segunda-feira, 20 de junho de 2016

Salão da Criança - Por Luiz Domingues




Naquela euforia de prosperidade criada no governo de Juscelino Kubitschek, onde se vendeu a ideia de que cinco anos de trabalho teriam o efeito de cinquenta no progresso que o país alcançaria, muitos aspectos subliminares dentro do empreendedorismo moderno, começaram a implantar-se no Brasil. 


E dentro dessa prerrogativa, São Paulo que estava quase passando a então capital federal, o Rio de Janeiro, para tornar-se a maior cidade brasileira, borbulhava de planos ambiciosos para assumir o protagonismo econômico da nação, ali no calor da segunda metade dos anos cinquenta. 
Diante desse panorama auspicioso, um empreendedor chamado Caio de Alcântara Machado , formado em direito, mas publicitário por ofício e comerciante por DNA familiar, criou em 1958 a 1ª Fenit (Feira Nacional da Indústria Têxtil), realizada no Parque do Ibirapuera, e que tornou-se sucesso instantâneo.


Tratando dos segmentos inerentes à indústria têxtil, e naturalmente abordando setores ligados à moda, foi uma espécie de bisavô da São Paulo Fashion Week dos dias atuais. 

Rápido e audacioso, Alcântara foi criando outras feiras e abrangendo outros nichos da produção industrial tão poderosos quanto, lançou a UD (Feira das Utilidades Domésticas), que tratava de eletrodomésticos em geral e a partir de 1960, uma de suas mais vitoriosas criações e que aliás perdura até os dias atuais, o Salão do Automóvel, que é considerada já faz tempo, uma das maiores feiras de automóveis do mundo. 
Mas foi em 1961 que lançou sua feira mais lúdica, enfocando o universo infantil e suas múltiplas possibilidades de negócios inerentes : o Salão da Criança.


Isso agitou o mercado de uma forma sintomática, agregando não só a obviedade do interesse das fábricas de brinquedos, mas atraindo também a indústria alimentícia, o mercado editorial; o setor de roupas infantis e tudo que se relacionasse com as crianças.


Foi em 1961, que a primeira feira realizou-se no Parque do Ibirapuera, com apoio muito forte dos meios de comunicação, a começar pelos comerciais veiculados nas emissoras de rádio e TV, com o super simpático jingle gravado pelo palhaço “Carequinha”.

Ouça abaixo o jingle :
“O primeiro Salão da Criança / A bandinha de música voltou / E o palhaço chamando as crianças / Avisando que a festa começou / No Ibirapuera tem competição / Tem pra criançada muita diversão”...


Não só propaganda paga na imprensa, mas apoios foram costurados inteligentemente e essas eram ações bem modernas para a época. 
Por exemplo, programas de TV destinados ao público infantil participaram ao longo dos anos de forma incisiva. Isso ocorreu com o seu cast de artistas participando ao vivo na Feira e muitos testemunhais sendo feitos na TV, fora promoções, com apoio de patrocinadores. 
Logo na primeira edição de 1961, por exemplo, o cast infantil do programa “Turma dos Sete”, veiculado pela TV Record, canal 7 de São Paulo, participou ativamente. Eram 7 atores mirins e alguns adultos, fazendo os pais deles, entre eles, a saudosa Jacyra Sampaio, que fez muitas novelas na TV Tupi nos anos sessenta e setenta e na Globo, em 1977, ficou imortalizada como a Tia Anastácia do Sítio do Pica Pau Amarelo.


Uma novidade absoluta para as crianças, o Salão era algo tão incrível numa época onde não haviam muitas coisas direcionadas diretamente à elas, que tornou-se sucesso imediato e total.
Achei esse vídeo no You Tube, proveniente de um acervo familiar não identificado, com alguns segundos filmados da 3ª edição do Salão da Criança, de 1963. A postagem e telecinagem do original em 8 mm, foi feita pelo publicitário Carlos Augusto Marconi.  

E assim sedimentou-se, entrando para o calendário de eventos da cidade, sendo realizado sempre no mês de outubro, coincidindo com o “Dia da Criança”.
Os expositores passaram a caprichar a cada ano, para garantir stands cada vez mais elaborados, recheados de atrações e novidades entre seus produtos. Claro que lançamentos de produtos começaram a atrelar-se à realização da Feira.


Toda a linha de comestíveis, de balas a chicletes; biscoitos & bolachas; achocolatados & cereais em flocos e claro, sorvetes; chocolates; refrigerantes e bolos, passaram a promover fortemente o Salão, com muitas promoções, distribuição de amostras grátis; premiações etc. 
Brinquedos de parques infantis eram disponibilizados para ações lúdicas; exposição de carros de corrida, aeromodelismo, pistas de autorama, réplicas de aviões para visitação da cabine (isso sempre dá certo para atrair a criançada); carro de bombeiro e blindados militares; castelos medievais; acampamentos indígenas  e casinhas de bonecas para as meninas; gincanas e brincadeiras...enfim, tudo muito moderno e mágico para aquela época.


Com o tempo passando, mais novidades foram sendo incorporadas. Assim como na Fenit, desfiles de moda para roupas infantis e apresentações musicais se incorporaram.
Fora os shows de mágicos, outras atrações circenses inerentes e palhaços por todos os cantos, interagindo desde o portão de entrada com a criançada.


Particularmente, fui uma única vez, apesar de estar descrevendo com todo esse entusiasmo. Foi a edição de nº 7, em 1967.


Curti muito o avião prateado e um monte de referências à corrida espacial.  Estava absurdamente cheio e mal dava para andar nos corredores, apesar de que quase todo stand fosse um convite para a minha então imaginação infantil de um menino de sete anos de idade.
Havia um stand que enlouqueceu-me, promovido por uma indústria petrolífera que havia associado-se à Marvel, gigante das histórias em quadrinhos  americanas e que no Brasil nessa época era produzida em português pela saudosa editora Ebal. As estampas gigantes dos super heróis Marvel pareciam mágicas para mim naquela noite de outubro de 1967 e de certo, o eram mesmo.


Mas havia muita música no ar. Claro, bandinhas tocavam seu repertório circense prosaico, mas havia também um serviço de alto falantes tocando música pop e a MPB de então, fazendo tudo parecer uma experiência onírica, e de fato, pensando nessa memória hoje em dia, a guardo como um sonho envolto em névoas.

Isso sem contar os concursos de bandas, que começaram a partir de 1966, como por exemplo na foto abaixo (e que me perdoem esses rapazes, que hoje devem ser senhores sessentões, mas não faço a menor ideia quem sejam e se soubesse, citaria com prazer) : 
Saboreando minha barra de chocolate predileta, que meu pai comprou para mim, e vendo tantas coisas chamativas, foi uma experiência inesquecível.

                        

O Salão da Criança prosseguiu mais um pouco no Parque do Ibirapuera, mas assim que inaugurou-se o complexo do Anhembi, na zona norte da cidade, mudou-se, assim como as demais feiras organizadas por Caio de Alcântara Machado, para lá, no início dos anos setenta. 
Pelo fato de feiras semelhantes surgirem como concorrentes, o Salão da Criança não teve uma continuidade como as demais e encerrou atividades ainda na primeira metade da década de setenta.


Mesmo assim, deixou sua marca para toda a indústria e comércio que lida com produtos destinados ao público infantil.
Qualquer semelhança com o mote publicitário criado pela ditadura militar, não foi mera coincidência na propaganda acima, da 10ª edição do Salão da Criança, em 1970...

Inovou em muitos aspectos pelo pioneirismo da logística das ditas feiras corporativas e trouxe um elemento a mais, raro nesse tipo de empreendimento, ao lhe conferir aura lúdica, de certa forma com alguma ligação artística, ao lidar com um tipo de consumidor alvo que ainda não pensa no mundo como um ambiente hostil e lhe cobrar atitudes pela sobrevivência tão somente.

Pelo contrário, o enxerga com a magia da inocência, e por isso o Salão da Criança não era uma feira de negócios tão somente, mas tinha algo a mais.
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, em 2016.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Última Sessão de Cinema - Por Luiz Domingues




Quando surgiu, a televisão foi alardeada como um agente cultural tão importante quanto o rádio e com o poder de levar o cinema para a sala de estar das famílias.


De fato, entre as normas reguladoras que deram suporte legal para existir, havia a da contrapartida de ser um agente cultural, de utilidade pública, portanto.


Assim, nas suas primeiras décadas de existência no Brasil, tal ditame foi cumprido e com muitos méritos.


Todavia, sinais de deterioração começaram a lhe sorver paulatinamente as forças, para ser bem ameno, e a grade foi ficando cada vez mais longe de observar objetivos educacionais e/ou culturais, descambando para o circo de horrores com o qual nos deparamos nos dias atuais.

Poderia haver retrocesso na difusão cultural ? Ninguém apostaria nessa hipótese décadas atrás, mas infelizmente, assistimos com pesar tal decadência.


Um bom exemplo entre tantos, de que já houve vida inteligente na TV aberta de outrora, foi um programa exibido na TV Cultura de São Paulo, nos anos setenta (durou entre 1976 e 1980), chamado “Última Sessão de Cinema”.

A ideia era ousada, e genial para quem gostava da sétima arte, buscando maior profundidade no assunto. Era apresentado diariamente, de segunda a sexta, com a exibição de um filme por semana, sendo repetido a cada noite, como se estivesse em cartaz numa sala de cinema.


Com isso, a oportunidade de assisti-lo várias vezes como objeto de estudo, era assegurada, fora a comodidade para quem simplesmente não podia ver todos os dias, e ao menos garantia a chance de vê-lo ao menos uma vez.
Crítico de cinema e mediador do programa "Última Sessão de Cinema" entre 1976 e 1980, Luciano Ramos

Fora a exibição diária, um excelente debate era promovido, na noite de sexta, antecedendo a última exibição da semana. Sob mediação do ótimo crítico de cinema, Luciano Ramos, e convidados especiais, alguns fixos e outros sazonais, que participavam.

Tais convidados eram críticos de cinema; gente do meio teatral, da literatura e vários especialistas de outras áreas, mesmo fora do âmbito cultural, mas de diversos setores, dependendo do tema do filme.


Portanto, de especialistas em assuntos policiais / forenses a juristas; professores de história; cientistas políticos; sociólogos e antropólogos, doutores da área médica e da engenharia etc etc.

Com isso, cada filme era dissecado sob o ponto de vista cinematográfico, de forma muita intensa, além de pontuais intervenções da parte de especialistas de diversas áreas, dependendo da temática de cada obra.


Assim, na sessão derradeira, na sexta-feira, um debate  robusto, era o momento de aprofundamento da análise. Portanto, quando o filme passava pela quinta vez, e após tantas informações ricas, era com outra percepção que o telespectador  assistia-o novamente.
O produtor do programa "Última Sessão de Cinema", Fernando Faro, também responsável por outros programas de sucesso, com destaque para "Ensaio"

Praticamente uma aula de cinema, tal programa era uma ideia do produtor cultural, Fernando Faro (recentemente falecido e que além desse, teve inúmeros trabalhos relevantes na TV, como o programa “Ensaio”, um marco histórico para a MPB, dentro da própria TV Cultura), além de Walter George Durst, dramaturgo e homem de TV, igualmente de importância histórica para a cultura nacional.


Lembrava os debates de mesa redonda de comentaristas de futebol, sendo realizado ao vivo, mas com a peculiaridade óbvia de não ser acalorado e polêmico, mas muito didático e estimulante para quem fosse cinéfilo.

O objeto cinematográfico em si eram produções clássicas do cinema americano; europeu e brasileiro, predominantemente.


Assisti inúmeros filmes, talvez tenha perdidos alguns poucos debates nesses quatro anos em que existiu e adorava a chance de ver o filme tantas vezes, e absorver as considerações dos especialistas.


Lembro-me que as informações eram requintadas, mas com explanação coloquial, portanto acessíveis ao público comum, fugindo de erudições acadêmicas.

Um exemplo, recordo-me bem que recorreram à um professor de artes plásticas para explicar o ponto de vista da fotografia em tom pastel do filme “Blood & Sand” (“Sangue e Areia”, de Rouben Mamoulian, lançado em 1941), cuja motivação explícita eram as obras de pintores como Velásquez e El Greco.


Consegue imaginar nos dias atuais algum programa de TV aberta com tal tipo de abordagem, amigo leitor ? Sim, antes que corrija-me, sei que a TV Cultura se esforça para manter esse padrão, mas nem ela consegue ser como outrora, uma pena.  


Só me lembro de um tipo de abordagem semelhante nos anos noventa,  numa emissora da TV fechada com vocação educacional, no caso o Canal Futura. No programa “Cine Conhecimento”, recorriam à clássicos do cinema para dar aulas de história, com pontuais informações sendo acrescidas antes e depois  da exibição da película, com uma pequena intervenção na metade, como intervalo.

No caso do “Última Sessão de Cinema”, não tenho essa informação oficial, mas deduzo que tal título fosse uma referência ao filme “A Última Sessão de Cinema”(“The Last Picture Show”), de Peter Bogdanovich, lançado em 1971, e que também servia em duplo sentido a designar o mote do programa, com o fato de ser o último filme da grade da TV Cultura no horário noturno, e nas sextas, ter o debate e a derradeira sessão para encerrar o assunto.
O renomado crítico de cinema, Rubens Ewald Filho trabalhava como comentarista da Rede Globo na época, mas era participante da produção da TV Cultura, igualmente

Além da grande condução de Luciano Ramos, críticos do calibre de Rubem Biáfora; Rubens Ewald Filho; Alfredo Sternheim; Orlando Fassoni e A. C. Carvalho, participavam costumeiramente.

Entre os convidados para falar de outros temas além do cinema, o maestro Diogo Pacheco para falar de música (que bacana as explanações sobre Chopin, quando analisaram “A Song to Remember”/“À Noite Sonhamos”, cinebiografia desse compositor/pianista polonês, do diretor Charles Vidor, lançado em 1945); Percival de Souza falando de assuntos policiais em muitos filmes noir da década de quarenta;  o psicólogo Paulo Gaudêncio analisando filmes com tal mote, e muitos outros. 

“Última Sessão de Cinema” marcou época na TV Cultura dos anos setenta e quando me lembro de um programa desse quilate e observo a grade atual, recheada de atrações nem um pouco comprometidas com a difusão cultural, penso que o papel da TV deveria ser repensado e os seus respectivos dirigentes convidados a reler a carta de intenções com a qual as concessões para o seu funcionamento, se baseia.
Matéria publicada inicialmente na Revista Eletrônica Cinema Paradiso, em 2016

sábado, 4 de junho de 2016

Perry Mason - Por Luiz Domingues



A sociedade norte-americana é sabidamente bastante jurídica. Não só pelo enorme número de advogados formados anualmente pelas suas universidades, mas principalmente pela gigantesca profusão de processos protocolados em seu sistema judicial diariamente e que justifica a demanda por muitos advogados; promotores; juízes, e todo o entourage que compõe as suas cortes.


Portanto, é muito natural que o tema judicial alimente a cultura, com formas de arte a retratá-lo das mais diversas formas. 


E assim desenhou-se a saga de um personagem que nasceu nos livros de histórias policiais, alcançando posteriormente o cinema; as histórias em quadrinhos; foi adaptado para as radionovelas; e chegou a televisão, fazendo muito sucesso.


Falo de Perry Mason, advogado implacável e certamente um personagem sensacional. 
O escritor Erle Stanley Gardner, o autor do personagem Perry Mason
 
Criado por Erle Stanley Gardner, o primeiro livro com o personagem, foi lançado em 1933. Dali em diante, foram 80 livros lançados, explorando o personagem e com uma marca registrada : todas as histórias tinham o início do título escrito como “The case of”...("O caso de {o}{a}"), com um complemento diferente a designar cada um, posteriormente. 
 
Na construção do personagem, Erle criou Perry Mason como um homem idealista, muito profissional e incansável. Com isso, o marcou como um advogado que só aceitava casos em que tinha 100% de certeza de que seus clientes fossem inocentes, denotando um senso de ética implacável, e mais que isso, com a perseverança de fazer de tudo para inocentá-los, evitando erros da justiça e por conseguinte, preservando a imagem do próprio sistema judiciário, a lhe garantir a infalibilidade e consequente confiança do cidadão comum, nele. 


Em seu escritório, tinha o apoio de dois funcionários fiéis, nas figuras da secretária, Della Street e do detetive particular, Paul Drake, que muito o ajudavam, fazendo trabalho de investigação nas ruas a fim de coletar provas para dar elementos à elaboração da tese de defesa de seus clientes.


Os livros foram sendo lançados num ritmo frenético pela editora, com até quatro lançamentos num mesmo ano, periodicamente de 1933, até 1973.
Ainda nos anos trinta, alcançou as telas do cinema, em 1934, pela primeira vez e repetindo aparições em outras películas, até 1937, perfazendo seis filmes produzidos para a tela grande, com o famoso ator Warry William o interpretando por quatro vezes; no penúltimo filme produzido em 1936, tendo outro ator no papel, Ricardo Cortes e no último, de 1937, Perry Mason foi interpretado por Donald Wood.  


Avançando pela década de quarenta, as histórias de Perry Mason foram adaptadas para o Rádio, sendo produzidas como radionovelas. Com historietas curtas de apenas 15 minutos, ficou no ar de 1943 a 1955, mas com um título diferente “Edge of Night”, apesar de manter toda a estrutura normal dos personagens criados para os livros e adaptados ao cinema.
Outra ação paralela foi a incursão pelas histórias em quadrinhos, mas sem repetir o mesmo sucesso, provavelmente pelo fato de não atingir o público infanto-juvenil, principal nicho consumidor das revistas. Mas depois que chegou à TV, uma nova incursão pelos quadrinhos foi relançada e fez um pouco mais de sucesso.
Finalmente Perry Mason chegou à TV, em 1957, numa realização da produtora Paisano, para a Rede CBS de Televisão.


Seriado criado por Gail Patrick Jackson e Patrick Cornwall Jackson, usou como base dos roteiros, os livros de Erle Stanley Gardner e os roteiros adaptados para o rádio.


Os produtores da série desejavam inicialmente atores como Efrem Zimbalist Jr.; William Hopper; Fred MacMurray ou Richard Carlson para interpretar o incansável advogado, Perry Mason. 
Conta-se como fofoca de bastidores, que quando o ator Raymond Burr apresentou-se nos estúdios para fazer teste para outro personagem (visando interpretar o personagem do promotor Hamilton Burger), o próprio autor do personagem, o escritor Erle Stanley Gardner impressionou-se com sua figura e saiu gritando pelos corredores : -“É ele !! É Perry Mason”, referindo ao ator Raymond Burr.
           A atriz Barbara Hale, que interpretou Della Street  
    William Hopper, interpretou o detetive particular, Paul Drake
   O veterano ator, Ray Collins, que interpretou o tenente Tragg
  William Talman interpretou o promotor público, Hamilton Burger

Os outros atores da série eram Barbara Hale (interpretando Della Street, a secretária); William Hopper como Paul Drake, o dono da agência de detetives “Drake”, que fornecia detetives particulares que auxiliavam o advogado Mason; Ray Collins como o tenente Tragg, que durão, mantinha muitas vezes os clientes de Mason presos até o resultado final dos julgamentos; William Talman como Hamilton Burger, o promotor público que sempre enfrentava Mason nos tribunais. Além de personagens secundários como Steve Drumm (interpretado por Richard Anderson); William Katt (Paul Drake Jr.); William R. Moses (Ken Malansky); e Hal Holbrook, como William “Wild Bill” McKenzie.
A estrutura dos episódios seguia o padrão americano de seriados dessa época, com cerca de 52 a 55 minutos de duração cada um, e sem gancho ao estilo das novelas, a estabelecer continuidade, começando e encerrando uma história completa a cada episódio.

Grande parte da ação se passava no ambiente dos julgamentos, portanto havia uma sofisticação nos diálogos, principalmente nas intervenções de Perry Mason e seu oponente, o promotor Burger.   

Mas também havia ação nas ruas e no escritório de Mason, a retratar a coleta de provas para auxiliar na defesa de seus clientes.
O elemento dramático se fazia presente no sentido de que geralmente sendo causas “impossíveis” de se provar, pelas circunstâncias, a genialidade dos roteiros em achar detalhes imperceptíveis para os telespectadores, fazia com que a atenção fosse capturada até o veredicto final.


Eis aí um dos seus maiores trunfos, senão o maior da série, pois mesmo sendo uma repetição sumária do mesmo mote, o público prendia a sua atenção esperando pelo detalhe a dar reviravolta na história, atraído pela solução sutil que os roteiristas deviam quebrar a cabeça para elaborar. Portanto, tratava-se da repetição da ideia de que um inocente era injustamente acusado de um crime e com provas irrefutáveis depondo contra, seria salvo no final do episódio graças à uma prova cabal achada na última hora. 
A série fez grande sucesso na América, espalhou-se pelo mundo afora e chegou ao Brasil ainda no final dos anos cinquenta, sendo exibida aqui pela TV Record.


Fez sucesso entre os brasileiros, também. Ficou popular ao ponto de pessoas brincarem, dizendo que “qualquer coisa, se ficar difícil resolver algum problema, contrate Perry Mason que ele resolve”... 
E se aqui ficou popular assim, claro que na América, muito mais e lá, entre muitas brincadeiras, estigmatizou-se que todo sujeito metido a “sabichão”, que gostava de se exibir nas rodinhas de conversa, era porque prestava atenção nos discursos do Perry Mason nos tribunais, durante os episódios da série...


Perry Mason teve nove temporadas, de 1957 a 1966, contabilizando 271 episódios. 
Logo após seu término, o ator Raymond Burr foi protagonista de outra série de sucesso na TV, chamada “Ironside”, onde interpretou o policial paraplégico, Robert T. Ironside, que apesar da deficiência física, era durão e combatia o crime com firmeza, auxiliado por assistentes jovens. Tal seriado durou de 1967 a 1975, fazendo sucesso, igualmente.
O bom ator Monte Markhan, que não deu sorte ao interpretar Perry Mason em 1973

E tanto fez sucesso, que quando planejaram a “volta “ de Perry Mason, em 1973, Raymond Burr estava comprometido com essa outra série (Ironside), e dessa forma contrataram o ator Monte Markhan para interpretar o advogado brilhante. Nenhum outro ator do elenco da série clássica foi convidado a atuar e infelizmente essa versão foi um fracasso, tendo somente 15 episódios levados ao ar entre 1973 e 1974.
Em 1985, a concorrente da CBS, NBC, bancou um telefilme (TV Movie), revivendo o personagem, e tendo Raymond Burr e Barbara Hale do elenco original da série. O ator William Hopper já havia falecido e assim, o filho da atriz Barbara Hale, Willian Katt, que tornara-se ator igualmente, foi contratado para viver o detetive Paul Drake.  


Tal TV Movie foi bem recebido pelo público, e outros foram sempre produzidos em sequência. Era um Perry Mason bem envelhecido, aproveitando o envelhecimento natural do próprio ator, Raymond Burr, mas que caiu nas graças do público, até 1993, quando o ator faleceu.
Produziram mais quatro episódios até 1995, usando atores diferentes, mas o carisma estava mesmo com a figura de Burr, que encarnou o personagem como ninguém, inegavelmente. 
Muitas reprises foram promovidas, incluso no Brasil, até os anos setenta, mas foram sumindo paulatinamente da TV aberta, passando para canais de TV a cabo especializados em produções de TV vintage, mas hoje em dia, que eu saiba, não está no ar. 
Episódios no You Tube são encontrados e as caixas oficiais de DVD foram lançadas na América, mas acredito que no Brasil, não. Em sites de colecionadores é possível achar cópias alternativas. 
Perry Mason fez muito sucesso, marcou época e tem muitos méritos, a começar pela criatividade na elaboração dos roteiros; passando pela qualidade dos diálogos elaborados; o fator surpresa paradoxalmente num ambiente de repetição sistemática; pelo bom elenco e notadamente pelo carisma do ator Raymond Burr.


Trilha sonora muito marcante, também, com o espetacular tema de abertura em destaque, composto por Fred Steiner e intitulado, “Park Avenue Beat”.


Muito bonito, tem um piano fazendo um staccato como base, enquanto os instrumentos de sopro trabalham a melodia principal. 

Destaque também para a bateria, numa batida incomum para orquestrações tradicionais da década de cinquenta, quase soando como Rock’n Roll, moderna ao extremo para aquele momento de 1957, portanto. 
Ouça acima o tema de abertura do seriado Perry Mason
 

Muitos diretores famosos assinaram episódios dessa série. Laslo Benedeck; Jack Arnold e Arthur Hiller entre muitos outros.
Sobre os atores convidados, nas nove temporadas, referindo-me somente ao seriado clássico e ignorando a tentativa de continuação mal sucedida de 1973, e os TV Movies dos anos 80 e 90, a lista é gigantesca de figuras conhecidas da TV e o cinema americanos.  


Barbara Eden (I Dream of Jeannie); Paul Fix (Voyage of the Bottom of the Sea); Whit Bissell (The Time Tunnel); Angie Dickinson (Police Woman); Abraham Sofaer (ator em todas as series de Irwin Allen); Ruta Lee (participação numa infinidade de seriados, de Twilight Zone a Maverick); Murray Hamilton (muitas participações na TV, mas no cinema, muito mais, como “Seconds”; “The Graduate”; “Jaws” etc etc); Yvone Craig (a Batgirl de Batman /1966); Fray Way (a mocinha de King Kong, versão clássica de 1933); Elysha Cook Jr. (um ator com carreira no cinema desde 1930, com uma soma de trabalhos inacreditável); Hugh Marlowe (outro ator com forte curriculum no cinema); Edward Platt (o "chefe" de Maxwell Smart em “Get Smart”); Robert Redford (acho que dispensa comentários de apoio...); James Coburn (idem ao Redford...); Louise Fletcher (“Star Trek Deep Space Nine”); Adam West (“Batman”/1966); Simon Oakland (“Kolchak and the Night Stalker”); Wesley Lau (“The Time Tunnel”); Lian Sullivam (ator com muitas participações em seriados nas décadas de cinquenta e sessenta); De Forest Kelley ( o Dr. McCoy de “Star Trek”); Burt Reynolds (outro que dispensa apresentações); Linden Chiles (ator com muitas participações nas séries de Irwin Allen); Leonard Stone (“The Jean Arthur Show”); Ellen Burstyn (“The Exorcist”); R.G. Armstrong (“Cheyenne”); Mark Goddard (o Major West, de “Lost in Space”); Leonard Nimoy (o Mr. Spock, de Star Trek”); Bette Davis (precisa apresentar ? ); Michael Rennie (“The Day the Earth Stood Still”); Walter Pidgeon (veterano do cinema, dispensa apresentações); Billy Mumy (o Will Robinson, de “Lost in Space”); David McCallum (“The Man from Uncle”); George Takei (o Sr. Sulu, de "Star Trek"); Victor Buono (o Rei Tut, de “Batman”/1966); Michael Ansara (outro que era ator de confiança de Irwin Allen e esposo na vida real de Barbara Eden/Jeannie e invejado no mundo todo por isso...); Paul Carr (“Voyage to the Bottom of the Sea”); June Lockhart (a srª Robinson de, “Lost in Space”); Mike Connors (Mannix); Lee Meriwheter (“The Time Tunnel”), e muitos outros.
O episódio piloto, foi filmado em 1956, um ano antes da estreia na TV, e com o requinte de um filme noir. Foi reeditado posteriormente e entrou como o episódio de nº 13, na primeira temporada, com o título de “The Case of the Moth-Eaten Mink”.


No último episódio em 1966 (“The Case of The Final Fade Out”), o criador do personagem Perry Mason, o escritor Erle Stanley Gardner, aparece como presidente do júri, fazendo uma singela participação como ator. 
Sobre o elenco clássico, o ator Raymond Burr faleceu em 2003. 

Barbara Hale está viva em 2016, com 94 anos de idade; William Hopper nos deixou em 1970; Ray Collins partiu em 1965; William Talman, deixou-nos em 1968; Richard Anderson está vivo em 2016, com 89 anos de idade. 
Assim foi Perry Mason, uma série que fez muito sucesso, apesar de ser ambientada no mundo jurídico, com suas longas sessões de oratória e nem sempre em linguagem coloquial, aliás, nunca para ser preciso, e assim, é realmente um mérito para essa produção ter despertado a atenção do público para um show forense, abrindo caminho para que outras séries enfocando o mundo jurídico viessem depois na história da TV.