mea maxima culpa"...o cidadão comum pouco colabora com tal questão.


Pensando ser uma tarefa prosaica e inútil pela insignificância de seu ato isolado e oculto, o cidadão tende a considerar que o seu sacrifício pessoal pouco ajuda no cômputo geral e daí, não mensura que outras pessoas possam ter o mesmo raciocínio errado.

Nesse caso, se ao escovar os dentes, deixo a torneira aberta, gasto cerca de 25 litros de água, mas se milhares, quiçá milhões de pessoas, praticarem o mesmo ato impensado, quantos litros serão desperdiçados ?

Basta dar uma volta pelo bairro num dia pela manhã e vemos donas de casa e empregadas domésticas, "empurrando" a sujeira da calçada, com jatos d'água provenientes de uma mangueira. Certo, não sou eu que pagarei a conta ao final do mês, mas e o desperdício, não me afeta ao esvaziar as represas ?

Sei que esse hábito diminuiu muito nos últimos anos, mas ainda tem muita gente que faz da lavagem do automóvel da família aos sábados, como sua terapia ocupacional. Em média, são 600 litros d'água jogados na calçada, um verdadeiro absurdo.

Faz calor no Brasil tropical em pleno verão, eu sei. Tem regiões do país onde a sensação de sentir-se suado e pegajoso o dia inteiro, impele as pessoas a tomar mais de um banho por dia. Sabe qual é a média de uso de água, num banho de 15 minutos ? 180 litros no ralo...

Enfim, os governantes pisam na bola por muitos motivos, as corporações estão pouco se lixando para tudo e para todos, só pensando em arrancar dinheiro dos consumidores (sim, para eles, não somos pessoas, mas "consumidores"), mas deixo a pergunta : e você ?


O que faz no seu cotidiano para colaborar, mesmo que seu esforço pessoal não seja visível ?

Pois é, a água está acabando e se não mudarmos nossos hábitos pessoais rapidamente, passaremos por um sufoco assustador... e vai ser em breve.