sábado, 28 de maio de 2016

Jornalismo da Rede Globo Já Foi Embalado pelo Rock Setentista - Por Luiz Domingues



Houve época no jornalismo da TV Globo, em que trechos de obras do Rock setentista, principalmente, foram usados como vinhetas de seus programas.


Tempo bom em que se preocupava em colocar música de qualidade para ilustrar as vinhetas de abertura ou encerramento, e diferentemente dos dias atuais onde se prefere usar muzak eletrônico descartável, na maioria dos casos.

Um exemplo disso é que desde sua primeira edição em setembro de 1969, o Jornal Nacional da TV Globo, utilizou a música “The Fuzz”, de um compositor norte americano chamado Frank De Vol como sua vinheta oficial. 


De Vol não era um rocker propriamente dito, mas sua trilha orquestrada tinha um certo sabor Rock em sua composição e arranjo, seguindo a onda das trilhas de seriados policiais americanos do fim daquela década, usando temas orquestrados na tradição dos standarts jazzísticos, mas usando fartamente elementos do Rock, como novidade estilística.
O compositor Frank de Vol, autor do tema de abertura do Jornal Nacional, usado desde 1969, aos dias atuais 
 
Daí o uso de guitarra com muitos pedais modernos para a época, como o Fuzz, por exemplo, e coincidentemente, o nome desse pedal é o nome da trilha utilizada pelo Jornal Nacional da Globo, até hoje, se bem que já foi repaginada muitas vezes com gravações mais modernas.


Uma curiosidade engraçada e revelada pelo então diretor geral da emissora, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, popular Boni, foi que a escolha dessa música de Frank De Vol foi totalmente improvisada. Descontente com as duas músicas que haviam sido encomendas especialmente para a estreia do programa, Boni mandou um funcionário da produção numa loja de discos comprar qualquer tema instrumental que o rapaz achasse, e este chegou com o compacto de “The Fuzz”, de Frank De Vol em mãos...e mal sabiam que tal música escolhida a esmo ficaria no ar por quase 50 anos e certamente que De Vol e sua família (Frank De Vol faleceu em 1999), não esperaria ganhar tantos royalties vindo de um país como o Brasil.


Eis abaixo o áudio da composição e arranjo original de Frank De Vol :


Agora, há uma confusão muito grande sobre a trilha original desse programa jornalístico, por conta da vinheta de um comercial veiculado antes do início da transmissão, representando o seu primeiro patrocinador, que era o Banco Nacional. Nessa vinheta do patrocinador, a trilha era a canção “Summer of 68”, do Pink Floyd (do LP Atom Heart Mother, de 1970), e muita gente associava tal canção como a verdadeira trilha do Jornal Nacional, com  a confusão pelo fato do Banco em questão também se chamar “Nacional” (e era um banco particular, mais uma confusão gerada, portanto).


Abaixo, a vinheta do patrocinador do Jornal Nacional, usando “Summer of 68” do Pink Floyd :



A capa do LP Atom Heart Mother, do Pink Floyd, lançado em 1970

Bem, esclarecimentos à parte, o importante é que toda noite, por um bom tempo, entre 1970 e 1972 mais ou menos, ouvia-se Pink Floyd na TV Globo.

Outra trilha que marcou época e perdura até os dias atuais, é a da pujante abertura do Globo Repórter. No seu início, em 1973, uma grande celeuma foi criada em torno de tal tema musical, que nos seus primórdios era apresentada em seu arranjo original na gravação de um enigmático grupo de Rock que ninguém conhecia, chamado : J.B. Pickers.


Em nenhum compêndio sobre Rock havia a mínima informação sobre tal conjunto musical e isso suscitou a lenda urbana de que o tema era uma obra do Captain Beefheart, e até houve uma segunda lenda, dando conta de que teria sido composta e gravada pela banda de apoio dos Secos & Molhados, que aliás, era uma tremenda banda.


O tema em si é bastante energético, transitando entre o Hard-Rock e o Jazz Rock, mas com uma certa aspereza que remete ao Krautrock. Percebe-se ainda mais essa influência se levarmos em conta que no meio do tema, tem bastante espaço para experimentalismos nada pop, outra marca registrada da citada escola germânica setentista.


Contudo, a realidade era que J.B. Pickers, além de ser americano e não europeu como se suspeitou, não era uma banda de carreira, mas apenas um nome improvisado que foi dado para justificar o lançamento da música “Freedom of Experience”.
Jim Bowen, em foto dos anos cinquenta, empunhando uma guitarra

J.B. eram na verdade as iniciais de Jim Bowen, um baixista que tinha pouca projeção no metiér do Rock americano cinquentista, e que no seu curriculum havia apenas a participação numa banda de Rockabilly que chamara a atenção de Roy Orbison, por volta de 1957, que a apadrinhou, chamada “The Orchids”.


Não fez nenhum sucesso, apesar das bênçãos do grande Roy Orbison, e de ter se apresentado em alguns shows promovidos pelo badalado radialista Alan Freed.

Dedicando-se à produção musical na década de sessenta inteira e início dos anos setenta, Jim teve uma oportunidade quando foi convidado a compor três músicas para a trilha de um filme chamado “Vanishing Point” (que aliás eu recomendo, por ser muito bom, com ótima trilha sonora). 

Eis o Link para ouvir a trilha sonora desse filme citado :

Trata-se de um roadie movie contracultural lançado em 1971, que não teve sucesso de público, sendo restrito ao pequeno mundo de cinéfilos, curtidores de filmes de arte e hippies & freaks ligados em contracultura. Uma dessas músicas que constam no filme, é “Freedom of Experience” que acabou se tornando vinheta oficial do Globo Repórter.


Eis o tema original de "Freedom of Experience" com Jim Bowen Pickers, que imortalizou-se como vinheta do Globo Repórter :

https://www.youtube.com/watch?v=dc2JjsxiHhg 



O jornal vespertino "Hoje", que existe inclusive até os dias atuais, também se utilizou de material de bandas de Rock setentistas para suas vinhetas. Na 1ª foto, os apresentadores de 1972, da esquerda para a direita : Márcia Mendes; Big Boy (Hello, Crazy People !!); e Marisa Raja Gabaglia. Sentada : Scarlet Moon. Infelizmente, todos dessa foto, já partiram para o "lado de lá". Na segunda foto, Nelson Motta, também na bancada do Jornal "Hoje".

Por volta de 1975, Rick Wakeman apareceu com força, emprestando seus temas Prog Rock para o Jornal da Globo, noturno, que antecedia a sessão coruja de cinema. “Ann Boleyn” do seu primeiro disco solo, “The Six Wives of Henry VIII” e trechos do segundo disco, “Journey to the Center of the Earth, são exemplos. 
Otto Lara Resende entrevistando Nelson Rodrigues no Jornal da Globo, por volta de 1977 (o último noticiário da grade noturna dessa emissora, que existe até hoje, inclusive), cujo tema de abertura, era um trecho de abertura, era um trecho da música : "Karn Evil Nine / Third Impression", do Emerson; Lake & Palmer.

Abaixo, a capa do LP "Brain Salad Surgery", do Emerson; Lake & Palmer, lançado em 1973, onde a referida música se encontra. 
Abaixo, as três faixas conceituais da música "Karn Evil Nine". Na faixa "1st Impression", tem também um trecho que foi usado para vinheta de jornalismo da casa. Ouça do trecho 3:42", até 4:17".

A faixa "2st Impression", que começa na postagem abaixo no instante 13:23", logo no seu início também foi bastante usada. Ouça do início (13:23"), até o momento 13:46".

Para encontrar a "Third Impression", acesse a partir do trecho 20:31", e para ouvir o trecho específico que serviu de vinheta para o Jornal da Globo, procure a partir do momento 27:00, até 27:34".

Depois de sanada a curiosidade sobre os trechos em questão, recomendo que volte e ouça as três faixas na íntegra...porque é bom demais...




 

Os geniais italianos da banda de Rock Progressivo, Premiata Forneria Marconi (PFM), acima na 1ª foto, e abaixo, na 2ª; os alemães do Passport, banda de Jazz-Rock instrumental

O Rock progressivo italiano da Premiata Forneria Marconi apareceu um pouco também no Jornal Hoje, no início das tardes, além do Jazz Rock do Passport, uma banda alemã que chegou a se apresentar no Brasil ainda naquela década de setenta. 


Mas aí a década de setenta foi terminando e o direcionamento foi mudando, tirando o Rock das vinhetas e o substituindo por muzak eletrônico, inclusive usando tal artifício para repaginar temas tradicionais como o do Jornal Nacional; Globo Repórter; Fantástico; Jornal da Globo e Jornal Hoje; seus jornalísticos mais longevos, fora os mais novos que já nasceram com tal orientação.
Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2016

domingo, 22 de maio de 2016

Cine Bijou, uma Joia Cultural na Praça Roosevelt - Por Luiz Domingues




Inaugurado numa época onde a força dos cinemas de rua ainda era muito grande em São Paulo, o Cine Bijou tinha seu charme e diferencial por outros aspectos.


Fugindo da tendência dos cinemas gigantescos e luxuosos (alguns bem Kitsch, convenhamos), o Bijou era uma sala modesta, de apenas 137 poltronas, com decoração simples, sem exageros.


Todavia, o grande diferencial estava na programação, com a opção pelo cinema de arte; alternativos; documentários e outras peças impossíveis de serem exibidas em salas tradicionais da cidade.
Com essa característica assumida de cine-clube, e aberto ao público em geral, ganhou admiradores de imediato, atraindo o jovem público universitário que cercava a Praça Roosevelt, numa época em que o Campus da USP ainda estava sendo construído, e portanto, suas diversas faculdades se espalhavam por prédios esparsos pelo centro da cidade de São Paulo.
Mas também atraiu a classe artística, o pessoal do meio teatral que sempre frequentou aquele pedaço, principalmente, por conta da existência de inúmeros teatros nas redondezas e uma infinidade de restaurantes; bares e lanchonetes frequentados por atores; diretores; técnicos; autores etc.


Logicamente isso também atraiu músicos que se apresentavam em casas noturnas daquele entorno e por conseguinte, gente do cinema; artes plásticas; escritores; poetas; jornalistas e cronistas...
Bingo, estava formatada uma clientela assídua, formada por intelectuais, fazendo com que a fama da sala a tornasse de fato, uma referência cultural muito forte para os paulistanos.


Numa época onde o centro velho de São Paulo ainda não apresentava sinais de degradação, a noite era movimentada como já disse anteriormente e o Cine Bijou era um ponto certo para um programa sempre de ótimo nível, e abrindo a possibilidade da noite ser “esticada” com visita à um teatro; show musical; jantares ou noitadas pelas boites das cercanias.
Era o ano de 1962, e um rapaz estrangeiro chamado Harry Wilhoit, cuja nacionalidade é controversa, pois alguns afirmam que era francês e outros, americano, fundou o Cine Bijou. Ele era um ex-funcionário da Universal Pictures, segundo consta.


Exibindo filmes europeus, japoneses ou americanos alternativos e nada Hollywoodianos, agradava em cheio à esse público sedento por um cinema menos ou nada comercial, padrão nas salas de cinema tradicionais da cidade.


A fina flor do cinema francês; italiano e japonês, entre outras escolas e nacionalidades, ali foi exibida para deleite dos cinéfilos paulistanos.
A Nouvelle Vague francesa bateu ponto na Praça Roosevelt, assim como o pós-neorrealismo italiano de Fellini e Antonioni, para deleite dos cinéfilos.


No período pré-golpe de 1964, apesar das tensões que já haviam no ar por conta da turbulência sociopolítica gerada, ainda não haviam problemas para a exibição de filmes por conta da censura, e nem mesmo no período inicial da ditadura, quando a pressão sobre a cultura iniciou-se de forma branda, só piorando mesmo após a decretação do AI-5, em dezembro de 1968.
Portanto, filmes como “Mimi, o Metalúrgico”, de Lina Wertmuller, e “ A Classe Operária vai ao Paraíso”, de Elio Petri, foram exibidos no Cine Bijou, nos anos de chumbo, mas não sem antes um longo papo de convencimento com os senhores censores de que não eram “subversivos” etc e tal.


Por volta do final dos anos sessenta, o cinema foi vendido para o empreendedor cultural Francisco Coelho, que manteve o mesmo espírito alternativo, apesar de ser dono de cinemas tradicionais nos bairros do Brás e Penha, na zona leste de São Paulo. Sua perspicácia em não mudar a orientação do Bijou, foi genial.
Ao final dos anos sessenta, e por quase toda a década de setenta, filmes e documentários de teor contracultural fizeram a festa no Bijou, e o espaço também se tornou um grande ponto de referência para Hippies; Rockers & Freaks em geral.
Históricas as sessões que exibiram filmes como Easy Rider; The Trip; Zabriskie Point, além dos documentários sobre os festivais de Monterey’ 1967; Woodstock; Altamont; e a turnê de Joe Cocker de 1970, Mad Dogs and the Englishmen, entre tantos outros que evocavam a cultura Pop; Contracultura; Rock e afins.


No ano de 1972, passou por uma ampliação, agora apresentando uma nova sala, que passou a chamar-se Sala Bijou Sérgio Cardoso.
Minha ligação pessoal com o Cine Bijou vem daí, anos setenta, quando entrei na adolescência e mesclei duas paixões. Uma que vinha desde a tenra infância, que era o cinema, e posteriormente o mergulho no desbunde contracultural, via música e demais signos inerentes.
Causa-me uma incrível nostalgia pensar nas inúmeras sessões de cinema que ali presenciei, não só pela qualidade das obras exibidas que escolhi ver, mas também pela aura sensacional que a época nos proporcionava.


Claro, nas ruas o baixo astral da época cinza da ditadura existia e assustava. Batidas policiais agressivas aconteciam aos montes e há relatos de ocorrências com frequentadores do Bijou, mas esse azar eu não tive.
Alheios aos tempos de coturnos e arbitrariedades cometidas com o AI-5 debaixo do braço, o astral ali na porta e dentro do Bijou, era total “Peace & Love”, e o aroma típico daqueles anos era o de Patchouli, perfume padrão para nove a cada dez Freaks.
Vi muitos filmes do Werner Herzog, um cineasta alemão que aprendi a cultuar, com seu cinema hipnótico e quase sempre ao som da banda alemã, Popol Vuh, sensacional.
Muito cinema italiano, onde me tornei muito fã de Ettore Scola e Mario Monicelli, entre tantos cineastas geniais da terra do macarrão.
Dario Argento; Alain Resnais; Ingmar Bergman e um Woody Allen ainda não elevado à categoria de uma “persona pop”, eram frequentes ali.
Ciclos sensacionais de diretores como Akira Kurosawa; Yasujiro Ono; Stanley Kubrick; Tony Richardson e Roman Polansky...onde mais senão no Bijou ?
Hal Ashby; o desbunde britânico do Monty Phyton e o primeiro Milos Forman, a gente nunca esquece...
Lembro-me de ter saído com a música “Porque te Vas", grudada na minha cabeça, depois de assistir “Cria Cuervos”, de Carlos Saura.
A cinebiografia do compositor Scott Joplin, um achado musical sensacional que abriu-me os olhos para a beleza do ragtime, uma vertente antiga e praticamente extinta do Jazz, causou-me grande impacto.
Assim como outra cinebiografia de Woody Guthrie (Bound for Glory, de Hal Ashby), um pioneiro da Folk Music americana, ídolo de Bob Dylan e Joan Baez; pai do Hippie-mor, Arlo Guthrie, e interpretado de forma visceral pelo eterno Kung Fu, o ator David Carradine. Mais uma porrada bem no meio do peito que levei, no bom sentido, sentado numa daquelas poltroninhas vermelhas...
Vi também muitos filmes mais antigos. Reprises de filmes sessentistas sensacionais como “A Dança dos Vampiros”, de Roman Polansky, e não parando de pensar que aquela mulher deslumbrante, Sharon Tate, havia morrido poucos anos antes de forma chocante...
Barbarella e aquela outra mulher deslumbrante...convencido que aquele francês safado, Roger Vadin, era o sujeito mais sortudo do planeta, enfim...
Dustin Hoffman sem saber o que fazer com a sogra, e o som de Simon and Garfunkel explodindo na tela; depois era o som do Nilsson ecoando, e o Dustin indo para Miami para buscar o sol, mas morrendo antes, tuberculoso, dentro do ônibus...
E os macacos ? E o monolito ? E a valsa espacial ? E o Hal 9000 (I’m Sorry, Dave...I’m Afraid, I Can’t Do That...) ? E a grande cena final que causa aquela apreensão toda sobre a vida / morte; começo / final ? Tudo na tela do Bijou !!


Já o documentário “Janis”, sobre Janis Joplin...
Quantas sessões e sempre com o mesmo desfecho : aquele bando de hippies sendo surpreendidos com os olhos marejados ao inevitável acendimento das luzes de serviço com o término da sessão...quem aguenta aquela cena final das fotos na garagem, ao som de "Me and Bob McGee", sem emocionar-se ?
Outro momento “nó na garganta”, com o belíssimo “The Last Waltz”, de Martin Scorsese. Tudo bem, nós sabíamos que a The Band havia encerrado sua carreira e isso era inevitável. Sabíamos também que o filme é lindo, misto de documentário e show ao vivo do concerto de despedida dessa banda maravilhosa, mas como não se emocionar mesmo assim ?
E lá fomos nós, muitas vezes deixar cair uma lágrima vendo os caras tocando “The Night They Drove Old Dixie Down”...fazer o que, não é mesmo ? Não é que o sonho acabou, mas acabaram com o nosso sonho, se é que me entendem...


Mas os tempos foram mudando e esse astral todo foi dissipando-se. Por volta de 1986, uma das salas remodelou-se e passou a se chamar “Cine Clube Oscarito”. Tentou bravamente manter a tradição do Cine Bijou, mas era uma geração diferente a ser atraída, e que não dava a mesma resposta lotando as salas.


Perdendo para os videocassetes e as “baladas”, o Bijou foi perdendo força e lá pela metade dos anos noventa, encerrou sua história.


Para amenizar, uma turma boa, imbuída de amor à arte, não deixou a sala cair nas mãos de um empreendedor disposto a abrir um supermercado ou um religioso a fundar uma Igreja.


Em princípio, no ano de 1999, recebeu o nome de “Cine Teatro Recriarte Bijou”. Não durou muito, infelizmente,  e em 2003 passou por outra reformulação, quando passou a se chamar “Teatro do Ator”.


Transformada novamente alguns anos depois, a sala tornou-se o Teatro Studio 184, e desde então, tem se mantido como um polo de resistência ao teatro não comercial, ao lado do Teatro Parlapatões, que mantém a mesma iniciativa, e agitam a Praça Roosevelt dos anos 2000/2010, como um polo de teatro alternativo na cidade.
Mais que isso, mesclam exibições de cinema, evocando a velha aura do antigo Cine Bijou, inclusive exibindo clássicos do cinema alternativo das décadas de cinquenta; sessenta e setenta, atraindo muitos saudosistas do velho Bijou de outrora. Eventualmente, fazem também produções itinerantes, levando tal programação de cinema para outros ambientes, uma iniciativa bacana, também.


Claro que não é a mesma coisa, mas prefiro mil vezes que ainda haja uma ligação, tênue que seja, do velho Bijou, viva, do que o destino da imensa maioria dos cinemas de rua da cidade de São Paulo : demolidos ou entregues para fins nada culturais.
Um livro, escrito por um rapaz que foi frequentador do Cine Bijou, saiu com muitas impressões pessoais do autor a respeito de sua experiência como habitue da sala. Trata-se de “Cine Bijou”, de Marcelo Coelho, e que conta com ilustrações belíssimas, assinadas por Caco Galhardo, inspiradas nos filmes citados por Marcelo, e também pela própria ambientação do Bijou e alguns pontos da cidade de São Paulo, igualmente citados na obra.
Ilustração de Caco Galhardo, aludindo ao filme "A Clockwork Orange" ("Laranja Mecânica"), de Stanley Kubrick, e presente no livro, Cine Bijou.
 
É um texto bem calcado na experimentação pessoal do autor, que remonta às suas impressões desde 1974, quando passou a frequentar com assiduidade a sala, e mesmo sendo bem personalista, é um belo registro.
Acabei trilhando o mesmo caminho do Marcelo em seu livro, e nesta matéria citei muitas impressões e lembranças pessoais minhas, também, porque é válido, acredito.


Esse foi o Cine Bijou, que fez história muito linda entre 1962, e o fim dos anos setenta, pensando num “auge”, digamos assim, e que teve final oficial em 1996, infelizmente, mas que continua nos dias atuais, como espaço multiuso.
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, em 2016