domingo, 3 de setembro de 2017

Tony Babalu / CD Live Sessions II - Por Luiz Domingues



Existem inúmeros guitarristas fantásticos no país, com técnica exuberante; conhecimento teórico; bom gosto na preparação de seu áudio; muita criatividade e atuando em diversos nichos da música, indiscutivelmente. O guitarrista Tony Babalu está nesse rol, certamente, contudo, possui um diferencial marcante e que não depende necessariamente de estudo para alcançar-se, mas alguns poucos conquistam de forma indelével. Trata-se de uma personalidade musical única, portador daquela capacidade de fazer com que os ouvintes consigam identificá-lo, ao soar de poucas notas que produz. Carlos Santana; David Gilmour; Johnny Winter e Brian May (sei que o leitor vai elucubrar outros nomes como exemplos, naturalmente), são alguns desses que tem essa capacidade e Tony Babalu pode ser incluído nessa seleta lista.


Assim que lançou o álbum “Live Sessions at Mosh”, em 2014 (leia a minha resenha sobre ele através desse link abaixo : http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2014/07/live-sessions-at-mosh-tony-babalu-por.html), ficara no ar a expectativa por mais um disco nesse teor, em face da qualidade e apuro artístico de uma música instrumental inspiradora. Demorou, mas eis que Tony Babalu anuncia enfim o lançamento de um novo álbum e bingo... mais uma vez reunindo sua banda para uma sessão gravada ao vivo no estúdio Mosh, de São Paulo.
Em “Live Sessions II”, a mesma dinâmica foi usada, com um resultado excelente, mostrando mais uma vez que a capacidade em produzir música instrumental de extrema qualidade e ao mesmo tempo com apelo pop, é possível, portanto, não trata-se de um disco de Jazz-Fusion passível de ser admirado apenas por músicos e / ou experts do gênero, mas capaz de agradar a diversas camadas de ouvintes.

Outro trunfo, a extrema versatilidade com que Babalu e sua banda trafegam por estilos diferentes. Ao longo do álbum, ouve-se Jazz; groove de Black Music; pitadas de Blues; ritmos latinos; brasilidade e Rock, tudo junto e misturado, com uma fluidez tamanha que impressiona. E além disso tudo, o bom gosto impera como um todo. Apesar de ser um disco instrumental e haver uma aura "fusion" que permeia o trabalho como uma amálgama, não existe excesso. Todos os solos, não só da guitarra, mas dos outros instrumentos, são feitos com muito critério, usando do bom senso, evitando devaneios em demasia, dessa forma tornando o trabalho bem enxuto.

Outra marca registrada de Tony Babalu como guitarrista e que incorporou-se aos demais, enquanto conceito, nota-se uma delicadeza ímpar nos arranjos, tanto coletivo, quanto nas linhas individuais de cada um. Essa sensibilidade aguçada, que é típica de Tony Babalu ao lidar com sua guitarra Fender Stratocaster, impregnou-se no álbum, e claro que isso valoriza-o, tremendamente.

O conceito de capa e encarte, com extrema sobriedade a norteá-lo, agradou-me igualmente. Combina com a atmosfera do trabalho, ao transmitir pelas imagens e cores usadas, a mesma intenção passada pela música. Sobre o áudio, os timbres ficaram bem bacanas, em se considerando a intenção do trabalho, e claro, gravado num dos mais tradicionais estúdios "Top" do Brasil, a qualidade ficou assegurada.

Falando das seis faixas, tenho a observar que a primeira, chamada “Locomotiva”, faz jus ao título, pois abre o disco com a força necessária para mostrar a que veio. Com pegada de um Boogie-Woogie, começa empolgante, com a guitarra de Babalu a fazer arpejos ricos e com o tecladista Adriano Augusto produzindo um balanço incrível no uso de um clavinete. Gostei bastante de uma parte intermediária com nítida influência de música brasileira. Babalu arrebenta ao fazer um solo com ótimo uso de Eco e Reverber, tendo um apoio muito bom do órgão. O entrosamento de baixo (Leandro Gusman) e bateria (Percio Sapia), é perfeito, garantindo o pulso firme e que em certos aspectos, fez-me lembrar do trabalho de bandas como o "Dixie Dregs", por exemplo.

A segunda faixa, “Meio-Fio”, tem muita brasilidade. A guitarra ultra balançada que Babalu imprimiu, lembrou-me trabalhos do Jorge Ben nos anos setenta, quando este ainda não era “Benjor” e do Gilberto Gil, igualmente. Nessa seara do “groove brasuca”, alguns contra-tempos que Babalu colocou, com a Fender Stratocaster a explorar o máximo de seus captadores single-coil, ficaram incríveis. Gostei das pontuais intervenções do baixo com frases rápidas e do ótimo solo de piano. Uma convenção que lembrou-me o Jazz-Rock com sabor nordestino nos discos solo do Pepeu Gomes, trouxe energia à canção. De certa forma remeteu-me também ao som do Cesar Camargo Mariano, quando este teve seu momento de aproximação com o Rock Progressivo setentista, mas sem deixar de lado sua brasilidade toda baseada em sabor “jazzy”.  E finalmente, o final é muito bonito, com aquela calmaria toda instaurada, onde dá para sentir a respiração dos músicos ante uma dinâmica tão acentuada. Com piano pontilhando notas junto com a bateria ao percurtir muito delicadamente as campanas dos pratos e do aro da caixa, Babalu esbalda-se num solo flutuante, absolutamente “JeffBeckiano”.

“Valentina” é outro tema que transborda emoção. É de uma delicadeza comovente, como se ao invés de música, fosse uma pintura, uma aquarela a retratar um campo florido e muito ensolarado da Toscana. Gostei muito do sentido rico dos arpejos da guitarra, com ótimo apoio do piano. Baixo e bateria igualmente em sincronia perfeita e num momento de dinâmica crescente, o acréscimo de um órgão bem colocado.

“Veia Latina” já escancara a intenção pelo seu título. Sim, eis que a banda mergulha num caldeirão de boas influências da música latino / hispânica /americana. Predomina o som caribenho, a salsa de Havana, mas com toques chicanos acentuados, trazendo o som de Carlos Santana à baila. Muito criativa a atuação do baterista Percio Sapia nessa faixa, pois mesmo dispensando o uso de percussões típicas em apoio, fez na bateria certos fraseados em seus tambores, que simularam perfeitamente a intenção em evocar timbales; congas e guiro. São movimentos sutis, mas ficaram muito bons a meu ver. Gostei também de uma série de pequenas convenções com acentos bem latinos, que deram suporte a um micro solo de bateria. Ótimo solo de órgão, igualmente e a seguir, Babalu deixa de lado um pouco a sua sutileza típica e pisa no "drive", para fazer um solo mais ardido, escandaloso e excelente por sinal. E também destaco um passeio do piano, com muito balanço a conter uma pitada discreta de Jazz, na estrutura harmônica.

“Encrenca”, creio ser a faixa mais urbana do disco, pela aura de tensão nela contida. Apesar do “groove”, talvez o clima mais soturno oferecido pelo uso do synth, tenha-a deixado mais nervosa (no ótimo sentido do termo, devo realçar), ao imprimir uma força notívaga, cosmopolita. Gostei muito de uma convenção bem “Funk-Rock” setentista e do solo de guitarra usando muito bem o recurso do delay. Rápidos e muito competentes solos de baixo e bateria também são observados.

Chegamos então à última faixa do álbum, chamada “In Black”.  Aqui o clima de “Soul Brasuca” é muito marcante, parecendo com o trabalho da banda Black Rio, nos anos setenta. Tudo é muito bem colocado nessa canção, como o uso do piano elétrico e uma intervenção de baixo e guitarra dobrando juntos um fraseado cheio de balanço “Soul”. Apreciei demais o solo de Babalu, com uma pitada de "Fuzz" e o longo "Fade Out" ficou adorável, uma ideia incrível que tratou de perpetuar aquele sabor de música que embala-nos e da qual não queremos que acabe nunca.  

Recomendo esse trabalho, certamente, primeiro pela sua qualidade artística indiscutível e também como prova cabal de que a música instrumental pode ser popular, e não apenas circunscrita a um pequeno mundo de apreciadores dessa vertente. 


Gravado nos últimos dias de dezembro de 2016, no estúdio Mosh de São Paulo, teve na captação e mixagem, Sidney Garcia. Assistência de produção a cargo de Ruy Galisi Jr. e Caio Villares. Masterização por Walter Lima.


Fotos : Karen Holtz; Nicholas Abão; Lucas Altieri e Osmar Santos Jr.

Projeto Gráfico e fotos por Marina Abramowicz. 
Coordenação de produção de Suzi Medeiros e produção geral de Tony Babalu. Selo Amellis Records

Tony Babalu & Banda :


Tony Babalu : Guitarra / composições

Adriano Augusto : Teclados

Leandro Gusman : Baixo

Percio Sapia : Bateria


Para maiores informações sobre o trabalho do guitarrista e compositor, Tony Babalu, acesse :


Site oficial :



Facebook :

pt-br.facebook.com/tonybabalu1


You Tube :



Spotify :



Soundcloud :
https://soundcloud.com/tonybabalu


2 comentários:

  1. Meu caro Luiz Domingues, quero agradecer aqui sua resenha sobre o Live Sessions II, você é um dos cada vez mais raros músicos que representam a história do rock brasileiro "sem firulas", companheiro na longa e tortuosa estrada dos "independentes", de quem toca só o que e com quem gosta, o que não é pouco em nosso país e cultura, definitivamente... Chave do Sol, Língua de Trapo, Pedra, Kurandeiros, Pitbulls, Patrulha, Ciro Pessoa... falta tocarmos juntos em algum projeto pra aumentar essa sua lista, quem sabe rola isso em um futuro próximo !! Obrigado, Luiz, além de grande músico você é um excelente jornalista, sempre passo por aqui pra conferir suas matérias !!
    Tony Babalu

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    1. Grande Tony Babalu !

      Que palavras mais bonitas, meu amigo, estou muito lisonjeado !!

      Sobre a realidade do músico brasileiro, ainda mais do nicho do Rock independente, você falou tudo. As dificuldades são imensas e só prosseguimos porque nossa tenacidade é do tamanho do amor que nutrimos ao Rock / música / arte, pois se dependesse do incentivo externo, seria muito difícil levarmos essa luta adiante.

      Mais uma vez parabéns por mais um disco lindo, vindo de sua arte. Isso não é novidade vindo de sua parte, mas sempre merece ser aplaudido, de pé.

      Sim, sim !! Um dia vamos tocar juntos em algum trabalho e será com muito prazer !

      Por fim, que honra saber que visita meu Blog e confere as matérias. Estou feliz também por isso.

      Abração, amigo !!

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