domingo, 27 de abril de 2014

Versão Brasileira...Herbert Richers - Por Luiz Domingues

Qual brasileiro que assiste TV, não ouviu a frase : "Versão Brasileira, Herbert Richers" ?

Um dos maiores estúdios de dublagem do Brasil, é responsável por grande parte da produção nesse setor e recebeu o nome de seu fundador.

Herbert Richers nasceu na cidade de Araraquara, no interior de São Paulo, em 11 de março de 1923.


Era um menino normal do interior, até ser mordido pelo bichinho do cinema. Mas daí a se envolver eram "outros quinhentos", como se dizia no interior, porém, o pequeno Herbert tinha um trunfo familiar para poder sonhar com um possível envolvimento nesse mundo.

Ele era sobrinho do dono de um estúdio de revelação, que prestava serviços para produtoras de cinema, no Rio de Janeiro. Dessa forma, em 1942, chegou de mala & cuia na cidade maravilhosa, com um emprego garantido por seu tio.


Foi sua porta de entrada para o mundo do cinema e daí, mesmo sendo muito jovem, embrenhou-se nesse universo, conhecendo pessoas importantes do meio e galgando degraus nessa engrenagem.

Herbert tornou-se então um produtor requisitado, tendo trabalhado em diversas produções do cinema nacional, incluso campeões de bilheteria da produtora Atlântida, que costumava levar multidões às salas de cinema de todo o Brasil.

Não só os longa metragens, mas Richers foi produtor de inúmeros curta metragens, documentários e os famosos cine jornais, que numa Era pré-TV, representavam uma fonte de informação importante para as pessoas, antes de assistirem os filmes.

Foi no ano de 1950, que fundou sua própria empresa, a Herbert Richers e crescendo no mercado muito rapidamente, logo se consolidaria.


Ainda no início dos anos cinquenta, Richers foi aos Estados Unidos e conheceu Walt Disney. Tornaram-se amigos e graças à essa amizade pontual, Richers deu outro salto na carreira, ao ouvir o conselho de seu experiente amigo norte-americano, investindo assim fortemente no mercado de dublagens, especialmente para a TV.

O momento era propício, pois a TV estava a todo vapor no Brasil, mas carecia de melhores condições técnicas. Nesses termos, a reclamação generalizada dos telespectadores era precisa : quando da exibição de produção estrangeira na TV, as legendas não conseguiam ser claras o suficiente, devido aos problemas de contraste e brilho que a TV tinha na ocasião.


Portanto, era mais do que necessário que tal produção de dublagem fosse concretizada e dessa forma, Herbert Richers entrou com tudo nesse mercado, fazendo sua fama, pela competência e profissionalismo, e abrindo o caminho para o surgimento de concorrentes de qualidade também, caso da AIC, Álamo e outras.

Em 28 de junho de 1963, um incêndio de grande proporção comoveu o Brasil. O edifício Astória, na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, ardeu em chamas, ceifando vidas, causando dor e perdas.


A organização Herbert Richers se localizava nesse edifício e muito material e maquinário foi prejudicado, mas por sorte, muito do material do estúdio, alojava-se em outro endereço e foi poupado. Eram rolos de filmes de grandes clássicos do cinema nacional que poderiam ter desaparecido, como "Vidas Secas", por exemplo.

Herbert Richers só parou de trabalhar quando a doença o impediu. Idoso e com problemas renais, nos deixou em 2009.


A empresa continua a todo vapor e eu deixo em anexo o link do site oficial, onde podem ser vistas as instalações dos estúdios, onde se realizam os trabalhos de dublagem que ouvimos costumeiramente quando assistimos filmes, seriados, desenhos animados e documentários de procedência internacional, com as vozes brasileiras, dicção perfeita, impostação clara e com o uso coloquial de nossa língua, facilitando o entendimento das obras.

http://dezoito.com/herbertrichers/ind_2.html

Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, em 2014

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Kim Kehl & Os Kurandeiros - Dia 26/4/2014 - Sábado / 21:00 h. - Casa Amarela Pub - Osasco / SP



Kim Kehl & Os Kurandeiros

Dia 26 de abril de 2014

Sábado  -  21:00 h.

Casa Amarela Pub

Rua Dr. Mariano J. Marcondes Ferraz, 96

Centro

Osasco  -  SP

Kim Kehl & Os Kurandeiros :

Kim Kehl : Guitarra e Voz

Carlinhos Machado : Bateria e Voz

Luiz Domingues : Baixo 

domingo, 20 de abril de 2014

Ladri di Biciclette - Por Luiz Domingues

Uma das escolas de cinema mais sensacionais que surgiram no século XX, foi a do Neorrealismo Italiano.

Um estilo forjado na raça, com cineastas que ousaram filmar nas ruas da Itália (e na Alemanha, também), semidestruída pela guerra, e invariavelmente utilizando atores amadores, gente simples e sofrida do povo, para interpretar o papel deles mesmos, sob a desolação dos escombros e da miséria.


E dentro de um rol de filmes muito significativos desse estilo cinematográfico, gosto de vários, para não dizer todos os seus grandes expoentes, mas hoje escolhi como tema, um que me cala fundo : "Ladri di Biciclette", "Ladrões de Bicicletas", em português.

Ambientado na Roma do pós-guerra, mostra a rudeza de um país em frangalhos, pessoas desesperadas pela ausência de condições dignas de sobrevivência e de forma avassaladora, expõe a injustiça como agente cruel da desumanidade.


Antonio Ricci (interpretado por Lamberto Maggiorani), é um pai de família desempregado, como muitos naquele momento triste da Itália. Procura de forma ávida por qualquer serviço, enfrentando diariamente a rispidez de empregadores mau humorados que oferecem pouquíssimas colocações no mercado.

Nas portas das fábricas, comércio e rede de serviços, todo dia pela manhã, aglomeram-se centenas de homens nas mesmas condições que ele, ou seja, pais de família desesperados brigando pela mesma vaga, como aves de rapina disputando restos de animais mortos no deserto.

Um dia, surge enfim uma oportunidade. É um subemprego, com remuneração baixa, mas ele quer agarrar tal oportunidade a todo custo.Trata-se de uma vaga para ser colador de cartazes "lambe-lambe"nos muros da cidade.


Mas o empregador deixa claro : é imprescindível que o aspirante à vaga, possua uma bicicleta. Ele se lembra que sua bicicleta está na loja de penhores e não tem um centavo para resgatá-la. Todavia, sem bicicleta, sem emprego...

Sem outra alternativa, ele mente e diz ter a bicicleta em mãos, e o empregador o contrata. Terá que se apresentar às 6:30 h. da manhã do dia seguinte, portanto terá algumas horas para tentar angariar o dinheiro e buscar sua bicicleta penhorada.


Chega em casa e conta seu drama à esposa (Maria Ricci, interpretada por Lianella Carell). Resoluta, ela tira o lençol da cama, apanha outras peças do armário e as lava imediatamente. Corte : estão na loja de penhores oferecendo as roupas de cama da família, lavadas e passadas, mas o homem da loja parece irredutível em lhe oferecer um preço baixo, apenas repetindo monocordicamente : são usadas, senhora...

Quase implorando por uma oferta um pouco melhor, consegue dobrar o coração duro do comerciante e com esse acréscimo, conseguem o suficiente para resgatar a bicicleta e ainda sobra um pouco para garantir as refeições da família por alguns dias.

Antonio vai ao outro guichê da loja e com semblante de felicidade, resgata a sua bicicleta. Sua alegria em ver a bicicletinha simples e velhinha, é a do homem que enxerga nela, na verdade, a condução para uma vida melhor para sua família, esposa e dois filhos, sendo o mais novo, ainda um bebê.


Simultaneamente, vê outro funcionário levando a roupa de cama de sua família para o depósito. O funcionário escala uma montanha de trouxas de roupas similares, denotando que não foi só sua esposa que fez esse sacrifício em prol da sobrevivência da família...a Itália inteira estava ali naquela montanha de lençóis brancos, representando a penúria...

Antonio vai ao trabalho bem cedinho, feliz da vida. Deixa seu filho no emprego dele (sim, um menino de 7 anos de idade que trabalha como frentista de um posto de gasolina...), Bruno Ricci, interpretado por Enzo Staiola.

Na manhã seguinte, acompanhado de um funcionário veterano, começa a colar os primeiros cartazes do dia. Vê-se a propaganda do filme americano "Gilda", com a imagem da atriz Rita Hayworth sensualíssima, envolta no glamour que era um contraste para a situação social de Antonio naquele instante. "Gilda"...nunca houve uma mulher assim"...pois é...

Do alto da escada, Antonio passa cola no rosto de Gilda/Rita quando um homem monta em sua bicicleta e sai em disparada...


Aos prantos, Antonio sai correndo atrás : "ladrone, ladrone"...

Sua busca frenética é em vão, e o ladrão some de sua vista, deixando-o desolado, porque é claro que mais que a bicicleta em si, o emprego será perdido.

Vai prestar queixa na delegacia e o policial que o atende ouve sua queixa com absoluto desdém. Apenas limita-se a registrar a ocorrência e lhe diz com todas as letras que a polícia não vai fazer nada, pois trata-se de um roubo insignificante. O protocolo servirá apenas para identificar a bicicleta, caso a localizasse numa loja de penhores por aí...


Desolado, percebe que está sozinho nesse drama. O governo que não o ajuda em nada, mais uma vez cruza os braços para o cidadão humilde.

Sem outra alternativa, passa a procurá-la por toda a Roma. Seu filho é seu acompanhante fiel nessa busca.


Buscando informações de várias pessoas que conhecem bem a malandragem das ruas, vai à um lugar obscuro, onde camelôs vendem peças de bicicletas. O famoso "desmanche", geralmente alimentado por bicicletas roubadas e desmontadas para a venda aos pedaços, despistando a sua origem ilícita.

Um verdadeiro mercado de pulgas e punguistas, com golpistas por todos os lados e brigando por centímetros para expor seus produtos vergonhosos.

Vão à outro lugar obscuro e avistam centenas de bicicletas estacionadas ou em movimento. É pior que procurar uma agulha no palheiro e como agravante, começa a chover...é desalentador !


Subitamente, vê o ladrão com sua bicicleta em meio à multidão, mas este percebe que foi reconhecido e evade-se velozmente.

Numa nova perseguição inglória, sai correndo atrás, mas claro que o perde novamente. Uma pista contudo, surge, quando o vê distante, confabulando com um homem idoso e maltrapilho. Aborda então o mendigo velho e este nega conhecer o ladrão, dando evasivas e se fazendo de desentendido.

Nessa altura, cansado e sendo minado pelo desânimo, vê uma movimentação no entorno de uma igreja católica. São muitas pessoas moradoras de rua sendo assistidas por um serviço de voluntariado. Alguns cortam cabelo e barba, outros servem refeições para esses desabrigados.

Antonio tem uma expressão atônita diante do que vê, pois no seu inconsciente, sabe que está a poucos passos daquela situação e isso lhe atormenta.

O tal mendigo idoso estava lá e Antonio resolve fazer uma nova investida. Durante a missa, pressiona o velho que finalmente admite conhecer o ladrão e lhe dá o seu endereço. Antonio não confia e quer que o velho o acompanhe, mas ele usa de um ardil e consegue fugir da igreja.


A cantoria e as palavras de esperança ditas no sermão do padre, são contraditórias ao inferno que Antonio está vivenciando...

Com os nervos abalados, Antonio descarrega sua raiva no filho, mas se arrepende a seguir. O menino fica muito abalado e não entende porque foi esbofeteado. A resposta do pai para essa questão é sincera, quando justifica o ato dizendo-lhe que lhe batera pois este o deixara nervoso, mas como pode um menino daquela idade entender o destempero de um adulto desesperado ?


Andando separado do pai, num misto de indignação e medo, o menino desaparece da visão de Antonio. Alguns segundos depois, uma gritaria enorme é ouvida e parece que um menino caiu no rio. Antonio sai correndo, temendo pelo pior, mas respira aliviado ao ver que o menino resgatado da água, não é seu filho. Bruno estava sentado na escadaria, observando tudo de longe.

Atordoado, Antonio percebe que o que está ruim, pode ficar muito pior e aliviado, se junta ao filho. A busca precisa continuar...o dia está acabando, e ele vai perder o emprego...


Sem dinheiro no bolso, seu instinto paterno busca uma solução para alimentar o filho na medida do possível. Inventa uma brincadeira para driblar a adversidade, dizendo ao filho que vão comer pizza, acompanhada de vinho. Entra num restaurante onde sabe que pizza não faz parte do cardápio e a pede, esperando a negativa do garçom, para então pedir sanduíche de queijo e um garrafão igual aos de vinho, mas com água...

Sem dúvida que Roberto Benigni deve ter se inspirado nessa cena para compor seu "La Vita é Bella", muitos anos depois...

Antonio está exaurido e até numa vidente foi parar, desesperado, atrás de qualquer fio de esperança em que pudesse se agarrar.

Por um golpe de sorte, quando sai à rua novamente, vê o ladrão entrar num prostíbulo. Enlouquecido entra no recinto e arranca o meliante pelo colarinho, em meio aos protestos das prostitutas que sem entender, interpretam-no mal pela postura agressiva. As aparências enganam, definitivamente.


Levando o rapaz pelo braço, chega num beco onde as pessoas parecem conhecer o ladrão. É seu bairro e todo mundo ali é seu amigo. Mudando de postura, o ladrão ironiza, pois está seguro com seus truculentos amigos envolvendo os dois e ameaçando Antonio.

Mafiosos do "pedaço" aconselham Antonio a sumir dali, pois o rapaz é "inocente", e nada tem a ver com o roubo da bicicleta...

Bruno percebe o perigo e sai despercebido da multidão ameaçadora em busca de um policial para salvar o pai da situação, e quem sabe resgatar a bicicleta. O policial cumpre a sua obrigação e dá apoio, mas não há nenhuma prova de que o rapaz realmente seja um ladrão, a começar pela ausência do objeto do roubo em questão.


O policial tem boa vontade, mas dá um conselho para Antonio : melhor esquecer tudo e partir, pois não há provas e aquelas pessoas poderiam até inverter o jogo, acusando Antonio de perseguir o rapaz indevidamente, além da truculência na abordagem, fora a calúnia, difamação, perturbação da ordem etc...

Sob impropérios e ironia, Antonio e Bruno deixam o local. Como se não bastasse todo o sofrimento causado pelo roubo, ter que engolir a injustiça e ainda ser ironizado por isso, era um duro golpe adicional.


Antonio caminha calado pelas ruas e Bruno sente que o pai perdera a esperança. Bruno é quase atropelado, mas Antonio parece catatônico e nem percebe o perigo.

Exausto, o menino senta na guia da calçada, quando Antonio vê uma série de bicicletas estacionadas na esquina. Seu olhar parece agitar-se diante de tal visão e da catatonia desoladora, passa para uma indisfarçável agitação, com algo martelando na sua mente.

Uma bicicleta está desgarrada, encostada na parede, sem nenhum dispositivo de segurança que a prenda...


Uma multidão parece estar saindo de uma fábrica próxima. São trabalhadores voltando para a casa e o tumulto se estabelece. Antonio está ficando muito nervoso e tirando a carteira do bolso, dá um dinheiro para Bruno, e ordena que o menino embarque num bonde e volte para a casa.

Claro que o garoto fica desconcertado com a mudança de rumo que o pai estabelece, mas obediente vai ao ponto. Porém, o bonde já estava passando e ele perde a chance de subir.

O pai caminha nervoso de um lado para o outro e num bote, apanha a bicicleta e sai rodando freneticamente. Gritos irrompem na multidão : "Ladri, ladrone"...


Perseguido por uma multidão, não tem a índole de um bandido. Não conhece a premeditação de um malfeitor frio e "profissional". Era apenas um homem de bem e tal como o Jean Valjean de Victor Hugo, apenas roubara num ato de desespero e instinto de sobrevivência sua, e de sua prole.

Mas como explicar isso às pessoas que o viram roubando a bicicleta alheia ? Que diferença ele teria aos olhos da multidão, em relação ao rapaz que o roubara horas antes ?


Um princípio de linchamento se instaura assim que o interceptam. É a hora de refletirmos : o que é justiça e injustiça ?

Mais dramática a cena se torna quando vemos Bruno, seu filho, que por um golpe do destino, perdera o bonde. Por uma fração de segundos, ele não fora poupado dessa cena horrível de ver seu pai sendo linchado, por ser pego em flagrante delito !!

Muito diferente do verdadeiro bandido que fora protegido por seus amigos e ironizou a situação, agora Antonio não tinha ninguém para lhe proteger e diante do flagrante, despertara a ira dos homens de bem, que indignados, queriam justiça...

Irredutíveis, os homens o xingam, humilham e lhe agridem fisicamente. O cidadão comum desamparado pelas instituições, não suporta ter que lutar por sua vida e estar à mercê de bandidos sempre prontos a lhe roubar as migalhas suadas...


Bruno se desespera, corre em direção à essa cena horrível e chora. Agarra-se ao pai e grita, numa súplica dilacerante : "pappa...pappa"...

Seu desespero amolece o coração do dono da bicicleta, que resolve não prestar queixa, satisfeito com a sua recuperação. Antonio é libertado e tudo se relaxa, não sem antes ouvir um sermão triste, onde lhe acusam de ser um ladrão sem vergonha, vagabundo e que dá mal exemplo para o filho... 


Tal sermão parece amparado pela moral, mas que a que moral se refere ? Mesmo deixando claro que um erro não justifica o outro de forma alguma, só o espectador do filme sabe que moral, imoral ou amoral são conceitos mutáveis no convívio social.

O pior passou...não foi linchado, tampouco entregue à autoridade policial, mas Antonio agora recebera o golpe final na sua dignidade. Humilhado, apenas caminha com seu filho, sem esperança.

Um homem derrotado, chorando pelas ruas de Roma, com seu filho assustado, ambos em meio à multidão de homens tão sofridos quanto os dois...

Fine...


Isso mesmo, o filme não tem final feliz, porque o Neorrealismo Italiano era uma escola de cinema verdade, feito "de verdade".

O fato de não utilizar atores profissionais, mas sim gente comum do povo, sem preparo técnico algum, poderia ser um transtorno para um diretor da tarimba de Vittorio de Sica, mas o resultado prático foi tão sensacional que realmente não há como notar que os atores são amadores. A realidade é tão absurdamente pungente, que esse fato tornou-se um elemento a mais para fazer do filme, um sucesso absoluto.

Ele foi muito premiado, e considerado por muitos, um dos maiores filmes de todos os tempos, inclusive com o Oscar Honorário de melhor filme estrangeiro de 1948.

Lamberto Maggiorani teve uma atuação tão impressionante que logicamente foi persuadido a se tornar um ator profissional, visto que na verdade, era um operário de uma fábrica. Realizou mais doze filmes como ator, mas nenhum deles repetiu sua atuação impressionante de "Ladri di Biciclette".

Mesmo caso de Enzo Staiola, o menino, que deu prosseguimento à carreira de ator e alguns anos depois, já adolescente, chegou a participar do filme americano, "The Barefoot Contessa", com Humphrey Bogart, mas logo a seguir largou a carreira e tornou-se um professor de matemática.

Este filme é um retrato inacreditável sobre o estrago que uma guerra causa à um país. Pois se a guerra acaba no front para os militares, cessando o inferno das trincheiras, a população civil sofre muito pela penúria em que fica, no duro período da reconstrução e da volta à normalidade social. 

Recomendo assisti-lo sem reservas e dou um conselho : deixe uma caixa de lenços por perto, pois é de rasgar o coração. 

Principalmente a cena final, com o desespero do filho vendo o pai sendo flagrado como ladrão, numa ironia do destino.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Kim Kehl & Os Kurandeiros - Dia 18/4/2014 - Sexta-Feira - 23:00 h. - The Pub - Rua Augusta 576 / SP





Kim Kehl & Os Kurandeiros

Dia 18 de abril de 2014

Sexta-Feira  -  23:00 h.

The Pub

Rua Augusta, 576

Consolação - São Paulo - SP

Kim Kehl & Os Kurandeiros : 

Kim Kehl : Guitarra e Vocal
Carlinhos Machado : Bateria e Vocal
Luiz Domingues : Baixo

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Brian Jones, o homem que morre todo dia / Dusty Old Fingers - Por Luiz Domingues

Eu sabia há muito tempo que o jornalista Tony Monteiro era um ótimo guitarrista, pois o conheço desde os anos oitenta e acompanhei seus esforços para se aprimorar ao instrumento.

Profissional exemplar no jornalismo musical, era do staff das revistas Roll e Metal, naquela época, e seu texto sempre foi de primeira qualidade.

Reconhecia em seu estilo jornalístico, a similaridade com a crítica musical escrita em veículos da década de setenta, tais como a "Rolling Stone brasileira" e a "Rock, a História e a Glória", onde as grandes feras do jornalismo musical escreviam e fizeram história.

Conheço muitos jornalistas que tocam e considero isso normal, pois a paixão pela música quase que naturalmente os impele para tal. Vendo pelo lado prático, um crítico musical que toca algum instrumento só pode enriquecer a sua escrita, pois mergulha nos meandros da música e naturalmente passa a ter outra visão.

No caso do Tony, no entanto, isso foi além, pois recordo-me bem que já naquela década, era estudioso, e fazia aulas com um guitarrista muito preparado, técnica e teoricamente, levando a sério seus esforços para tocar bem, denotando que não estava esmerando-se só por hobby, ou para enriquecer seus conhecimentos musicais, visando abrir novos horizontes na sua visão sobre a música.

Muitos anos depois, soube que montara uma banda tributo aos Rolling Stones e regularmente via anúncios de suas apresentações pelas casas noturnas de Campinas e cidades vizinhas.

Foi com muito prazer que soube que havia montado uma banda autoral chamada "Dusty Old Fingers", e que lançara um CD, com uma ideia muito bem vinda : um tributo ao mítico guitarrista dos Rolling Stones, Brian Jones, na forma de uma Ópera Rock !

Em "The Man Who Died Everyday", o libreto que criaram conta a vida, obra e morte de Brian Jones, com a exaltação de muitos pontos chave de sua biografia, usando de poesia e referências musicais explícitas para exaltá-las.

O menino que sabia tocar muitos instrumentos, tinha cara de anjo, mas também era irascível; gênio & genioso, intenso e marcante numa década pontuada por tantos talentos, capaz de ofuscar Jagger & Richards...


Brian Jones segundo os biógrafos, foi o catalisador dos Rolling Stones. Foi dele a iniciativa de fundar a banda e dele a escolha dos demais membros.

Genial como compositor, multiinstrumentista e performático, chamava a atenção para si com um carisma incontestável.


Muitos biógrafos cravam a ideia de que sua genialidade incomodava Mick Jagger & Keith Richards. Charlie Watts e Bill Wyman pareciam não se importar, mas os "Glimmer Twins", supostamente, sim.

Jones mergulhara forte na experiência psicodélica das drogas e chegou num ponto onde ficou difícil permanecer na banda. Já em 1968, dava sinais públicos de que seu estado de saúde não era dos melhores, por conta dos abusos.

Contudo, é muito nebulosa a sua saída oficial da banda. Richards passou a namorar Anita Pallemberg, ex de Brian, e isso parece ter azedado de vez a relação entre ambos.

Já tomadas as providências para substituí-lo e com show marcado para a estreia de seu substituto, o guitarrista Mick Taylor, em julho de 1969, estoura a notícia de que Jones estava morto, tendo sido encontrado afogado na piscina de sua mansão.

Essa morte em princípio foi creditada ao seu estado catatônico. Não suicidara-se, mas simplesmente caíra na piscina sem consciência de seus atos, por conta do abuso no uso de drogas alucinógenas.

A polícia trabalhou também com a hipótese de assassinato, surgindo um suspeito : um funcionário da manutenção da residência que o empurrara na piscina por motivo torpe.


Mas nunca surgiu uma prova incisiva e esse rapaz saiu ileso dessa acusação.

Muitos anos depois no entanto, o rapaz já envelhecido e doente, no seu leito de morte chamou testemunhas e assinou, no seu último ato em vida, a confissão de que sim, assassinara Jones por vingança, num momento de muita raiva, cansado de ser humilhado pelo seu patrão que supostamente o tratava com desdém.


Mesmo com uma confissão formal, essa história ainda sucinta muita controvérsia e nas acaloradas rodas de conversas entre rockers, as opiniões se dividem, com muitos encerrando a questão sobre o tal caseiro ter sido o assassino e outros que suspeitam que ele fora um mero bode expiatório, pago pelo verdadeiro assassino ou pelo mandante do crime.
Verdade ou mentira, o fato é que quando Brian Jones foi encontrado boiando naquela piscina, o Rock começou a morrer junto. Dali em diante, mais três ícones sessentistas que tinham a letra "J" no seu nome, lhe fizeram companhia na tragédia : Jimi Hendrix e Janis Joplin (1970) e Jim Morrison (1971).

Na Ópera Rock composta pelo Dusty Od Fingers, tem momentos muito interessantes para refletir sobre a biografia de Brian Jones.

Logo na primeira faixa, "My Best Enemy", a harmonica nos leva ao Blues, onde tudo começou para Brian Jones. Sua paixão pelo ritmo norteamericano e como isso deu o starting para os Rolling Stones começarem sua carreira de sucesso retumbante. Ali se canta : "I discovered James and Johnson / I discovered I could live my way"...

"The World at my Feet", cujo título já diz tudo, mostra Brian genial, confiante no seu taco e pronto para se tornar um Rock Star, como de fato aconteceu.


Em "Blond Hair, Baby Face", numa bela balada de pegada R'n'B, o deslumbramento das fãs descabeladas que se esgoelavam nas primeiras fileiras dos shows. Ele era um gênio e chamava a atenção pela sua "Baby Face", sem dúvida alguma.

Uma de minhas prediletas é "Librae Solidi Denarii", que conta como a experiência psicodélica fez Jones mergulhar de cabeça nas drogas. A levada lembra-me bastante Frank Zappa e as referências psicodélicas são muitas. Muito boa música mesmo, e para um fanático pelos sixties como sou, assumidamente, é um devaneio. 


"Everything That I Want" fala sobre o talento de Brian. O cara que tirava som de qualquer instrumento, com uma percepção musical extraordinária.

"Lost Eyes" é outra faixa excelente. Lembrou-me bastante o Black Crowes, em sua parte A, com pura evocação retrô de muita qualidade. Na letra, Brian começa a perder o controle de sua vida e tudo vai dissipando-se, como um sonho...

"Dirty Hands" é um blues de respeito. Muito bom o riff inicial e melodia, contando a passagem onde uma batida policial feita na sua residência, resultou num processo sobre o porte de drogas.


"Going to Hell" é uma bela balada e na letra, fala sobre a revolta interna de Jones, vendo sua vida indo para o ralo, seus amigos o tratando de forma estranha e o pior estava por vir : perderia a namorada e a sua própria banda...

"A Shadow of Myself" é um desabafo de Jones, numa licença poética plausível, eu diria. O blues rústico e melancolicamente belo, embala tal lamento de um astro que perdera tudo, até a própria vida.


Fechando o álbum, "The Man Who Died Everyday" é pura poesia, falando sobre Brian Jones como o grande artista que nos faz muita falta e que deixou-nos muito precocemente. A canção é uma balada dramática com "cara de Rolling Stones", nada mais apropriado. 

Achei incrível o arranjo ao final, com o piano mantendo o tema principal, mas com uma leveza melódica e harmônica, evocando Debussy. O toque melancólico desse piano, encerrando a obra nos leva à reflexão sobre o vazio que Brian deixou para a história do Rock, ao se afogar naquela piscina, num dia de julho de 1969...

O Dusty Old Fingers é uma ótima banda, formada por Tony Monteiro (Guitarra, violão e voz); Rick Machado (Bateria e percussão); Fabiano Negri ( Vocal, guitarra e violão); Joni Leite (Baixo e Harmonica) e Marcelo Diniz (Teclados).


Alguns músicos convidados participaram da gravação do trabalho, como : Cesar Pinheiro (gravou a bateria em todas as faixas, denotando que o baterista oficial da banda, Rick Machado, ingressou depois); Paulo Gazzaneo (Piano) e Sheila Le Du (Vocal).

A concepção das letras, muito bem escritas e com grandes sacadas sobre todos os ponto importantes da vida e obra de Brian Jones são criações do Tony Monteiro. Nesse caso, a caneta forte do jornalista top que ele é, contribuiu com o Tony artista. As canções são do vocalista/guitarrista Fabiano Negri, que revela-se um bom compositor e eclético sobretudo, pois a variedade de influências impressiona.

O baixista Joni Leite fez um trabalho de lay-out extraordinário para o encarte. No caso da capa, a concepção foi de Ben Ami Scopinho. Apesar de ser uma ideia que denota tristeza pela perda de Jones, é muito poética e forte a imagem dos membros da banda à beira da fatídica piscina, em tom de consternação.

Na parte interna, a imagem da guitarra predileta que Brian usava nos Rolling Stones (uma Vox "Teardrop"), mergulhada na piscina, diz tudo e emociona. 


O mundo mudou muito, o tempo passou, eu sei. Tirante um nicho de jovens que curtem a Era clássica do Rock e que até surpreende-nos, a grande massa nem sabe quem foi Brian Jones.

Rolling Stones para a maioria, é uma banda de senhores idosos, liderados por Mick Jagger, que ficou famoso por ter tido um filho com uma ex-modelo brasileira e Keith Richards é um velhinho muito parecido com o Johnny Depp caracterizado de pirata do Caribe...

A única música que conhecem, é "Start me up", que consideram a mais "antiga", e "Miss You", que é dançante, e devem achar que se trata de um cover dos Bee Gees...

O que posso fazer diante de uma realidade assim, desoladora ?


Bem, é por essa e por outras que recomendo o trabalho do Dusty Old Fingers, por tratar-se de um documento muito bonito para registrar a vida e obra de um artista genial, como foi Brian Jones.

Gosto imensamente dos Rolling Stones e considero suas duas distintas fases nos anos sessenta e nos setenta, como as melhores enquanto explosão de criatividade e "desbunde", no restrito significado que tal gíria denotava naquelas duas décadas.


Na década de sessenta, com Brian na banda, não foram poucos os momentos de brilhantismo incríveis que os Stones nos legaram.

E Brian Jones era o gênio por trás disso, sem nenhum demérito aos demais componentes da banda.


Se quiser conhecer essa história a fundo, basta pesquisar na internet, nos livros e sobretudo ouvir os discos dessa fase da banda. E recomendo conhecer também o Dusty Old Fingers, com sua Ópera-Rock sobre Brian Jones, "The Man Who Died Everyday", que virou mais um documento importante para registrar a história.

Contato com a banda :

www.dustyoldfingers.com
www.facebook.com/DustOld Fingers