sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Flying Chair / 1º Álbum - Por Luiz Domingues


Eis que numa feliz combinação de fatos correlatos, surge no horizonte do Rock Brasileiro mais uma banda com energia para dar e vender, contrastando com a falta de oportunidades absoluta com a qual o gênero vem enfrentando em termos mainstream, há anos. Claro que mais um soldado a reforçar o nosso combalido exército, vem a calhar e ainda mais com essa vontade toda que vem demonstrando. E qual seria a tal combinação citada logo no começo desta resenha ? 

Bem, trata-se do encontro do compositor; cantor & poeta, Ciro Pessoa, com a dupla de guitarristas da ótima banda, “8080”, ou seja, Chico Marques e Claudio “Moco” Costa, que uniram-se em torno de um novo projeto e a toque de caixa, rapidamente lançaram um EP prévio ao final de 2016, e agora, anunciam o lançamento de um CD completo, seu debut oficial discográfico.

Batizada como “Flying Chair”, só por ter em suas fileiras tais componentes, e pelo próprio título da banda, sugerindo lisergia Rocker perdida no tempo e no espaço, já seria um alento para nós que amargamos décadas de obscurantismo no gênero, mas a boa nova é que não fica apenas na esperança, mas tudo confirma-se quando uma audição do álbum mostra-nos uma banda com trabalho forte, mostrando intenso vigor criativo e compromisso com o Rock’n Roll, isso expresso no seu sentido mais amplo, naturalmente.

Ciro Pessoa é um poeta fortemente influenciado pela psicodelia sessentista e também pelo surrealismo em linhas gerais. Seu trabalho em bandas por onde passou, mostra-nos isso claramente e ainda que nos Titãs e com o Cabine C, sua loucura natural esbarrasse em signos oitentistas do Pós-Punk desolador, ainda assim, sua verve lisérgica direta dos “sixties”, nunca o abandonou. E já avançando sobre sua carreira solo, isso explodiu em seus álbuns solo, ao lado de sua banda de apoio, o “Nu Descendo a Escada” (alusão a Marcel Duchamp), onde decretou aos quatro ventos que “o futuro é Pink Floyd”, trocando em miúdos, um soco no estômago dos detratores de plantão (“I Hate Pink Floyd”... tsc tsc tsc...). Todavia, no “Flying Chair”, sua proposta ficou diferente. Mais objetivo, partiu para uma linha de letras mais coloquiais, praticamente cartesianas, ao deixar de lado o surrealismo explícito de seus trabalhos na carreira solo. Em alguns momentos, chega a ser tão direto em seus recados, que tenho certeza de que surpreende seus fãs mais antigos, acostumados com seu texto psicodélico, mais usual. Porém, em algumas faixas, há lampejos da loucura surreal, sim, portanto, em termos de texto, o disco certamente há de agradar diferentes freguesias. 
Sobre a parte musical, predomina o Pop Rock, mas com mais condimentos que o trabalho anterior dos guitarristas Chico & Claudio, o “8080”. Mais apimentado, soa mais Rock’n Roll sem dúvida alguma e como já mencionei quando falei das letras, também tem bons momentos passeando por gotículas psicodélicas e até certos esbarrões no progressivo, ou seja, só coisa boa.

Se Ciro contribuiu com sua poesia inspirada, Chico & Claudio trouxeram uma combinação muito bem azeitada de guitarras. São amigos de longa data (antes do “8080” já haviam tocado juntos em outras circunstâncias), e esse entrosamento de ambos, traz uma riqueza sonora à banda, muito significativa. Não só no trabalho bem engendrado das guitarras, mas também nos vocais que ambos já estavam habituados a fazer e somados ao Ciro como vocalista principal e apoio dos demais componentes, tal trabalho bem planejado com Backing vocals é muito interessante ao longo de todas as faixas. 
E por falar em demais componentes, Diego Basanelli (baixo) e Pedro Leo (bateria), também são bem entrosados, tocando juntos há muitos anos, portanto, quando uniram-se aos demais, naturalmente somaram muito com uma cozinha de alto padrão e apoio vocal. Nesse aspecto, apesar de ser uma banda nova e formada muito rapidamente, diante de tais fatores já explicados, configurou-se assim a tal feliz combinação a que aludi logo no início da resenha e assim... bingo (!!), temos mais uma banda de categoria a reforçar nossos planos para levar o Rock para um patamar superior. Em termos de capa, o álbum é funcional, mostrando o logotipo da banda em letra “bolha”, tipicamente sessentista, isto é, um ponto positivo a mais para animarmo-nos. Sobre as faixas, tenho mais algumas observações a fazer.

“Calendário”, é a primeira canção do disco e já impressiona pela bela disposição de guitarras sobrepostas no pan do stereo. Há de destacar-se que além de exímio guitarrista, Claudio Costa é um experiente e muito competente técnico de som, já tendo produzido muitos discos, portanto, requinte na gravação é mais um trunfo que essa banda tem para somar. Além disso, gostei muito da firmeza do baixo e da bateria; ótimos backing vocals e uma discreta atuação de órgão Hammond, cimentando o asfalto para a banda deslizar. Chamou-me a atenção também, um staccato com muita intensidade num momento climático da música e algumas frases desenhadas como contrasolo da guitarra, que remeteu-me à Surf Music do final dos anos cinquenta, alguma coisa como Link Wray faria e claro que ficou bem interessante.


Sobre a letra, Ciro diz coisas como :  “Ela está contando os dias no seu calendário... / Nas pontas de seus dedos magros”. É praticamente uma crônica com certo ar de crítica comportamental, mas poeticamente falando, é bem bonito.

A faixa seguinte é um Power Rock, bastante energético. A banda soa muito coesa e não deixa a energia cair nem por um segundo sequer. Gostei muito dessa intensidade e dos muitos detalhes no arranjo, com destaque para o slide guitar, bem inspirado. Solo extremamente bonito, igualmente e na letra, Ciro solta o verbo, num quase manifesto contra a instituição do casamento. É praticamente uma antítese ao que a Wanderléa dizia em 1966, ou seja, ela que não suportava a ideia de seu amado estar a casar-se com outra garota, denotava sonhar com o matrimônio, mas agora Ciro execra-o sem parcimônia. Bem, os tempos mudaram e de fato, assinar compromisso amoroso no cartório já não faz nenhum sentido na sociedade atual, a não ser pela dor de cabeça gerada pela burocracia inerente e inevitável em ter que desfazer-se tudo logo a seguir...

A terceira faixa, chama-se “Um Só Diamante”. Gostei bastante do início do vocal com ares onomatopaicos. O trabalho de guitarras usando o Wah-wah, ficou excelente. Tem algumas insinuações de solo em estilo “backwards”, o que confere à canção, certamente uma atmosfera sessentista adorável. Sobre a temática, Ciro deixa de lado sua descrença nas relações tradicionais via matrimônio, e fala de amor livre, com certa intenção em estabelecer uma ode.  

“Transbordando em silêncio nossos líquidos sagrados numa cumplicidade que só os amantes possuem, tornando nossos corpos um só diamante”

Bem, creio que a letra dispensa maiores comentários depois do trecho que descrevi acima...

E a música termina com uma evocação das mais nobres... ”It’s Getting Better All the Time”... pois é, cinquenta anos depois e os "Beatles" sempre dizem tudo.

Comecei a ouvir a faixa seguinte, “Inundação de Amor” e pus-me a pensar como tal proposta sonora era oitentista e lembrava o BR-Rock 80’s de então, parecendo uma canção do Kid Abelha etc e tal. Aí leio que é uma obra de fato composta no início daquela década, numa parceria do Ciro com o saudoso Julio Barroso. Está tudo explicado, então...

Primórdios dos Titãs, com Ciro Pessoa na formação (3º em pé, da esquerda para a direita)

E a porção oitentista do disco prossegue, com uma regravação de “Sonífera Ilha”, grande Hit radiofônico que praticamente estourou os Titãs para o mega estrelato naquela década, sendo contribuição do Ciro ao então noneto paulistano. Essa versão do Flying Chair, está mais Rock, de fato, não tendo aquela carga oitentista calcada no Ska robótico e mergulhado em doses maciças de reverber, da gravação original dos Titãs. Mas no cômputo geral, apesar dessa boa atenuante no áudio, o arranjo não apresenta diferenças acentuadas.

"Cabine C", por volta do lançamento do seu LP, "Fósforos de Oxford", em 1986

E revela-se como trilogia essa imersão aos anos oitenta, quando uma composição chamada “Cabine C / Na Primavera, faz uma homenagem para essa banda onde o Ciro foi membro fundador. Lembra alguns trabalhos do David Bowie nessa referida década, mas não mergulha de cabeça no som calcado no Pós Punk explícito que tal banda (Cabine C), professava, soando mais “Rock”, inclusive com timbre de respeito da parte do baixo. As guitarras lembram como Carlos Alomar trabalhava nessa fase da carreira do Bowie, inclusive. Tem referências explícitas ao repertório do Cabine C, quando entoa-se versos de “Pânico e Solidão”, uma sombria valsa gótica e peça do repertório dessa extinta banda.

Bem, passado esse interlúdio oitentista, voltamos a falar de Rock clássico e na faixa subsequente, “Crisálida”, o riff primordial situa-se entre o Bubblegum e a psicodelia da década de sessenta. Adorei o uso do Wah Wah na guitarra, com uma sentido rítmico muito criativo. E mais uma vez, o Ciro foi bem personalista no uso da letra.

“Nosso Amor Exposto na Luz do Sol” começa bem, com uma mensagem padrão da aviação, através da doce voz feminina de uma comissária de bordo. Apertem os cintos que a “cadeira vai “voar”, ótima sacada. A canção é bem pop anos oitenta e tanto é assim, que há referência explícita à “Gang 90 & Absurdettes”, mais uma vez abrindo os trabalhos na tábua Ouija, buscando trazer alguma mensagem do Julio Barroso.


“Eu Não Aguento Mais” mostra um Rock’n Roll de muita contundência. Gostei muito do trabalho das guitarras, backing vocals e solo.

“Todo Mundo quer Amor” é uma canção que o “8080” já havia gravado em seu álbum debut e cuja resenha eu publiquei em meu Blog 1, tempos atrás. Convido o leitor a ler ou relê-la.  Eis o Link :




O que posso acrescentar aqui, é que devem ter raciocinado como argumento para incluí-la no bojo do álbum, o fato de que o Ciro também havia feito referências a seus trabalhos anteriores e cairia bem ter também essa bagagem pessoal de Chico & Claudio. Fora o fato de ser uma peça com alto poder de persuasão radiofônica, portanto, uma candidata a tornar-se “hit”.

A penúltima faixa é “Beijo Interestelar”. Aqui, parece que a velha porção psicodélica do Ciro, veio à tona, lembrando bastante as canções de seus discos solo. Gostei bastante da linha de backing vocals bem desenhada por baixo do belo solo de guitarra.

Fechando a obra, a música homônima da banda, “Flying Chair” é cantada em inglês. Toda a atmosfera psicodélica é encantadora e claro que o reforço da cítara indiana é fator preponderante para tal (contribuição excelente do músico convidado, Fábio Kideshi, que é muito habituado a usar sua cítara de alto nível em produções ligadas ao Rock, portanto, um artista muito antenado em vibrações Rockers sessentistas, naturalmente). Muito bonita a condução melódica “Shankariana”, com direito a linha de bateria sob signos tribais, baixo em looping, portanto tudo muito “sixties”, que maravilha. E tem um certo ar progressivo além, e aqui cabe uma explicação. Sei que pode ser uma mera idiossincrasia de minha parte, com tal impressão sendo irreal para os membros da banda que a compuseram e arranjaram-na / gravaram-na e só eu ouvir e ter essa associação, mas não pude deixar de observar como essa atmosfera gerada pela banda, lembrou-me o primeiro trabalho solo do vocalista do “Yes”, Jon Anderson, um LP lançado em 1976, chamado “Ollias of Sunhillow”, com explícita carga de orientação Sci-Fi na temática e sonoridade fortemente influenciada pelo Folk Prog europeu, mas sob farta carga de Space Rock. Em síntese, essa canção “Flying Chair” , tem massivo poder hipnótico, com teor de mantra, e atmosfera glacial das mais interessantes.


No cômputo geral, apesar de apresentar nuances até dispares entre si sob certos aspectos, o álbum tem em seu norte o Rock’n Roll visceral. Nesse raciocínio, lembrou-me a direção artística que o Lou Reed adotou no início dos anos setenta, quando sem abrir mão exatamente do experimentalismo sob viés da art pop “Warholniana”, em que militou no “Velvet Underground” anteriormente, deu seu mergulho no Glam Rock setentista, com direito ao make up de Bowie & Bolan, trazendo Rock’n Roll cru, via MC5; Troggs / Iggy Pop etc. Acho que o Ciro Pessoa fez exatamente a mesma coisa ao não abandonar a psicodelia / surrealismo que o influencia decisivamente, mas buscou uma nova luz através do Rock visceral, direto e reto.


Não tenho dúvida de que essa banda prosperará, com tão bom trabalho inicial lançado.

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4 comentários:

  1. Gosto muito do trabalho do Ciro desde a época dos Titãs. Ficava impressionada com algumas fotos das performances da banda quando ele fazia parte, bem no início. Gostaria de ter visto ao vivo a banda nesta época, os shows pareciam ser muito criativos e originais! Gostei muito da banda atual, os vocais até me lembraram os dos Titãs, que sempre foram ótimos, muito afinados!
    bjos querido e parabéns pela ótima matéria!

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    1. Oi, Fernanda !

      Mas que legal que gostou da resenha e do trabalho do Flying Chair. De fato, trata-se de uma boa banda, composta por ótimos instrumentistas e vocalistas e munidos de alto poder criativo, com tantas canções boas e bem arranjadas, logicamente que tinha tudo para fazer um primeiro álbum tão bom.

      Sobre suas observações em tom de reminiscência, que legal que a matéria tenha despertado-lhe tal lembrança pessoal, fico contente.

      Grato pelo elogio pessoal e por prestar atenção na banda enfocada, que obviamente eu recomendo.

      Beijo, querida !!

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  2. Boa tarde Luiz,

    Achei bem legal a matéria, parece ser uma super banda, logo mais conhecerei o trabalho da banda e conheço um pouquinho do trabalho do Fabio que é influenciado pelo Ravi e deve ser também do Ananda Shankar, além de outros tocadores de Sitar.

    Parabéns novamente e abraço.

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    1. Olá, Vinicius !

      Que maravilha receber sua visita em meu Blog e saber que a resenha tenha motivado seu interesse em conhecer melhor o trabalho do Flying Chair. De fato, pelo que leu de minhas impressões sobre o álbum, está claro que trata-se de uma banda de muita qualidade técnica e munida de alto poder criativo, em todos os quesitos de uma produção musical, por sinal.

      Maravilha o seu adendo sobre o Fábio Kideshi, um artista com embasamento no seu instrumento e tradições dentro da cultura indiana, mas sobretudo por enxergar a conexão que ele tem com o Rock sessentista, via Ravi Shankar. De certa forma, Kideshi leva adiante a chama que talvez perdêssemos com o passamento do Alberto Marsicano e Marcus Rampazzo, dois citaristas Rockers por excelência.Só por isso já seria genial, mas Kideshi vai além e sendo um artista muito criativo e bem embasado, tem tudo para não só manter a chama acesa, mas expandi-la.

      Bem lembrado demais, Ananda Shankar toca muito.

      Grato pela visita, comentário, apoio à banda enfocada e elogios à matéria. O Blog é seu, visite-o sempre, fico contente com sua presença aqui.

      Grande abraço !

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