terça-feira, 22 de setembro de 2015

Cosmo Drah - Por Luiz Domingues



Faz muito tempo que eu tenho boas referências sobre uma banda de Rock paulistana e contemporânea, chamada Cosmo Drah.

Não foi uma ou duas pessoas, mas várias que a elogiaram, atribuindo-lhe diversas qualidades.
Falavam-me  sobre a qualidade de suas composições, com arranjos muito bem elaborados; um vocalista de “gogó forte”, instrumentistas de muita técnica; letras incisivas; e muita inspiração na música produzida nas décadas de sessenta e setenta do século passado, tanto no Rock, como na MPB.
Sabia que haviam lançado um EP anos atrás, mas nunca tive a oportunidade de escutá-lo com atenção, e devido à minha tardia entrada no mundo virtual, demorei a ver vídeos da banda ao vivo, e quando os assisti, sim, comprovei que os elogios procediam e a banda tinha todos esses atributos.

Mas nada melhor que enfim ouvir com calma um álbum, com material inédito, e bem produzido em estúdio.
O disco homônimo do Cosmo Drah mostra essa determinação de se fazer Rock autoral com muita força expressiva, e sem nenhuma intenção de fazer concessão alguma ao sistema bandido, armado na difusão cultural mainstream deste país.

Só por essa coragem de mostrar seu trabalho sem nenhuma preocupação em tentar adequar-se ao que os formadores de opinião querem (esses famigerados lacaios dos marqueteiros do sistema, que impõe só o que lhes interessa como “moda” a ser seguida pelos que se deixam abduzir), já tem a minha simpatia, mas o disco vai muito além dessa resistência heroica.

Sim, a influência 60/70 é total, e aonde os críticos torcem o nariz, logo se preocupando em bater o carimbo de “datado” no produto, eu enxergo o mérito de se ter o bom gosto de buscar fonte inspiradora nobre, aliás, a melhor possível quando o assunto é Rock.
Se o artista se mostra moderno no seu áudio, mas traz na parte artística tal influência explícita, é a meu ver um “religare”, ao contrário das opiniões em contrário de críticos que abominam a fonte em questão por outras razões, e aí sim, se portando como “datados”, insistindo em bater continência à um paradigma errôneo criado em 1977, de onde se decretou que fazer música bem composta; bem arranjada; e bem tocada, era “feio”. Sim, “faça você mesmo”, mas faça bem feito, ora bolas...

Mergulhando então no disco, a primeira faixa chamada “Labirinto”, apresenta-se com muita contundência sonora. Lembrando bastante o trabalho de bandas Hard-Rock setentistas (Budgie; Toad; Dust; Sir Lord Baltimore; Black Sabbath e outras desse quilate), impressiona pelos ótimos timbres dos instrumentos, e densidade.

O inconformismo da letra, dá uma amostra da amargura que sentem em viver deslocados em meio à um mundo sombrio. Não é lamento, mas constatação :

“O que procuram todos, me machuca.

O que procuro, não há luta

Busco de onde veio essa gente

Que se extermina sutilmente”
“Hospício” vem a seguir como segunda faixa do disco.

Gostei muito do acréscimo de percussão gravada pela musicista Clara Andrade. Tal participação conferiu à música, um swing muito bom, casando-se perfeitamente com a proposta da composição, quase esbarrando no R’n’B, e na Soul Music. Ecos de James Gang, Captain Beyond e Cactus soaram na minha audição/percepção, e algumas passagens mais Hard, remeteram-me ao trabalho intrincado do Módulo Mil, banda brasuca de muita qualidade, do hoje saudoso Daniel Cardona.

Na letra, escrita pelo vocalista Ruben Yannelli, a metáfora é a liberdade. A ideia de cerceamento de ideias e expressão é claustrofóbica e revoltante, sempre.

“Já faz tempo me prenderam

Sem motivo ou razão”...

“O Poder, terceira canção, tem um sabor Country-Rock agradável. 
Remeteu-me aos momentos psicodélicos mais caipiras do Grateful Dead. Uma intervenção muito boa do guitarrista ótimo Carlinhos “Jimi” Junior como convidado da banda, trouxe o sabor de sua grande especialidade, ou seja, o timbre ácido de Jimi Hendrix pilotando uma guitarra Fender Stratocaster.

Mais uma vez, o Cosmo Drah vem com uma letra forte, e chamou-me a atenção que ao contrário de muitos artistas que batem no sistema como se esse fosse o grande culpado de todas as mazelas da civilização, o enfoque foi outro, indo ao âmago da questão, ou seja, o sistema é só uma criação oriunda de um conjunto de paradigmas, e estes nascem na mente do ser humano. Portanto, não é o sistema que nos oprime, mas o próprio ser humano que o criou, realisticamente falando...     

“É uma Síndrome Global,

E o prazer de Ter,

Sem Separar do Verbo Ser”...
A quarta faixa, “Subversão” mostra vários méritos musicais.

Para início de conversa, trata-se de um Hard-Rock “ganchudo”, onde lembrou-me a banda brasileira setentista, A Bôlha, do também saudoso Renato Ladeira.

Gostei bastante das mudanças bruscas entre as partes da canção, remetendo-me ao trabalho da banda germânica Nektar, que era craque nesse recurso estilístico. Até mudança de compasso, entrando num 6/8 bem esperto, o Cosmo Drah nos apresenta. 

Acrescento que existe uma boa intervenção de teclados (executado pelo baixista Elton Amorim), e uma surpresa boa quando num looping dramático, demonstram evocar inspiração em “I Want You”, dos Beatles, com bastante energia.

A quinta faixa é homônima.
Em “Cosmo Drah”, gostei de muitos signos interessantes ali contidos. 

Por exemplo, o bom uso do Wah-Wah pelo guitarrista Anderson Ziemmer; boa intervenção de backing  vocals inspirados na Soul Music; o recurso de ruídos fantasmagóricos dando uma saborosa e criativa estranheza sonora; e um vocal que lembrou bastante o trabalho de bandas como o Uriah Heep e o Queen, que se esmeravam para elaborar corais grandiloquentes.

Cabe uma análise mais pormenorizada sobre o solo dessa canção. 
Sob um bonito arpejo como base, a opção por um solo duplo e sobreposto foi ousada. Terreno espinhoso, pois tal recurso carece de uma observação sempre muita atenciosa da parte da produção do áudio em estúdio, acho que o guitarrista Anderson Ziemmer, e o produtor Thiago Nacif foram felizes, pois souberam desenhar os solos de uma forma criativa.

Solo duplo simultâneo é como arremesso de três pontos numa partida de basquete. É um risco enorme, pela dificuldade em acertar, dando margem ao erro, onde além de não se marcar os três pontos, abre-se chance para a equipe adversária contra-atacar.

Portanto, o Cosmo Drah arriscou, mas acertou a cesta a meu ver, nesse quesito.
“Caos” tem cara de Blues-Rock, bem daquela fase de fim de anos sessenta, lembrando Tem Years After; Fleetwood Mac- fase Peter Green; Taste, e um certo peso a mais que tende ao Grand Funk nos seus primórdios de carreira, e Blue Cheer, naturalmente.

O uso de muitas convenções intrincadas também remete à outra boa influência em minha percepção, aproximando-se do trabalho cerebral do King Crimson.

O que mais chamou-me a atenção na faixa “Nova Estação”, foi a criatividade da letra, em fugir de clichês, muito embora o tema escolhido seja açucarado.

A relação homem-mulher tende a ser difícil para um letrista escrever algo diferente e não sujeito à pieguice que a norteia de forma sempre contundente. 

Portanto, acho que o vocalista Ruben Yannelli foi feliz nesse quesito, driblando os clichês.

“falsidade, chatice...quem é você ?”
Musicalmente, gostei do sabor Rock-MPB setentista, lembrando o trabalho de uma banda histórica como O Terço, por exemplo, mas senti pitadas de Secos & Molhados, também, e uma certa influência porteña de bandas como Pescado Rabioso e Sui Generis, e eu sei que os componentes do Cosmo Drah tem grande apreço ao Rock argentino setentista, aliás, sinal de extremo bom gosto, diga-se de passagem.

“Salamandrah” tem um instrumental bastante rico, lembrando-me o trabalho do Som Imaginário, com tanto colorido harmônico. Mas apresenta também um lado pesado, com certas passagens mostrando a densidade do Black Sabbath. Ouvindo no fone de ouvido e tentando buscar mais detalhes, viajei longe, e senti outras influências bacanas. Pensei no Gandalf; Sweet Leaf; Smoke...ou seja, bandas mais obscuras, mas de grande qualidade naquele panteão 60/70. 

Delírio deste resenhista que vos fala ? 

Idiossincrasia ? 

Ouça e tire sua conclusão !
Gostei muito de “Velho Mestre”, uma canção com forte sabor do Rock Rural setentista. Impossível não remeter ao Sá; Rodrix & Guarabyra, e mesmo aos bons trabalhos solo de Zé Rodrix.

Um bonito solo de violão, e o uso de um teclado etéreo que quase soou como um velho mellotron, são destaques, também.
Em “Mágica do Tempo”, o Cosmo Drah mostrou seu lado “Krautrock”. Lembrando o som de bandas germânicas como o Lucifer’s Friend; Guru-Guru, e Jane, eleva o Hard-Rock pesadão ao patamar do Art-Rock.

A última faixa do álbum, é “Roedor Renegado”. Aqui, há um caldeirão de boas influências amalgamadas.

A já mencionada referência ao Rock argentino setentista, se faz muito presente nesta faixa. Lembra Almendra, mas também tem algo do Blues do Aeroblues, sem dúvida. Tem muito de Rock brasuca setentista, também.

Sobre a atuação individual dos componentes do Cosmo Drah, nesse trabalho, gostei muito.
O baixista Elton Amorim tem bastante técnica e sua criatividade nas linhas que criou, são muito agradáveis. Seu baixo é melódico, bastante incisivo enquanto peso e presença, empolgando em todas as faixas. Acrescento que não poderia ser de outra maneira, dada a quantidade enorme de boas influências que tem na sua formação pessoal, aliás, caso dos quatro componentes.

Gostei muito da bateria de Renato Amorim, irmão de Elton, e outro caso de uma cozinha familiar de alto padrão e entrosamento, tal qual no exemplo dos irmãos Busic, Andria e Ivan.
Ótima condução, com muita criatividade nas viradas; muito firme e preciso, pontual e expressivo no uso dos pratos; e bom gosto extremo na escolha dos timbres das peças de sua batera, com um peso e um brilho muito bons. Claro, o dedo do produtor Thiago Nacif pesa no quesito timbre, tendo esse mérito também.
O guitarrista Anderson Ziemmer é excelente, também. Bom harmonizador e solista, confere muita qualidade ao som do Cosmo Drah. Muito bom nos riffs & licks, brilha muito no disco inteiro.
E finalmente falando do quarto componente, o vocalista Ruben Yannelli, creio que seja uma das grandes vozes da cena do Rock brasileiro da atualidade. Dono de um vozeirão potente, com forte emissão, lembrou-me Luiz Carlos Porto e Fughetti Luz, vocalistas emblemáticos do Rock Brasuca setentista. E seu trabalho como letrista também merece destaque, mostrando inspiração e contundência.

Por falar nisso, sobre a parte poética, é bem verdade que no cômputo geral a banda apresentou nesse disco um clima pesado nas abordagens. Num primeiro olhar, poderia dar a entender que as letras são pessimistas, dadas ao desalento, como uma manifestação de desesperança sombria.

Mas eu descarto essa visão, apesar da aparência inicial, pois nas entrelinhas, não creio que haja tal carga proposital.

Em minha opinião, a proposta é outra, buscando a denúncia, mas sem o conformismo, tampouco o lamento em forma de ”mimimi”, tão comum na atualidade, como observamos nas Redes Sociais da Internet.
Sobre o áudio do disco, gostei bastante. Tem a pressão sonora moderna da era digital, mas as timbragens são bastante agradáveis e semelhantes ao áudio analógico de outrora.

Tudo soa bem proeminente, e na velha escola de padrão de mixagem para uma banda de Rock, onde a voz é tratada como mais um instrumento, e não gritante na frente de tudo, como nas gravações comerciais de intenção pop/radiofônicas.

Sendo assim, realço o bom trabalho do produtor Thiago Nacif, auxiliado pelo “tape engineer”, André Ferraz, do estúdio “Da Paz”.
Há de se destacar também a presença do produtor fonográfico, Eduardo Lemos, que representando a gravadora Melômano Discos, apostou numa banda de qualidade ilibada, embora outsider no mercado mainstream, portanto, atitude assim, pensando na arte e não em cifras, tem que ser muito louvada da parte de quem gosta de música, arte & cultura de uma forma geral, e em específico do Rock brasileiro autoral, e fora de panelas mafiosas.
Sobre a capa, o que dizer de mais um trabalho de Diogo Oliveira ?

Sou muito suspeito para elogiar o trabalho desse enorme artista plástico/publicitário/web designer/músico e grande agitador cultural, pois já desenhou capa de disco de banda minha, muitos cartazes de shows e assinou vídeo-clip de enorme sucesso e criatividade de um trabalho meu.

E constato com alegria, que é mais uma resenha de álbum de uma banda brasileira que preparo (ler sobre o CD “O Voo do Marimbondo”, do Vento Motivo, no arquivo deste Blog), e tenho o prazer de saber que mais uma arte de capa/encarte é assinada por ele.

Sobre a ilustração em si, Diogo buscou o lúdico dentro do realismo fantástico.

Tem um certo sabor Sci-Fi, é verdade, mas o que é marcante mesmo, é o Ser flutuante tocando o solo com o dedo indicador, fazendo alusão ao telúrico.
Mais uma vez o Diogo se mostra um mestre da ilustração, pois nessa sua concepção, sintetizou o trabalho do Cosmo Drah, ao fazer a ponte entre o som que nos faz viajar e a realidade da vida material. É etéreo e chão, ao mesmo tempo.
Um resumo de cada faixa do álbum, nesse "teaser" acima, postado na Internet 

Para conhecer melhor o trabalho do Cosmo Drah, procure a sua página na rede social Facebook :


Para contato direto com a banda, procure :


Vale a pena também conhecer o catálogo da gravadora Melômano Discos :


Recomendo o trabalho do Cosmo Drah, com esse primeiro álbum homônimo, com certeza.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Kim Kehl & Os Kurandeiros - 22/9/2015 - Terça-Feira/20 Horas - Programa Comunidade & Ação - FlixTV

22 de setembro de 2015 

Terça-Feira  -  20:00 horas

Programa Comunidade & Ação

Flix TV

Estarei com os companheiros Kim Kehl e Carlinhos Machado ao vivo no programa "Comunidade & Ação", do comunicador Guto Senatore, ao vivo no estúdio da Flix TV.

Falaremos sobre nossa banda, Kim Kehl & Os Kurandeiros, além de seus desdobramentos (Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada, e Magnólia Blues Band), tocaremos algumas canções em versões acústicas, também.

Assista ao vivo pela Internet : 

http://flixtv.com.br/tv/

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Kim Kehl & Os Kurandeiros - 18/9/2015 - Sexta-Feira/23:30 H. - Spades Café - Baixo Augusta - São Paulo/SP


O terremoto foi fraquinho em São Paulo, nesta última quarta, mas na sexta, o "baixo Augusta" vai tremer, com mais uma noitada de Rock'n Roll & Blues !!

Kim Kehl & Os Kurandeiros

18 de setembro de 2015 - Sexta-Feira - 23:30 horas

Spades Café

Rua Augusta, 339
(Próximo às Estações Anhangabaú e República do Metrô)
 

Consolação
 

São Paulo - SP

KK & K :
 

Kim Kehl - Guitarra e Voz
Carlinhos Machado - Bateria e Voz
Luiz Domingues - Baixo

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A Ginga e a Coragem de Miriam Makeba - Por Luiz Domingues

          
Quando falamos da influência da raiz africana na música criada nas três Américas, a grosso modo é fácil estabelecer um conceito generalizado.


Na América do Sul, o Brasil absorveu a cultura afro, principalmente na formação do seu Samba; na América Central, pulverizou-se em vários países, criando o acento caribenho em diferentes ritmos; e nos Estados Unidos, gerou os dois grandes troncos que tornaram-se árvores frondosas, e com muitos galhos : Jazz & Blues.


Mas o movimento inverso também causou impacto no continente africano.

Se a sua influência fora brutal na construção de tantas escolas musicais diferentes, séculos depois, a música pop das Américas e da Europa, voltaram tal qual um boomerang, e redefiniram o rumo da música pop africana moderna, numa retroalimentação muito interessante.


Muitos artistas africanos foram reverenciados na música comercial pop ocidental, e seu som era bem isso que descrevi superficialmente acima, ou seja, uma mistura das tradições folclóricas locais; suas raízes ricas em sonoridades muito coloridas; alegres, e de divisões rítmicas muito sofisticadas, com a música pop ocidental e mega comercializada, que por sua vez, tinha em suas raízes mais profundas, a mesma fonte africana.


Em meio à esse boom da música africana, alguns artistas, oriundos  de nacionalidades diferentes, desse grande continente, tiveram  oportunidades no show business internacional.


Foi o caso de Miriam Makeba, uma sulafricana.

Cantora de enorme graça e ginga, Miriam teve projeção internacional, mas não só por conta de sua obra e performance como cantora.


O fato, é que Miriam tinha muita consciência sócio política, e sendo negra, numa África do Sul sob regime político racista, tornou-se uma voz contra o execrável regime do Apartheid.

Tentando a vida artística na América e /ou Europa, Miriam, participou  em 1960, de um documentário denominado “Come  Back , Africa”, cuja exibição no famoso  Festival de Cinema de Veneza, chamou a atenção do mundo para o racismo na África do Sul, mas criou-lhe um problemão pessoal, pois seu país caçou-lhe o passaporte, e mais que isso, a cidadania, tornando-a apátrida.

Perambulando por Londres, tornou-se amiga do ator/cantor americano, Harry Belafonte, com o qual estabeleceu parceria.


Sendo também um ativista anti-racista, e um incansável batalhador pelos direitos civis iguais para os negros na América, Belafonte ganhou a companhia de Makeba no ativismo, e a ajudou a construir uma carreira pop internacional, participando de vários lançamentos de discos; singles; e LP’s da cantora africana.

Entre tantas canções, Miriam lançou “Pata Pata”, em 1966, que tornou-se febre mundial, entrando nos charts, numa época em que The Beatles; Rolling Stones; Bob Dylan, e diversos artistas da Black Music, o compunham normalmente.


Mas como o ativismo era forte para ela, não se deitou no berço esplêndido do sucesso pop imediato, e continuou agindo e incomodando muita gente, certamente.


Para agravar a animosidade das forças contrárias às suas ideias libertárias, casou-se em 1968 com um ativista que era monitorado pela CIA / FBI, Pentágono etc etc.

Tratava-se de Stokely Carmichael, simplesmente o líder dos Panteras Negras, uma partido revolucionário, apócrifo, e não reconhecido pelo governo americano, por trazer ideias explosivas à mentalidade americana, em seu espectro político, como o socialismo, por exemplo e claro, seu carro chefe era a luta pelos direitos civis dos negros.


Stokely Carmichael foi o criador da expressão “Black Power”, que extrapolou o statement político, marcando época, não só na
América, mas espalhando-se pelo mundo todo.

Em 1968, Miriam veio ao Brasil, e surfou forte na onda de seu sucesso, “Pata, Pata”.


Já na chegada ao Rio, foi recebida no aeroporto pela bateria da Escola de Samba Mangueira, caindo nos braços do povo.


Visitou todos os programas de TV possíveis e imagináveis da TV no Rio e São Paulo, causando furor com seu mega sucesso.

“Pata, Pata” tinha um swing ocidentalizado que muito se assemelhava ao R’n’B, e a percussão lhe dava um certo ar caribenho, muito dançante.


Numa época em que a Black Music americana estava se popularizando fortemente aqui no Brasil, e Wilson Simonal comandava a onda da “pilantragem” na MPB, a canção de Makeba caiu no gosto popular, instantaneamente.


Claro, brincalhão como sempre, o povo brasileiro tratou de aprontar uma avacalhação com a letra da canção.

Cantada por Makeba num dialeto africano (Xhosa), provocou uma paródia em português que ficou tão famosa quanto a versão original, pela similaridade fonética e claro, pelo caráter galhofeiro que tanta agrada os esculhambadores brasucas...


Onde ela cantava :


“Sata wuguga sat ju benga, sat si pata pata”


O povo se acostumou a cantar :


“Tá com pulga na cueca, vem cá que eu mato”


Pilhéria à parte, Miriam encantou os brasileiros, onde me incluo, vendo-a na TV, na época, 1968.

Sua carreira foi bastante prejudicada depois disso, pelos momentos tensos perpetrados pelos Panteras Negros, cuja ligação dela era total, por conta do marido.


Tiveram que deixar a América inclusive, estabelecendo residência na Guiné.


Em 1973, ela separou-se de Carmichael, mas continuou sendo vigiada e cerceada em muitos aspectos pelas convicções  sociopolíticas.

No ano de 1975, participou ativamente do movimento de libertação de Moçambique, inclusive contribuindo com sua música, “A Luta Continua”, que serviu de slogan para a luta pela libertação do domínio de Portugal.


Nos anos 80, ficou mais afastada da vida artística e teve um momento muito difícil, onde perdeu uma filha, mudando-se para a Bélgica.


Quando Paul Simon lançou o LP Graceland, todo ambientado na sonoridade da música sulafricana, Makeba embarcou nessa onda, e chegou a participar da turnê de divulgação do álbum, como artista convidada de Simon.
Quando o apartheid finalmente encerrou-se na África do Sul, e Nelson Mandela se tornou o presidente daquela nação, Makeba pode enfim retornar à sua pátria, com o restabelecimento de sua nacionalidade.


Momento bonito, Mandela em pessoa a recepcionou no aeroporto, mostrando que a luta havia valido a pena para a artista e ativista.


Seus últimos anos foram tranquilos em solo pátrio, mantendo uma carreira artística local, até falecer em 2008.

Ela não teve apenas “Pata Pata” como sucesso, mas essa canção em questão, a marcou indelevelmente e proporcionou muitas regravações, algumas bacanas inclusive, caso do Osibisa, uma banda de Rock genuinamente africana, mas que era muito respeitada por rockers europeus e americanos, e de fato, era muito boa.


Makeba teve uma morte dramática, mas muito emblemática para qualquer artista, ou seja, morreu no palco, numa apresentação que fazia em Castel Volturno, na Itália, vítima de um ataque cardíaco quando estava cantando.

Não foi exatamente ali durante o concerto que realizava, mas algumas horas depois no hospital, mas pode-se dizer que morreu fazendo o que mais gostava.
Essa foi Miriam Makeba, uma artista pop africana sensacional; ativista; mulher corajosa, e de muito valor.
Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2015

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Anos de Desbunde, Quando a MPB era Hippie e Sensacional - Por Luiz Domingues




Naquele turbilhão de acontecimentos que ocorreram no campo da cultura e com consequências na área sócio / comportamental entre as décadas de sessenta e setenta, a música popular brasileira também sofreu forte influência de tais acontecimentos gerados.


Após décadas sem produzir grandes novidades estéticas, o grande diferencial na MPB havia sido a explosão da Bossa Nova no final dos anos cinquenta, e a música internacional parecia não incomodá-la, havendo a grosso modo, uma convivência pacífica entre as duas correntes.
Mesmo porque, no caso da Bossa Nova, a raiz comum no Jazz como parâmetro, principalmente no tocante à composição e arranjos, privilegiando o uso de harmonia sofisticada, fazia com que a estrutura instrumental de ambos os estilos, fosse bem parecida.


Com exceção de artistas que usavam o violão como acompanhamento, era comum na Bossa Nova, a utilização de uma formação de piano, baixo acústico e bateria para acompanhar cantores dessa escola estética, repetindo o formato do combo clássico de Jazz Stand.


Mas houve um momento em que a nova música pop que vinha principalmente da Inglaterra, começou a incomodar os adeptos da MPB tradicional.
Garotos cabeludos e “barulhentos” tentando reproduzir o som de artistas negros americanos, e com raízes no Blues, entraram com força no imaginário popular, assustando os tradicionalistas com tantas mudanças, forçando-os a reagir da pior maneira possível.   


Numa demonstração de incompreensão e ranço reacionário inadmissível por parte de alguns que nem tinham perfil para se portarem dessa forma, organizaram uma vergonhosa “Marcha contra a Guitarra Elétrica”, como forma de “proteger” a pureza da MPB.
Como artistas de qualidades inquestionáveis, puderam participar de uma jornada lastimável dessa monta ?


Não cabe julgamento, tampouco execração pública, no sentido de que todos estamos sujeitos a errar. Faz parte da vida, em qualquer área, a possibilidade de dar um passo errado e no cômputo geral, sábio é aquele que aproveita o momento de adversidade para crescer em cima de sua coragem de ter tentado, e humildade em reconhecer a falha.


Mas para efeito de história, essa tal “marcha” pode ser considerada um divisor de águas na MPB, que passaria por mudanças drásticas, doravante.


Logo na metade da década, ainda no calor da marcha reacionária e corporativista, começaram a pipocar festivais universitários de MPB, e logo, a ideia foi parar nos canais de televisão.
Nem preciso me alongar nesse parágrafo para exprimir o quanto os festivais da TV Record foram importantes para a MPB.


E dentro deles, a grande capacidade de transformação da MPB, já estava em curso, com jovens incorporando elementos do Rock internacional.
Guitarras, baixo elétrico e teclados eletrônicos entraram com tudo, subindo ao palco para interagir com os instrumentos tradicionais e até de orquestras que costumavam acompanhar cantores da velha guarda, usando smokings, com aquelas vozes impostadas e gestual formal.
Nessa altura, a Jovem Guarda já dava as cartas nas “jovens tardes de domingo”, e a consequente aceitação de cabeludos com guitarras na TV, já inevitável.


Mas a despeito de parecer algo revolucionário, a Jovem Guarda não era Rocker 100%, e nem MPB em sua essência.


Influenciada sim, pelo Pop Bubblegum internacional, via British Invasion, sua amálgama brasileira no entanto, flertava fortemente com o brega dos bairros suburbanos das grandes cidades, e sem muito quilate artístico para se sustentar como estética a entrar para a história, a não ser pelo hype midiático.


Portanto, salvo raras e boas exceções, não foi da Jovem Guarda que a MPB achou novos rumos, apesar de artistas como Roberto Carlos terem se tornado mega populares (e para corroborar a minha tese, a carreira do Roberto, no pós anos sessenta, enveredou para o “romântico popular”, é um fato.)
Por isso, a grande mudança começou para valer mesmo, dentro da explosão dos festivais, onde artistas antenados na modernidade e sobretudo isentos de qualquer ranço reacionário, trouxeram o que havia de mais sensacional no Rock; Black Music; Jazz, e experimentalismo em geral para a nova MPB que se construía ali.


Outro ponto importantíssimo ocorreu ao final da década de sessenta e início dos anos setenta, quando a Black Music se fez presente na MPB, com muita força.
Além de uma safra sensacional de novos artistas surgidos nessa cena Black, com Tim Maia como “síndico desse condomínio”, é claro, alguns outros artistas se aproximaram dessa onda, com bastante inspiração. 

Foi o caso de Marcos Valle, outrora artista consagrado na cena do Samba-Jazz, cujo repertório base até então, privilegiava o samba em várias vertentes, mas depois de conhecer a Soul Music, abriu um novo horizonte na sua carreira, sem dúvida, abrindo-se até para o Rock, nos anos setenta, através de sua própria interpretação, além de cantoras de quilate como Elis Regina e Claudia, por exemplo.

 
E até o Roberto Carlos flertou (e muito bem), com a Black Music. 
Para quem é historiador da música, sabe bem que existiu um hiato na carreira dele, que é muito interessante entre a fase da Jovem Guarda e o mergulho no romântico-brega, onde ele teve um momento "Soul", muito bom, com o apoio do Erasmo Carlos e Tim Maia, sobretudo, que certamente já curtiam essa onda, anteriormente.


Outra vertente que explodiu no início dos anos setenta, foi a de artistas que eram acintosamente influenciados por correntes do Rock internacional, como a psicodelia e o Rock Progressivo.


Nesse aspecto, a proximidade histórica do Rock Progressivo com a música Folk europeia, naturalmente fez com que artistas de diferentes regiões do Brasil, fizessem a mesma associação.


Fato explicável com propriedade por qualquer musicólogo, a música folclórica, seja lá de qual nação represente, tem uma raiz comum e é base primordial da música erudita. Como o Rock Progressivo bebe na fonte da música erudita, sempre se casa com o Folk, de uma maneira harmônica.
Isso explica portanto, a extrema felicidade com a qual os compositores mineiros egressos do movimento que entrou para a história como “Clube da Esquina”, entraram com tudo no mercado setentista, trazendo a música Folk das montanhas mineiras, com sonoridade de Rock Progressivo e inquestionável quilate artístico.
O mesmo raciocínio se dá com alguns artistas nordestinos. A junção de suas raízes folclóricas multifacetadas com o Rock, abriu caminho para uma série de artistas geniais, que uniram a psicodelia hippie, lisérgica e ufologica, ao som do agreste.


No meio da década de setenta, uma safra de artistas anteriormente relegados ao quase anonimato do underground, finalmente veio à tona, graças a um festival que tentava resgatar a aura dos festivais sessentistas. Era o Festival “Abertura”, da Rede Globo, realizado em 1975, e que se não conseguiu o mesmo glamour que pretendia repetir de 1967, ao menos teve o mérito de colocar artistas performáticos na crista da onda.
De minha parte, acrescentando agora a minha impressão pessoal de época, visto que nos anos setenta eu era adolescente e já acompanhava com total interesse tal cena artística, nem eu, nem meus amigos, fazia distinção entre o Rock e a MPB.


Nossa visão era de que as duas escolas caminhavam juntas, ideológica e esteticamente falando, diferenciando-se apenas em formatos, mas como falam os franceses, “Vive La diference” !!



A essência era Hippie, mesmo para artistas que não se coadunavam abertamente em tal conceito.
Se o Walter Franco falava pausadamente em que “Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”, isso era coadunado com o Gilberto Gil dizendo : “Se Oriente rapaz, pela constelação”...
“Viva a Sociedade Alternativa”, poderia ter sido cantado pelo Country Joe McDonald em Woodstock, ou ser palavra de ordem para enaltecer a “Nutopia”do John Lennon...

Com os “cabelos ao vento, gente jovem colorida”, não queremos repetir os erros dos "nossos pais". O negócio é tomar um “táxi para uma estação lunar”, "amiúde, Avohai", ele diz que mora na baleia por vontade própria...
E quem sabe ir para o interior, se instalar numa “Casa no Campo, com meus discos, meus livros e nada mais”, porque “não dá para confiar em quem tem mais de trinta anos”...


Dá para fazer uma série de outras associações, mas a amálgama é sempre a raiz Hippie, com seus ideais de fraternidade; igualdade; amor à arte; liberdade; além de forte apelo espiritualista, com consequentes ligações com a ecologia; ambientalismo; sustentabilidade; anticonsumo; pacifismo, e uma série de outros atributos.
Uma frase da Gal Costa, publicada recentemente (2014), deu a letra : -“A MPB era legal nos anos setenta quando virou Hippie”. Claro, Gal era "le-gal", "to-tal" e "fa-tal"...


De fato, considerando que naquela época, as novidades internacionais sempre chegavam com bastante atraso no Brasil, não é surpreendente constatar que o Flower Power que entrara em declínio no Pós-1969, chegasse no Brasil, alguns anos depois.


Nesse contexto, a explosão Hippie no Brasil foi no início dos anos setenta, e causou esse impacto na MPB, sem dúvida.
Citei poucos artistas e obras nesta matéria, propositalmente, porque esse tema, além de fascinante, gera desdobramentos.
Portanto, para não se tornar um ensaio gigantesco, paro por aqui, mas voltarei ao tema em matérias futuras, porque é um assunto vasto.
Por enquanto, deixo a constatação : a MPB quando era Hippie e "desbundada", era sensacional !!
Matéria escrita inicialmente para a revista impressa Gatos & Alfaces, nº 5, de abril de 2015