sexta-feira, 26 de setembro de 2014

The Twilight Zone - Por Luiz Domingues



“Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo homem. É uma dimensão tão vasta quanto o espaço, e tão desprovida de tempo quanto o infinito. É o espaço intermediário entre a luz e a sombra, entre a ciência e a superstição; e se encontra entre o abismo dos temores do homem e o cume de seus conhecimentos. É a dimensão da fantasia. Uma região além da imaginação”.



Era com uma apresentação enigmática assim, que o produtor e roteirista Rod Serling anunciava o início de cada novo episódio de “The Twilight Zone” (“Além da Imaginação”), nas noites de 1959 e 1960, período onde aconteceu a primeira temporada de uma série que revolucionaria a produção de TV na América, com repercussão em quase todo o planeta, incluso o Brasil, naturalmente.
Rod Serling já era roteirista de TV e tinha relevante participação em programas como “Patterns”(um drama ousado sobre o mundo corporativo), e “Requiem for a Heavywight”, um teleplay ambientado no mundo do Boxe, e que gerou vários desdobramentos, incluso versões internacionais em países europeus.


Mas foi em The Twilight Zone que sua genialidade como roteirista e produtor foi realmente exaltada.
Incomum para os padrões da época, The Twilight Zone era uma série centrada em temas intrigantes à imaginação dos telespectadores, aberto num leque vasto que ia do Sci-Fi ao terror; do surrealismo à fantasia; do thriller psicológico à loucura total.


Sem uma história alinhavada, sem personagens fixos e sem continuidade, cada episódio representava um conto de aproximadamente 25 minutos, no padrão de metragem comum às “sitcoms”, mas neste caso, sem recorrer ao humor.
Com orçamento modesto, Serling caprichava nos roteiros para prender a atenção dos telespectadores naqueles poucos minutos, mas sobretudo, contava com a habilidade de seus diretores e atores para dar o recado, dando sustos, fazendo as pessoas pensarem e acima de tudo, oferecendo soluções metafóricas e subliminares que fizeram história na TV.
A febre cinquentista de Sci-Fi que assolou a América daquela década, calou forte igualmente na alma de Serling. O medo do extermínio nuclear promovido pela Guerra Fria também foi tema recorrente no seriado.
Viagens pelo tempo; troca de identidade; amuletos com poderes sobrenaturais; presença de alienígenas, entidades fantasmagóricas; máquinas com vida própria...foram muitos os argumentos usados ao longo de 156 episódios que compuseram as cinco temporadas.
Alguns episódios são primorosos pela engenhosidade de roteiro. Um exemplo disso está em “Eye of the Beholder”, por exemplo, um episódio da segunda temporada, onde a perspectiva da narrativa é a de uma moça que sofreu uma intervenção cirúrgica muito agressiva para efetuar correções estéticas necessárias para tentar recuperar sua autoestima.
Em momento algum se vê os rostos de médicos e enfermeiros, e apenas se ouve a conversação, com os profissionais tentando preparar a moça psicologicamente para o pior, e quando enfim tiram-lhe as bandagens, o choque : de nada adiantou a cirurgia plástica. Desesperada, a moça sai correndo pelos corredores do hospital, quando constatamos que ela era perfeita...
Contudo, finalmente vemos os médicos e enfermeiras e todos são deformados como personagens de uma pintura cubista, mas não era para menos, pois ali era outro planeta e a anatomia humanóide ali era assim, e gente “como nós”, eram consideradas aberrações...

Uma bela metáfora sobre diferenças, preconceitos e aceitação.
Outro bom exemplo de criatividade, cito o episódio “Time Enough at Last”, onde um funcionário de uma corporação é apaixonado por livros, mas vive sendo repreendido pelos  superiores e pela própria família a coibir tal paixão, que toma-lhe “tempo”. “Time is Money”, como os americanos tanto gostam de enfatizar...
Mas uma hecatombe acontece e ele se vê sozinho no planeta, como único sobrevivente. Em princípio se desespera pela solidão repentina, mas logo percebe que aquele cenário era tudo o que sonhara, pois havia comida suficiente para sustentá-lo até seus últimos dias, mas sobretudo, não havia mais ninguém que o impedisse de ler todos os livros das bibliotecas de New York, a vontade...contudo, ironia do destino, e num acidente lastimável, seus óculos se espatifam no chão e ...adeus possibilidade de poder ler...


Notável metáfora sobre a solidão e sobre como a motivação pode ter alicerces frágeis.
Outro episódio extraordinário (“Where is Everybody” ?), é o do astronauta que aterrissa numa pequena cidade interiorana, inteiramente vazia. Sua busca frenética para encontrar alguém vai enlouquecendo-o até que exausto, é recolhido por paramédicos do exército e claro, aquilo era só um treinamento a que fora submetido para testar sua capacidade de encarar a solidão.
Em “The Lonely”, numa situação futurista onde condenados cumprem penas não em penitenciárias tradicionais, mas em colônias penais localizadas em outros planetas, um prisioneiro recebe como bônus da justiça, uma robot com aparência perfeita de mulher, e diante de sua solidão atroz num planeta inóspito, claro que se apega à ela. Quando sua pena expira e uma diligência penitenciária vai resgatá-lo para trazê-lo de volta à Terra, se desespera quando lhe informam que por uma questão de segurança, a robot não pode vir junto...para os agentes penitenciários “aquilo” era só um robot, mas para ele, era sua companheira querida...



Em “Perchance to Dream”, um homem tenta a todo custo não dormir, pois tem a convicção de que ao adormecer, morrerá. É a luta do homem contra o inevitável.
Em “Third From the Sun”, o mundo vive o horror do holocausto nuclear iminente e um cientista envolvido na construção de um foguete, faz de tudo para embarcar com sua família e tentar salvá-la do extermínio final. O foguete parte enfim, e se aproximando de um planeta habitável, o telespectador toma consciência de que se aproximam é da Terra e não o contrário, como deveríamos supor...


Em “Shadow Player”, um homem vive um pesadelo interminável. Todo dia, tenta convencer as pessoas que é inocente de uma acusação cuja sentença é perder sua vida, mas nada consegue demover as pessoas, e ele vai para a execução e começa a sonhar tudo de novo. Uma impressionante visão sobre a agonia e insuportável falta de esperança.
“The Shelter” trata da paranoia nuclear novamente. Numa pacata cidade interiorana, se constrói um abrigo, mas ele é insuficiente para todos e durante um alarme, a mesquinharia para ocupar espaços expõe a podridão humana ao extremo. No final, era só uma alarme falso, mas ninguém mais conseguiu ser igual depois dessa demonstração de egoísmo exacerbada.
“Deaths-Head Revisited” é um dos mais impressionantes episódios a meu ver. Um ex-carrasco nazista é aprisionado e julgado por fantasmas de pessoas que torturou e matou num campo de concentração na Segunda Guerra. Diálogos fortes são a tônica desse episódio.
“Once Upon a Time” é pungente e emocionante. Um homem de 1892 coloca um elmo com estranha tecnologia anacrônica para o seu tempo e aparece sem explicações em 1962. Atônito por estar no “futuro” que não compreende, se coloca em confusões mil e tudo é valorizado ao extremo pelo fato do ator protagonista ser Buster Keaton, um grande astro cômico dos primórdios do cinema e toda a ação se passar como num velho episódio de cinema mudo.
“Five Charaters in Search of an Exit”é um episódio enigmático e intrigante. Cinco pessoas que não se conhecem entre si, se veem num estranho ambiente aparentemente sem saída. Sua luta para entender o que lhes passa e sobretudo tentar achar uma saída para tal situação inusitada toma o episódio inteiro, prendendo a atenção do telespectador até o fim. O que fazem ali presos nessa saleta, um major do exército; uma bailarina; um palhaço; um tocador de gaita de fole e um mendigo ?


Ao final, tudo se esclarece quando percebemos que tais pessoas eram na verdade cinco bonecos de plástico, guardados numa caixa de brinquedos deixada por uma criança.

Em “Kick the Can”, um idoso tem a epifania de que pode voltar a ser criança se permitir-se agir como tal. Tenta convencer os demais idosos do asilo onde mora, mas poucos lhes dão ouvidos. Mas de fato, ele e quem acreditou nisso, voltaram a ter forma infantil e fugiram do asilo. Uma bela metáfora sobre a idade mental, estado de espírito, criança interior eternizada etc etc.



Eu poderia descrever muitos outros, mas a matéria ficaria gigantesca. Dos 156 episódios produzidos, é difícil achar um que não seja criativo.
Nem todos os episódios de The Twilight Zone foram escritos por Rod Serling, mas este escreveu quase cem dos 156 episódios produzidos.


Gente como Richard Matheson, Charles Beaumont, Montgomery Pittman e Earl Hamner Jr. também colaboraram.
A direção de arte tinha muita influência de artistas como Salvador Dali e Rene Magritte.  A opção por motivações surrealistas em muitos episódios davam aura maluca a climas que evocavam a paranormalidade, ou simplesmente deixavam a dúvida no ar.
Na parte musical, Serling contou com diversos compositores experientes da TV para colaborar (Bernard Hermann, Jerry Goldsmith, Nathan Van Cleave, e o francês Marius Constant, entre outros). Um dos temas mais legais, lembra a atmosfera beatnick novaiorquina dos anos cinquenta, com um tema de guitarra e bongô, bem jazzístico e sensacional.


Já a partir de 1959, quando de sua estreia, a crítica adorou o seriado, mas os números da audiência não foram estrondosos na mesma proporção.
Tanto que apesar de ter durado por cinco temporadas, viveu na corda bamba, sempre ameaçado de corte, com problemas com patrocinadores e corte substancial de verbas, haja vista que muitos episódios foram filmados num padrão de fotografia inferior, utilizando o VT de TV, parecendo padrão de novela, com bastante estouro de contraste, inclusive.
No Brasil, fez muito sucesso, desde 1960, quando por aqui começou a ser exibida.
Já a partir de 1962, 1963, apesar de minha tenra idade, não perdia um episódio. Claro que não entendia a sutileza das metáforas, mas achava aquela atmosfera de mistério, sensacional e daí em diante, Twilight Zone virou paixão eterna.
Rod Serling criaria no final dos anos sessenta outra série sensacional, chamada “Night Gallery” (Galeria do Terror), esta mais centrada no terror, lembrando bem os filmes da produtora britânica, Hammer.


Aliás, é de um episódio dessa série que Steven Spielberg estrearia como diretor.
Fã incondicional de Serling, Spielberg produziria uma homenagem ao seu mestre quando colocou no ar uma “volta” de Twilight Zone“, como TV Movie no início dos anos oitenta e isso motivou a CBS a criar episódios inéditos ainda nessa década, utilizando a tecnologia moderna da época etc e tal, mas como todo remake, apesar da extrema boa vontade, ficou aquém do glamour da série original.
Uma terceira tentativa de recriar o clássico foi feita no início dos anos 2000, com o ator Forest Withaker fazendo a narração ao estilo de Serling, mas também não logrou êxito.


Recentemente, o diretor JJ Abrams (Alias; Lost; Star Trek), anuncia pré-produção de um longa que seria a cinebiografia de Rod Serling. 

Aguardemos...
Rod Serling faleceu em 1975, vítima de complicações nas vias respiratórias graças ao anos e anos de prática como fumante, que lhe debilitou.
Há anos na América todos os episódios já haviam sido lançados no formato VHS para colecionadores, e posteriormente no DVD e Blue Ray.


Recentemente foram lançados no Brasil os Box-Set DVD das duas primeiras temporadas. Ao que tudo indica, serão lançadas as três temporadas derradeiras, fechando o ciclo para os colecionadores brasileiros.


Na edição nacional, existe a possibilidade de legendas com o som original em inglês, mas também a opção da dublagem brasileira de época. O áudio não é dos melhores, mas a dublagem da época é sensacional.
Os extras deixam a desejar pela sua pouca profusão, mas é bacana ver as intervenções de Rod Serling anunciando a “atração da semana que vem” e alguns comerciais americanos de época, patrocinadores do seriado.
The Twilight Zone é uma das mais sensacionais séries americanas já produzidas. Trabalhou com um mundo de possibilidades fora do comum, ativando a imaginação de milhares de telespectadores e abrindo campo para um sem número de interesses desencadeados pelo surreal; não usual; paranormal; alienígena; inexplicável; oculto; místico; tecnológico; onírico; lisérgico; shamânico, e um mundo de outras possibilidades abertas através dos episódios dessa criação de Rod Serling.
Não me canso de ver e rever, e sempre acho, por incrível que pareça, um aspecto novo, nunca antes notado.


Recomendo, com certeza ! 

sábado, 20 de setembro de 2014

TV Excelsior, Adorável e Odiada - Por Luiz Domingues




Num ambiente ainda inicial para a TV brasileira, as principais emissoras em São Paulo, e que brigavam pela audiência, eram a TV Tupi e a TV Record, com a TV Paulista numa situação mais modesta, roubando poucos pontos das duas e a TV Cultura em sua fase como entidade particular, também em condições mais modestas de investimentos.



Nesse cenário, o empresário e radialista Victor Costa tinha a concessão para abrir mais um canal na cidade, visto que já era dono da TV Paulista.




Nesse processo de abrir um novo canal, não entrou sozinho nessa aventura, mas teve apoio de empresários bem sucedidos e para sorte do público, com mentalidade progressista, interessados em fazer dessa emissora, uma difusora de cultura, num patamar acima do popular, privilegiando arte de qualidade.



Victor Costa teve portanto, o respaldo de empresários como José Luis Moura e Mário Wallace Simonsen, ambos cafeicultores de Santos, que estavam empenhados nessa ideia de fazer da nova emissora, uma difusora de programação seleta, sem grande preocupação em atender pressões para agradar o máximo de audiência, portanto, sem o intuito de ser popularesca.
Com apoio do jornalista João de Scantimburgo e de Ortiz Monteiro, deputado federal à época, montaram a estrutura inicial para a TV Excelsior de São Paulo entrar no ar.



Inicialmente, a antena da nova emissora foi colocada na Rua da Consolação, esquina com a Avenida Paulista e os estúdios montados na Avenida Adolfo Pinheiro, no Brooklin, bairro da zona sul de São Paulo.


Logo, alugaram o Teatro Cultura Artística, no centro da cidade e ali o usaram para as produções de auditório, programas que fizeram grande sucesso em sua grade.
O empresário Simonsen era dono da Pan Air do Brasil, e nessa histórica companhia aérea brasileira, havia implantado uma política interna de remuneração muito acima dos padrões de mercado, instituindo um ambiente muito bom, onde seus funcionários trabalhavam com “amor à camisa”, sentindo orgulho da empresa, pelas ótimas condições que recebiam.



Tal mentalidade progressista, com valores humanistas embutidos, assemelhava-se à práticas muito progressistas dentro do mundo corporativista capitalista e eram obviamente avantgarde para os padrões do final dos anos cinquenta e início dos sessenta.
Tal mentalidade foi levada para a emissora, mas seria um fator a mais para a sua derrocada tempos depois, não pelos fatores econômicos em si, mas por perseguições de cunho ideológicas.


Simonsen adquiriu a parte de Victor Costa e a emissora voava em céu de brigadeiro, como a Pan Air, agradando ao público com sua programação de qualidade, nos primeiros anos da década de sessenta.



E que qualidade...

Bibi Ferreira tinha o seu “Brasil 60”, um musical sensacional que nos anos posteriores foi acompanhando a cronologia : “Brasil 61”, “Brasil 62” etc.
Sempre buscando a novidade, em 1962 tentou transmitir em cores (Programa Moacyr Franco Show), no sistema NTSC que não deu certo no Brasil, e só dez anos depois, em 1972, quando vingou oficialmente a TV em cores no Brasil, com o sistema Pal-M, de tecnologia germânica, a Excelsior não existia mais.


Ainda em 1962, a TV Excelsior inaugurou novas instalações num complexo localizado na Vila Guilherme, na zona norte de São Paulo, e que posteriormente foi comprado por Silvio Santos para abrigar a sua TVS/SBT, e hoje em dia é um mega templo de uma denominação evangélica.
Em 1963, inaugurou sua filial no Rio, usando como auditório, o antigo cinema Astória em Ipanema, e logo de cara apresentando um musical vistoso : “O Rio é o Show”, com a presença de grandes nomes da MPB de então.



Ao contrário da TV Tupi, que demorou a se planificar como Rede de alcance nacional (havia até um clima hostil e de rivalidade entre a Tupi de São Paulo e a do Rio, tratando-se mutuamente como inimigas e concorrentes), a Excelsior tratou logo de expandir-se e depois do Rio, chegou à Belo Horizonte e outras capitais, como uma rede unida e coesa.
Ainda falando da grade de programação, a TV Excelsior primava pelo acervo de filmes e séries de qualidade. Suas sessões de cinema com a exibição de clássicos, era notável.
No campo das séries, foi através da Excelsior –Rio, que “Star Trek” – “Jornada nas Estrelas, chegou ao Brasil ao 1966, por exemplo.
Outros musicais notáveis foram : “Dois na Bossa”e “O Brasil Canta no Rio” com a nata da MPB se apresentando ali, como Elis Regina, Eliana Pittman e Jorge Benjor (na época, Jorge Ben), e outros tantos talentos em início de carreira, além de gente já consagrada como Os Cariocas, e muito mais artistas de alto quilate.
Investiu também nos programas humorísticos de auditório, onde “Times Square” se destacava e de fato, marcou época.


Quando a Jovem Guarda explodiu na TV Record de São Paulo, a TV Excelsior também abriu espaço para a dita “música jovem”, com Os Incríveis comandando um programa (Programa “Os Incríveis”), e Ronnie Von, outro (“Assim caminha a Juventude”).
No jornalismo, a TV Excelsior também se esforçava para ter uma cobertura moderna e muito eficaz. O “Jornal de Vanguarda” é um exemplo que marcou época, já antecipando o modelo de jornalismo que nortearia o futuro imediato, na década posterior, de setenta.



Apesar de parecer incoerente com a proposta inicial de se manter um padrão cultural elevado na difusão cultural da emissora, é fato que a TV Excelsior aventurou-se na dramaturgia, com novelas, também. E por um bom tempo, concorreu com a TV Tupi que liderava a audiência nesse quesito em específico, lançando novelas, igualmente e em alguns casos, muitas entraram para a história do gênero, caso de “Redenção”, que está registrada como a novela de maior duração, com mais de dois anos de exibição e um número absurdo de capítulos, 596 para ser preciso.
“A Pequena Orfã”; “ A Muralha”; “Sangue do meu Sangue”; “Os Fantoches”, entre outras, são exemplos de sucessos da Excelsior, além de “2-5499”, considerada a primeira telenovela de exibição diária, na TV brasileira, em 1963.


Muitos atores que eram funcionários da TV Excelsior foram para o cast da TV Globo, assim que a Excelsior fechou suas portas. 

Tarcísio Meira; Francisco Cuoco; Glória Menezes; e Regina Duarte, entre muitos outros, eram do time da Excelsior.


Ivani Ribeiro, uma autora histórica, por exemplo, escreveu diversas novelas para a TV Excelsior.
Outro fator que deixou saudade eram as vinhetas musicais, antecipando em muitos anos tal ação da parte de outras emissoras, que só a partir das décadas posteriores usariam tal recurso.


Se era uma emissora adorável, com nobres princípios e querida do público, mas por que fechou suas portas então ?
O empresário Simonsen tinha ideais democráticos, legalistas e liberais e quando a ditadura militar instaurou-se em 1964, tornou-se um desafeto natural dos golpistas direitistas.


Sua empresa aérea Pan Air foi violentamente perseguida, até fechar as portas e a TV Excelsior não teve outro tratamento por parte da repressão.


A censura era implacável para prejudicar a programação da TV Excelsior, lhe causando grandes prejuízos.


Os incêndios de suas instalações em 1969 foram para lá de suspeitos e as ações da censura para prejudicar a emissora, acintosas e vergonhosas.
Em repúdio, a emissora não editava as partes censuradas e deixava a imagem de seus mascotes, o menino “Paulinho” e a menina “Ritinha”, com mordaças nas suas respectivas bocas, escancarando a arbitrariedade imposta pelo regime, e isso irritava profundamente os militares, que não queriam que o povo fizesse essa reflexão sobre suas ações torpes.



O golpe fatal se deu em 1970, quando a emissora estava totalmente sucateada e nem pertencia mais à Simonsen que vendera sua massa falida ao grupo Folha de S.Paulo.
Por meio de uma manobra financeira, o governo exigiu que uma dívida tributária pesada fosse paga em poucos dias, para estrangular de vez a emissora.


Sem chances de levantar 170 milhões de cruzeiros em poucos dias e numa ação deliberadamente agressiva com outros propósitos, os agentes da ditadura conseguiram lograr êxito, e eliminaram a TV Excelsior do mercado.



Em 1º de outubro de 1970, o jornalista Ferreira Neto entrou de forma afoita no estúdio, interrompendo a exibição de um programa humorístico que acontecia ao vivo (“Adélia e suas Trapalhadas”), e aos prantos disse que o governo da ditadura havia decretado o fim da emissora !!
Mal teve tempo de terminar seu depoimento dramático e a emissora saiu do ar, pois funcionários do “Dentel”(Departamento nacional de telecomunicações”, órgão estratégico da ditadura para controlar as emissoras de Rádio e TV), já se encontravam na central técnica da Excelsior, para cortar o sinal da emissora.



Recentemente um processo foi iniciado na justiça e existe uma perspectiva de que a concessão para a TV Excelsior voltar a operar seja revista.


Não conheço os meandros desse processo, portanto não posso adiantar nada sobre o caso em termos jurídicos e sobretudo financeiros de uma operação desse porte.
A única coisa que posso afirmar, como simples telespectador que assistiu muito a TV Excelsior na década de sessenta, é que num momento tétrico em que vivemos no campo cultural, onde a subcultura de massa dominou todos os espaços das TV’s abertas e já contaminou a TV fechada, por incrível que pareça, uma TV Excelsior de volta ao mercado, com aquela mentalidade que tinha há cinquenta anos atrás, seria um oásis em meio à essa glorificação do subsolo, como temos observado nos últimos anos.


Mero sonho, pois tal perspectiva é apenas uma pálida possibilidade e tem sido constantemente ironizada em editoriais de algumas emissoras que sobreviveram à derrocada da Excelsior, sinalizando que uma possível volta as incomodaria.


Fica essa reflexão para o leitor : mesmo com quase trinta anos de fim da ditadura e volta ao estado democrático de direito, a Excelsior ainda incomoda os retrógrados ?


Isso explica muita coisa...
Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, em 2014.