sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Repórter Esso,Testemunha Ocular da História - Por Luiz Domingues


Nos primórdios da história do Rádio, o tratamento com o qual o jornalismo era exercido, não tinha um formato específico e adequado à esse novo veículo.

Portanto, no início, o noticiário radiofônico era uma mera leitura de notícias publicadas nos jornais tradicionais, como uma espécie de mural enfadonho e muitas vezes não levando em conta que certas particularidades da notícia lida dessa forma, causava alguma confusão ao ouvinte.

Demorou um tempo para que os radialistas notassem que era preciso inventar um formato radiofônico específico para tal veículo.

Foi com esse propósito que em 1935, surgiu nos Estados Unidos, o “Reporter Esso”, um noticiário criado especialmente para o Rádio e patrocinado por uma companhia petrolífera (Standart Oil Company), daí esse nome personalizado.

O lado obscuro dessa iniciativa, era que tinha um objetivo claro em sua linha editorial, sua prerrogativa, mas obviamente questionável enquanto jornalismo livre e ético, pois acintosamente noticiava os fatos conforme o ponto de vista americano, realçando suas virtudes, omitindo os defeitos e enxergando o mundo pelo seus interesses, de forma parcial.

Dessa forma, não demorou e o grande foco do Repórter Esso foi a II Guerra Mundial, naturalmente.

Acompanhando o plano expansionista da política de boa vizinhança do governo Roosevelt, o Repórter Esso criou franquias (foram quinze ao longo do mundo, segundo consta na sua história), e chegou ao Brasil de Getúlio Vargas.

Em 28 de agosto de 1941, estreou na Rádio Nacional do Rio de Janeiro e desde o seu início, era subordinado ao DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), com a mão de ferro de Vargas a lhe conduzir o editorial.
No início, eram programas curtos de apenas cinco minutos de duração, e na maior parte do tempo ocupados com a reprodução do programa americano e as notícias dos militares americanos no conflito.  

E mesmo com Vargas voltando ao poder em pleito democrático, anos depois, a atuação do Repórter Esso continuou na sua predisposição de noticiar sob o prisma americano.

Com o passar do tempo, o noticiário estava tão sedimentado no imaginário do cidadão brasileiro, que seus slogans e jingle, faziam parte do cotidiano do país, talvez numa proporção maior do que veio a representar o Jornal Nacional da TV Globo, anos depois.

Havia até um ditado popular, que dizia que se uma notícia surgia, só era considerada verdadeira se fosse noticiada no Repórter Esso.

O programa migrou para outras estações de Rádio, e chegou à TV, onde também fez grande sucesso.

Jornalistas como Heron Domingues, Luis Jatobá, Roberto Figueiredo e Gontijo Teodoro, passaram por ele e certamente que influenciaram outros programas que surgiram depois, incluso o Jornal Nacional da TV Globo, onde aliás, o próprio Heron Domingues fez parte no seu começo.

As trombetas estridentes que anunciavam a entrada do noticiário no ar, tinham um ar solene, parecendo que sempre a notícia a ser dada era bombástica, embora raramente isso ocorresse, dentro da rotina do jornalismo.

A contribuição que o Repórter Esso deu para o radialismo foi imensa, contribuição que estendeu-se ao jornalismo televisivo, posteriormente.

Segundo consta na história do radialismo, graças ao Repórter Esso, criou-se enfim o formato adequado para o veículo, com notícias curtas, de forma muito objetiva e expressas com frases ágeis, usando não só o poder da síntese, como a preocupação na escolha de palavras fortes para dar a ênfase necessária.

A última edição radiofônica ocorreu na noite de 31 de dezembro de 1968. O radialista Guilherme de Sousa falou sobre alguns decretos de ordem econômica assinados pelo presidente Costa e Silva, desdobramentos do AI-5, então recentemente promulgado e notas sobre o Reveillon.

À medida que falava, foi embargando a voz e nitidamente emocionado, não conseguiu encerrar a sua locução, chorando copiosamente e assim fazendo com que o locutor reserva entrasse às pressas na sala da técnica, e assumindo o microfone, encerrou a transmissão desejando um “feliz 1969 à todos”.

Na Televisão, o noticiário sobreviveu mais um pouco, mas também teve uma última edição no Reveillon, desta feita, na noite de 31 de dezembro de 1970, nas TV’s Record e Tupi.

Fim de uma Era no radialismo e calava-se para sempre a “Testemunha Ocular da História”.


Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2014

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Pedra - 29/8/2014 - Sexta-Feira / 21 Horas - Gambalaia - Santo André / SP

Pedra

Dia 29 de agosto de 2014

Sexta-Feira - 21 Horas

Gambalaia Espaço de Artes & Convivência

Rua das Monções, 1018 - Bairro Jardim

Santo André - SP

Músicas dos dois CD's + músicas novas que farão parte do terceiro álbum em fase de gravação

Pedra :

Xando Zupo : Guitarra e Voz
Rodrigo Hid : Guitarra, Teclados e Voz
Ivan Scartezini : Bateria e Voz
Luiz Domingues : Baixo e Voz

domingo, 24 de agosto de 2014

Humauhuaca na Sessão Maldita - Por Luiz Domingues


Na São Paulo dos anos setenta, apesar das naturais limitações tipicamente tupiniquins, e pelo azar de ter uma ditadura ferrenha pairando no ar, o astral do movimento hippie ainda fervilhava.

E apesar de todas as dificuldades inerentes que uma ditadura apresentava no cotidiano, a cena cultural e artística era intensa.

Nesses termos, haviam mu
itos espaços para shows, incluso locais nobres, onde normalmente parecia inviável a realização de shows de Rock.



Um bom exemplo dessa dinâmica, foi o histórico show dos Mutantes e do Terço, unindo-se para executar um tributo aos Beatles, no ano de 1977, em pleno Teatro Municipal.

Outro caso muito interessante se deu com o Humauhuaca, banda que não tinha nem a metade da fama dos Mutantes e do Terço, mas que conseguiu lotar o Teatro Municipal, numa sessão maldita de tirar o fôlego.

Foi em 10 de dezembro de 1977, e eu eu estava lá com meus amigos, para conferir um concerto de Rock, que prometia.

Eram centenas de freaks, Hippies & Rockers espalhados por todos os setores do magnífico templo de cultura da pauliceia.

O contraste do luxo rococó da decoração do teatro, com as vestimentas dos freaks, produzia um efeito cinematográfico peculiar. Sentia-me no set de "Fearless with Vampires" do Romam Polanski, em meio à vampiros surrados, o que era bem engraçado.
O cheiro do patchouli, perfume comum para nove a cada dez hippies, aromatizou completamente o teatro e confesso, tal fragrância desperta-me um sentimento de saudade imenso.

A expectativa era total. 

Dava para sentir no ar, que o respeito pelo trabalho do Humauhuaca era absoluto, quase de reverência e sintomaticamente, penso hoje em dia como o nível de percepção do público era muito mais elevado naquela época, pois o som que a banda fazia, não era nada popular.

Pelo contrário, era um som híbrido, com bastante influência de Jazz Rock; Fusion; elementos do Folk latinoamericano; Jazz Brazuca; Prog Rock, e algo de MPB.

Não era propriamente uma banda de Rock, mas era aceita e querida pelos Rockers, pois acima de tudo, não haviam radicalismos acentuados nessa época e dessa forma, o comportamento padrão do "freak" era o de curtir música de qualidade, ainda que não houvesse o rótulo "Rock" carimbado na testa do artista.

Outro fator que tenho muita saudade : Sessão maldita com banda autoral e instrumental, lotando completamente o teatro municipal ? Você consegue imaginar algo parecido hoje em dia ? 

Luzes apagando-se...a banda entra no palco e faz um concerto magnífico...

O virtuosismo a favor da música e não o contrário, um conceito que também parece ter se perdido no tempo, infelizmente.
Olhos e ouvidos atentos na música cerebral de uma banda afiada como o Humauhuaca, fazia o coração pulsar forte na emoção que provocavam.

Que prazer ouvir o baixo extraordinário de um músico que já era lenda naquela época. Olhos grudados no hermano porteño que destruía o seu baixo Fender e era história viva. Um filminho passando na minha cabeça : 1967 e vendo aquele bando de hippies argentinos e cabeludos na TV, acompanhando o baiano doido (Caetano Veloso), que falava coisas engraçadas; 1973 e o mesmo baixista freak na retaguarda dos Secos e Molhados...

E ainda havia um baterista superb, daqueles que fazia a carcaça da bateria trepidar inteira com tanto groove, coisa que o Pedrinho "Batera" do Som Nosso de Cada Dia também era mestre em fazer.

Um baita guitarrista rocker, um pianista mestre de harmonias "tortas" e um tremendo flautista...que noitada !!

Amigos, eu estava lá e vi tudo isso. 

Saudosista, eu ? 

Pode ser, mas vou lhes dizer : adoraria que tivéssemos uma nova onda de astral tão boa quanto aquela, onde houvessem shows de bandas conhecidas ou não, toda a noite e inclusive à meia-noite, no Teatro Municipal, e com direito à um público absolutamente comprometido com a vontade de consumir música, avidamente.

Era assim que funcionava nos anos setenta, e eu desejo que volte a ser um dia. Se isso é ser saudosista, então está bem, sou mesmo...

Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2014.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Kim Kehl & Os Kurandeiros - 24/8/2014 - Domingo / 20 H. - Diminuta Bar - Ipiranga - São Paulo / SP

Kim Kehl & Os Kurandeiros

Dia 24 de agosto de 2014

Domingo  -  20:00 Horas

Diminuta Bar

Rua Almirante Lobo, 622

Ipiranga

São Paulo  -  SP

Convidado Especial : Edu Dias - Gaita e Voz

KK & K :

Kim Kehl - Guitarra e Voz
Carlinhos Machado - Bateria e Voz
Luiz Domingues - Baixo

sábado, 16 de agosto de 2014

Victor Brecheret - Por Luiz Domingues



Se pensarmos no grafite, como expressão moderna de paisagismo urbano em São Paulo, logo nos vem à mente, artistas como Eduardo Kobra e Os Gêmeos, como expoentes de obras significativas que estão espalhadas em vários pontos da cidade.

Se pensarmos em termos de monumentos clássicos da urbanidade paulistana, é inevitável não citarmos Victor Brecheret como um dos maiores, senão o maior escultor do século XX, cuja obra é parte viva da capital paulista.

Victor Brecheret nasceu na Itália, em  22 de fevereiro de 1895, na pequena localidade de Farnese. Seu nome de batismo era Vittorio Breheret, mas assim que chegou ao Brasil, seu nome “aportuguesou-se” para Victor Brecheret.

Já tinha trinta anos de idade quando recorreu à um cartório de São Paulo para oficializar tal nome e dessa forma ganhou cidadania brasileira, como se aqui tivesse nascido de fato.

Ainda adolescente, ingressou no Liceu de Artes e Ofícios e começou a trabalhar  com gesso e mármore, aprendendo técnicas de entalhe com tais materiais.

Crescendo como artista, voltou à Itália e estudou com o mestre Arturo Dazzio.  Com Dazzio, fez profundos estudos da anatomia humana e dos animais, além de aperfeiçoar-se nos fundamentos mais básicos da arte, aprendendo a manipular os materiais como barro e argila, buscando-lhe a densidade perfeita, tal como o grande chef culinário a buscar o ponto perfeito do cozimento dos alimentos, outorgando-lhe o sabor de máxima intensidade.

Influenciado pelo pós-impressionismo, quando voltou ao Brasil, estabeleceu amizades com intelectuais  como Mário de Andrade, Osvald de Andrade e artistas como Di Cavalcanti e Menotti Del Picchia.

Venceu um concurso público em 1920, visando a construção de um grande monumento a ser construído na zona sul de São Paulo, apresentando em maquete, o que viria a ser o famoso Monumento ás Bandeiras.
                                                                                                           Participou ativamente da Semana de Arte de 1922, com várias esculturas expostas no saguão do Teatro Municipal de São Paulo.

Depois desse evento marcante, Brecheret alavancou carreira sólida como escultor, mantendo ações em São Paulo e na Europa, simultaneamente.

Só a partir de 1923, foi que começou a trabalhar efetivamente na construção do imponente Monumento às Bandeiras, que consumiu-lhe  vinte anos de trabalho, só sendo concluído em 1953, um ano antes da inauguração oficial do Parque do Ibirapuera, que o margeia desde então.

Vivendo entre São Paulo, Roma e Paris, ganhou prêmios e participou de importantes mostras internacionais e deixou obras públicas na França, caso da escultura “O Grupo”, que orna um logradouro público de La Roche-Sur-Yon, na região da Bretanha.

Nas décadas de quarenta e cinqüenta, viveu intensamente a fase mais brasileira de sua arte, bastante impressionado em retratar motivos indígenas. Através da terracota, causou estranheza aos críticos da época.

Participou da primeira Bienal de São Paulo, em 1951, quando ganhou o prêmio de melhor escultor da exposição, justamente com uma obra de motivação indígena, “ O Indio e a Suassuapara”, escultura que hoje está em Antuérpia, na Bélgica.

Brecheret recebeu a incumbência de esculpir outro monumento  gigantesco na cidade de São Paulo, em homenagem ao patrono do exército brasileiro, Duque de Caxias, inaugurado em 1960.

Tal obra, de grande proporção, também lhe consumiu tempo e existe um vídeo no You Tube a retratar o artista em ação, trabalhando na obra. Pena que é bem curto, mas histórico, sem dúvida.

Outras obras incríveis são encontradas em outros pontos da cidade. Na Galeria Prestes Maia, por exemplo, podemos admirar ”Graça”, uma estupenda personalização do corpo feminino.

Pelos cemitérios mais tradicionais de São Paulo, mausoléus com esculturas incríveis de sua autoria, motivam visitações constantes de artistas, historiadores e estudantes de arte.

Espalhadas por Museus e acervos particulares de colecionadores, muitas esculturas de porte médio e pequeno, são de uma beleza incrível. “Fauno”; “Deusa da Primavera”, e “Safo”, uma evocação à mitologia grega; “Fuga para o Egito” e “Madona”e “Pietá”, com motivação bíblica; “Pombas”, “banho de Sol” e “Portadora de Perfumes”, “Vendedora de Frutas”como cenas do cotidiano; “Vitória”, “Torso Masculino”  e “Beijo”,”Depois do Banho” a mostrar a sensualidade etc etc.

O busto de Alberto Santos Dumont, também é obra sua, além da “Via Crucis”, na capela do Hospital das Clínicas.

A espetacular decoração de baixo relevo nas dependências do Jockey Club de São Paulo, chama a atenção pelo caráter quase de hieróglifo.

Victor Brecheret deixou sua obra por toda parte na cidade de São Paulo, tornando-a  marca registrada da pauliceia.
Ele nos deixou em 17 de dezembro de 1955, precocemente portanto e sem o tempo necessário para observar o impacto decisivo de suas obras na metrópole, caso mais sintomático do Monumento às Bandeiras, um verdadeiro cartão postal paulistano.

Nem preciso dizer o quanto fiquei triste quando vândalos  picharam essa obra do mestre Brecheret, e rumores davam conta que manifestantes radicais planejavam destruí-lo, em meio às tais “manifestações” iniciadas em 2013. Desculpe a menção, mas obra de arte é intocável, a meu ver, seja lá qual for a política vigente e as razões de seus opositores. Se os nazistas tivessem dinamitado a Torre Eiffel, como cogitaram fazer quando da iminência de sua retirada mediante derrota certa, teria sido um golpe sujo, tal qual colocarem fogo na biblioteca de Alexandria, na antiguidade, e outros tantos exemplos de vilipêndio selvagem de lesa-humanidade.

Destruir o Monumento às Bandeiras, teria sido uma barbaridade do mesmo porte. Ainda bem que não cometeram tal loucura.

Existe uma vasta bibliografia sobre Brecheret e sua obra, e a Fundação Escultor Victor Brecheret mantém um belo Site na Internet, com informações valiosas sobre a vida e obra do artista.


Recomendo visita :
http://www.victor.brecheret.nom.br/index.html

Claro, recomendo apreciar suas obras públicas e espalhadas pelos museus, igualmente.

Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, em 2014.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Kim Kehl & Os Kurandeiros - 15/8/2014 - Sexta / 21 H. - Gambalaia - Santo André / SP




Kim Kehl & Os Kurandeiros

Dia 15 de agosto de 2014

Sexta-Feira  -  21:00 h.

Gambalaia Espaço de Artes e Convivência

Rua das Monções, 1018

Bairro Jardim

Santo André  -  SP

Convidados Especiais :

Nelson Ferraresso : Teclados
Marcos Mamuth : Guitarra
Caio Rossi : Guitarra

KK & K :

Kim Kehl : Guitarra e Voz
Carlinhos Machado : Bateria e Voz
Luiz Domingues : Baixo

domingo, 10 de agosto de 2014

Hinos Manchados de Sangue - Por Luiz Domingues


Somos educados desde a tenra idade, a decorar o hino nacional e mesmo sem entender a maioria das palavras ali contidas, tendemos a não nos preocuparmos com a interpretação de seu significado, metáforas, analogias e outras figuras de linguagem implícitas em sua verborragia.

A maioria dos hinos nacionais dos países, é antigo e isso explica muito o porquê do uso de palavras pouco usuais ao coloquial moderno, não só da nossa compreensão em português, mas valendo para todas as línguas, praticamente.

A exaltação das respectivas belezas e recursos naturais de cada país,  são costumeiras, assim como o enaltecimento de características humanas de seus povos, mas existe um dado além, que chama a atenção pela grande profusão, e se trata do caráter bélico, na maioria dos hinos nacionais ao redor do planeta.

Isso é compreensível, na medida em que por serem antigos, geralmente, trazem carga em anexo de uma mentalidade arcaica e arraigada em valores norteados por disputas territoriais que remontam à Idade Média e em alguns casos, até à Antiguidade.

Fala-se muito no conceito da vida e morte; luta, defesa da honra e da fronteira, como o mais alto valor a ser defendido.
Não é incomum ver nas letras dos hinos, citações de batalhas; guerras & revoluções; sangue derramado; dor e sofrimento de seu povo; restrições & penúria material etc etc.

Geralmente ninguém se dá conta de que a mentalidade generalizada em tais composições, perpetua valores segregacionistas, com todo mundo defendendo com unhas e dentes seu pedacinho de chão, sua língua e cultura particular, em detrimento de uma visão mais macro do planeta, como casa de toda a humanidade, sem fronteiras como dizia o brother Lennon na sua canção, Imagine.

Em época de Copa do Mundo e Olimpíadas é que a mídia dá mais ênfase na execução dos hinos das nações participantes de tais jogos e aí, escancara-se toda essa constatação que venho fazendo.

A começar pelo hino brasileiro, onde se observa algumas colocações que corroboram tal tese. Por exemplo :
“Verás que um filho teu não foge à luta”, nem teme, quem te adora a própria morte”...

No da Itália, era natural que exaltassem as glórias do Império Romano, mas convenhamos, sob o fio afiado das espadas ou gládios, para sermos precisos :

“Com o Elmo de Scipio, cingiu sua cabeça, onde está a vitória, lhe estenda a coma, que escrava de Roma, Deus a criou...estamos prontos para a morte, a Itália chamou...estamos prontos para a morte”...

No de Portugal, é natural que se exaltasse a coragem dos descobridores, via tradição marítima, mas tem truculência, também :

“Ás armas, às armas, sobre a terra e sobre o mar...contra os canhões, marchar, marchar”...

Não tenho dúvida que o hino da França é um dos mais belos, senão o mais belo do planeta. Mesmo não sendo francês e não tendo nenhuma identificação com tal nação, quase todo mundo se arrepia quando ouve a Marselhesa, todavia, já parou para analisar que tal hino foi criado no calor de uma revolução sangrenta e retrata na sua letra, ipsis literis, um banho de sangue, ainda que lutando por nobres ideais de liberdade ?

Nem reproduzirei trechos da letra, porque nesse caso, a letra inteira exalta os cidadãos a marchar, lutar e derramar seu sangue...

O hino inglês exalta a monarquia e isso não surpreende em nada, levando-se em conta o tradicional espírito conservador britânico. Mesmo ameno e formal, tem lá seu lado raivoso :

“Ó senhor nosso Deus, venha dispersar seus inimigos...e fazê-los cair...confunda sua política, frustre seus truques fraudulentos”...

O México expressou no seu hino, o trauma da dizimação dos povos pré-colombianos pelos colonizadores espanhóis, pois fala em defesa do solo, que cada cidadão é um soldado em potencial e a espada dos arcanjos está ao seu lado para a eventualidade...caso parecido como hino da França, abstenho-me de reproduzir frases, pois é inteiro calcado nesses valores de belicismo.

De nosso vizinhos argentinos, o espírito libertador do jugo colonialista europeu, espírito comum em todos os países latinoamericanos, nos traz a frase emblemática : “Coroados de glória vivamos, ou juramos com glória morrer”...


A Argélia mostra também seu lado de exaltação da força em se defender : “Juramos, pelo raio que destrói, pelos rios de generoso sangue derramado...somos soldados em revolta, pela verdade”...

A Grécia traz seu passado da antiguidade tal como a Itália que cita Roma, mas ao invés de exaltar a sua cultura privilegiada de outrora, via filosofia e artes, fala do belicismo : “Reconheço-te pelo gume do teu terrível gládio”...

Enfim, para não tornar esta matéria gigantesca, foco por aqui, mas acredite amigo leitor, os hinos nacionais, salvo honrosas exceções, ainda trazem como teor de suas exaltações, o espírito bélico em seu bojo, numa visão nada amistosa da convivência entre os povos e considerando que na verdade, a casa onde moramos, o planeta Terra, pertence a todos e a divisão com arame farpado, de pequenos terrenos, é mera invenção sociopolítica e ultrapassada.
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2014

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Tomada & Pedra - Dia 10/8/2014 - Domingo - 18 h. - Centro Cultural São Paulo

Pedra & Tomada

Dia 10 de agosto de 2014

Domingo - 18:00 h.

Centro Cultural São Paulo

Rua Vergueiro, 1000

Estação Vergueiro do Metrô

São Paulo - SP

Ingresso : R$ 15,00


Kim Kehl & Os Kurandeiros - Dia 8/8/2014 - Sexta - 21:30 h. - Santa Sede Rock Bar - Santana - São Paulo / SP

Kim Kehl & Os Kurandeiros

Dia 8 de agosto de 2014

Sexta-Feira  - 21:30 horas

Santa Sede Rock Bar

Avenida Luiz Dumont Villares, 2104

Santana - Estação Parada Inglesa do Metrô

São Paulo - SP

KK & K :

Kim Kehl : Guitarra e Voz
Carlinhos Machado - Bateria e Voz
Luiz Domingues - Baixo

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Queen : No Synthesizers ! - Por Luiz Domingues


Todos os álbuns do Queen, até o "The Game", lançado em 1980, continham uma frase de efeito grafada na contracapa ou na ficha técnica do encarte, com os dizeres : "No Synthesizers  !"

Essa menção com ares de "palavra de ordem", soava enigmática nos anos setenta para todo Rocker acostumado com o uso de sintetizadores por inúmeras bandas, principalmente no universo do Rock Progressivo e suas ramificações.

Por exemplo, na vertente do Krautrock, onde o contato com experimentalismos de toda ordem era notório, o uso de tais teclados multifacetados e tecnologicamente avançados para os padrões daquela época, era normal e bastante apreciado.

Ainda falando do KrautrocK setentista, bandas dessa cena germânica, como o Tangerine Dream, Can e principalmente o Kraftwerk, tinham em tais recursos, a força motriz de seus respectivos trabalhos.

Ainda que no campo do Hard-Rock, mesmo que seu uso fosse bem mais moderado, muitas bandas o usavam com criatividade e há um caso sintomático também na cena do Glitter-Rock, onde Brian Eno pilotava sintetizadores no Roxy Music, conferindo-lhe aura futurista "Glam".

O Queen surgiu no panorama britânico setentista, dentro da safra de bandas que fizeram a cena do Glitter Rock. Se David Bowie e o T.Rex de Marc Bolan eram os dois maiores expoentes dessa vertente, haviam outros tantos artistas dentro dessa onda.

Slade; Mud; Wizzard; The Troggs; Roxy Music; e o Mott the Hoople, são bons exemplos a serem lembrados e o Queen surgiu desse caldeirão, como uma banda emergente que costumava abrir os shows do Mott the Hoople.

Biógrafos e historiadores do Rock afirmam que o Queen destacou-se tanto que "engoliu" o Mott, causando-lhe o constrangimento de notabilizar-se como uma banda muito melhor que a de Ian Hunter & Cia.

Não gosto desse tipo de comparação, mesmo porque, a despeito do Queen realmente ter causado furor, o Mott era uma boa banda e não havia demérito algum em seu trabalho, pelo contrário, basta ouvir seus discos.

Mas o fato é que "Keep Yourself Alive" explodiu como single nas rádios britânicas em 1973, e o Queen entrou rapidinho no imaginário dos Rockers, como uma banda que apesar de aparentemente ser da turma do Glitter, ter elementos mais pesados em sua música, mais assemelhando-se ao Hard-Rock, além das múltiplas outras influências que lhe davam um horizonte mais largo, onde Folk; Lírico; Vaudeville; e até o Rock Progressivo. se encaixavam.

Porém, a curiosa frase grafada na capa do primeiro álbum "No Synthesizers !", soou enigmática num primeiro momento.

Como assim ?

A banda se colocava como avessa ao uso de sintetizadores em sua música ?

Então veio o segundo álbum e de novo, o Queen enfatizou que não usava sintetizadores em sua música.

Tratava-se de uma banda que usava apenas instrumentos tradicionais e vozes, e que parecia se orgulhar de não "conspurcar" sua música com tais recursos eletrônicos etc e tal.

E assim foi indo, disco após disco, até o "The Game", de 1980. Já nos anos oitenta, a banda abandonou tal discurso de forma acintosa e avançando no pop oitentista, mergulhou num álbum de roupagem "Techno Pop" e muito aquém do seu padrão de qualidade. 



O LP "Hot Space", de 1982, usa e abusa de disparos eletrônicos e não é à toa que geralmente consta de listas de piores discos da história, infelizmente.

Voltando aos anos de glória de sua Majestade, a grande Rainha de Mercury, May, Taylor e Deacon, fazia questão de dizer que não usava sintetizadores na sua obra, porque esmerava-se para criar tessituras incrivelmente complexas em seus arranjos.

O esmero, principalmente de Brian May, em gravar dúzias de guitarras para abrir inúmeras vozes (falo no sentido harmônico/ melódico e não me referindo à vozes humanas, neste caso), inclusive em solos, era algo extraordinário.

Devia dar um trabalho insano, mas o resultado final no áudio do Queen, é incrível. Tal delicadeza melódica remetia ao talento de composição e arranjo de compositores eruditos sofisticados, capazes de enxergar possibilidades sutis, que ouvidos leigos nem sonham captar.

Essa tornou-se, sem dúvida, uma das marcas registradas do Queen e do som particular de Brian May, como guitarrista de timbre e estilo, únicos.

Outra marca registrada, e que nos faz entender essa determinação do Queen em abominar sintetizadores nos seus melhores anos, sem dúvida era no quesito vozes.

A mesma obsessão que movia Brian May a criar diversas dobras de guitarra, fazendo com que a banda soasse muitas vezes como uma orquestra de cordas, era proporcionada por Freddie Mercury e Roger Taylor nos arranjos vocais.

É público e notório que Mercury e Taylor tinham vozes privilegiadas, com May dando bom apoio e Deacon eventualmente contribuindo também.

Nesses termos, o esforço que a banda fazia para criar backing vocals bastante requintados e em alguns casos até com certo exagero, supriam também a falta de sintetizadores, certamente.



Diante de verdadeiros corais, com muitas dobras de vozes, o Queen impressionava pelos malabarismos vocais.

Dessa forma, todos esses esforços empreendidos em horas e horas de estúdio para criar tantas camadas de vozes e guitarras, talvez os tenham levado à esse sentimento de orgulho por apresentarem um trabalho tão rico, harmônica e melodicamente falando, dispensando o uso de sintetizadores.

Uma pena que na década de oitenta, talvez movidos pelo sentimento de se adaptarem às estéticas vigentes, tenham abandonado tal purismo e cometido deslizes imperdoáveis como "Hot Space".

No meu caso em particular, fico mesmo com os quatro primeiros álbuns, que são os meus prediletos da discografia do Queen : "Queen"; "Queen II"; "Sheer Heart Attack" e "A Night at the Opera".

E também deixo a ressalva de que não sou contra os sintetizadores. mesmo porque, seu uso nos anos setenta, foi quase sempre muito salutar, principalmente no Rock Progressivo.

Matéria publicada inicialmente na Revista impressa : Gatos & Alfaces, nº 3, de maio de 2014.