segunda-feira, 13 de junho de 2016

Última Sessão de Cinema - Por Luiz Domingues




Quando surgiu, a televisão foi alardeada como um agente cultural tão importante quanto o rádio e com o poder de levar o cinema para a sala de estar das famílias.


De fato, entre as normas reguladoras que deram suporte legal para existir, havia a da contrapartida de ser um agente cultural, de utilidade pública, portanto.


Assim, nas suas primeiras décadas de existência no Brasil, tal ditame foi cumprido e com muitos méritos.


Todavia, sinais de deterioração começaram a lhe sorver paulatinamente as forças, para ser bem ameno, e a grade foi ficando cada vez mais longe de observar objetivos educacionais e/ou culturais, descambando para o circo de horrores com o qual nos deparamos nos dias atuais.

Poderia haver retrocesso na difusão cultural ? Ninguém apostaria nessa hipótese décadas atrás, mas infelizmente, assistimos com pesar tal decadência.


Um bom exemplo entre tantos, de que já houve vida inteligente na TV aberta de outrora, foi um programa exibido na TV Cultura de São Paulo, nos anos setenta (durou entre 1976 e 1980), chamado “Última Sessão de Cinema”.

A ideia era ousada, e genial para quem gostava da sétima arte, buscando maior profundidade no assunto. Era apresentado diariamente, de segunda a sexta, com a exibição de um filme por semana, sendo repetido a cada noite, como se estivesse em cartaz numa sala de cinema.


Com isso, a oportunidade de assisti-lo várias vezes como objeto de estudo, era assegurada, fora a comodidade para quem simplesmente não podia ver todos os dias, e ao menos garantia a chance de vê-lo ao menos uma vez.
Crítico de cinema e mediador do programa "Última Sessão de Cinema" entre 1976 e 1980, Luciano Ramos

Fora a exibição diária, um excelente debate era promovido, na noite de sexta, antecedendo a última exibição da semana. Sob mediação do ótimo crítico de cinema, Luciano Ramos, e convidados especiais, alguns fixos e outros sazonais, que participavam.

Tais convidados eram críticos de cinema; gente do meio teatral, da literatura e vários especialistas de outras áreas, mesmo fora do âmbito cultural, mas de diversos setores, dependendo do tema do filme.


Portanto, de especialistas em assuntos policiais / forenses a juristas; professores de história; cientistas políticos; sociólogos e antropólogos, doutores da área médica e da engenharia etc etc.

Com isso, cada filme era dissecado sob o ponto de vista cinematográfico, de forma muita intensa, além de pontuais intervenções da parte de especialistas de diversas áreas, dependendo da temática de cada obra.


Assim, na sessão derradeira, na sexta-feira, um debate  robusto, era o momento de aprofundamento da análise. Portanto, quando o filme passava pela quinta vez, e após tantas informações ricas, era com outra percepção que o telespectador  assistia-o novamente.
O produtor do programa "Última Sessão de Cinema", Fernando Faro, também responsável por outros programas de sucesso, com destaque para "Ensaio"

Praticamente uma aula de cinema, tal programa era uma ideia do produtor cultural, Fernando Faro (recentemente falecido e que além desse, teve inúmeros trabalhos relevantes na TV, como o programa “Ensaio”, um marco histórico para a MPB, dentro da própria TV Cultura), além de Walter George Durst, dramaturgo e homem de TV, igualmente de importância histórica para a cultura nacional.


Lembrava os debates de mesa redonda de comentaristas de futebol, sendo realizado ao vivo, mas com a peculiaridade óbvia de não ser acalorado e polêmico, mas muito didático e estimulante para quem fosse cinéfilo.

O objeto cinematográfico em si eram produções clássicas do cinema americano; europeu e brasileiro, predominantemente.


Assisti inúmeros filmes, talvez tenha perdidos alguns poucos debates nesses quatro anos em que existiu e adorava a chance de ver o filme tantas vezes, e absorver as considerações dos especialistas.


Lembro-me que as informações eram requintadas, mas com explanação coloquial, portanto acessíveis ao público comum, fugindo de erudições acadêmicas.

Um exemplo, recordo-me bem que recorreram à um professor de artes plásticas para explicar o ponto de vista da fotografia em tom pastel do filme “Blood & Sand” (“Sangue e Areia”, de Rouben Mamoulian, lançado em 1941), cuja motivação explícita eram as obras de pintores como Velásquez e El Greco.


Consegue imaginar nos dias atuais algum programa de TV aberta com tal tipo de abordagem, amigo leitor ? Sim, antes que corrija-me, sei que a TV Cultura se esforça para manter esse padrão, mas nem ela consegue ser como outrora, uma pena.  


Só me lembro de um tipo de abordagem semelhante nos anos noventa,  numa emissora da TV fechada com vocação educacional, no caso o Canal Futura. No programa “Cine Conhecimento”, recorriam à clássicos do cinema para dar aulas de história, com pontuais informações sendo acrescidas antes e depois  da exibição da película, com uma pequena intervenção na metade, como intervalo.

No caso do “Última Sessão de Cinema”, não tenho essa informação oficial, mas deduzo que tal título fosse uma referência ao filme “A Última Sessão de Cinema”(“The Last Picture Show”), de Peter Bogdanovich, lançado em 1971, e que também servia em duplo sentido a designar o mote do programa, com o fato de ser o último filme da grade da TV Cultura no horário noturno, e nas sextas, ter o debate e a derradeira sessão para encerrar o assunto.
O renomado crítico de cinema, Rubens Ewald Filho trabalhava como comentarista da Rede Globo na época, mas era participante da produção da TV Cultura, igualmente

Além da grande condução de Luciano Ramos, críticos do calibre de Rubem Biáfora; Rubens Ewald Filho; Alfredo Sternheim; Orlando Fassoni e A. C. Carvalho, participavam costumeiramente.

Entre os convidados para falar de outros temas além do cinema, o maestro Diogo Pacheco para falar de música (que bacana as explanações sobre Chopin, quando analisaram “A Song to Remember”/“À Noite Sonhamos”, cinebiografia desse compositor/pianista polonês, do diretor Charles Vidor, lançado em 1945); Percival de Souza falando de assuntos policiais em muitos filmes noir da década de quarenta;  o psicólogo Paulo Gaudêncio analisando filmes com tal mote, e muitos outros. 

“Última Sessão de Cinema” marcou época na TV Cultura dos anos setenta e quando me lembro de um programa desse quilate e observo a grade atual, recheada de atrações nem um pouco comprometidas com a difusão cultural, penso que o papel da TV deveria ser repensado e os seus respectivos dirigentes convidados a reler a carta de intenções com a qual as concessões para o seu funcionamento, se baseia.
Matéria publicada inicialmente na Revista Eletrônica Cinema Paradiso, em 2016

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