domingo, 15 de outubro de 2017

Tomada / CD Hoje - Por Luiz Domingues



O Tomada é uma banda que já acumula uma história bem significativa no panteão do Rock paulista e brasileiro. Em atividade desde o final dos anos noventa e com vários trabalhos lançados (quatro álbuns anteriores a este que resenho e um DVD documentário / biográfico), a reunir uma bela discografia, tem clips; vídeos ao vivo; um portfólio de respeito; aparições em programas de rádio e TV; muita interação na Internet e o melhor de tudo, fãs de seu trabalho, muitos por sinal.

Nesta altura, ao lançar seu último trabalho, o CD denominado “Hoje”, já chegou ao ponto que todo artista sonha atingir, ou seja, criar uma expectativa generalizada da parte de crítica e público em relação ao novo trabalho, antes mesmo de entrar em estúdio. Não foi gratuito, teve esforço; luta; estrada percorrida; mudanças de formação e muita história gerada até chegar nesse ponto, mas esse dia chegou para a banda e tal realidade acontece, sugestivamente, “Hoje”.

Madura, experiente e sempre batalhadora, a banda apresenta um novo álbum permeado por canções com qualidade e fazendo aquela ponte tradicional na trajetória do grupo, no tocante à perfeita simbiose entre as melhores influências do passado e pé no presente. O Tomada bebe na fonte do Rock sessenta / setentista e soa moderno ao mesmo tempo, falemos num português claro.

E não aborda o Rock apenas, visto que no bojo do trabalho, passeia pelo Blues; R’n’B, Soul; Pop e até lança pitadas saborosas de MPB na sua receita, fora tudo ser feito com bastante consciência artística, é importante ressaltar-se.

O tecladista Mateus Schanoski ao vivo com o Tomada. Foto : Leandro Almeida 

O CD “Hoje”, apresenta onze faixas, sendo duas releituras muito interessantes daquela maravilhosa MPB setentista, que era tão comprometida com a contracultura ao confundir-se com o próprio Rock, por isso o mais adequado seria denominá-la como uma espécie de Folk Rock Music ou coisa que o valha. Sobre as faixas, gostei das canções, seus arranjos, letras e o áudio, numa gravação muito feliz ao realçar os timbres vintage, ao máximo.

O disco abre com “Terno Branco”, um belo Rock, apresentando teclados muito bem colocados pelo ótimo Mateus Schanoski, um especialista em timbragens vintage e excelente “piloto de teclas” à moda antiga. Gostei muito dos timbres de todos os instrumentos, aliás, com um baixo robusto, bateria soando como bateria, sem o indefectível uso exagerado de reverber (amém !!), e guitarras com ótimo “punch”. Solos muito bonitos de slide, devo acrescentar, da parte do excelente guitarrista, Vagner Nascimento. Backing vocals muito bem colocados e o vocal solo do Ricardo Alpendre, voz oficial da banda, cada vez mais técnico e seguro, numa evolução notável, pois ao contrário de outros cantores que nascem com talento, mas não buscam aprimoramento, Ricardo, estudou e estuda ainda, portanto, seu talento nato enriquece-se a cada disco novo do Tomada, visto que o estudo engrandece-o sempre, em progressão contínua. Sua dicção é excelente, fora o poder de emissão, agora aliada à técnica de respiração que aprendeu e muito firme também no quesito afinação, tornando-o um cantor ótimo e muito consciente do que faz. Sobre a canção em si, lembrou-me muitas coisas boas do passado glorioso do Rock brasileiro (O Peso; Bixo da Seda...), e também algumas referências mais modernas. É Rock’n Roll básico e pop ao mesmo tempo, podendo ser radiofônico, tranquilamente. A respeito da letra, trata-se de um enfoque bastante original, enquanto construção poética, ao fugir dos clichês, totalmente. Quase em tom de crônica, elenca imagens em que o uso de um terno branco pode trazer como possibilidades na vida de um homem, não só pela sugestão empírica, como através de metáforas. Pensando nisso, a impressão que o produtor musical Antonio Celso Barbieri teve dela e expressou numa rede social com grande repercussão, ajuda o leitor e ouvinte a ter uma ideia dessa riqueza toda. Barbieri disse que tal faixa e sua evocação, remeteu-o à figura do John Lennon na capa do LP mítico, "Abbey Road", dos Beatles. Perfeita interpretação em termos simbólicos, eu concordo e acrescento o Walter Franco andando pela São Paulo noturna dos anos setenta, ao ilustrar a capa de seu álbum, "Revolver", com ambos usando ternos brancos. Ou seja, uma imagem leva à outra.  
Assista acima um vídeo contendo o making of da gravação do álbum Hoje", do Tomada

Link para assistir no You Tube :

“No Turnig Point”, a segunda faixa, começa com um sensacional piano elétrico. É inevitável não associar ao R’n’B classudo de Ray Charles, mas a música traz também motivações análogas. Lembrou-me bastante o Blues Rock com alto teor Pop do "Back Street Crawler". Excelente o solo de piano e também o sentido rítmico da base de guitarra, bem espalhada pelo pan do stereo, algo certamente (bem) planejado na pré produção de estúdio. Muito bom o refrão, também com bastante apelo popular (no bom sentido Rocker da expressão), com potencial para ser cantada em uníssono pelo público em festivais com grande audiência em estádios / arenas etc. Solo de guitarra super melódico, gostei muito e com belo timbre, diga-se de passagem.

O guitarrista, Vagner Nascimento, ao vivo com o Tomada no Centro Cultural São Paulo. Foto : Eduardo Luderer

“Só com a Solidão” começa também com bastante influência R’n’B, e tem um quê de "Barão Vermelho", com aquela divisão rítmica toda entrecortada. Mais um solo ótimo de piano, desta feita o tradicional. Gostei do baixo passeando em andantes estratégicos e da bateria de Fábio Galio acompanhando a fragmentação rítmica com muita criatividade, fora as ótimas intervenções com contra-solos e micro-solos de guitarra.


A seguir, uma releitura muito agradável. Se a versão original dos anos setenta já agrada-me bastante, essa versão do Tomada para o clássico blues do Caetano Veloso, "Como 2 e 2", surpreendeu-me muito positivamente. Uma interpretação visceral de Ricardo Alpendre e sob um arranjo geral, sensacional. A base toda arpejada pela guitarra lembrou-me o clássico, “I’ve Been Loving You Too Long”, de Otis Redding, numa consistência harmônica, poderosa. O baixo de Pepe Bueno ficou com um timbre espetacular, absolutamente aveludado e encorpado, e sem contar as frases criadas, muito bonitas, numa bela construção de linha. O órgão Hammond suave, fazendo a camada harmônica, ficou ótimo e a bateria com pouco ou nenhum reverber, absolutamente providencial para garantir uma atmosfera de gravação ao padrão da Black Music sessentista. Adorei o timbre do bumbo, magnífico mesmo e tocado com muito bom gosto pelo ótimo baterista, Fábio Galio. E como se não bastasse tudo isso, os backing vocals ficaram sensacionais (Renata "Tata" Martinelli sempre faz a diferença, eu sei bem disso !!). É como ouvir um velho disco da Gal Costa, aqueles do tempo bom em que Gal era To-Tal; Fa-Tal; Le-Gal...

O baterista Fábio Galio, em ação com o Tomada no CCSP. Foto : Eduardo Luderer

“Terra Batida” tem aquela aproximação saudável com a MPB setentista em que eu aludi no início desta resenha. Tem a ver também com certos artistas da MPB mais atual e que buscam essa conexão perdida, tais como Lenine e Zeca Baleiro, entre outros. Esta canção tem uma base muito swingada, com um ótimo trabalho de guitarra e o acréscimo da percussão, pelo bom músico convidado, Tustão Cunha, foi providencial. Muito bem executada, trouxe um molho incrível ao arranjo final. Tem esse elemento “Doobie Brothers”, igualmente a reforçar o sentido de um balanço muito bem executado. Uma parte "C" com uma levada R’n’B sensacional, trouxe um colorido extra à canção. A sobra do piano ao final, sozinho, foi uma ótima ideia, trazendo singeleza. Trata-se de uma canção perfeita para ouvir-se na condução de um carro conversível, numa estrada deserta, sentindo o cabelo voar e com a sensação de liberdade a permear toda a experiência.


“Hoje”, a canção título do álbum, lembra o "The Who" logo no início pelo estilo de riff, mas traz outros elementos retrô, igualmente nobres como referências em seu decorrer. Como por exemplo a presença de elementos psicodélicos deliciosos. Vocais em staccato, com vozes bem processadas, teclados buscando timbres adoráveis e remotos a evocar o bom e velho mellotron, uso e abuso de Leslie na guitarra e um contrasolo super processado, muito interessante. Gostei muito da letra, também. 

Veja esse trecho : “Na corrida, maratonistas tão fora de forma, não é o tempo escasso, é você que tem prazo, que também vive o prazo, olha que atraso... 

E este : “óbvio, parece óbvio, tão óbvio”...


Em suma, uma crítica ácida aos condicionamentos impostos pela sociedade moderna, mas feita de uma forma tão sutil, que não agride, não tem ranço panfletário, mas muito pelo contrário, ostenta um senso poético incomum nos dias atuais. Ponto para o Tomada, mais um aliás.

Eis acima o clip oficial da canção "Trouxe Flores"

O link para assistir no You Tube é :

“Trouxe Flores”, de certa forma toca no assunto que "Ira" e "Titãs" trouxeram à baila nos anos oitenta, mas o Tomada de fato trouxe flores com muito maior contundência. A performance da banda nessa canção é tão vigorosa quanto delicada, numa simbiose difícil de obter-se, mas a banda logrou êxito em minha percepção. O refrão é tão pop quanto o das respectivas canções das bandas oitentistas que citei, só que aqui o Rock aconteceu, como se deve.


“5 Am” tem uma leveza e aposta em harmonia e melodia pop ao sabor “R’n’B”, mas tem suas sutilezas. Por exemplo em certos trechos da melodia principal, onde foge um pouco do padrão tradicional e ousa ao buscar escalas não usuais. Tem um ótimo solo de piano, também.

Uma panorâmica do Tomada no palco do CCSP ao vivo e com o vocalista, Ricardo Alpendre, em destaque sob foco de luz. Foto : Eduardo Luderer

“Carnaval” começa com uma batucada de samba, o que não é exatamente uma inovação, mas sempre causa um efeito surpresa ao ouvinte Rocker tradicional que não conta com isso, habitualmente, digamos assim. A canção é pop, e também traz uma linha melódica interessante ao alternar o refrão chiclete tradicional para tocar e fazer sucesso radiofônico, mas ao mesmo tempo em outros trechos tem uma passagem com uma métrica nada usual, portanto, vejo com mérito essa preocupação da banda em misturar conceitos.  Sobre a letra, trata-se de uma interessante abordagem acerca da questão da inspiração, em princípio parecendo uma letra a evocar o amor homem / mulher, mas contendo implicitamente o efeito da metalinguagem, com o artista a falar de seu próprio processo de criação e propósitos na música.


Veja este trecho de “Carnaval” : 
“Eu vou pedir para Deus inspiração, pra te fazer declaração, fazer você sentir verão pra te fazer chorar / eu vou querer também explicação se não der certo, não vou ficar na mão, sou eu quem vou chorar”...


A seguir, uma outra releitura, desta feita “Ama Teu Vizinho como a Ti Mesmo”, canção emblemática de Sá; Rodrix & Guarabyra, clássico daquele saboroso Rock Rural dos anos setenta, cheio de contundência e brilho, marca registrada daquele trio, que o fazia tão bem. E nesta versão do Tomada, a roupagem ficou sensacional, com uma pegada Rocker inequívoca.

Da esquerda para a direita : Fábio Galio (na bateria ao fundo); Ricardo Alpendre; Pepe Bueno e Vagner Nascimento. Foto : Eduardo Luderer
“Sensação” resgata a sonoridade dos primeiros trabalhos do próprio Tomada, trazendo o sentido do Boogie Woogie primordial, mas neste caso tem um apelo pop muito bom. Gostei bastante da harmonia e da melodia principal. Mais uma faixa com potencial pop e a provar que o Tomada ficou bom em fazer música nesses moldes. Se fosse numa época passada, onde a difusão mainstream era um pouco menos egoísta, canções assim estariam tocando muito nas emissoras de rádio, mas os responsáveis por tal decisão, atualmente, nem cogitam dar chances para bandas de Rock underground, como bem sabemos, uma lástima.  OK, sem “mimimi”, vamos ouvir “Hoje” que vale muito mais a pena e deixemos as rádios a tocar seu pastiche antimusical e deprimente.

Sobre a capa, gostei bastante da ilustração. É pura impressão pessoal, mas lembrou-me os filmes do cineasta francês, Jacques Tatit, aquela coisa meio nonsense do personagem, Monsieur Hulot. Bem criativa a ideia da ilustração do motociclista a fundir-se com a porta do galpão e a moto ser verdadeira dentro desse contexto. Também bacana os cartazes velhos contendo os nomes da músicas. Um ótimo trabalho do artista gráfico, Fabio Matta.

Sintetizando, o Tomada avança ao mostrar amadurecimento, criatividade e força nesse seu novo trabalho. Eu recomendo !
Foi gravado nos estúdios Orra Meu e Musicaria 2 Irmãos e mixado no DaCosta Digital Studio, todos em São Paulo. O guitarrista das bandas "Flying Chair" e "8080", Claudio “Moco” Costa, foi o técnico de captura e mixagem, além de uma especial atenção na direção das vozes e teve participação do também guitarrista Martin Mendonça (Pitty e "Agridoce"), como coprodutor da mixagem e representando a banda nesse processo, o baixista Pepe Bueno.

Técnicos auxiliares : Marcello Schevano; Gabriel Martini e Fábio Galio

Capa e encarte (criação; lay-out e arte-final) : Fábio Matta (visite seu site : bardeideias.com)

Fotos promocionais / ao vivo : Eduardo Luderer e Leandro Almeida
Selo / distribuição virtual e física : Tratore

Produção executiva : Pepe Bueno

Produção Geral : Tomada


A formação da banda nesse disco :

Pepe Bueno : Baixo e Voz

Ricardo Alpendre : Voz

Vagner Nascimento : Guitarra e Voz

Mateus Schanoski : Teclados e Voz

Fábio Galio : Bateria e Percussão



Músicos convidados :

Marcelo Gross ("Cachorro Grande") - Guitarra em “Hoje”

Renata “Tata” Martinelli - Voz em “Como 2 e 2” e “Terra Batida”

Tustão Cunha - Percussão em “Terra Batida”; “Ama Teu Vizinho como a Ti Mesmo” e “Carnaval”



Matéria anterior sobre o Tomada publicada neste Blog :




O álbum pode ser escutado na íntegra na plataforma Spotify :



Também na plataforma Deezer :



Contato direto com a banda :
http://www.tomadarock.com.br

Tomada. Da esquerda para a direita : Vagner Nascimento; Mateus Schanoski; Ricardo Alpendre; Fábio Galio e Pepe Bueno; Foto : Eduardo Luderer

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Os Kurandeiros - 15/10/2017 - Domingo / 18 Horas - Gambalaia - Santo André / SP

Os Kurandeiros

Artista especialmente convidado / show de abertura : Duck Strada

Show de lançamento do CD "O Baú dos Kurandeiros"

Gambalaia (Espaço de Artes e Convivência)

Rua das Monções, 1018 - Bairro Jardim - Santo André  -  SP

Os Kurandeiros :
Kim Kehl : Guitarra e Voz
Carlinhos Machado : Bateria e Voz
Luiz Domingues : Baixo

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Os Kurandeiros - 11/10/2017 - Quarta - 20:30 Hs. - Cactus Grill - Santo André / SP


Os Kurandeiros

11 de Outubro de 2017  -  Quarta-Feira  -  20:30 Horas
Lançamento do CD "O Baú dos Kurandeiros"
Entrada Gratuita

Cactus Grill

Rua da Abolição, 387   - Vila São Pedro  -  Santo André  -  SP


Os Kurandeiros :
Kim Kehl : Guitarra e Voz
Carlinhos Machado : Bateria
Luiz Domingues : Baixo

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A Estação da Luz / CD O Segundo - Por Luiz Domingues



Após um excepcional primeiro registro fonográfico, demorou, mais eis que a excelente banda, “A Estação da Luz”, de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, anuncia seu segundo álbum. E vem com o sugestivo título de "O Segundo", sendo bastante enfática em sua intenção em demarcar o lançamento em sua discografia.

E a demora para mostrar-nos seu novo trabalho foi amplamente compensada, pois “O Segundo” revela-nos a banda mantendo sua proposta estética firmada em seu álbum de estreia, e mais que isso, é um prazer mergulhar em sua audição e constatar que a banda apresenta ainda mais entrosamento, gerando amadurecimento natural e tudo dentro de uma lógica fundamentada por fatos concretos. Como primeiro ponto, a permanência da mesma formação, desde o primeiro disco, é fator fundamental para o bom andamento da carreira da banda. Em segundo lugar, os anos de labuta na estrada, certamente calejaram-na. Depois de muitas viagens, incluso shows em diversos estados do país, isso contribuiu decisivamente para o fortalecimento do grupo, solidificando-o tremendamente. E um terceiro ponto e aí trata-se de um ato de fé : a banda não mostra-se nem um pouco preocupada com o que está ou não em voga no mundo da difusão cultural oficial, a dita mídia "mainstream". E não preocupando-se em galgar degraus para "chegar lá", tal qual artistas popularescos que costumam contratar escritórios especializados em gestão de carreira antes de pensar na sua própria música, os componentes da Estação da Luz dão de ombros para esse sucesso de plástico, efêmero e que não dura até o próximo verão, e dessa forma mergulham em sua produção para o âmago da arte verdadeira, a que vem do coração e da alma, ou seja, fazer obra valorosa a perpetuar-se. Em suma, raciocinam como artistas genuínos e não como essa turba que domina o mundo mainstream e que usa a música meramente para ficar "famoso".


Sobre a questão estética, para quem não conhece a banda e nem leu a minha resenha anterior sobre ela, na qual englobou seu primeiro disco no contexto, convido a realizar tal leitura. Eis abaixo o link para tomar conhecimento desse primeiro apanhado sobre a banda : 

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2013/04/estacao-da-luz-por-luiz-domingues.html 

Reitero que a banda mantém sua coerência artística inalterada e de forma ilibada, eu acrescento. Sua intenção em beber na fonte de influências do Rock brasileiro e internacional das décadas de 1960 e 1970, é um fator preponderante para que expresse sua criação adotando uma riqueza inquestionável no tocante às mais nobres referências. Eu sei, nem todo mundo que ama essa estética automaticamente reúne condições para fazer sua criação ficar à altura, pois não basta ouvir música de qualidade, porém outros múltiplos fatores precisam estar no bojo. Caso contrário, alguém que ame Frederic Chopin, mas nunca chegou perto de um piano na vida, tocaria e comporia “noturnos” divinamente só pela boa influência, porém não basta apenas ouvir a melhor música do passado. Nesses termos, A Estação da Luz é uma banda muito bem embasada na sua identidade artística, pois não só é municiada pelas melhores influências no mundo do Rock (fora boas doses de Black Music, incluso o Soul, Blues & Jazz; MPB; Folk Music etc), mas também é muito rica tecnicamente por ter em suas fileiras, instrumentistas / vocalistas de alto padrão e por conseguinte, que compõem e arranjam muito bem o seu material. Se existe um ponto mais frágil nessa estrutura, esse não chega a desabonar o trabalho, e pode ser melhor apurado em outros trabalhos futuros, tranquilamente. Refiro-me à parte de texto, com letras não muito profundas na maior parte das canções. São poesias bem escritas, mas a temática em sua maioria, versa mais pela relação Homem / Mulher, sem maiores voos, e nesse caso, aprofundar mais, seria mais estimulante para temas mais complexos, principalmente ao esbarrar no Prog Rock explícito, mas neste trabalho e no anterior, igualmente, não houve essa preocupação mais acentuada (há exceções), contudo, repercuto melhor isso quando falar das faixas, logo mais.

Ouvir “O Segundo” é como escutar um bom disco de Rock brasileiro da década de setenta, mas também é como se fosse algum da safra da MPB daquela década, mesmo porque, a MPB setentista era em essência, híbrida, mostrando-se praticamente como um Folk Rock Hippie, apesar de nossos acentos culturais regionais nítidos e sem nenhum demérito, muito pelo contrário, tendo isso como mérito, deixo isso bem claro. Sobre as faixas desse trabalho, tenho muitas observações positivas.

“Sem Direção” inicia o álbum e o seu embalo remetendo ao Country-Rock é muito saboroso, enquanto clima ameno e fugindo da máxima que todo produtor fonográfico prega, dando conta de que a primeira faixa de um álbum tem que ter o poder de um “soco no estômago do ouvinte”, visando gerar impacto primordial. Não acho errado o conceito em si, mas quebrar o paradigma e apresentar um começo ameno também pode ser agradável, e é exatamente o que acontece com essa canção. Musicalmente, lembrou-me muito o velho e bom “Rock Rural” de "Sá; Rodrix & Guarabyra", mas também canções oriundas dos primeiros discos solo dos ex-Beatles, notadamente os de George Harrison e Ringo Starr. Tem um delicioso Steel Guitar permeando uma voz suave e intermitente ao longo da canção, muito inspirado da parte do ótimo guitarrista, Cristhiano Carvalho e como base harmônica, o tecladista Alberto Sabella arrebenta, não só pela execução, mas pelo feliz arranjo que criou, utilizando vários teclados sobrepostos. É muito rica a intervenção do piano Fender Rhodes, inclusive imprimindo desenhos como contraponto e a presença do imponente órgão Hammond, impressiona, inclusive pela sua sobra estratégica, ao final. Gostei muito do timbre do baixo, bem encorpado, mas igualmente da linha criada, todavia convenhamos, das mãos de um baixista da categoria de Vagner Siqueira, só vem coisa boa, naturalmente. E a melodia principal, entoada pela cantora, Renata Ortunho, tem a docilidade compatível com o clima da canção, onde o arranjo muito adequado, faz com que a banda flutue ao ritmo do slide-guitar.


Na segunda faixa, “Pensar em Você” (“Tudo é Saudade”), mergulha-se num clima sessentista muito agradável. Parece aquele tipo de Bubblegum, típico da metade daquela década, mesclado com a tendência típica daquela safra de artistas britânicos dessa seara, que revisitaram com extrema felicidade o cancioneiro popular europeu dos anos trinta, do século passado. E assim, naquela levada rítmica bem característica, com condução harmônica bem forte em acentuações de tônica e quinta acima ou tônica e quarta abaixo, a banda soa como o "Small Faces" a brincar no Itchycoo Park, ou os "Mutantes" na Rua Augusta, portanto, A Estação da Luz resgata tal tradição perdida no Rock (infelizmente), com bastante inspiração. Gostei muito do apuro no arranjo vocal dos Backings, com desenhos engenhosos passando por baixo da voz principal. Num dado instante, uma intervenção muito rica de percussão (que deduzo ter sido ideia do excepcional baterista, Junior Muelas), é sutil, mas de uma riqueza enorme. Ali ele risca o guiro, literalmente, e gera um efeito incrível. Também chamou-me a atenção o solo de guitarra de Cristhiano Carvalho, com uma linda interpretação ao fazer uso de notas longas, esticadas ao estilo de um “ebow”, e uma sutileza que ficou ótima, ao trabalhar com a chavinha de mudança de captação, acintosamente, na tradição do mago, Ritchie Blackmore. Em seu término, a música apresenta uma mudança rítmica acentuada, com teclados; baixo & bateria imprimindo um balanço "soul" incrível. O piano insinua-se como clavinete, mesmo, e a “setenteira” nessa hora é irresistível em seu apelo para balançarmos o esqueleto, mesmo que for só o pezinho discretamente marcando o ritmo no chão, caso o ouvinte seja muito tímido...

A terceira faixa, chama-se : “Dia de Domingo” e tem uma levada incrível. O groove da banda nessa faixa é impressionante, com todos os instrumentos soando de forma magnífica. Não dá para destacar apenas um, gostei de todos os arranjos individuais. Baixo sensacional, guitarra estupenda, bateria fantástica e o órgão Hammond comandado por Alberto Sabella, arrebenta, parecendo o som dos discos solos do Billy Preston, e com o “negão” em pessoa naquela pilotagem alucinante, que eu achava que só ele sabia fazer, mas o Sabella provou que eu estava errado... sem exagero algum. O vocal desenhado no início é muito bonito e a seguir surge a presença de uma voz masculina que conduz a melodia principal, quebrando um pouco a marca da voz feminina oficial da banda, portanto é Cristhiano quem comanda desta feita, ao invés de Renata. A canção tem muito da influência dos "Secos & Molhados", mas posso acrescentar nesse caldeirão, a presença do som de Zé Rodrix e basta ouvir seus discos solo (ótimos), dos anos setenta, para constatar a minha impressão. Os timbres também ficaram magníficos, tudo soa encorpado e brilhante ao extremo. Adorei uma convenção feita com intenção de groove, absolutamente incrível.

A seguir, uma faixa instrumental sensacional, com mais um Funk Rock de enorme balanço. É até chato usar a palavra “Funk” nos dias atuais, dada a apropriação indébita em que o termo foi submetido, mas ora bolas, o que temos aqui é o genuíno "funkão" setentista, nobre derivado da Soul Music e do R’n’B, portanto, é isso, aí, podes crer, amizade...
Sobre o tema em si, digo que é mais uma prova cabal de que os membros d’A Estação da Luz não estão para brincadeiras, pois eles descem o braço ao imprimir um balanço maravilhoso que muito lembrou-me o trabalho do "Som Nosso de Cada Dia", quando esta banda histórica brasileira aventurou-se no Funk Rock, ao final dos anos setenta. Não sem antes apresentar uma introdução muito técnica, ao estilo do Jazz-Rock da banda argentina, "Crucis", ao menos na minha percepção pessoal. Tudo soa bem nessa faixa, de forma impecável. Gostei também da rica intervenção de um músico convidado, Victor Hugo, que trouxe seu providencial saxofone a produzir o crescente típico produzido por sessões de metais de bandas como "Chicago"; "Blood; Sweat and Tears" e "Tower of Power", só para citar algumas poucas desse estilo, em temas funkeados assim. Portanto, um acréscimo genial, cereja no bolo. A destacar-se igualmente os solos e timbres diferenciados nos sintetizadores e na guitarra, inclusive um belo duelo de solos entre os instrumentos, outra tradição esquecida, mas essa banda orgulha-se em buscar o fio da meada perdido, amém !!


“O Segundo”, faixa título do álbum, inicia-se com efeitos de sonoplastia. Trata-se de barulho urbano da madrugada, com carros passando distante e latidos de um cachorro, tudo muito sutil. Logo a instrumentação começa e mostra uma balada muito boa, com melodia e força interpretativa bastante condizente. Renata Ortunho nessa faixa lembrou-me bastante cantoras não tão conhecidas do público atual, como Luisa Maria; Tuca e Olivia Byington. O slide da guitarra produz uma melodia bastante melancólica, mas no bom sentido do termo, portanto evocando o "Mahatma" George Harrison, que era mestre em criar pérolas lindas assim. Gostei muito de alguns acentos convencionados, mostrando mais uma vez que esses artistas sabem arranjar bem as suas canções. Na parte final, o timbre do sintetizador e a condução rítmica desdobrada remeteu-me ao som dos discos do David Bowie bem no início dos anos setenta, tais como "Space Oddity"; "The Man Who Sold the World" e "Hunky Dory". Tem algo do "Uriah Heep" também, via Ken Hensley, naturalmente. Bem interessante o efeito fantasmagórico no encerramento.


“Na Contra Mão” é uma faixa que tranquilamente poderia figurar num álbum como “Atrás do Porto Tem uma Cidade”, de Rita Lee & Tutti-Frutti. Impressionante a proximidade de sua estética, com a desse trabalho que citei. Belo timbre de piano, e com o baixo marcando com peso e também com timbre muito bom. Numa parte C, outra vez a banda busca a inspiração sessentista ótima. Aquela doce evocação da década de trinta, mas com visão Rocker, uma marca registrada, entre tantas, dos “sixties”. Solo de guitarra de arrepiar, curto, mas intenso. Adorei o staccato, além da campana dos pratos, percutida com muita classe por Junior Muelas. A letra tem um quê de tomada de posição em quebrar paradigmas, portanto, casa-se com o astral de anos sessenta & setenta que ela carrega. Gostei desse trecho da letra : “Por isso eu vou dizer p’ra todos o que eu quiser, p’ra todos que eu quiser, p’ra todo mundo".  Uma afirmação forte e com suas sutilezas inerentes e pontuadas pelas vírgulas bem colocadas, portanto um bom jogo de palavras.


“Meu Amigo George” começa com um alarme falso. A contagem verbal dá o comando para o ataque inicial dos instrumentos, mas logo a seguir uma nova contagem surge, para aí sim, a música deslanchar. Faz anos que não ouvia uma banda fazer uso desse recurso num disco, portanto outro sutil resgate que a banda promove. Lembrou-me “I Want Freedom” do "Grand Funk" (LP "Survival" - 1971), por exemplo. Aqui, trata-se de uma canção com forte intenção psicodélica, com bela linha de baixo e condução muito boa do órgão Hammond, tendo o devido reforço da Caixa Leslie a girar em velocidade rápida. E gostei muito dos backing vocals entoados, sem letra, numa bela melodia.

“Vício Sem Fim” tem muito colorido harmônico. Arpejos de guitarra com um brilho intenso, baixo encorpado e a tecladeira de Alberto Sabella trabalhando com multiplicidade. Apreciei muito a escolha de timbres dos sintetizadores, alguns fazendo uso do efeito Theremim, sensacional, além do órgão Hammond usando o som de flauta, trazendo uma docilidade. Numa outra parte há uma acento brasuca muito interessante, que remeteu-me ao som de Elis Regina nos anos setenta, quando esta cantora histórica e seu marido, o brilhante Cesar Camargo Mariano, incorporaram o Rock no seu trabalho, através da eletricidade encontrada e assumida. Adorei o timbre da bateria, aliás no disco inteiro, tem o mesmo padrão, mas nesta faixa com andamento mais reduzido, deu para apreciar cada peça com maior precisão e esse som seco, com o mínimo de reverber na resolução final é sem dúvida o que eu mais gosto, igualmente. Ou seja, como é bom ouvir uma bateria soar como se deve, ou seja, como uma bateria verdadeiramente, no seu som puro e deixar a cargo do baterista, a missão de explorar seus timbres.


“Real Loucura” fecha o disco, e de fato é uma faixa intensa. Aqui a banda deixa um pouco de lado seu lado mais doce e investe forte em sonoridade progressiva, verdadeiramente, trazendo uma quebradeira rítmica e harmônica, muito grande e obrigando assim a melodia a ser mais ousada. Lembra “Cais” do Milton Nascimento, logo no início, dada a sua característica soturna, mas intensamente bela, como a canção do Milton e principalmente na interpretação da Elis Regina. Alguns trechos remetem ao "Gentle Giant" e para situar mais na nossa realidade brasuca, o "Terreno Baldio" do saudoso João Kurk. Na parte final, um Prog Rock nervoso, deveras cerebral e com a introdução de um solo de saxofone incrível (mais uma vez graças a participação do músico convidado, Victor Hugo), e a insanidade instigante está garantida, portanto faz jus ao título da canção. É de fato uma “Real Loucura”. Por um segundo, o ouvinte desatento pode achar estar a ouvir o LP “Lizard” do "King Crimson" (lançado em 1971), mas é A Estação da Luz a quebrar tudo, numa loucura intensa. A letra investe nessa perspectiva, também : “Sobriedade te faz entender, real loucura é sobreviver, ainda insiste em ser sentido, na esperança de ser compreendido”


Sobre a arte gráfica, é muito bela a imagem de uma locomotiva, uma velha “Maria Fumaça” indo com tudo sob os trilhos, com faróis acesos. A metáfora é boa a mostrar sim uma máquina do passado, mas indo para frente e retrata o que A Estação da Luz de forma contundente faz na prática, ao unir o melhor do passado à realidade contemporânea. Uma banda que busca as melhores influências possíveis, mas que está atuante aqui e agora, tocando com muito vigor. Destaca-se também a foto da banda sob efeito 3D e inevitavelmente salta-me da memória o LP "Shinin' on" do "Grande Funk", que usou desse mesmo expediente em 1974.


O disco foi gravado; mixado & masterizado no estúdio “Área 13”, de São José do Rio Preto / SP. Criação da capa, lay-out  final e fotos a cargo de Fabio Mata

A formação da banda nesse disco foi :
Renata Ortunho : Voz e Percussão
Cristhiano Carvalho : Guitarra; Violão e Voz
Junior Muelas : Bateria; Percussão e Voz
Alberto Sabella : Teclados e Voz
Vagner Siqueira : Baixo

Músico especialmente convidado :
Victor Hugo : Saxofone em “Papo Furado” e “Real Loucura”

                                     A Estação da Luz 
Da esquerda para a direita : Vagner Siqueira; Alberto Sabella; Renata Ortunho; Cristhiano Carvalho e Junior Muelas 

Ouça esse álbum na íntegra, nas seguintes plataformas virtuais :

Deezer; Spotify; Google Play; Itunes ou Apple Music, acessando o mesmo Link abaixo :

https://onerpm.lnk.to/AEstacaoDaLuz 

E também disponível no espetacular Site "Nave dos Deuses", um dos maiores, senão o maior arquivo vivo do Rock Brasileiro de todos os tempos :

http://navedosdeuses.com.br/release/o-segundo/


Recomendo a audição do álbum, com ênfase e convido o leitor a não perder um show dessa banda, quando ela estiver em sua cidade.

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