segunda-feira, 25 de maio de 2015

O Melhor Amigo de José Mindlin não era o Cão, mas sim, o Livro - Por Luiz Domingues




O Brasil não tomou ainda a decisão mais acertada que qualquer país de primeiro mundo um dia decretou, e que invariavelmente o alavancou para o primeiro mundo.


Sei que o fomento à agricultura; Infraestrutura & tecnologia; indústria & comércio, commodities e ajustes fiscais são importantes, tanto quanto a consolidação da democracia, e instituições fortes.


Tudo isso faz parte, e sem tais peças, a engrenagem não funciona.

Todavia, o baluarte de tudo isso, é a educação.


E dentro de todas as prerrogativas que dela derivam, um elemento em particular, é fundamental para a melhoria do padrão educacional e cultural de um povo, tornando-se portanto, o combustível para que todos os outros setores da sociedade civil e cadeia produtiva, sejam prósperos : o livro.
Por que se lê tão pouco neste país, deveria ser a preocupação número um dos nossos governantes, mas pelo histórico descaso com o assunto, as autoridades dão a medida exata com a qual o nosso desenvolvimento patine, há séculos.


Salvo raras e honrosas ações sazonais e / ou individuais de um ou outro mandatário, a grosso modo, o poder público pouco ou nada faz para tornar o livro, um objeto de fácil acesso, e massificado, portanto.
Dentro desse panorama triste, quando deparamos com gente abnegada que luta quase que quixotescamente na contramão, o que deveria ser um padrão normal de qualquer cidadão, passa a ser até mal interpretado.


Um exemplo até exótico, é o de pessoas que são criticadas por terem bibliotecas caseiras que ocupam um espaço avantajado.


Vejo uma onda de acusações que muitas vezes são bastante preconceituosas, pois uma coisa é ser um acumulador compulsivo e patológico, e outra, muito diferente, é ter espírito colecionador, com critério e cuidado em ter uma coleção respeitável.


Outro ponto, é que muitas vezes os colecionadores são acusados de serem egoístas, guardando tesouros particulares que não são compartilhados com a coletividade, mas aí entra outra questão; que estímulo teria um colecionador zeloso de seu acervo, em compartilhar seu tesouro a esmo, sem critério algum, submetendo-o até ao vandalismo de gente inescrupulosa que tem o ímpeto da destruição, como modus operandi ?
Dependendo da circunstância pessoal de cada um, pode ser muito angustiante para um colecionador que chega à uma idade avançada, ter a perspectiva de que sua coleção será destruída, em caso de não ter sucessores ou mesmo os tendo, sabendo de antemão que não valorizam em nada o seu material catalogado, e que irão jogá-los em caçambas, atear fogo, ou simplesmente abandonarem-no numa putrefação triste, em meio às teias de aranha; cupins; traças, e roedores.


Enfim, num país que não valoriza o livro, até para se doar um acervo é complicado...


Um exemplo contrário e muitíssimo salutar de alguém que pensava justamente o contrário, foi o do bibliófilo, José Mindlin.
Nascido em São Paulo, capital, no ano de 1914, Mindlin era um apaixonado pela leitura e os livros, os tratava como verdadeiras joias, como devem ser considerados, aliás.


Com 15 anos de idade, já escrevia para um jornal de porte, O Estado de São Paulo.


Paralelamente, estudou direito, tendo advogado por alguns anos, até que se tornou empresário de um ramo em expansão no Brasil.
Sua empresa, a “Metal Leve”, se tornou uma gigante na fabricação de auto peças, e o tornou um homem rico.


Com tal independência financeira, Mindlin pode enfim dedicar grande parte do seu tempo e seus recursos, para a sua grande paixão, que era a sua coleção de livros.
Tão voraz como leitor, Mindlin também se mostrou como colecionador, e de peça em peça, garimpando, foi formando uma coleção incrível, no padrão de uma grande biblioteca.


E á medida que sua coleção aumentava, o número de raridades que ostentava, também crescia.
Não obstante o fato de ter milhares de volumes, Mindlin orgulhava-se de ter edições raras de publicações muito antigas, de séculos passados, manuscritos originais etc.


Não só bibliófilo foi, mas também foi autor de algumas obras. “Uma Vida entre Livros” “Reencontros com o Tempo”, e “Memórias Esparsas de uma Biblioteca”, além de ter lançado um CD com poesias em 1998 : “O Prazer da Poesia”.


Intelectual, ocupou vários cargos em instituições públicas e privadas, como mandatário, conselheiro e/ ou consultor, entre os quais :


Fapesp (Conselho Superior da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo); Fiesp (diretor do Conselho de Tecnologia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo; fundou a UNIEMP, entidade criada para fazer a aproximação entre a Universidade e as Empresas privadas; Foi conselheiro da CNPq (Instituto de Tecnologia do Governo Federal); Foi vice presidente da Fiesp; Foi conselheiro internacional da FIAT, Unibanco, e do Banco de Montreal.
Foi membro da ABL (Academia Brasileira de Letras), e da APL (Academia Paulista de Letras).


Foi membro da ABC (Academia Brasileira de Ciências).


Foi conselheiro de vários museus, tais como : Museu de Arte Sacra de São Paulo; MAM do Rio de Janeiro & MAM de São Paulo (Museu de Arte Moderna); Museu Lasar Segall; Membro honorário do Conselho Internacional do Museu de Arte Moderna de Nova York.


Foi presidente da Fundação Crespi Prado; membro do Conselho da Sociedade Amigos da Biblioteca Nacional; Presidente da Casa de Cultura de Israel; Presidente da Sociedade de Cultura Artística de São Paulo.
Foi membro do Conselho da Vitae – Apoio à Cultura, Educação e Programas Sociais; membro emérito da John Carter Brown Library, de Providence – Rhode Island / USA, e da Associação Internacional de Bibliófilos de Paris.


Foi também presidente da Aliança Francesa de São Paulo, e do Conselho editorial da EDUSP (Editora da Universidade de São Paulo).


Tinha o título de Professor Honorário da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas.


E muitos títulos de Doutor Honoris Causa em Letras, pelas Universidades : Brown University (Providence – Rhode Island / USA); UNB (Universidade de Brasília); Universidade da Bahia; Universidade do Tocantins, e Universidade de São Paulo.


Ganhou o premio Juca Pato de intelectual do ano em 1998; Premio Unesco de 2003, na categoria Cultura; Medalha do Conhecimento, outorgada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; Premio João Ribeiro da ABL.

No final da vida, sua coleção batia na casa dos 38 mil livros.
Em 2006, ele e sua esposa Guita Mindlin que também nutria paixão pela coleção, doaram 15 mil títulos para a Universidade de São Paulo, e entre eles, muitas raridades bastante valiosas, como por exemplo, um pergaminho de 1480; manuscritos de padres jesuítas do século XVI, e suas primeiras impressões sobre o Brasil, além da primeira edição de “Os Lusíadas”, de Camões.
Alguns livros tinham histórias particulares, como por exemplo, uma rara edição de “O Guarany”, de José de Alencar, que custou 17 anos de paciência para Mindlin poder enfim angariar para a sua estante.


De fato, para um colecionador, a tenacidade e a paciência são fundamentais, como ferramentas aliadas.


E as pequenas frustrações geradas pelos vacilos, também assolam os colecionadores. Mindlin se arrependia amargamente de não ter adquirido um raro exemplar da primeira edição de “Cultura e Opulência do Brasil”, de Antonil, publicado em 1711, pois nunca mais chegou perto de tal exemplar.
É bem verdade, mais que um impulso, o colecionador precisa cultivar a percepção da oportunidade única.


Mindlin dizia sempre que não se considerava dono dos livros, mas apenas um guardião temporário daquela coleção, e que cabia ao governo a prática de abrir bibliotecas, com a ajuda dos empresários privados, via contrapartida social.


Claro que é um pensamento correto, mas enquanto a classe política não mergulha nessa máxima, definitivamente, temos mais é aplaudir um colecionador voraz e criterioso como foi José Mindlin, que dedicou sua vida à esse tesouro inestimável, e o doou à coletividade.


A coleção hoje faz parte do Museu Brasiliana da USP.
Além do fomento total ao livro, o brasileiro precisa discernir o que é coleção séria e valiosa, de lixo armazenado por acumuladores compulsivos.


Muita gente acaba confundindo as coisas nesse sentido, e tesouros valiosos acabam em caçambas, graças à falta de discernimento de pessoas que nem sabem avaliar o material com o qual seus idosos que se vão, possuíam.


Eu mesmo recebi uma coleção incrível de livros de uma amigo meu, que sabedor que eu apreciava o teor de algumas obras, teve o bom senso de ofertá-los à mim, quando seu avô faleceu, em detrimento do fato de que sua família iria jogá-los no lixo.


José Mindlin faleceu em 2010, sua coleção está sendo bem tratada e usada pela USP, mas torço para que seu exemplo se espalhe, e tenhamos dias melhores, com o livro sendo tratado como um tesouro, e não algo a ser jogado numa caçamba.
Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, em 2015

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Sujar, Pichar, Vandalizar, Destruir... - Por Luiz Domingues




O termo “vandalismo” vem da antiguidade, quando  tribos de origem germânicas, chamadas de “Vândalos”, invadiram Roma, e provocaram uma onde de destruição, pilhagem,  e agressões generalizadas.


Obviamente selvagens, eram considerados bárbaros pelos romanos e daí, a palavra “vândalo” ganhou conotação de gente de baixa qualificação cultural, disposta a destruir o patrimônio público e/ou privado; promover algazarras; agressões gratuitas contra pessoas inocentes a esmo etc.
Ao longo da história, tal conotação fortaleceu-se, e o vandalismo tornou-se o termo para designar esse tipo de ato provocado por essa gente.


Bem, na antropologia; psicologia; semiótica; pedagogia, e até na pediatria, existem teses as mais variadas para entender a motivação por trás desse tipo de atitude/ mentalidade.


Uma das mais usuais, é a de que no final da infância e começo da adolescência,  os hormônios estão explodindo, e isso necessita de vazão.
De fato, isso procede, mas se fosse uma coisa normal buscar tal escape através da destruição, não haveria civilização, e nem as pinturas rupestres teriam escapado nas cavernas, não acham ?


Outra boa explicação vem da psicologia. A explosão da puberdade provoca a necessidade de autoafirmação para os meninos, através da extrapolação da energia bruta, demarcando território entre os machos; estabelecendo lideranças entre grupos, na base do mais forte, ou que se sobressai pela inteligência bélica; para chamar a atenção das meninas.


Como adendo da tese acima descrita, acrescento que nos últimos tempos, mudanças de parâmetros socioculturais fazem com que as meninas busquem o mesmo princípio, baseado na força bruta, com agressividade.


Isso põe em cheque a tese de que as diferenças de cromossomos e hormônios sejam estáticas e indissolúveis. Pois o fato das meninas terem pouca quantidade de testosterona no seu organismo, não significa que não possam ter um grau de agressividade parecido com o dos meninos.
Independente disso, se testosterona fosse desculpa para destruir, recorro ao raciocínio expresso no primeiro item : não teríamos construído uma civilização; cultura; ciência; arte, etc etc.


A semiótica também dá sua visão para o caso. Se tudo é relativo na questão da significado/significante, obviamente que destruição; sujeira; rabiscos; dejetos e que tais, são “feios” relativamente, pois podem significar “bonitos” sob outro ângulo.


Claro, enquanto teoria meramente subjetiva, faz sentido, mas na prática civilizatória, isso não pode ser interpretado dessa forma simplista. Ninguém que tenha as faculdades mentais em ordem, rasgaria uma nota de cem dólares sob a alegação de que numa visão paralela do universo, aquela nota não tem valor algum...


No campo da cidadania, é que os parâmetros para analisar tal questão, parecem ser os mais sensatos, e que me perdoem os que desprezam a civilização, e sobre quais forem as suas alegações de ordem política; ideológicas, ou sociológicas.
Numa ideia básica de que a urbe é uma mera extensão de sua habitação, o raciocínio perene é : você destrói sua casa; vive num autêntico chiqueiro; gosta de condições insalubres de higiene e segurança; aprecia a feiura estética dos escombros ?


Antes que se apressem em contra argumentar, sim, eu sei que existem pessoas que vivem assim, e entre elas, há as que gostem de viver sob tais condições.
Tirante as pessoas acometidas de patologias de ordem mentais, quem realmente aprecia viver dessa forma ?


Portanto, apelando para o bom senso da maioria, e excetuando-se alguns tipos de pessoas com comportamento não padronizado, tais como :


Os prejudicados por doenças de ordem mental; que  sejam sociopatas; misantropos; adeptos de seitas religiosas/ filosofias radicais que preguem como norma o abandono das normas sociais, com renúncia absoluta dos valores, normas e parâmetros da sociedade moderna; os adeptos de sistemas políticos radicais baseados em niilismo; os seguidores de estéticas niilistas que buscam no confronto com a dita normalidade vigente, sua razão de ser para se expressar, e os simplesmente anti sociais e dispostos a chamar a atenção pela excentricidade de ser “do contra”, a pergunta que não quer calar é :


Para que praticam o vandalismo contra o patrimônio público e /ou privado ?


Primeiro ponto : tirante as pessoas de setores “especiais” que descrevi acima, a maioria, teoricamente, gosta de viver em casas confortáveis; bem acabadas; bem decoradas ao seu gosto cultural, limpas e organizadas.
Falei algo absurdo ?


E salvo algum acidente doméstico, ou até mesmo um momento de fúria esporádica, e motivada por uma briga familiar mais exacerbada, quem em sã consciência sai vandalizando o próprio lar, quebrando objetos, móveis e utensílios, espalhando sujeira e pichando as paredes com rabiscos horrendos ?  


Reitero, nem percam tempo em contra argumentar que existem pessoas com tal mentalidade, porque de pronto lhes digo : sim, sei que existem, mas representam uma minoria ínfima.
Partindo dessa premissa, se a cidade é uma extensão de nossas casas, por que devemos aturar a destruição sistemática dos equipamentos urbanos; os monumentos; jardins & parques ?


Por que devemos nos acostumar com o lixo espalhado nas ruas; calçadas quebradas; lixeiras estraçalhadas pelos vândalos ?


Por que vivemos em meio a escombros, odores fétidos; placas de sinalização rabiscadas ?
Enfim, por que no Brasil ainda impera a mentalidade da miséria urbana, como padrão ?


Então chego ao último item que teria uma possível explicação acadêmica : trata-se de uma questão cultural.


Visto sob parâmetro sociológico, em países como a Finlândia; Suécia; Japão; Alemanha, e Suíça, para ficarmos em poucos exemplos apenas, a quase ausência de vandalismos em suas respectivas sociedades, denotam um outro tipo de mentalidade cultural generalizada, e que faz toda a diferença, portanto.


Em suma, como quase tudo o que envolve comportamento, a chave é : educação.
Se desde pequeno, o cidadão for educado a não achar correto jogar a embalagem de uma bala no chão; a não achar bonito rabiscar a parede com canetinha; a respeitar as regras de trânsito, mesmo como pedestre, e que os monumentos da cidade são objetos de arte, e que representam simbolismos importantes da sua própria história, tanto quanto os seus álbuns de fotografias de família, que ele não destruiria, acredito que em duas gerações, no máximo, as coisas mudariam.


Portanto, o desafio educacional vai muito além da erradicação do analfabetismo, tampouco a melhora da qualificação para o “mercado de trabalho”.


A grande tarefa é mudar a mentalidade de um povo que se divide entre os que acham “legal” viver num chiqueiro; e os que sentem resignação por esse status quo, pois simplesmente não acreditam que o Brasil possa ter outra qualificação sociocultural.


Voltando ao início da matéria, de onde vieram mesmo os vândalos , aqueles trogloditas bárbaros que horrorizaram Roma ?


E o que se tornou a Alemanha , séculos depois, senão um exemplo de organização social de altíssimo padrão civilizatório ?


Pois é...educação !!
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2015