sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Existe Vida em Marte, Sim... - Por Luiz Domingues



Quando soube que uma mega exposição sobre a carreira de David Bowie seria inaugurada em Londres, achei a notícia espetacular, pois se existe um artista na história do Rock que construiu uma carreira longa e multifacetada, extrapolando as fronteiras do gênero e até da própria música em si, esse foi Bowie.

Cantor; instrumentista; intérprete; compositor; letrista/poeta; ator /mímico; visionário avantgarde...entre os grandes gênios do Rock, e refiro-me à um panteão inquestionável e recheado de personalidades monstruosamente importantes, Bowie já tinha sua cadeira permanente e imortal, desde os anos setenta, sem dúvida alguma.

Pouco tempo depois, soube que a Exposição viria para São Paulo, em princípio para ser realizada no MAM, o Museu de Arte Moderna, no Parque do Ibirapuera, bem perto da minha residência,  e claro que comemorei a oportunidade e já fiquei ansioso pela confirmação.

O tempo passou e veio a confirmação, mas só que em outro endereço, a exposição sobre David Bowie ocorreria no Mis, o Museu da Imagem e do Som. Um museu charmoso, mas com espaço físico bem menor. Ok, haveria de ser ótimo mesmo assim.

Veio a confirmação no início de 2014, e no segundo dia de exposição aberta, eu fui acompanhado de um velho amigo, José Reis, fã do camaleão e ex-roadie do Pitbulls on Crack, uma banda em que atuei nos anos noventa ao lado do guitarrista / cantor e compositor, Chris Skepis, outro fanático fã de Bowie, e onde tínhamos no repertório da nossa banda, uma releitura de Cracked Actor, que adorávamos tocar ao vivo, e eu particularmente tinha o prazer de refazer a frase original da gaita da gravação do Bowie, no baixo, em nossa versão.
                               Foto : Jani Santana Morales

Quando entrei naquela câmara labiríntica com o fone de ouvido no máximo ouvindo as músicas do mestre, foi como entrar num mundo onírico. 

Tornando-me um personagem ambulante dentro da imaginação de Bowie, podendo olhar cada aspecto da sua genialidade artística em meio à um oceano de informações e sensações, mesmo nas primeiras alas da exposição, eu já estava convencido inteiramente de que seria difícil não mergulhar numa comoção, e olhe que Bowie estava bem vivo naqueles dias...

Aliás, genial a ideia do fone de ouvido obrigatório. Além de provocar a emoção sonora, evitava a tagarelice das pessoas, comum em exposições tradicionais e responsável por extrair grande parte do foco e do prazer.

Logo no início dar de cara com a atmosfera espacial de 1969, e o quanto Space Oddity tinha a ver com tudo isso, já mataria qualquer um. Quem era vivo nessa época sabe bem o quanto a imaginação voou longe com a chegada do homem à Lua, meu caso, e Bowie soube ser o menestrel a dar poesia à efeméride.

Na prática, chegar à Lua era só um homem pisando num deserto inóspito de baixa gravidade e silêncio sepulcral, mas Bowie deu vida para esse momento, tornando-o sublime...can you hear me, Major Tom ??

E lá fomos nós, para desbravar as outras alas...             
 

                                Foto : Jani Santana Morales 

Completamente presos nas teias das aranhas de marte, vendo aquele material de Ziggy Stardust, Hunky Dory; The Man Who Sold the World...

Sentindo-me dentro de um caleidoscópio setentista muito louco, voltei forte no meu próprio tempo, com mil lembranças pessoais se misturando à do artista. Metalinguagem total, misturando sensações e reminiscências, as mais diversas.

Vi Ronson; Bolder & Woodmansey na sua fúria rocker. Alienígenas andróginos e mergulhados na glória do Glam Rock; britânicos até a medula, mas exercendo uma arte pan-cosmopolita interplanetária total...e eu ali pensando no garotinho rocker que eu fora nos anos setenta, sonhando em embarcar na mesma nave. E ali, sonhando acordado eu era um deles...

E o quinhão de Tony Visconti nessa história ? Como se esquecer disso ?
                                 Foto : Jani Santana Morales

Pensando no quanto ouvi Alladin Sane e Pin Ups entre 1973 e 1974, fiquei paralisado por uns instantes, com aquelas peças de memorabilia à minha frente, roupas; objetos; manuscritos; desenhos; croquis; instrumentos; vídeos, e a cada ala, músicas correspondentes a cada  fase enfocada da carreira dele, tocando em trechos, num pout pourri delirante para emocionar, de propósito. 

Aquele piano jazzístico do Mike Garson, com aqueles acordes mega dissonantes...o que era aquilo ???

                                Fotos : Jani Santana Morales

Dou de cara com uma sessão de fotos da capa do disco Diamond Dogs, e aquilo era uma coisa enlouquecedora. Conhecia poucas fotos oficiais, mas a sessão revelava a produção da capa. Bowie híbrido, meio humano / meio canino, e minha imaginação a mil por hora lembrando-me de 1974, e o fascínio que esse disco me exercia, incluso a capa perturbadora. No headphone martelando num looping, “Dodo, Dodo”...


Rebel Rebel, e não importava se era rapaz ou moça...

Ah, a fase americana... Bowie deixando de ser britânico e andando pelas ruas da Philadelphia com ginga de negão soul men...que swing man...jovens americanos : pânico em Detroit, o camaleão chegou !! Fame fame, fame...

Em 1976, li numa revista que Bowie era protagonista de um filme longa metragem de Sci-Fi. Ledo engano para os rockers tupinquins que cunharam a frase : “Bowie virou ator”...

Ele sempre foi ator, a maioria é que não sabia ou não percebeu que seus personagens na música eram fruto de sua experimentação teatral e cinematográfica. Não sabiam que ele fora mímico, fez curso com Lindsay Kemp e filmou um curioso documentário em 1969, chamado “Love You Till Tuesday”, fazendo mímica ?
Em 1977, fui ao cinema para ver “The Man Who Fell to Earth” e saí convencido de que Bowie era mais que um grande artista multimídia, mas não podia ser humano, exatamente a situação de seu personagem no filme...

E as lendas urbanas sobre o seu próximo alter-Ego ?   

Quantas teorias pipocando pelo ar entre 1976 e 1978 para explicar quem era “The Thin White Duke”...

Bowie mergulha então na fase soturna e tecnológica de Berlim. 
Antecipou o Pós-Punk quando o próprio Punk mal estava se impondo. Sonoridades  sombrias, robóticas, estranhas...
1ª Foto : Brian Eno quando era componente do Roxy Music. 2ª Foto : Sessão de fotos para a capa do álbum, "Heroes"

Pode parecer contraditório para quem conhece minhas convicções na música, mas eu adoro aqueles três discos da fase alemã, e parei um bom tempo em frente ao sintetizador onde Brian Eno executou aquela textura toda daqueles discos, e Warsawa explodia no meu headphone...

Passo por uma ala com memorabilia de teatro e cinema. Como não se lembrar que interpretou o “Homem Elefante” na Broadway, quase sem maquiagem, apenas usando de expressão corporal e facial...qualquer ator faria isso ? Penso que não.
                         1ª e 2ª fotos : Jani Santana Morales

Chego à uma câmara redonda, com um cinema de 360º passando trechos de shows dos anos 70, predominam imagens da fase glitter, a minha predileta das prediletas, e ...inúmeras peças de figurino...aquela indumentária inacreditável dos seus anos de ouro como Ziggy Stardust, que via nas fotos e no vídeo do documentário de D.A. Pennebacker...
                                 Foto : Jani Santana Morales 

O pout pourri estava me matando...Ziggy Stardust; Moonage Daydream; Sufraggette City, The Jean Genie, Starman; Queen Bitch; Velvet Goldmine...aqueles filmes passando em 360º e as roupas colocadas em manequins sobre dois púlpitos...caramba estava num ritual surrealista de Magritte, num filme de Federico Fellini, numa viagem psicodélica de Tim Leary...

Ali fiquei mais tempo do que o normal, encostei-me num canto e curti aquele massacre emocional por todos os poros. Pessoas à minha volta choravam, e isso era perfeitamente compreensível.
                                 Foto : Jani Santana Morales

Mais alas e um mergulho na produção mais pop dos anos 1980 e 1990 não eram tão emocionantes para o meu gosto pessoal, mas muita coisa legal para ver e ouvir, não restava dúvida.

Vídeos experimentais louquíssimos; vídeos raros de bastidores dos anos setenta, mais roupas, vídeos de depoimentos de personalidades e pessoas comuns falando dele...

Serious Moonlight e Glass Spider…

Mais arrebentado emocionalmente do que os viciados em heroína jogados de estação em estação em Berlim, passei pelas últimas alas já determinado que precisava de uma nova dose...
                                 Fotos : Jani Santana Morales 

Um pouco antes do Carnaval de 2014, combinei com meu amigo Zé Reis, de voltarmos, e desta feita acompanhados de mais amigos que curtissem Bowie como nós. Tinha de dividir a experiência com outros amigos e assim, mandei E-Mail para os que achei que mais tinham a ver com o grande Camaleão.
                                 Fotos : Jani Santana Morales

A maioria respondeu, mas nem todos confirmaram presença, claro, mesmo sendo Carnaval e a maioria não ter compromissos musicais por serem Rockers e não militarem no mundo do Rei Momo, já tinham outros compromissos, viagens marcadas etc.
                                Fotos : Jani Santana Morales

Alguns confirmaram presença e entre essas pessoas, a editora / proprietária do Blog Limonada Hippie, a quem só conhecia virtualmente e que aproveitando a sua vinda para São Paulo (ela é de Niterói / RJ), para ver a Expo, finalmente nos conheceríamos pessoalmente.  

Acompanhado da querida amiga Fernanda Valente, e diversos amigos que encontrei na fila, constatei que eu não fora o único fã de Bowie que teve a ideia de visitar a Expo numa terça de Carnaval...como assim ? 

O Brasil não é a terra do Carnaval ?? 
                        A fila que dava voltas no quarteirão...

Não para aquelas mais de 2000 pessoas que dobravam o quarteirão na Avenida Europa...

Não consegui reunir os amigos na “Expedição Bowie”, título do E-mail que disparei fazendo a convocação geral, porque quando cheguei com amiga Fernanda, a fila já era gigantesca e avistei vários deles em pontos diferentes da fila, portanto, não dava para ficarmos juntos.
                     1ª e 2ª fotos, clicks de Jani Santana Morales

Fiquei mais ou menos perto da Renata Martinelli, cantora superb; Kim Kehl & Lara Pap; Carlinhos Machado e o mais fanático dos Bowiemaníacos que eu já conheci, Chris Skepis, meu ex-companheiro de Pitbulls on Crack. Ali conheci seu filho, chamado Brian Jones, ou seja, dispensa explicações  a escolha do nome do garoto, e com apenas 14 anos de idade, doido por Rock setentista, fã de Gentle Giant...Chris fez um belo trabalho educacional com o menino...

José Reis, nosso amigo em comum, estava perto de Chris, sua esposa Lucia, e o jovem Brian.

Vi também a amiga e produtora Jani Santana Morales (que gentilmente cedeu-me muitas fotos para ilustrar a matéria no Blog Limonada Hippie, e aqui no meu Blog 1, também), que tanto tem trabalhado para resgatar material de bandas por onde passei, desde 2015. E ali, também nos conhecemos pessoalmente, visto que éramos amigos virtuais até então.
                                 Foto : Jani Santana Morales


Foi uma espera cansativa, reconheço. Quando eu e Fernanda Valente entramos, contabilizamos mais de três horas de espera, mas valeu a pena levar os amigos e ter contato com aquela experiência sensorial novamente...

Bowie morreu no dia 10 de janeiro de 2016. Só soube no dia 11.

Não postei nada nas redes sociais, mas apoiei postagens de alguns amigos lamentando a perda.

Não havia escrito sobre a exposição de 2014, e achei que o tempo passara e uma matéria / resenha atrasada não valeria a pena.

Aí veio o dia 10 de janeiro de 2016, e Bowie aparecendo em tudo quanto era reportagem de internet e TV, e percebi que precisava repassar essa emoção aos leitores...

Bye, bye mestre camaleão, agora você volta ao seu planeta, e lá fará um som magnífico com Mick Ronson e Trevor Bolder que haviam partido antes. As Aranhas de Marte vão brilhar de novo no Cosmos...

Sempre que ouvia-o cantando “My Death”, pensava que um dia isso chegaria e chegou...

Acho que precisava escrever e comemorar o fato de que fui à exposição, duas vezes em 2014, assim como fora em dois shows do Bowie em 1990.

No Rio de Janeiro, ele cantou "Station to Station"; em São Paulo, "Life on Mars"...sou um afortunado...

E quer saber ? 

Este planeta fica insuportável sem David Bowie !

Hey, Major Tom, tem lugar aí no seu foguete para mais um ? 

Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2016.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Teko Porã - Por Luiz Domingues


Artistas de rua são muito comuns na Europa, Estados Unidos e outros países, não necessariamente de primeiro mundo, mas claro, predominantemente neles.

No Brasil, cujo povo se arvora de ser multifacetado, culturalmente  falando, e supostamente aberto a manifestações culturais não usuais, na prática, ainda existe um preconceito enorme para com artistas que se expressam nas ruas, estações de metrô e outros locais públicos.

Nos últimos anos esse panorama tem melhorado, não posso negar, mas acredito que ainda esteja muito aquém do ideal. 

Em São Paulo, onde vivo, percebo que os espaços públicos vem sendo ocupados por muitos artistas de diversas vertentes, fazendo suas performances nas praças públicas e estações do Metrô.

Já vi de tudo : de atores declamando monólogos a mágicos fazendo pequenos sketches de ilusionismos; muitos artistas de vocação circense realizando exibições acrobáticas; além de muitos artistas plásticos pintando, desenhando  etc etc.

Mas a grande predominância da arte de rua fica por conta mesmo dos músicos e de fato, aumentou muito a frequência de artistas tocando e cantando nas ruas de São Paulo nos últimos anos.

Salutar pelo aspecto da livre expressão artística, tem também seu lado obscuro, na medida em que não obstante ser uma experiência rica para o artista estar exercendo sua arte em meio ao povo nas ruas, denota também a absoluta falta de oportunidades para a maioria esmagadora, que simplesmente vive à margem da difusão cultural mainstream e por conseguinte, das chances para apresentarem-se em teatros; casas de espetáculos; centros culturais com a infra estrutura de som; luz; cenografia; camarins e conforto para o seu público poder apreciar sua obra de forma integral.

Nesses termos, tenho visto artistas de diversos ramos da música criando situações de total improviso para se apresentarem.

De bandas de Rock sensacionais a combos de Jazz e Blues com músicos de alto quilate técnico; músicos de orientação de MPB na base do violão & voz; grupos folclóricos latino americanos com instrumentos típicos; corais e percussionistas afrobrasileiros.

Um grupo que me chamou a atenção e cujo disco de estreia, homônimo, chegou às minhas mãos por intermédio do Rocker; ator, e agitador cultural, Kico Stone, é o Teko Porã.

Já os conhecia de vista, vendo-os circulando por estações do metrô, notadamente as que mais uso, perto da minha residência, estações Ana Rosa e Vila Mariana.

Jovens bem apessoados, com visual de artistas saltimbancos, mezzo-ciganos / mezzo Hippies sessentistas, chamam a atenção andando pelas redondezas, carregando seus instrumentos.

Na formação desse primeiro EP, (já foi um sexteto anteriormente), trata-se de um quarteto vocal e instrumental, formado por dois rapazes e duas moças, que utilizam instrumentos acústicos tradicionais (violão; violão de 7 cordas; violino; bandolim; acordeom; bandoneón; vários instrumentos de percussão etc).
Nas estações de metrô onde costumam se apresentar, tocam suas canções autorais e muitas releituras de clássicos da música brasileira e internacional, encantando os transeuntes que se dispõe a perder alguns minutos de sua vida acelerada, ouvindo boa música.

Primeiro ponto : são ótimos instrumentistas e vocalistas. Nem todo mundo que toca na rua tem essa qualidade, e isso já é um mérito a mais para o Teko Porã.
Segundo aspecto : no caldeirão de influências que sua obra se baseia, só tem exemplos ótimos.

Ouvindo seu EP de estreia e vendo os vários vídeos disponíveis de suas performances ao vivo pelas estações do Metrô e praças públicas, fica patente que cresceram ouvindo música Folk de diversas etnias e culturas; MPB da Velha Guarda; música de raiz caipira; Jazz Cigano; Soft Rock das décadas de sessenta e setenta, e mais uma série de coisas absolutamente incríveis e fora do esquadro da anticultura / subcultura que domina o panorama cultural do Brasil há anos.

Isso explica o fato de não estarem na mídia, apesar do talento enorme que tem, fora a capacitação musical milhas acima da média. 

Por um lado, ainda bem que não compactuam com o status quo dessa perversidade cultural que domina a difusão mainstream, por outro, padecem pela falta de reconhecimento e apoio que merecem ter.

Sobre o EP, a produção é muito enxuta, gostei demais do áudio, privilegiando os timbres naturais de instrumentos acústicos.

Tem a pressão sonora de uma gravação digital moderna, mas nada que comprometa a extrema doçura das canções, e sobretudo os timbres dos instrumentos e vozes desses artistas.

A capa é muito bonita, apresentando um tecido bordado, multicolorido e com o nome da banda num relevo, em destaque. É simples, mas muito funcional e expressiva no sentido de que denota na imagem e nas cores, o colorido multicultural que é a proposta artística do Teko Porã.

Aliás, cabe acrescentar que a expressão “Teko Porã", significa “Bem Viver”, no idioma indígena “guarani”.

Sua formação fixa atual é a de um quarteto, com Marília Calderón (voz; guitalelê; acordeom; bandoleón); Pablo Nomás (violão de 7 cordas); Juan Morales (bandolim) e Fernanda Leal (violino).

No disco, tiveram a presença de dois ex-componentes da banda, como André Ladeia (violino), e Léa Gonçalves (violino), além de terem convidado quatro músicos em participações especiais : Renan Monteiro (percussão); Antonio de Souza (violino); Fabio Aguiar (trompete), e Rafael Massi (washboard).

O disco foi gravado em três estúdios : Mosh; Carbonos, e Mono Mono, com a mixagem e masterização concluída no Carbonos.

O projeto da capa ficou a cargo de Maria Renata Morales.    

Produção de Heron Coelho e Teko Porã.

A primeira faixa do disco é : “A Velha Nova”.

Tendo o violino como protagonista a desenhar sua melodia primordial, gostei muito do arranjo, com as cordas dando suporte com pausas estratégicas, e um staccato dramático na parte B, que realçou demais a composição.

É folk europeu em essência, mas notam-se amálgamas múltiplas, misturando conceitos. Tem muito de música cigana do leste europeu, mas também algo de andino, sutil. Lembra as imagens de Chaplin, no sentido de que seu vagabundo adorável tem muito a ver com as andanças do próprio Teko Porã pelas ruas de São Paulo, a espalhar beleza e doçura em meio ao caos urbano agressivo do cotidiano. É muito bonita a construção da melodia principal e André Ladeia brilha com sua técnica ao violino.

“Quem Souber” é um achado. 

Lembra de certa forma o trabalho do Grupo Rumo no início dos anos oitenta, onde havia uma grande preocupação de se fazer música com conceitos nada comerciais, buscando referências em aspectos só valorizados normalmente por musicólogos, e portanto circunscritos aos grupos acadêmicos de estudiosos da universidade.
                                Foto : Viviane Entenza

Nessa circunstância, a canção tem um sabor de MPB da Velha Guarda, com uma brejeirice deliciosa, e a voz de Marília Calderón nos proporciona tal viagem.

É como se estivéssemos num trem Maria Fumaça de antigamente, rumo ao interior do Brasil no início do século XX, curtindo todos aqueles signos inerentes da cultura de tal época. Absolutamente incrível.

Lembra em alguns aspectos, uma canção infantil, principalmente pelo desenho fragmentado da melodia, dividindo sílabas, quase como se tivesse intenção pedagógica.

Mas há o contraponto, quando nas partes B e C, a melodia assume um formato mais intenso, num jogo de palavras dos mais interessantes.

Gostei bastante das intervenções do bandolim com toques flamenco, de Juan Morales, demonstrando técnica e versatilidade e a harmonia muito bonita só valorizou suas intervenções. Pablo Nomás também solta a mão com seu violão de 7 cordas em intervenções curtas, mas muito bonitas, além de Fernanda Leal ao violino, ser ótima.

“Quem Souber não me dirá

Qual a hora de partir

Seu lugar onde será

Você tem que descobrir”

Só pelos primeiros versos da canção, dá para imaginar que a melhor coisa é ouvir tudo e descobrir sozinho o prazer dessa imersão poética.

“Folhas Caídas” passeia entre a toada; o madrigal renascentista e o Pop Rock sofisticado que há anos eu não escutava, desde o trabalho dos Secos & Molhados, além de um certo “quê” de Folk americano via Bob Dylan, mas podia ser também o Zé Ramalho em seu Chão de Giz, tranquilamente.

Pelos créditos do encarte do álbum, suponho serem de Antonio de Souza as intervenções com seu violino entre o erudito e o cigano, mas soltando algumas frases que remeteram-me ao Blue Grass lá do Mississippi. 

“Até onde vai a vista
Só pântanos e neblina
Nem um pássaro se arrisca a cantar
Há folhas caídas em chamas, e nós cavando a grama com a pá” 

Apesar da letra ter proposta lúgubre, claro que há beleza nessa poesia, gostei muito.

“A Peste da Dança” tem a providencial participação do percussionista Renan Monteiro. Gostei bastante desse elemento a mais para a canção.

Instrumental, tem seu lado cigano forte, mas também uma irresistível influência Yiddish. Agradaria numa festa cigana e também num Bar Mitzvah, acredito.

A quinta faixa, também instrumental, tem o explícito título de “Samba Eslavo”. 

Muito animada, mais parece eslava na prática, e se tem algo de brasuca nessa receita, talvez seja nas sutilezas do violão de sete cordas e na percussão, ainda que nada que seja explicitamente brasileiro tenho sido insinuado pelo percussionista convidado, Renan Monteiro.  

Já em “Solidão do Joca”, a música de raiz do interior calou fundo.

Absolutamente adorável a toada caipira com os instrumentos de cordas se esbaldando nos seus respectivos arranjos, buscando elementos típicos dessa egrégora.

É como escutar uma velha canção da Inezita Barroso, com uma letra espirituosa a misturar signos prosaicos com referências da cultura pop moderna.

“Tava em casa solitário cabulando academia, quando o noticiário anunciou...epidemia

Descobri que era doença aquela minha solidão, fui no Dr. pedir licença pra tomar medicação 

Dessa doença eu não entendo, tinha mais de mil amigos todos os dias...no Facebook"...

“Navio Canção” lembra um fado de certa forma, mas tem alguns elementos que remetem até ao Rock progressivo, ouso dizer, principalmente no violino do convidado especial, Antonio de Souza que busca fraseados cerebrais em alguns momentos, que fizeram-me lembrar de David Cross no King Crimson; ou mesmo Ray Shulman no Gentle Giant.

“Poucos Acasos” mergulha no Jazz festivo de New Orleans, com aquele sabor creole, sensacional.

Pablo Nomás comandou a interpretação vocal com bastante firmeza.

Espertíssimas as intervenções de músicos convidados, no caso, Fabio Aguiar ao trompete e Rafael Massi no Washboard.

Gostei muito da melodia principal e do arranjo geral da canção.
A letra trouxe algo de antropológico, numa primeira leitura, mas é também o fruto das observações deles mesmos, acredito, vendo as pessoas apressadas passando ao seu redor em suas apresentações em lugares públicos, em seu frenesi cotidiano, lutando numa vida massacrante em eterna busca pela sobrevivência, e tendo como melhor perspectiva, alguns prazeres hedonistas, apenas.

“Todos em volta sempre a olhar

Os poucos acasos que devemos passar

Cada um deles com suas circunstâncias

Novas perspectivas, poucas esperanças

Nascer, crescer, perpetuar

Envelhecer, morrer aqui”...

Em suma, um disco adorável de estreia e por ser curtinho, na verdade um EP, nos deixa com vontade de ouvir mais, ansiando por um novo trabalho em breve.
Nem só de apresentações de rua eles tem se valido, soube que já tocaram em unidades do Sesc, o que é ótimo e lhes dá a estrutura que sua arte merece.

Mas, deixo a ressalva de que precisam de muito mais apoio do que tem obtido, pois um trabalho dessa qualidade precisa alcançar camadas maiores do público, sem dúvida.

Existem vários vídeos do Teko Porã no You Tube, mostrando suas apresentações em estações de Metrô, e muitas dentro dos vagões em movimento, além de apresentações nas ruas e praças.

Um documentário bem curtinho fala sobre o trabalho desse jovem grupo folk, com depoimentos bacanas e trechos de suas apresentações regulares.
Eis o Link para assistir no You Tube :

E abaixo, o álbum homônimo, objeto desta resenha, para degustação do leitor / ouvinte :

Para maiores informações do trabalho do Teko Porã, acesse sua página no Facebook :


Contato direto com o Teko Porã :


Eu recomendo o Teko Porã, com ênfase !